Bendito Aquecedor - Ernesto e Ema
1 Uma Noite Fria
Notas iniciais
— Já chega! — ela disse levantando-se da cama. — Você vai mexer nessa tranqueira madrugada a dentro e continuará sem funcionar.
Não que não estivesse gostando da companhia dele no quarto, tinha que admitir que estava com medo de dormir sozinha, já que Jane agora estava casada e Elisabeta não voltara, por certo pernoitaria na mansão, então ela realmente ficaria sozinha. Mas, o problema era que a presença dele estava lhe causando aquelas sensações. Aquelas que Elisabeta disse que ela sentia por ele e que ela veementemente negou. Não, aquilo não era bom, tão pouco era certo e o melhor a fazer era parar de... estava apenas o observando.
— Estou sem as ferramentas necessárias. Essas do Januário não estão servindo. — disse ele, levantando-se do chão. — Amanhã trago as certas do bar e conserto!
— Amanhã? E como o senhor pensa que irei dormir hoje? Congelando?
— E o que a senhorita sugere que eu faça, a aqueça o resto da noite?
Ela corou instantaneamente, abriu a boca fingindo-se escandalizada, tentando não passar para ele que imaginara tal situação.
— Mas... o senhor é mesmo um despudorado! Isso é lá pergunta que se faça a uma dama?!
— Ora porque não? A senhorita não quer dormir no frio, e eu não tenho as ferramentas para consertar seu aquecedor. Que outra sugestão a senhorita daria?
Ela estreitou os olhos para ele, ciente de que se estivesse sua sombrinha em mãos ela novamente acertaria seu alvo favorito.
— Ora, pois então pergunte a Januário se ele tem mais cobertores que possa emprestar-me por está noite?!
— Ora, por que não faz isso a senhorita mesma?
— Ora, porque já estou de penhoar. E não faz bem eu sair por aí vestida assim, bater na porta de um cavalheiro para pedir o que quer que seja! — explicou-lhe óbviamente. — O senhor tem alguma noção do que são bons modos?!
— E a senhorita tem alguma noção do que é pedir com educação?
Ela apenas alçou a sobrancelha altiva, em resposta. E ele revirou os olhos sabendo que já cedera a ela.
— Arre! — bufou, saindo porta afora.
Ema sorriu vitoriosa.
Alguns minutos depois, Ernesto voltara os braços carregados de cobertores.
— Aqui estão — disse depositando tudo em cima da cama. — Agora, tenha uma boa noite, senhorita. E não se esqueça de passar a chaves na porta. Nunca se sabe!
— Ernesto! — ela o chamou o impedindo de sair.
— O que dessa vez? — ele virou-se a olhando, e Ema estava parada ao lado da cama, as mãos mexiam nervosamente uma na outra, ela parecia frustrada enquanto visivelmente lutava com as palavras.
— E-eu... sinceramente, eu... eu...
— Desenvolveu gagueira?! — perguntou-lhe impaciente.
— Ora, não seja rude! — ela ralhou, deu a volta na cama ficando do outro lado do quarto. — Estou com medo! — confessou de vez.
— Medo?
— Medo. Ora... E-eu, nunca dormir sozinha aqui. Bem, aqui ou lugar nenhum! — explicou-se, rezando para não está corada.
— E que quer? Dormir no nosso quarto? — perguntou óbvio, realmente parecendo não entender onde ela queria chegar.
— Que ideia mais estapafúrdia! Só podia mesmo vir de um mentecapto feito o senhor! — Ela agitou-se novamente e voltou para o lado da cama que estava antes.
— Diga de uma vez o que quer baronesinha! Estou cansado, amanhã acordo cedo, não tenho tempo para suas firulas!
— Firulas?! Firulas?! — ela irritou-se. — Pois bem, não quero nada! — disse altiva, engolindo o medo e atiçando o orgulho, talvez ajudasse. — Boa noite!
— Boa noite, então! — ele disse e adiantou-se a porta. Voltou-se a ela mais uma vez: — Não esqueça de trancar!
— Vá, vá, vá! — ela disse o atiçando para fora do quarto.
Ernesto não era tão desligado quanto parecera, se ela insistisse ele teria ficado, porém apenas se ela insistisse. Não ofereceria aquilo a ela, porque não queria ser responsável por atos impensados. Sabia que jamais lhe faltaria com respeito, mas Ema era imprevisível, e ele realmente às vezes saia de seu controle perto dela. Mas, ainda sim preocupou-se. Pensou que com certeza aquela seria uma noite mal dormida, passaria vez ou outra na porta do quarto dela aquela madrugada, ele sabia que o faria. Porém mal havia cruzado o corredor que separava a ala dos dormitórios femininos dos masculinos quando ouvira a voz dela novamente:
— Ernesto! — chamou agitada, ele virou-se e a viu se esgueirando pelo corredor. — Volte aqui!
Ele revirou os olhos, mas obedeceu. Adentraram novamente no quarto.
Ela suspirou derrotada.
— Por favor, não me deixe dormir sozinha!
Ele suspirou, aparentemente cansado, tentando ignorar o solavanco no peito e o arrepio que lhe perpassou na espinha.
— Senhorita Ema, o que sugere? — perguntou-lhe impaciente.
— Ora... Podemos... Podemos forrar alguns dos cobertores que o senhor trouxe no chão, ou... ou mais precisamente... Ah, sim — ela não parava quieta, gesticulando com as mãos enquanto tentava expressar-se. — O senhor pode trazer seu colchão de seu quarto e depomos aqui, — ela indicou o espaço no chão ao lado da cama — Tudo resolvido! — concluiu sorrindo.
— Ah, a senhorita espera que eu durma no chão frio, sem aquecedor?
Ela não tinha mais argumentos.
— Ora facilite as coisas, por favor! — pediu exasperada, já estava nervosa com tal situação e Ernesto definitivamente não estava ajudando. — Colocamos os outros cobertores que trouxe e com certeza ficará aquecido.
Ernesto suspirou novamente.
— Onde fui amarrar meu burro?! — murmurou, enquanto vencido, saia do quarto mais uma vez, dessa vez atrás de seu colchão.
Seria uma longa noite...
Arrumaram a cama dele, mais precisamente, ele a fez arrumar enquanto apenas observava seu trabalho com ar petulante, uma maçã brincando preguiçosamente nas mãos. Volta e meia Ema bufava, e revirava os olhos, mas não reclamou.
— Aí está! — disse ela quando terminou. Levantou-se do chão examinando seu trabalho. Realmente o colchão estava mais grosso que o normal pela quantidade de cobertores que ela disponha sobre ele. — Deve está mais macio que a minha cama!
— Quer trocar? — perguntou, dando uma mordida grande na fruta em sua mão.
— O senhor pode parar de ser torpe, e senti-se feliz por está fazendo um favor?! — reclamou ela.
— Ora que dádiva! — ele lhe fez uma reverencia. — agradeço-lhe imensamente a honra, vossa alteza.
Ela estreitou os olhos.
— Pois bem, então... Boa noite! — disse por fim, descalçou as sandálias, afastou as cobertas e deitou-se. Embrenhando-se para baixo dos lençóis.
Ernesto suspirou, largou o resto do seu lanche em qualquer lugar, e despiu a camisa, ficando apenas com a regata, porém o ar realmente era frio, tornou a vesti-la, apagou a luz e deitou-se, enrolando-se também nas cobertas.
Minutos passaram-se...
O colchão dele ficara do oposto lado em que ela dormia, porém Ema que se atinha propositalmente inquieta, rolou na cama, e por baixo das cobertas levantou uma fresta e mirou-o. O quarto era iluminado pela luz da vela da mesa de cabeceira, mas ainda sim ela podia ver a sua forma, tomar praticamente todo o colchão ao lado de sua cama. Pensou por um momento que talvez estivesse sendo egoísta e que ele não merecia o chão duro e frio. Porém ante todos os despudores que lhe lançara essa noite, chegou a conclusão que ele era casca grossa demais e resistiria. Adormeceu assim, observando seu contorno.
Porém tinha seu sono leve, despertou com os dedos dos pés formigando. O frio tinha aumentado na madrugada. Os cobertores que Ernesto trouxera não estava sendo suficiente, até porque os teve que dividir com ele. Lembrou-se de Ernesto no chão do quarto. Debruçou-se na cama e o viu, ainda dormindo, porém inquieto. E quando pôs o rosto para fora das cobertas, sentiu que realmente fazia muito frio.
Bendito aquecedor, tinha que dar defeito justamente hoje?!
Ernesto continuava inquieto e isso o fazia descobrir-se mais. Ema levantou-se, enrolada num dos próprios cobertores e abaixou-se ao seu lado. Puxou as cobertas dele, que já lhe estavam na cintura, para cima e sem querer tocou-lhe o ombro. Ele realmente estava gelado. Sentia, mesmo por cima do tecido da camisa. O que faria? Pensou enquanto assaltou sobre ela o cheiro morno dele, inebriante. Ela perguntou-se como era possível. Ernesto tremia de frio e, no entanto seu cheiro era aconchegantemente quente. Se deu conta do próprio frio, e pensou com calor no peito como seria abrasador a sensação de encolher-se no abraço dele.
Pensou em acordá-lo e pedir para que ele fosse para cama. Mas, com que cara faria isso, pelos céus?! Tão pouco poderia deixá-lo morrer de frio. Tão pouco podia suicidar-se de frio. Ele respirou fundo, espirando seu hálito no braço dela que ainda segurava a coberta dele em seu ombro, Ema arrepiou-se. O calor de repente aquecendo seus sentidos. Ela fechou os olhos simplesmente não acreditando no que fazia, e delicadamente enfiou-se debaixo das cobertas dele. Aconchegando-se em seu corpo, que por baixo do lençol estava realmente quente, rezando para que ele não acordasse. Quando conseguiu, ficou imóvel esperando ele inconscientemente molda-se em seu corpo, e encaixou perfeitamente. Ela sentiu o ventre vibrar. E ali ficou, de costas para ele, sentindo-o respirar em sua nuca, simplesmente assim, a aquecendo. Não se deu conta quando caíra na inconsciência dos sonhos.
O cheiro doce era entorpecente, uma espécie de calmante. Ernesto estava acostumado a sentir e até a sonhar com ele, então não estranhou. O único que o fez aperceber-se de que algo estava fora do comum foi quando seu braço, abraçou uma cintura. Quase pulou da cama, por um momento pensando que tinha abraçado Camilo, seu antigo colega de colchão, mas Camilo estava casado e não teria aquele delicioso cheiro frutal. Aquele cheiro ele bem conhecia, e era dos cabelos de Ema. Cabelos esses que agora brincava em sua face. Ernesto abriu os olhos e realmente pensou que estivesse sonhado, pois encontrava-se deitado e abraçado a Ema. A consciência lhe veio atingindo lentamente: Seria possível? A baronesinha saíra de sua cama e se aconchegara a ele durante a noite fria? Não moveu-se, teve medo de acordá-la e mais ainda teve medo de se acordar caso aquilo fosse um sonho.
Passado alguns minutos de consciência, ele finalmente se deu conta, não era um sonho, e por mais aconchegante e cômodo que estivesse para ele aquela situação, não podia deixá-la dormir no chão. Não naquele frio. Ernesto odiou seu bom senso naquele momento, mas teve de atendê-lo. Com movimentos menos bruscos possíveis, afastou-se dela e ajoelhou-se. Ela remexeu-se com a falta de contato. Ernesto sorriu do bico que ela fazia enquanto dormia, e tão corada como estava parecia uma criança emburrada. Depois, com todo cuidado a suspendeu nos braços, ela de pronto agarrou o seu pescoço. Aconchegando o rosto ali. Ernesto divagou se seu cheiro era tão acolhedor para ela quando era o dela para ele. Expulsou tal pensamento de sua mente. Não podia sonhar tão ousadamente assim, por certo não faria bem ao seu coração. Levantou-se com toda destreza e equilíbrio que tinha, e a depositou na cama. Com todo pesar, soltou-lhe os braços de seu pescoço, a ajeitando confortavelmente nos travesseiros, já ia afastar-se para cobri-la quando a sentiu segurar seu pulso.
Ema tinha os olhos semi abertos.
— Não me deixe! — pediu baixinho.
— Baronesinha, eu ...
— Estou com frio. — os lábios formando o delicado bico que ele amava. — Lá em baixo estava mais confortável, então... fique comigo. — ele a sentiu puxá-lo.
Sua resistência a ela tinha limite.
— Prometa que não me acertará a sombrinha amanhã de manhã!
Ela lhe deu um meio sorriso.
— Prometo.
Então ele cedeu, deitou-se ao lado dela a acolhendo novamente em seus braços. E assim completamente aquecidos e abraçados um no outro logo adormeceram. E nunca dormiram tão bem em toda vida.
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