Bestiário Brasileiro
1 Prólogo: O Saci

Elemento: ar. Natureza: humano corrompido.
Quando a natureza devolveu dos mortos os corpos mutilados de escravizados, ela o fez por vingança contra os senhores de escravos, contra a própria mutilação que sofreu pela mão dos homens.
Após a transformação, os homens deixaram de ser homens. Sem o sangue carmezim fluindo pelo corpo eles passaram a ter na pele um tom arroxeado. Rostos de caprino, orelhas pontudas, olhos meio separados, narizes adunco e um gorro vermelho feito de couro. É assim que todo saci se parece por aí.
Nos primeiros séculos, os sacis se organizavam em pequenas sociedades hieraquizadas conhecidas como Tribos, entre as quais se destacavam os Gorros Vermelhos e os Tufões do Norte. Mas as constantes disputas tribais levaram à Grande Guerra Mágica, causando, eventualmente, o desaparecimento das duas tribos.
NOTA:
Quando se lê a palavra "desaparecimento" nos registros sobre a Batalha do Auto de Sapopemba, deve-se considerar seu sentido literal: ali, todos os guerreiros no campo de batalha misteriosamente sumiram.
NOTA 2:
Após a Lei Áurea, o Conselho dos Arquimágicos investigou ser cada vez mais raro o nascimento de novos sacis. No mundo contemporâneo, um recém nascido não é visto há 200 anos.
NOTA 3:
Atualmente apenas algumas dessas criaturas vagueiam por aí, solitárias. Remanescentes que, por não concordarem com a guerra, desertaram à luta, e por isso não caíram na perdição que veio sobre seus irmãos. Outros, mais jovens, nasceram um século depois da Grande Batalha. Esses vieram a ser conhecidos como Os Últimos Filhos. Eles não têm nenhum apego às Antigas Tradições. Os mais jovens preferem andar entre os homens, usando um Sortilégio — feitiço — para ocultar sua natureza mágica. Já os Antigos, vivem em busca de segredos ocultos e preferem se manter isolados de qualquer ser vivo. Ou morto.
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