- Por que você pausou? – reclamou a garota assim que ele parou o jogo.

— Meu celular está tocando. – ele disse, largando o controle e procurando o celular no bolso. – Alô?

— Vai logo. – ela sussurrou.

A garota tentou concentrar sua atenção na barrinha de chocolate que pegara, porém, ao ouvir Tómas Penedo pronunciar o nome de Rayana, apenas se concentrou na conversa. Disfarçando, claro.

“Ah, Rayana, não sei”.

“Acho que dá sim.”

“Umas oito horas então.”

“Passo.”

“Eu te ligo.”

“Beijo.”

“Tchau"

A curiosidade dentro de Carla era gigante, mas ela se conteve e não abriu a boca. Esperava que o garoto o fizesse e contasse o que falara com a outra.
— Era Rayana. – ele disse como se ela não tivesse percebido.
— Ah, era? – claro que ela fingiu.
— Vai ter uma festa hoje. – ele procurou o controle do Xbox.
— De quem? – ela pouco ligava pra festa, estava interessada em saber se Tómas ia ou não.
— Da prima da Rayana, ela me chamou. – ela não queria parecer se importar, mas seu instinto foi mais forte e ela logo perguntou:
— Você vai?
— Não sei, acho que sim.
— Ah. – Carla não mostrou expressão alguma, apenas olhou para a televisão, indicando que queria continuar o jogo.
Alguns minutos se passaram e finalmente o jogo acabou.
— Game Over, Tómas. – gritou – Ganhei!
— Eu deixei você ganhar. – ele disse com desdém.
— Ah, nem vem com essas, você sempre perde e fala a mesma coisa.
— É que eu tenho dó de você e sempre deixo você ganhar. – ele falou, sério.
— Admite, Tómas. – a garota se levantou e ficou em cima do sofá. Tómas observou. – Eu sou a melhor! – gritou, erguendo os braços, comemorando a vitória.
— Ah é? – ele a encarou. – Então você sempre ganha, né?

Carla conhecia aquele olhar, com certeza em seguida ele faria
alguma coisa. Ela não errou: no momento seguinte a garota já estava
jogada no sofá e Tómas apertava sua barriga, fazendo-a rir descontroladamente.
— Páaaara. – ela implorava. – Por favor, pára. Pára.
— Quem é o melhor? – ele provocou, ainda fazendo cócegas na menina. – Não vai falar? Não vou parar.
— P-pára. – ela já estava sem ar. – Você. É você.
— Quem é? – ele parou um pouco, mas logo voltou a torturá-la.
— Você, Tómas. – ela gritou, ainda rindo.
— E quem é o mais lindo? – ele parou e continuou.
— Você.
— Gostoso?
— Você?
— Perfeito?
— Chega, Tómas. – ela tentava se soltar. – Você é tudo. Admito.
Por fim, o garoto parou, e aos poucos Carla foi voltando ao seu estado normal.
— Isso não vale. – reclamou.

- Claro que vale. – ele riu, encarando-a.
— Você usa a força, e isso é jogo sujo. – ele riu novamente.
— Você está toda descabelada. – Tómas tentou ajeitar o cabelo dela.
— Você também. – ela apontou pro cabelo dele.
— Mas eu fico lindo assim. – ele falou convencido.
— Está querendo dizer que eu estou feia? – a menina arqueou a sobrancelha.
— Claro que não. Você é linda de qualquer jeito.
— Sei. – ela fez voz afetada. – Aposto que a Rayana é bem mais bonita.
— Está com ciúmes, Carla Ferrer? – foi a vez de ele arquear a sobrancelha.
— Lógico que não. – ela corou.
— Tá com ciúmes, tá com ciúmes.
— Vai à merda, Tómas. – a garota tentou se levantar, mas antes que pudesse completar a ação, Tómas a puxou, fazendo-a cair sentada em seu colo.
— Você sabe que é a número um, né? – ele sorriu.
— Não sei não. – ela falou emburrada.

- Tudo bem, eu te digo agora, então. – ele levantou o rosto
dela, fazendo-a encará-lo. – Você é número um na minha vida, você vem antes de qualquer outra garota; é minha linda, minha companheira, minha melhor amiga. Eu nunca vou te trocar por nenhuma outra, nem por namorada, ficante, rolo. Nenhuma, você sempre será a primeira na minha vida.
— Promete? – ela pediu.
— Prometo! – ele beijou as mãos dela, que sorriu.
Cada vez mais ele mostrava a ela o quanto seria dela eternamente, talvez não do jeito que ela quisesse, mas de alguma forma, Tómas sempre estaria ao lado dela.
Eles ficaram algum tempo em silêncio, apenas admirando o tempo. A casa aos poucos ia ficando escura, anunciando a chegada da noite.

— Você gosta da Rayana? – Carla quebrou o silêncio.
— Não sei. – ele respondeu. – Quer dizer, gosto.
— Gosta como?
— Gosto da pessoa dela e gosto de ficar perto dela.
— Você a ama?

- Não. – ele respondeu antes mesmo dela terminar a pergunta. – Eu gosto dela como pessoa, como amiga. Só isso, nada além disso.
— Você gosta de alguém?
— De muitas pessoas.
— Você ama alguém?
— Por que você quer saber? – ele questionou.
— Você ama alguém, Tómas? – a garota insistiu na pergunta.
— Talvez. – ele pensou.
— Talvez? – ela queria saber mais.

-Eu não sei. Na verdade, eu nunca senti o que eu sinto por essa pessoa por ninguém, acho que também nunca amei ninguém, então não sei distinguir o que realmente é. – explicou.
— Entendo. Mas o que você sente, então?

-É estranho, eu me sinto meio gay falando essas coisas, mas é muito
forte, é uma vontade de tê-la só pra mim o tempo todo, todos os dias, de abraçá-la, de protegê-la. Quando eu a vejo é como se todas as outras coisas parassem de existir, nada mais importa quando eu estou do lado dela, ela é a razão de todas as minhas alegrias, é o motivo dos meus sorrisos, é a personagem principal dos meus sonhos.