Best Memories
1 Remember
Notas iniciais
Leiam~~
Estava anoitecendo, Daehyun via crianças brincando no parque, seus sorrisos iluminavam todo o local. O inverno acabara de chegar, então elas aproveitavam enquanto a neve não as impedia de ver o chão. Seu neto estava lá entre elas, corria de um lado para o outro, sem sentido algum, mas não deixava de sorrir. O menino se destacava por causa de sua pele pálida. Seus cabelos eram negros e seus olhos puxados não negavam suas origens.
Apesar de estar apenas no início, o frio já era insuportável, fazia tanto frio que o mais velho tremia debaixo suas vestes — que não eram poucas. Estava cuidando de seu neto durante aqueles dias enquanto a mãe do menino viajava. Não tinha mais idade para aquilo, mas havia prometido à sua filha que faria, então, devia cumprir.
Pegava-se pensando no acidente de cinquenta anos atrás... Tentava imaginar como a sua vida seria se nada tivesse acontecido. Estaria ali cuidando de seu neto? Parou para pensar e ficou assim por um longo tempo, apenas perdido em seus pensamentos. Pensamentos que não conseguia evitar que chegassem à sua mente, mesmo que tentasse com todas as suas forças. Aqueles pensamentos o deixavam mal, mas ele havia escolhido isso... Ser um covarde fora escolha sua.
Foi interrompido por seu neto, o garoto pedia para ir para casa, ele tinha caído e dizia que sua perna estava doendo. Daehyun não hesitou, segurou a mão do menino firmemente e logo os dois dirigiram-se para casa, que por sorte, era próxima daquele local.
...
-Zelo, eu não falei para você ser mais cuidadoso? – Brigava com a pobre criança.
-Me desculpe, vovô... Eu tropecei na pedra e acabei caindo. – Abaixou a cabeça, escondendo os olhos levemente mareados.
-Não precisa se desculpar, apenas tome cuidado da próxima vez. – Olhava para a perna do menino cautelosamente. Ele havia se cortado e gemia de dor enquanto o mais velho fazia o pequeno curativo. – O que acha de assistir TV? É melhor não voltar lá para fora. Quer comer algo?
-TV seria uma ótima ideia, mas... Eu queria ouvir uma história. – O menino parecia estar com medo de perguntar, era uma criança, mas já sabia que existiam mais formas de se machucar além de tropeçar em uma pedra.
-Uma história? Hn? – Daehyun não entendia o motivo do nervosismo de seu neto – Tudo bem. Que história você quer ouvir?
-A história da foto.
-Foto? – O mais velho temia ouvir a resposta do pequeno menino.
-A foto que o senhor guarda. Tem um menino nele. Quem é? Ele te faz chorar, eu não gosto de ver o senhor chorando.
-Ah, essa foto. Não é nada... É só...
O pobre senhor colocou a mão no bolso e sentiu a fotografia lá. Ele sempre estava com ela, não importava onde fosse, a fotografia sempre se encontraria consigo. Ela estava desgastada pelo tempo, tinha manchas e borrões que não sairiam. Estava um pouco rasgada nos cantos. Apesar disso tudo, o que mais doía era ver aquelas duas pequenas gotas de sangue.
Aqueles dias... Poderiam ser chamados de dias? O nome “tortura” se encaixaria perfeitamente. Destruição para todos os lados, muitos mortos. O último sorriso do loiro era uma coisa que ele jamais esqueceria, mesmo muitas vezes tendo desejado isso. Aquele sorriso o perseguia. Daehyun o via em todos os lugares, a esperança de vê-lo outra vez o fazia imaginar coisas. Um sorriso tão doce, alegre, sincero... Um sorriso acabara tornando-se uma maldição. Aquilo estava errado, seu destino tinha que estar errado.
Que sentido teria em depender de uma pessoa a ponto de não querer mais viver sem ela? Ele podia ter aceitado tudo, ter vivido, ter sido feliz, mas não queria. Sabia que aquela era a sua escolha, mas não se perdoaria se fizesse algo diferente, preferia sofrer a perda de seu amor do que tentar encontrar algo que o substituísse. Ninguém jamais o substituiria.
Um casamento arranjado. Muitas vezes pensava em sua mulher... Ele gostava dela e havia tentado fazê-la feliz, mas era impossível lutar contra o seu próprio coração. Eles eram amigos. Eram casados e tinham um filho, mas eram apenas amigos. Não havia amor, não havia nada além de amizade. Amizade e tristeza. Torturava-se com perguntas. E se? Por quê? Poderia ter sido diferente? De que adianta tantas perguntas se nenhuma tem resposta? Ele não sabia.
Era apenas mais um idiota que questionava a si mesmo atrás de respostas que nunca encontraria. E se algum dia as encontrasse, não fariam sentido algum. Nada faz sentido.
Permitiu-se ser inundado mais uma vez por suas lembranças mais importantes: O dia em que o conheceu e o dia em que o perdeu. Ele lembrava-se de pelo menos uma por dia, e decidira juntar as peças pra ver se algo fazia sentido. Por que ainda as mantinha se o loiro prometeu que logo as esqueceriam? Sua ideia era ter apagado realmente todas, teria menos problemas se assim tivesse sido. Mas não, elas ficaram lá, junto com a dor, como se eles fossem um só.
As lembranças já faziam parte de Daehyun e a dor... A dor era apenas um detalhe.
....
- Flashback on -
Por que um repórter famoso como ele tinha que voltar a fazer as entrevistas ralés de sempre? Ele já havia trabalhado com os maiores artistas de todo o mundo e agora iria entrevistar apenas pessoas comuns pra saber o que acontecia com o governo. Quem queria saber sobre o governo? As pessoas só ligavam para assuntos assim quando eles envolviam guerras, chances de morte ou de ficarem ricos. Era oito ou oitenta.
-Daehyun, sai um pouco dos papeis e venha aqui garoto.- Seu chefe o convocava.
-Estou indo chefe, só estou terminando de juntar as minhas folhas – Falava jogando todas as folhas na escrivaninha, sem organização alguma.
Foi caminhando em direção a sala de seu chefe, que ficava no fim do corredor. Fora tropeçando durante todo o caminho, afinal, não conseguia tirar os olhos de seu celular. Digitava mensagens, fazia cálculos, pensava nas ligações que teria que fazer, lembrava-se dos papeis que estavam em sua casa e ainda tinha que ler. Sua mente estava um completo caos. Quando finalmente chegou na sala de seu chefe, entrou sem nem mesmo olhar para frente, e quando o fez, ficou surpreso. Ele estava conversando com um loiro, muito bonito, por sinal.
-Ah Daehyun, enfim chegou. Esse é o seu novo colega – apontava para o loiro que mantinha o foco nas mãos do moreno – Ele se chama Yoo Youngjae e trabalhará de fotografo pra você a partir de agora.
-Muito prazer, você deve ser Jung Daehyun, estou certo?- Esticava sua pequena mão esperando um aperto.
-Sim, sou eu. Prazer em conhecê-lo também – Retribuiu o ato, apertando fortemente a mão do outro.
-Agora que já se apresentaram, vão. – Abanava as mãos como se os empurrasse porta a fora – Daehyun, agora já tem seu fotógrafo, preciso daquela matéria o mais rápido possível! Estarei esperando, confio em vocês.
O moreno apenas assentiu saindo daquela sala. Não conseguia pensar muito bem, algo estava errado com a sua respiração. Seu coração batia rápido demais. Estava nervoso? Por que estaria nervoso? Desde que apertara a mão daquele fotógrafo essas sensação estranha tomava conta de si. Youngjae o encarava sem saber o que fazer, o loiro tentava sorrir, mas notava que havia algo estranho. O moreno apenas entregou o seu número para o outro dizendo “Se precisar, me ligue.” E com isso, saiu andando rapidamente, sem rumo algum, apenas para longe...
Era como se tivesse levado um choque, porém, havia gostado. Como apenas um simples aperto de mão poderia fazer aquilo consigo? Fora do prédio, na parte de trás, sozinho, tentava colocar seus pensamento em ordem. Era um simples aperto de mão e, como se as coisas não estivessem estranhas o suficiente, eram dois homens. Não lembrava-se de nenhum homem que tivesse feito aquilo consigo. Amor a primeira vista? Por um homem? Que tipo de piada o destino estava tentando pregar nele?
Apesar de tudo, Daehyun não se importava com o fato de serem dois homens. Era um repórter famoso, conhecia pessoas em todo o mundo. Havia conhecido vários gays e eles pareciam felizes, mas aquilo parecia tão errado. Mesmo assim, não se importava. Mas o problema era: As pessoas ao seu redor se importavam.
Naquele dia havia tomado a decisão de ignorar tudo o que havia sentido. Devia calar-se, não era seguro alimentar aqueles desejos – e não devia deixar com que aquilo se transformasse em sentimentos.
...
Era apenas mais um dia de trabalho, pelo menos, parecia assim. O moreno chegara cedo, estava ansioso pois ele e o amigo viajariam para a Europa. Ele continuava em silêncio a respeito de seus sentimentos – aceitara que eram mais que desejos – e até mesmo tinha aprendido a conviver com eles muito bem.
O céu estava tingido de vermelho, cinzas caiam como neve em um dia de inverno glorioso. Mas não era inverno, muito menos neve. Estava tendo um bombardeio, a Coreia do Norte decidiu reivindicar os seus direitos sobre a sua rival.
O exército tomava conta de tudo. Soldados sul-coreanos estavam encarregados de manter tudo em ordem dentro dos abrigos. Eram pacíficos, mas uma regra era clara: Ninguém mais saía e ninguém mais entrava. Para fazer com que essa regra fosse obedecida, eles eram capazes de qualquer coisa.
Eles haviam se escondido em vários porões por indicação dos líderes. Como todos sabiam, o solo era o lugar mais seguro durante o bombardeio e como eles sabiam que seria, as bombas norte coreanas não penetravam o solo. Era desesperador ter que ver todos os seus amigos de trabalho chorando, tentando ligar para suas famílias. Quase todos.
-Onde está o Jae? – Daehyun perguntava a cada pessoa que encontrava em sua frente. Era torturante ter que ouvi-los dizer “Não o vi” todas as vezes, mas não desistia, tinha que encontra-lo. – Você viu o Jae? – O desespero tomava conta de si.
-Ninguém o viu ainda, acalme-se Daehyun, por favor. – A menina que estava mais ao canto respondia.
-Está acontecendo um bombardeio lá fora, eu não sei onde está o meu melhor amigo, ele não atende o telefone... Como você tem coragem de me pedir para ter calma? – Algumas lágrimas escorriam de seus olhos – É impossível!
Ele tentou segurar o choro, mas isso era tão difícil quanto manter a calma. O moreno não podia demonstrar nenhum sentimento, mas isso já não tinha tanta importância assim, escondeu-se em um canto e chorou durante horas.
Mesmo após o termino daquele bombardeio, a ordem era permanecer naquele abrigo durante os próximos dias, não podiam prever o que aconteceria, tinham que estar prevenidos. E assim passaram-se seis dias. Foram seis dias cheios de lágrimas e preocupação.
Quando ouviu que poderiam sair não conseguia pensar em nada, a não ser um nome, “Youngjae”. Passou horas procurando por ele. A casa do loiro estava destruída, não havia sinal algum de que ele estava vivo. Revirou toda a cidade, procurou em todos os lugares possíveis e o encontrou.
Youngjae estava em um hospital. Os médicos disseram que loiro desobedeceu a regra e saiu do abrigo onde estava para salvar uma criança. Aquilo, por pouco, não custou a sua vida. Era um idiota. Era um herói. Mas os médicos disseram também que seu estado era grave e ele tinha pouco tempo de vida. Daehyun implorou para que pudesse vê-lo e os médicos apenas deixaram porque podiam ver o quanto aquele homem precisava do outro.
Correu o mais rápido que pôde para chegar logo ao quarto e, quando chegou, encontrou o corpo de seu melhor amigo em uma cama, ele parecia estar dormindo, estava tão calmo.
-Jae? – Daehyun quase não consegui pronunciar aquele nome. – Jae? Me responde... Por favor...
-Daehyun... Que bom que veio. Você nunca se atrasa, hn? Por que... Por que você está chorando?
-Os médicos disseram que você – Sua voz havia falhado.
-Sim. – O loiro tentava esconder a dor em sua voz – Eles perguntaram se eu não queria morrer logo porque não havia motivo para continuar com isso... Eu disse que havia. Eu precisava te ver pelo menos uma última vez, me despedir.
-Shhh. Não fala mais nada. – Daehyun sentou-se na cama ao lado do outro e Youngjae o abraçou da maneira que pôde. – Você não precisa dizer nada.
-Eu só preciso falar mais uma coisa... – O loiro colocou a mão no bolso, pegou a foto e a entregou ao amigo – Lembra dessa foto? Tiramos quando nos conhecemos. Você poderia guarda-la pra mim?
-Você pode guarda-la... – Ele não queria aceitar a realidade.
-Não seja idiota, Dae. Nós dois sabemos que... – Younjae havia fechado os olhos, sua respiração falhou e ele tentava manter o controle. – Dae... Eu queria ter dito isso antes, mas eu não pude. Me desculpa?
-Eu já não falei pra você ficar calado? – Daehyun limpava as lágrimas do outro. O loiro apenas balançou a cabeça, concordando. Ficaria calado.
Youngjae não disse nada, com todas as suas forças virou-se e beijou Daehyun. Apenas encostou seus lábios nos alheios e sussurrou “Eu te amo”.
O mais novo fechou os olhos e logo sua respiração cessou por completo, havia morrido e poderia descansar em paz. Daehyun chorava e apertava mais o corpo do outro contra o seu, queria morrer também, mas estava vivo.
- Flashback off –
-“É só...”? Vovô, me responde... Vovô... — Zelo puxava sua jaqueta a procura de alguma reação.
-Seu nome é Youngjae. Ele trabalhava comigo. Ele foi um herói, salvou uma criança! Lembro de tudo perfeitamente.
-Se ele foi um herói, por que você parece tão triste?
-Porque são apenas lembranças. — Ele fechou os olhos, deixando algumas lágrimas escaparem. Suspirou pesadamente segurando a foto com força. – Eu também te amo.
Mas ele sabia, era tarde demais.
Fale com o autor