Notas iniciais
Gente, que vontade de dar uma mordida na bunda do Trevor e do Kieran...!

Xeque

Sua pele era sem vida, sem cor. Parecia em defunto vivo. Mas isso era um charme pessoal, ele diria. Ser albino tinha lá suas vantagens. Kieran Razel, batizado de Arkin, era o criador de cavalos. Ele era especializado em criar os cavalos dos mais puros sangues reais e das espécies mais fortes. Era famoso por ser um rico empresário, tinha uma empresa que criava os cavalos.

Por sua vez, Kieran era famoso, também, por sua técnica em camuflagem e em ser discreto. Por ter de se adaptar ao mundo do sol, usava sempre capaz. No jogo ele fez o mesmo, mesmo sem saber se aconteceria algo com ele. Sua pele continuava branca demais, como sempre. Um fantasma, talvez deveria ter dado este nome para si. Fantasma. Pálido, sombrio e invisível.

- Anda logo, é a sua vez. – Kieran colocou a mão no queixo, impaciente.

- Estou pensando... – o garoto respondeu.

- Está pensando a mais de meia hora! Isso é só um jogo de xadrez!

O outro riu da impaciência de Kieran e moveu uma peça, simples. Ele não abriu nada, nem fechou nada. Na verdade o jogo ficou indiferente. Kieran respirou fundo, tentando não socar aquele tabuleiro. Moveu a peça da torre até a casa C3. O menino riu como se estivesse realmente se divertindo.

- Xeque.

- O quê? Onde?

- Cavalo – o menino apontou – Rei – ele mostrou com o dedo. – Mais um xeque e será xeque-mate.

- Eu sei, eu sei... – Kieran estava mesmo impaciente.

- Você é péssimo nisso, hein.

- Eu só fico impaciente por sua demora!

- Eu fico analisando, assim é mais fácil. Tente você. Eu tenho paciência para esperar.

Kieran o encarou e moveu o rei, saindo do lugar de ataque do cavalo.

- Xeque-mate. – o garoto suspirou – Você deveria ter se movido para a casa de trás, não para o lado... Minha rainha estava na diagonal.

- Que se dane. – Kieran deu de ombros – Que tal baralho?

- Eu sou bom em baralho.

- Damas?

- Também sou bom.

- Caça-Dragão?

- Os dragões me amam.

- Ache a ninfa.

- Ninfas gostam de mim.

- Encontre o anjo?

- Anjos não existem. – ele riu – Ninguém nunca viu um...

- Bom... Fiquei sem idéia para jogos... – Kieran se apoiou no braço da poltrona.

Aguia às vezes era muito irritante.

Aguia era seu pequeno “pé-no-saco”, ou seja, seu cobaia. Todos os senpai tinham seu Pé-no-Saco. E com Kieran não era diferente. Embora os treinos fossem iguais, Kieran era bem melhor que Aguia no combate com espadas. Aguia era um domado de água, e Kieran era de terra. Terra era um elemento muito forte quando o assunto era combate terreno.

- Vamos jogar mais uma partida? – sugeriu Aguia.

- Tenho escolha? – ironizou Kieran.

O tédio os corroia aos poucos. Aquilo era tortura de verdade! Tudo bem que tinham se precipitado por abandonarem o grupo de busca para seguir os instintos, mas... Eles conseguiram achar Adam, não? Um membro importante da guilda tinha se perdido na floresta e grupos de busca foram atrás dele. Kieran e Aguia sentiram que Adam estava por leste, porém eles queriam ir para sul. Assim, os dois sozinhos desobedeceram suas ordens e foram para leste. Assim, foram punidos quando reencontraram o grupo.

Um dia inteiro sem interações sociais além de eles mesmos. Tudo bem, não eram a dupla mais sociável da guilda, porém... Era horrível, de fato, ter sempre Aguia na sua frente... Kieran desistiu e levantou da cadeira. Foi até a porta e a esmurrou. Queria sair dali logo! O espaço não era tão pequeno assim, porém era... Sufocante!

- Você pode começar – Aguia o chamou.

Kieran colocou as mãos na cabeça. O que tinha acontecido com a lógica?

- A gente achou ele, não achou? Por que ainda querem brigar? Deviam fazer que nem nos livros, nos elogiarem por seguirmos nossos instintos embora todos dissessem que não... Onde erramos?

- Desobedecemos as ordens diretas do presidente. Foi ai que erramos – Aguia o encarou – Se fosse um simples comandante, tudo bem. Mas foram ordens do presidente. Se fosse uma busca real, por alguma coisa importante que pudesse por a guilda em risco, isso seria tratado como traição, e a punição seria bem pior, acredite.

Kieran se jogou na cadeira, novamente. Toda aquela sala extensa e somente uma mesa, com um tabuleiro e duas cadeiras. Só. Era isso que o irritava. Nenhum livro, nenhuma revista ou alguma TV pra passar o tempo. A única coisa que havia eram as peças de xadrez, e Aguia, que não era muito bem uma boa forma de passar o tempo.

- Estou cansado disso. – Kieran disse, surpreendentemente calmo. – Quero... – vacilou.

- Quer o quê? Sair da guilda?

- Sim. – ele encarou Aguia. – Quero ir para outra.

- Iriam te tratar como lixo em outra guilda. Temos uma posição legal aqui, e estamos encima da guerra, se sairmos agora será um rolo.

- Então vamos nos exilar. Não existem boatos de que na terra da Asa Branca há uma floresta para exilados? Os demônios moram lá. Podemos ficar lá.

- Você esqueceu completamente o sentido disso aqui? – Aguia cerrou os olhos – Está louco? Nós estamos aqui para ganhar de todo! Todos! Como dois caras poderiam vencer quatro guildas inteiras?

- Conseguindo. – Kieran sussurrou – De um em um... Matamos um aqui, outro ali. Ninguém pensará nada. Começamos pelos membros mais excluídos, até que o exército inteiro é exterminado. Então os superiores, os oficiais, comandantes, líderes de batalhão até...

- O Presidente.

- Exato. Podemos fazer isso. Com o tempo, podemos aperfeiçoar nossas técnicas. Talvez possamos fazer aliança com os demônios.

- Ninguém nunca viu um demônio.

- Ouvi boatos de que um demônio e um anjo foram vistos perto de Chama do Oriente.

- E daí? Boatos não são palpáveis.

Kieran segurou o braço de Aguia por cima da mesa.

- Se eu for, você vai. Ponto. Não vou discutir com alguém como você.

- Embora sejamos uma dupla, no jogo eu sou somente um jogador e você outro. Talvez eu até tenha de ir contra você...

- A única pessoa que eu tenho... – Kieran vacilou, olhando para o lado, corado – A única pessoa que me ouve aqui é você. Não posso deixar isso escorrer dentre meus dedos...

- Isso soa bem... Másculo, sabia? – ironizou Aguia.

- Odeio seu jeito de fazer piada nas piores horas. – Kieran

- Amo seu jeito de se sentir envergonhado de falar sobre nossa amizade. – sorriu Aguia. Um sorriso muito raro. – Acho que você é a única pessoa com quem consigo conversar normalmente. Pode parecer idiota, mas eu não me comunico muito... Costumo me fixar na idéia de ser melhor que outro e assim não fico me importando em conversar ou falar o que penso sobre alguém... Com você é diferente... Acho que temos intimidade, e por isso eu posso ser eu mesmo, sem precisar pensar muito no que dizer.

- Seria baitola demais dizer que adoro tê-lo como companheiro?

- Seria.

- O.K., não digo. – Kieran deu de ombros.

Aguia soltou uma risada fraca e se encostou na cadeira, observando envolta.

- Normalmente eu já teria enlouquecido procurando um jeito de sair. Mas... Agora não vejo necessidade. Percebi que faz muito tempo que não gasto um instante para mim mesmo... Para minha mente, ou para conversar. Sabe o que eu mais gosto aqui?

- Uhn?

- Esse ar de... Parado. Intocado. – Aguia o encarou – Parece que ninguém veio aqui, nunca.

- Ninguém nunca teve de ser punido...

Aguia riu e olhou para outro lado. Talvez, só talvez, gostasse mesmo de Kieran. Ah, fala sério, ele estava pensando aquilo de um cara sete anos mais velho? (Pelo menos parecia sete anos mais velho...)

- Quantos anos você tem? – perguntou por fim, após minutos longos tentando decifrar o enigma sozinho.

- Dezessete.

- Como?

- Dezessete – Kieran virou os olhos para ele. – Sabe, o número depois do dezesseis.

- Eu sei que número é dezessete! Mas é que... Eu tenho dezoito.

- Você o quê?

- É, eu tenho dezoito, e você dezessete! Isso quer dizer que sou mais velho que você.

- Você parece ter uns quatorze, sem ofensa. – Kieran riu.

- E você uns vinte e cinco. – Aguia também riu.

Então ficaram em silêncio, um silêncio tão profundo que qualquer bater de asas (até mesmo de uma mosca) poderia ser ouvido em alto e bom som... Um silêncio que não sufocava, mas que auxiliava melhor aquela conversa entre homem e garoto.

- Quer saber de uma coisa? – perguntou Aguia, por fim.

- Uhn?

- Meu nome é Trevor. E o seu, Arkin?

Kieran ficou surpreso. Ninguém dizia seu nome para outro jogador, assim mantinham as identidades e podiam esquecer quem tinham sido numa vida bem antiga, que parecia ter sido vivida milênios atrás.

- Kieran.

- É um nome japonês?

- Não, dinamarquês. – corrigiu-o. E o seu é britânico?

- Não sei. Mas eu sou grego.

Eles se encararam por mais um longo tempo.

- Moro com uma enfermeira chamada Lídia. E um ortodontista chamado Estevan. E lá também tem uma oftalmologista e um homem especializado em cuidar de crianças com câncer.

- Hahaha, você mora num hospital? – ironizou Trevor.

- Sim. – concordou Kieran, com um meneio de cabeça.

- E-Era brincadeira...

- Eu sei que era... Mas eu realmente moro num hospital... Preso e esquecido por meus “Amigos”. Mas eu superei. E você?

- Tenho um pai, uma mãe, um irmão e uma irmã. – Trevor parecer pensar muito antes de completar – Tenho câncer.

- Anemia falciforme... – Kieran também disse. – Tenho uma irmã e uma mãe...

- O que houve com seu pai?

- Não sei. Ele simplesmente sumiu da minha vida. Lembro que uma vez o vi voltar do trabalho. Ele estava fedido pois no ônibus não havia espaço quase pra ninguém... – um leve sorriso brotou no canto direito do lábio de Kieran – E ele tinha dito “Sem abraços hoje, campeão, hora de ir pro terceiro round...”.

- Terceiro round?

- Meu pai era boxeador. – Kieran contou – E o seu? Sua família?

- Bem... É meio problemático falar disso agora...

- Tudo bem, temos muito tempo.

- Bom... Eu amo minha irmã, você só precisa saber disso.

- Tipo...

- Não! Não tipo isso que você ta pensando! – Trevor riu – Jamais faria isso com Felicita. Ela é minha princesinha, entende?

- O que houve com ela?

- Presa, junto comigo.

- Onde?

- Um lugar para testes de produtos novos no mercado consumidor... – Trevor o encarou – Somos como ratos para laboratório.

- Nossa... Mas como chegaram até ai? Quer dizer, claro que tem uma história por trás disso.

Trevor o encarou. Sentia tanta tristeza e raiva por estar se lembrando de seu passado. E sentia ainda mais raiva por Kieran estar fazendo aquelas perguntas, perguntas que ele jamais se negaria a responder. Kieran talvez tivesse se tornado uma lembrança de Felicita, talvez ele estivesse substituindo a ausência da irmã pela presença de Kieran... Pensou, pensou e pensou. Por fim, disse:

- Meu pai era um magnata. Minha mãe me abandonou e fugiu de casa, sendo proibida de me ver. Motivo: minha doença. O câncer pode fazer loucuras com as mentes frágeis. – ele riu fraco. – Minha família me excluiu, todos foram proibidos de falar comigo. Porém Felicita, minha irmã, não se importou com a regra de meu pai e me acolheu para seu quarto. Praticamente vivi minha infância lá. Assim eu virei um fantasma, o fantasma morto-vivo. Talvez eu seja algum tipo de assombração macabra entre espíritos e zumbis... No dia vinte de agosto, meu aniversário, minha família foi assassinada. O organizador dos fatos: Eu. Contratei alguns homens para este serviço. Eles tiveram de aproveitar de Felicita, mas era bom um bem maior. Nossa liberdade. Tudo correu bem pelos três anos seguintes. Ela aceitou o que eu tinha feito e disse que faria o mesmo se tivesse coragem. – fez uma pausa, querendo reorganizar os pensamentos – Mas um grupo de policiais nos encontraram, eles investigavam o caso há mais de três anos, e mesmo assim não haviam desistido. Fomos mandados para esse lugar de experiências. Somos cobaias humanas.

- Nossa... – repetiu Kieran, dessa vez ainda mais descrente – E eu que julgava você um menino com vida quase comum, afetada levemente por uma doença...

- Não. – Trevor encarou o chão – Tudo bem eu estar te usando para substituir a Felicita?

- Como?

- Você me acolheu, me deu atenção, assim como ela. Só havia uma pessoa com quem eu podia conversar abertamente deste jeito, e era ela.

- Não há problema algum nisso. – Kieran respondeu antes que ele terminasse o discurso. – Pode me usar como substituto para qualquer coisa, desde que sejamos amigos.

Notas finais
Kieran: http://data3.whicdn.com/images/32526534/Diabolik.Lovers.full.1071467_large.jpg
Trevor: http://25.media.tumblr.com/tumblr_m4d37m2vDV1rw1faqo1_500.png
--THEPLAY--
Acho que me exaltei um pouquinho na hora de escrever o capítulo... Hahahahaha. Duas mil palavras não é mole não... =D Espero que tenham gostado. Sinceramente eu queria fazer uns yaois com as duplas que formei (Toorigami&eooutroqueesquecionome e Kieran com Trevor). Mas acho que os leitores donos das fichas não ficariam felizes por isso vai ser só amizade (com algumas insinuações básicas...)