Berlock Safe
8 Entre pão e espada
Se passam algumas horas de caminhada pelo campo, BS conseguiu processar boa parte de tudo até agora, para sua segurança mental e emocional, e decidiu aceitar e seguir as coisas como estão por hora.
Em alguma oportunidade, deixará a pressão interna sair, ele reflete e logo vê algo. BS encontra uma plantação de trigo destruída próxima a uma casa simples.
Ele checa o estado de suas roupas, sua intenção é passar uma boa impressão logo de início, já que não é um reencarnado, ele precisa encontrar uma forma de misturar com os locais.
Afinal, ele não quer ir para o esquecimento, então deve começar simples e conseguir um trabalho.
— Alguém em casa? — Ele pergunta.
Um homem de avental sai segurando um forcado, sua expressão é de medo.
— E-Eles já foram? — O homem pergunta e BS questiona — Eles quem?
Um rugido ecoa e chama a atenção dos dois.
— São eles! — Exclama o homem.
Da floresta próxima à casa saem javalis selvagens correndo em direção à dupla, o homem rapidamente entra e fecha a porta, deixando BS para fora.
— Animais selvagens, será que estão doentes? — Berlock se pergunta.
Ele bate na porta — Me deixe entrar! — O recluso não podia se deixar ser infectado, não existe cura nesse mundo, afinal.
— Não posso, minha família está aqui, não vou arriscar.
BS desiste de entrar e pensa consigo: "Tenho a resistência ativada, experiência virtual e provavelmente o Adm sabia sobre algo assim, se ele não falou ainda não deve ser muito ruim, então devo ficar bem."
Os javalis se aproximam e mostram não serem como os que BS conhece, das costas deles saem alguns pares de braços humanos e os animais ficam em pé, sem contar que estão bem malhados.

BS se assusta no momento em que os javalis o cercam.
Ele entende que esses animais devem ter sofrido a monstrificação de Ama, com certeza eles são perigosos.
Os animais rugem e partem para cima, desferindo socos. Os golpes vindos de várias direções não dão chance de BS se defender.
Se bloqueia de um lado com os braços, do outro toma na boca, se tenta se abaixar recebe golpes na cabeça, nas costas.
Os animais são coordenados e estão em maior número.
Antes que pudesse fazer algo, dois javalis seguram os braços de BS, cada um de um lado.
Em sua frente vem outro javali que usa três braços para socar o estômago do aventureiro que perde todo o fôlego.
Ele se ajoelha.
O animal puxa os cabelos de BS, levantando seu rosto, e com os dois últimos braços desfere vários socos em sequência, desnorteando a vítima.
O aventureiro sente cada golpe no rosto e seus braços sendo torcidos. Ele não tem imunidade à dor, a sente normalmente. A diferença é que ela não o incapacita.
BS puxa os braços, fazendo os dois javalis que os seguravam se chocarem e, então, soltá-lo.
Enquanto eles vão para direções opostas devido à força do impacto. BS surpreende seu agressor com uma joelhada que quebra o focinho do javali.
Logo em seguida, BS segura a cabeça do animal com as duas mãos e puxa com força em direção à outra joelhada, sendo essa ainda mais forte. Tal força faz o joelho afundar no crânio do agressor, que morre antes de ser jogado no chão.
BS estudou seus status e deixou os animais golpeá-lo para medir a força de ataque deles. Sua defesa é 20 e o ataque deles 12, eles levarão um tempo até ferir BS ou até quebrar sua defesa ou a habilidade de Resistência.
Apenas podem causar dor que na batalha não fará diferença em Berlock, já o seu psicológico não pode se garantir o mesmo, mas ele não liga para isso no momento.
"Recompensas: Javali Coletor X1
2 Moedas de Prata."
A janela de notificação mostra que ele ganhou moedas ao eliminar o inimigo, em jogos e obras de fantasia isso sempre é positivo. BS vai se deixar levar pelo que sempre teve em seu imaginário.
Pega um dos javalis que atordoou com a batida de cabeças e sente que é leve o suficiente para que possa girar e bater as costas do animal com força no chão.
Mesmo sem audição aguçada, BS consegue escutar os ossos quebrando em meio ao berro do bicho que se engasga com o sangue entrando no pulmão perfurado pelos ossos da costela.
Mais duas moedas de prata para o aventureiro que avança para cima dos inimigos. Ao começar a correr, BS se movimenta bem rápido e descobre mais uma melhoria da mana em seu corpo.
Ele corre em direção a um javali que soca. BS observa o golpe vindo, seu tempo de reação é bem menor agora se comparado com o que tinha quando pegava os sacos de cimento.
Aproveitando a velocidade, ele passa para a esquerda do oponente, combinando a velocidade e o peso do seu novo corpo em um golpe forte com a palma da mão aberta, o recluso estoura os ossos da costela do animal, perfurando seu pulmão.
Palma Sufocante, esse é um dos movimentos que BS mais gostava nos jogos que jogou. A essência desse movimento está em quebrar os ossos da costela e perfurar o pulmão do inimigo, fazendo-o se afogar em seu próprio sangue.
O segundo javali atordoado se levanta e vê BS em sua frente para socar. O animal usa os braços para bloquear o soco, mas o aventureiro some antes que o punho tocasse o animal.
BS logo surge na lateral do javali e soca de baixo para cima, executando mais uma vez seu movimento.
Os inimigos não eram nada para ele, que os derrota com facilidade. Apesar de terem maior número, os javalis não tinham força o suficiente para passar pela habilidade e nem eram viciados em limpar Dungeons em solo durante as madrugadas.
"Recompensas: Javali Coletor X4.
8 Moedas de Prata."
O último dos javalis vivos ruge de forma diferente, tal rugido chama um grupo de cinco javalis diferentes.
Esses portam armas brancas e armadura leve e seus braços são menos uniformes em distribuição e ordem no corpo.

Os animais se tornaram monstros e os monstros se tornaram mais inteligentes, esses javalis devem estar passando por isso e se adaptando às batalhas.
Se for o caso, então BS tem que mudar a estratégia. Ele observa que esses cinco possuem armas brancas, nada especializado a longa distância.
— Resistência!
BS reativa sua habilidade para restaurar a resistência e defesa e então corre para cima de um dos javalis que ataca.
O aventureiro esquiva e bate debaixo para cima no punho do inimigo, quebrando-o. O javali solta o machado e BS o pega e pula para trás.
Ele sente algo e se esquiva para a esquerda do golpe com espadas vindo pelas costas. Aproveita o momento para cortar fora o pé esquerdo do animal que vai ao chão, antes que ele se dê conta. BS corta o outro pé, derrubando o monstro.
Sem poder se levantar, o animal é finalizado com um golpe na cabeça.
Com o machado em mãos, o aventureiro avança em direção ao próximo alvo. Eles já perceberam a estratégia, então, usando os membros extras para proteger as laterais e as costas, somente pela frente poderão ser encarados.
O aventureiro, usando o pé direito, investe na direção do javali, indo com mais velocidade ainda ao mesmo tempo que joga o machado que tinha em mão.
A velocidade faz com que a arma decepe a perna do animal na altura da coxa, o fazendo cair para frente. Usando quatro dos braços, ele se apoia no chão enquanto vê o pé esquerdo de BS pisando com força ali.
Com o direito, o aventureiro chuta o focinho do javali, quebrando o pescoço e deixando a cabeça pendurada nas costas.
BS pega duas espadas do javali e se vira para os outros três.
"Recompensas: Javali Armado X5
25 Moedas de Prata.
O último Javali Coletor, assustado após ver seu grupo ser morto, dispara em corrida mata adentro. BS pega um machado do chão.
Concentra força no braço direito e arremessa a arma em alta velocidade, que parte em dois a cabeça do alvo.
"Total de Moedas: 35 Pratas", informa o sistema.
BS se sente com coragem o suficiente para ir atrás de mais monstros, mas decide não o fazer.
Sua experiência lendo e jogando diz que ele deve aproveitar a oportunidade e entender toda a situação.
Ele também não sabe de onde vem toda sua coragem, seria devido à mana talvez? Provavelmente a habilidade Resistência também lhe dá isso, uma falta de medo e maior coragem.
BS vê que ganhou experiência matando os javalis com e sem armas, por isso passou de nível, teve sua mana restaurada e aumentada em 15 pontos.
É como os jogos que jogava, sendo assim deveria caçar mais javalis para aumentar o nível e ter mais mana e ficar mais forte. Tornar-se um caçador de monstros/animais parece ser um começo interessante.
Porém, BS está ciente de que foi fácil devido à ajuda da Resistência e uso de mana, precisa agora saber como é para os locais para conseguir definir uma curva de dificuldade e ficar acima dela.
Nada garante que não existam javalis ainda mais fortes, ir atrás deles sem informações é suicídio.
Uma notificação diz que ele pode trocar 10 moedas por uma do nível seguinte, sendo bronze > prata > ouro. Ele tem 35 moedas de prata que dão 3 de ouro.
Ele termina de olhar o sistema e, antes que pudesse pensar em fazer a troca e entrar na loja, alguém o interrompe.
— V-Você os enfrentou, todos! Desculpas por te deixar para fora, minha filha está doente e não teria como ela conseguir fugir dessas bestas.
Berlock estava certo em achar que os animais estavam infectados e, pelo que parece, essas pessoas que encontrou não são capazes de lutar.
— Você tem força, por favor, te peço, salve minha esposa, ela foi pega no ataque mais cedo antes de você chegar. Ela deve ter sido levada para o covil deles.
Covil. Ouvir isso fez BS pensar que lá devem estar todos ou a maioria dos javalis monstrificados, e se alguns tinham armas e armaduras, devem ter saqueado humanos bem armados antes, ou talvez estejam produzindo equipamentos.
BS encara o homem — Você tem noção de onde e como é esse covil?
— Entre, irei lhe explicar tudo. — Berlock entra na pequena casa que se revela uma padaria.
— Uma mina.
O padeiro dá uma breve pausa ao ver BS franzir a testa.
— De começo era uma caverna, mas os monstros começaram a cavar e ir cada vez mais fundo.
— E vocês não fugiram quando descobriram?
— Avisamos nossa filha que, quando soube, viajou para nos ajudar. Enquanto ela vinha, eu e minha esposa estávamos arrumando tudo para ir.
— Mas?
— Ela foi emboscada pelos monstros que atacaram a carroça em que vinha. Os guardas morreram, ela conseguiu escapar, mas perdeu sua espada.
— Guardas, espada...
— Minha filha é um espadachim, ela conseguiu permissão para poder vir nos ajudar, até trouxe os guardas que acabaram sendo mortos. Ela está ali.
BS olha para o lado onde está a filha do padeiro, uma jovem adulta de pele pálida, olhos quase cinza e cabelo roxo na altura do queixo. Ela está com um vestido branco, deitada na cama.
Ela tenta se levantar, mas logo vai ao chão. Seu pai corre para ajudá-la a levantar. O veneno usado nela parece ser bem efetivo. Provavelmente, ainda está viva por ter um corpo forte devido à sua classe ser espadachim.
O aventureiro sabe que não tem cura, ele irá entrar em uma mina lotada de monstros fortes para recuperar uma pessoa provavelmente morta e uma espada para uma pessoa praticamente morta.
Se ele for, poderão ser três mortos, se não for, serão apenas duas e ainda pode ajudar o padeiro se mais javalis vierem. Caso vá e eles venham, aí podem ser até quatro mortos.
Nada é certeza, o pior resultado é o mais provável, mas não é concreto. "O que devo fazer?", Berlock se pergunta.
— Eu te pago, tudo que tenho, também te dou minhas outras espadas — propõe a espadachim.
BS a encara, ela está de pé se apoiando na mesa enquanto segura uma faca de combate.
— Estou morta, eu sei, por isso morrer lá não faria diferença, me leve junto e eu os distraio enquanto você volta com a minha mãe. Se eu tiver minha espad— ela para de falar ao tossir sangue.
— Não sei se eu conseguirei carregar sua mãe.
— E-eu ainda tenho o Pergaminho de Retorno. A ideia era usar caso as coisas ficassem complicadas aqui. D-Duas pessoas podem usar, você e minha mãe voltam para cá.
BS começa a pensar.
— Como conseguimos o tratamento para ela? — BS pergunta, olhando para o pai.
— Os monstros produzem, são os únicos que conseguem fora das capitais e pequenas cidades, mas podemos comprar pedras de mana, mesmo que algumas.
A jovem espadachim com dificuldades caminha.
— Não adianta, só vai adiar um pouco o inevitável.
— Eu sei — BS inspira e espira — Se você não puder lutar, então é só um peso morto, mas isso se não tivermos um plano.
A espadachim o encara com expressão de curiosidade.
— Se puder distrair os animais enquanto pego sua mãe, a espada e o antidoto, já será de grande ajuda. Vocês usam o pergaminho e voltam. Se você tomar o tratamento, deve dar para voltar para a cidade.
— Talvez, mas— ou deve dar tempo suficiente para se despedir adequadamente dos seus pais.
O padeiro engole seco, ele sabe que é uma verdade, no melhor dos casos ele e sua esposa poderão enterrar sua filha antes de partir.
— O-Obrigada — a espadachim agradece enquanto chora.
O padeiro também agradece.
BS conversa um pouco com a dupla.
Lee Ryuei, que atua como espadachim, se ajoelha em frente a Berlock Safe e faz um juramento de seguidora, tal juramento se mantém até que a vida dela cesse.
Nesse momento, uma janela surge informando que BS fez uma seguidora e seus status.
Um suspiro é solto pelo aventureiro. "Essas informações podem me ajudar a salvá-la? O Adm deve saber o que fazer."
— Certo, assim que estiver pronta, nós iremos.
Lee rasga as mangas e a parte inferior do vestido até a altura dos joelhos. O vestido da sua mãe não ajudaria no combate.
— Tomem cuidado, por favor — pede o padeiro.
Ciente de que o Pergaminho de Retorno de Lee possui a assinatura dela e por isso só ela pode ativá-lo, BS começa a pensar em como poderia facilitar a aproximação de mãe e filha, ou se daria tempo para Lee ativar e ser levada até a mãe.
— Posso ver seu pergaminho?
— C-Claro.
Lee entrega. É um pergaminho de papel que precisa ser destruído para ser ativado.
BS observa que o vestido não tem bolsos, então dobra o papel para pôr no seu.
— Não! — Lee grita enquanto pega na mão de BS para que ele desdobre o pergaminho.
Uma luz verde envolve os dois, fazendo-os desaparecer na frente do padeiro, que cai de joelhos no chão.
O Pergaminho de Retorno teleporta o usuário para seu último local seguro a pelo menos cinco horas de onde ativou. Cinco horas equivalem à metade do caminho da padaria até a cidade.
"Eles estão muito longe agora, não vai dar tempo", pensa o padeiro que entra em desespero.
Lee e Berlock trocam olhares.
Ela olha em volta e não reconhece o lugar, as paredes de cor branca, o telhado baixo, os móveis esquisitos e a mulher gritando no fundo não são algo que ela conheça.
— Q-q-quem são vocês? Como entraram? — Já está gritando? — Berlock comenta.
Ele se senta no colchão — ainda não jogou fora. Planeja vender jovem gastadora?
Bianca solta a espátula e olha espantada — B... Berlock?
Fale com o autor