Best Of You
1 Capítulo 1: Simulando sentimentos.
Notas iniciais
-... Sinto lhes informar que a professora Genevive sofreu um acidente ontem à noite, mas já arranjamos um substituto que veio da escola...
Leslie desenhava círculos em seu caderno, enquanto ouvia musica, com os fones escondidos por seus cabelos negros. Estava nas nuvens, e a aquela altura nem notara a vice-diretora na frente da sala, falando sobre o novo substituto. A garota sente um aperto em seu ombro e se vira para Fred, seu único e melhor amigo, que aponta para a mulher com óculos de aro de tartaruga, que apertava a mão de um homem. Leslie tira os fones na hora.
- Muito obrigada pela oportunidade, vice-diretora Hansen. – O cara agradecia, sorrindo. Tinha cabelo castanho e olhos azuis, bem bonitos – Leslie pensara- mas com certeza todas as meninas da sua sala pensavam na mesma coisa. Inclusive Megan, sua meia irmã, que arrumava seus longos cabelos loiros e sorria na direção do novo professor.
- Quem é esse? – Leslie se vira para Fred, que estava com um falso ar de reprovação.
- Professor substituto, seu nome é Phil. – Fred responde, rindo. – Megan já esta de olho.
Fred passa a mão em seu cabelo ruivo, tentando imitar Megan. Leslie solta uma risada alta, e depois rapidamente cobre a boca, para abafar o riso, antes que o professor brigasse.
Mas já era tarde. Phil se apresentava para os alunos, quando fora indevidamente interrompido por uma garota de cabelo preto e de olhos verdes, sentada ao lado de um rapaz ruivo. Ele voltou sua atenção para ela, que agora tentava conter a risada.
- Você. – Ele aponta para Leslie, que arregala os olhos, assustada: odiava ser o centro das atenções. – Como é o seu nome?
-L-Leslie. – Ela gagueja, envergonhada. Não queria ter gaguejado, era mais um motivo para Megan e os outros populares caçoarem dela. Eles sempre caçoavam. Megan solta uma risada debochada, e arqueia a sobrancelha para Leslie, que ficava vermelha.
- Eu estava me apresentando, Leslie, mas já que você me interrompeu... Vamos fazer uma brincadeira. Cada um aqui dirá seu nome e um fato único sobre si, por que você não começa?
Merda. Ela queria cavar um buraco e ficar lá para sempre. Mas não podia. Tentava pensar em um fato único sobre si, mas a verdade é que só vieram coisas ruins na sua cabeça. Ela era a esquisita da escola, isso era um fato, mas não podia contar isso.
- E se eu não tiver um fato único? – Ela morde os lábios, coisa que fazia sempre que ficava nervosa. Alguns alunos riram.
- Ah, é claro que você tem. – Megan fala, sorrindo maquiavelicamente. – Você é a anormal da sala.
Mais risos explodem. Era como se ecoassem na cabeça de Leslie. Ela respirou fundo, e voltou a desenhar círculos em seu caderno. Não havia porque retrucar, alias, era isso que Megan queria- que ela perdesse o controle. O pai de Megan era o diretor, ou seja, Megan podia fazer tudo que quisesse, não ia se enrascar por causa disso. Leslie, pelo contrario...
- Tudo bem, chega. – Phil diz, e as risadas param. Ele lança um olhar reprovador para Megan e fala para outro aluno se apresentar.
Fred se levanta ao chegar sua vez.
- Sou o Fred, e sou ruivo. – Ele conta, com um grande sorriso no rosto. Ele sabia que Leslie ficara chateada pelas risadas, então queria faze-la se sentir melhor. E deu certo, a julgar o som de sua risada.
- Fascinante. – Phil murmura, sorrindo. Logo, todos os alunos se apresentaram e eles começaram a aula de artes.
Como artes envolvia quase tudo – historia da arte, música, poemas, dança e mais algumas coisas- eles tiveram que escrever seu próprio poema. Alguns se deram bem – como Leslie- e outros, como Fred, só conseguiram escrever um poema sem noção.
- Podem me entregar os poemas, eu irei ler e na próxima aula vamos conversar sobre eles. – Phil anunciou e Leslie institivamente olhou para o papel onde havia escrito. Não queria entregar esse poema para ele, era pessoal demais.
- Senhorita Broke? – O professor a chama, só restavam os dois na sala.
- Desculpe. – Ela se desculpa, entregando o papel que segurava fortemente. Phil o guarda junto com o resto, e Leslie se vira para sair.
Ele pigarreia e ela torna a se virar.
- Não ligue para eles. – Phil sorri, e Leslie sente como se seu coração fosse explodir.
- Não ligo. – Ela responde, tentando sorrir, mas só consegue fazer uma careta. – Mas sabe como é, sempre tem o bode expiratório.
Então ela se vira e sai praticamente correndo dali. O que havia dado nela? Quase fugiu do professor. Ele provocava alguma coisa nela, dentro dela... E era loucura. Quer dizer, quase todos os adolescentes já tiveram uma queda pelo professor ou professora, mas ela tinha dezessete anos, sabia que era improvável algo acontecer. Ela aprendeu há muito tempo a não ter esperança.
Saiu da escola e começou a andar até sua casa, que era apenas alguns quarteirões dali. Ouviu alguém a chamando, mas continuou andando.
- Les! – Fred se atirou em sua frente, a fazendo parar bruscamente. – Não me ouviu chamar?
- Desculpe... Eu estava... Deixa para lá. – Ela murmura, se lembrando do ocorrido na sala de aula.
- Tá a fim de ver Senhor dos Anéis hoje? – Ele pergunta ansioso.
- Foi mal, não estou muito no clima. – Leslie responde, dando um sorriso amarelo. – Melhor eu ir para casa.
- Quer ir para a zona de guerra? Que diabos você tem hoje?! – Fred caçoa. Sua casa realmente parecia uma zona de guerra, e ela havia levado Fred apenas uma vez lá, ambos concordaram que aquilo não aconteceria de novo. A família de Leslie era difícil.
Difícil do tipo insuportável.
- Vou agitar minha bandeira da paz. – Ela ri da sua própria piada sem graça.
- Então tá, até amanhã, senhorita anormal! – O ruivo acena, e depois vai para o lado oposto.
Ela não havia ficado chateada pelo anormal. Sabia que não era como as outras garotas da sua idade, mas não queria ser igual elas – todas eram fúteis e se sentiam seguras pisando em cima uma das outras- não queria ser assim. Foi mais pelas risadas. Estavam sempre rindo dela pelos cantos. Às vezes riam de Fred também, mas só porque ele andava com ela. Fred poderia ter amigos se quisesse. Podia ser popular, se deixasse de andar com ela... Mas ele não queria. Parte dela achava que ele sentia algo mais que amizade, mas a outra parte dela negava isso, pois não queria que a amizade deles acabasse. Ela só tinha ele.
Respirou fundo antes de entrar. O carro de Megan – um conversível vermelho-estava parado na frente da casa. Ela abriu a porta e entrou.
- Olha só quem chegou, a anormal. – Megan solta uma risadinha, se atirando no sofá.
Leslie estava cansada de ser o saco de pancadas. Cansada de ter que engolir tudo. Não ia querer engolir mais nada, não ia fugir. Ela não podia mais ficar parada vendo todos a humilharem, esse era seu ultimo ano... Tinha que acabar bem.
- Se ser normal é ser como você, prefiro ser anormal. – Leslie retruca, se sentindo aliviada, e depois sobe para seu quarto, deixando sua meia irmã perplexa. É claro que aquilo ia ter volta, ninguém falava com Megan Still daquele jeito.
Leslie queria ainda ter dez anos, quando morava com seus pais. Sua mãe teve depressão e acabou se suicidando, então depois disso era só ela e seu pai, Arthur. Mas eles se viravam. Então quando ela completou quinze anos, eles mudaram de cidade. E seu pai conheceu Monica, mãe de Megan. Há alguns meses atrás, Arthur sofrera um acidente de carro e não resistiu, então sua guarda passou para Monica, que então se casou de novo.
Desde que Leslie ficasse trancada no quarto, ficaria bem. Mas não podia se esconder lá para sempre.
- Ô COISA, VEM JANTAR! – Escutou Monica gritando no andar de baixo. Leslie revirou os olhos e saiu do quarto. A empregada arrumava tudo na mesa, e todos já estavam em seus lugares.
- Pode ser menos lerda? Estou com fome. – Megan caçoa.
- Como se você comesse. – Leslie responde.
- Olha a educação, Lesliana! – Monica defende a filha. Não, seu nome não era Lesliana, alias, odiava ser chamada assim. Aquilo era um apelido de mau gosto.
- O que é uma marciana mais Leslie? Lesliana. – Megan começa a rir. Leslie começa a encher a boca de comida, antes que falasse mais alguma coisa e acabasse ficando de castigo. Richard, o novo marido de Monica, estava em silencio e sério, como sempre. Ele quase nunca falava.
Leslie terminou de comer e subiu de novo para seu quarto, quanto mais ficava perto daquela família, mais chateada e estressada ficava. Sentou-se em sua cama, pegou o violão e começou a tocar e cantar Best of you. Não demorou muito para alguém gritar para que ela calasse a boca. Desistiu, pegou um livro e adormeceu lendo.
Acordou com o despertador tocando. Eram seis horas, ela entrava no colégio às sete e cinco.
- MEGAN, ACORDE SUA IRMÃ! – Ouviu Monica gritar.
- ELA NÃO É MINHA IRMÃ! – Megan berrou de volta, e subiu as escadas furiosamente. Abriu a porta do quarto de Leslie com um estrondo (ela tinha que se lembrar de trancar a porta) e viu a meia irmã acordada.
- Ah, você já acordou. – Megan diz com desgosto. – Se se atrase, ou não vou te dar carona.
- Eu vou andando. – Leslie murmurou. Não ia mais de carro com Megan, aquele era um momento do dia muito desagradável, onde ela fazia questão de buscar as amigas e todas caçoavam de Leslie juntas.
Megan deu um sorriso de quem ia aprontar alguma, e saiu sem dizer nada. Leslie tomou banho e se trocou – colocou uma blusa de frio cinza com o desenho do Mickey, e uma calça jeans- terminou de se arrumar e foi para a escola.
Ela até que gostava de caminhar. Olhou para o céu algumas vezes e começou a apertar o passo, pois o tempo estava se fechando. Um trovão surgiu, a assustando.
- Droga. – Leslie murmurou, quando uma gota caiu em seu rosto. Logo depois, começara a chover violentamente.
Era por isso que Megan fez aquela cara, ela sabia que o tempo estava se fechando. Leslie começara a correr e ia atravessar a rua, quando um carro freou bem na sua frente. Era uma mini van preta. O vidro foi abaixado e o rosto do professor Phil surgiu.
- Hey, quer uma carona? – Ele perguntou. Leslie olhou para os lados, pensando. Por fim, decidiu aceitar e entrar no carro.
- Obrigada. – Ela agradece, se ajeitando no banco passageiro.
- De nada. – Ele sorri. – Mas tem que ser meio doido para andar a pé com esse tempo.
Leslie riu, e pensou em Megan e em suas amigas. Definitivamente era melhor tomar chuva.
- Minha carona não era das melhores. – Ela respondeu, olhando a chuva cair.
- Sua meia irmã? – Phil perguntou, sem tirar os olhos da rua. Eles pararam no sinal vermelho, que parecia nunca mudar de cor.
- Como você sabe?
- Recebi as fichas dos alunos. – Ele ri. – Suas notas são ótimas.
- Obrigada. – Ela agradece, e o sinal enfim se abre.
- Então... Eu li o seu poema. – Phil fala, e Leslie aperta o banco, nervosa. Deveria ter escrito algum lixo e entregado.
Phil se vira para ela.
- Você escreve bem.
- O- obrigada. – Leslie sente as bochechas queimarem. Nunca sabia como reagir diante de elogios, e não os ouvia com frequência. Finalmente eles chegam à escola, e o carro para. Ela respira profundamente, aliviada.
- Prontinho. – Ele sorri.
- Valeu. – Leslie fala, e sai do carro. Algumas alunas param de andar para observarem-na sair do carro do professor. Aquilo não ia acabar bem.
As meninas cochichavam enquanto Leslie passava. Mas ela ignorou, e foi para a sala de aula. Conferiu seus horários, e a terceira aula era de artes. Não sabia por que ficara feliz ao constar isso.
- Está melhor? – Fred senta-se na carteira da amiga.
- Sim. – Ela sorri. – Estou sim.
- Sabe... Eu não gosto de fofocas, mas algumas meninas... Na verdade todas elas, estão comentando que você chegou no carro do professor de artes. E sua irmã esta uma fera.
- Primeiro, ela não é minha irmã. – Leslie revira os olhos. – E segundo, estava chovendo e ele me deu uma carona.
- O que aconteceu com a sua agradável motorista? – Fred ri.
- Dispensei ela. Na verdade, para sempre. – Leslie responde orgulhosa.
- Deviam te dar um carro. Sabe, vocês são muito ricos.
- Não, Monica e Richard são ricos. Eu sou a bastarda da família. Nem isso, acho... – Ela fala, pensativa. A professora de história chega, e Fred vai para seu lugar. Megan se vira e lança um olhar furioso para Leslie. Ela não iria ser perdoada por pegar carona com o professor. Professor que Megan desejava.
Mas Leslie duvidava que um homem sério como Phil fosse querer uma garotinha como Megan. Ou como ela.
A segunda aula foi de matemática. E cada vez Leslie ficava mais ansiosa pela chegada da terceira aula...
Finalmente o sinal bate e o professor sai da sala, deixando Phil em seu lugar.
Leslie se sentia desconfortável. Não sabia por que, certamente era a presença dele.
- Bom, eu andei lendo alguns poemas... Quero chamar alguns alunos para vir ler aqui na frente... Thomas Kurt?
O garoto chamado Thomas levantou e começou a ler seu poema. Depois que ele se sentou, Phil pegou outro papel. Leslie reconheceu a folha.
- Leslie Broke? – Phil olhou na direção dela. Estava paralisada. Já ouvia a risada de Megan e suas amigas insuportáveis. Mas ela iria mostrar para elas. Reuniu a coragem que nem sabia que tinha e se levantou indo na frente da sala. Pegou o papel, e Phil notou que as mãos da garota tremiam.
- Sonho... – Leslie começa a ler. — Às vezes eu sonho
que a noite não é tão escura
que a noite não é tão fria
e quando acordo
a noite já se foi
junto com o sonho
Às vezes eu sonho
sonho demais
e o sonho confunde-se com o real
e o sonho confunde-se com sonhos alheios
e a própria confusão se faz sonho
e faz, também, os sonhadores confusos
Às vezes os sonhos começam
sem se saber
e quando se percebe
já é tarde demais pra não sonhar
e apenas se sonha
temendo o pior
esperando pelo melhor
ansiando o amanhã
ansiando que os olhares distantes e desconhecidos
se façam presentes
e te façam feliz
Às vezes eu sonho
que eu sou o sonho de alguém
e que esse alguém sonhe comigo
Às vezes eu sonho
às vezes eu só quero acordar.
A sala estava em silêncio, ninguém falou quando ela começou a ler. Ninguém riu. E agora estavam todos quietos. Ela não sabia se preferia que falassem ou que se calassem.
- Foi ótimo. – Phil a tirou de seus devaneios. – Você tem talento.
E ela ficara vermelha outra vez.
- Obrigada. – Ela agradeceu, andou olhando para os pés e se sentou.
- Talento? Só se for para ser aberração de circo. – Megan comenta, e todos riem, menos Phil, Fred e Leslie.
- Por que você não lê o seu poema, já que é tão superior assim? – Leslie pergunta, e todos se calam.
- Óras... Porque eu não quero, sua tolinha. – Megan responde.
- Chega. – Phil fala. – Não vou mais aturar esse tipo de coisa em minha sala. Vamos deixar algo bem claro... – Ele encara Megan. – Ninguém aqui é melhor que ninguém.
Depois ele olha para Leslie e sorri. E ela sente como se pudesse fazer tudo... Até voar.
Já estava nas nuvens mesmo.
Fale com o autor