Notas iniciais
Como eu prometi, estou aqui com um novo capítulo. Essa semana tiveram 2 capítulos, ein? Espero ser recompensando com vários comentários. Boa leitura!

Como explicar a importância de uma noite de sexta para o jovem universitário? Após cinco dias de sofrimento, aquela noite era o início de um momento mágico, mas que não se enganem, acaba muito rápido. É como o tempo que é dado a Cinderela para aproveitar o baile e dançar com o príncipe. Meia noite para nós era a chegada da segunda.

Aliás, essa referência à Cinderela funciona em vários níveis. Assim como ela é tratada como escrava pela madrasta e irmãs, nós somos escravos dos professores, que com certeza não nos vêem como simples humanos que tem uma vida fora da universidade.

Toda introdução já deve ter te alertado sobre o que se trata tudo isso. Noite de sexta, momento Cinderela. Rolê com os amigos é que chama, né? Bom, nos últimos rolês fomos para um bar normal, um bar karaokê e uma calourada na própria universidade. Hoje, estávamos indo para uma festa especial que só ocorria uma vez a cada três meses.

DnceBeats era o rolê da vez e tinha a fama de lotar a boate onde era ministrada. Basicamente era um encontro de todos os LGBT’s da cidade num só local e você sempre acabava beijando alguém que já beijou alguém que você beijou na última vez em que esteve lá. Confuso, né?

Numa noite cheia de possibilidades, eu não tinha muito lá o que comemorar. Então, claramente minha motivação ali era outra: esquecer os problemas. E isso inclui bebida, dança e muitas bocas. Só para relembrar tudo o que quero esquecer: tirei uma nota baixa; Felipe anda estranho comigo; essa tem relação com a anterior, estou com raiva do Ari e pretendo ignorá-lo a noite toda.

Enfim, conseguimos entrar no espaço. O squad está completo: Alice, Micaela, John, Matias e Felipe. Era tão estranho pensar em como nos tornamos tão amigos, mesmo sendo de cursos tão distintos. Alice fazia Publicidade, Micaela fazia Engenharia Agrícola, John fazia Ciências Sociais e Matias fazia Ciências da Computação. Talvez em algum outro momento eu conte como nos tornamos amigos, mas isso não é pra agora.

— Eu sempre me arrependo quando chego aqui. – diz Alice. Ela era a reclamona do rolê. – Não tem espaço nem para respirar.

Realmente o lugar estava sempre lotado e não adiantava todas as reclamações nas páginas da boate. Todos os shows que eram feitos ali era a mesma coisa. Isso até já deu problema antes, mas deram um jeito de calar. E mais, essa é a maior boate voltada para o público LGBT’s da cidade e não há muitas opções.

— Tão cheia e mesmo assim não vou encontrar um hétero no meio. – reclama Micaela.

— Eu já disse para você que apenas os bissexuais sobreviverão no futuro. – diz John.

— É mesmo, John? – questiono com deboche. – Então hoje te veremos pegando mulheres pra provar sua bissexualidade?

— Não mesmo. Felizmente, eu não estarei nesse futuro. Continuarei apenas gay até a morte.

— Nós vamos ficar parados aqui ou? – pergunta Felipe e vejo Micaela revirar os olhos.

— Esqueci de como você fica chato quando briga com o Bem. – diz ela.

— Nós não estamos brigados. – falo.

— Ah, tá bom. – responde Alice. – Mas concordo com o Lipe. Vamos sair daqui.

Andamos entre a agitada multidão já cheia de gente bêbada. Eu só queria ser uma daquelas pessoas e se tudo der certo, serei. Juntamos dinheiro e compramos algumas bebidas. Abençoado seja o vinho. Vodka superestimada e cerveja vai pro inferno.

Infelizmente, Micaela derramou o copo pela metade de cerveja na minha blusa florida. Ah, honey, não! Ela pediu desculpas e perguntou se eu estava chateado, mas eu neguei. Não ia fazer um show por conta disso. Mas que eu estava odiando aquele cheiro na minha blusa? Ah, demais!

Então eu já viro logo uns dois copos de vinho e tomo um pouco de cada bebida que compramos, algumas misturadas. Quando senti que já estava um pouquinho tonto e começava a suar, me meti no meio da multidão e comecei a dançar. Era uma dança com significado, onde eu ficava olhando ao meu redor e usando meu radar para decidir quem eu queria beijar aquela noite.

Alguns rostos já conhecia por interações nas redes sociais. Outros eu já tinha ficado e hoje a minha regra do 3 não valeria. Desculpe, às vezes eu esqueço que vocês me conhecem há pouco tempo. Minha regra dos três diz que eu só posso ficar com uma mesma pessoas até 3 vezes. Mais que isso é sinal de perigo de relacionamento, coisa da qual estou fugindo.

Então veio o primeiro, Bruno. Beijava com força, o que eu gostava quando era na medida e não era o caso aqui. Ele mordia os meus lábios a todo momento e isso me broxou.

O segundo, Douglas. Esse era tão bonito que às vezes eu afastava o seu rosto apenas pra olhar praquela carinha. Definitivamente irei usar minha regra do 3 com ele.

O terceiro tinha uma coisa que me conquistava: a pegada. Hélder me deixou louquinho em pouco tempo e eu estava quase quebrando outra regra minha. Essa outra regra era a de não transar naquela boate. Já ouvi muitos relatos de conhecidos e até amigos que transaram lá, mas eu dispenso a experiência.

Hélder, pelo visto, não pensava da mesma forma, pois estava tentando me arrastar pra algum lugar. Como eu já tava com ela a mais tempo que tinha ficado com os outros dois anteriores juntos, decidi que era outra de partir pra outro.

E assim foram James, Carlos, Manoel e uns dois que eu não lembro o nome porque já estava no estado mais próximo de dar PT. Em um momento estava me sentindo mal, como se eu fosse desmaiar. Tentei me afastar daquelas pessoas que emanavam calor e agora parecia que estava num pesadelo.

Por que eu não aprendo? Sempre acabo nessas situações quando exagero e o pior é quando eu acordar com a pior das ressacas. Umas duas meninas me param ao ver o meu estado e falam alguma coisa que minha cabeça não consegue raciocinar. Uma delas me faz beber uma garrafinha de água. Isso me faz me sentir um pouco melhor.

Fecho os olhos por um momento e quando abro estou de frente para Alice que me olha preocupada. Ela me abraça de lado e anda comigo até algum lugar. Logo vejo Micaela, próxima ao bar e com uma expressão de tédio no rosto que muda para uma de preocupação ao me ver. Será que eu estava tão mal assim?

— Meu Deus, viado. Olha o seu estado! – diz ela e eu dou risada mesmo não tendo sido engraçado.

— Ele não pode mais ficar aqui. Acho que vou com ele pra casa.

— Cadê o Felipe? Ele sempre cuida do Ben nessas situações.

— Não chamem o Felipe. – reclamo e percebo com a minha voz está arrastada. – Não quero que chamem ele.

Tudo o que não preciso é do Lipe com mais raiva de mim e me dando bronca.

— ARI! – Manuela grita perto do meu ouvido e eu tive vontade de empurrá-la no chão. Minha cabeça certamente não aguentaria outro grito desses. – Você tá de carro? – Vejo Ari se aproximar. Era justamente a pessoa que não queria ver naquele momento.

— Sim. Por que?

— Desculpa te pedir isso, mas o Ben está passando mal e eu pensei se talvez você pudesse levar ele pra casa.

— Não! Não preciso que me levem pra casa, mamães.

— Pode ser. Eu já estava indo de qualquer maneira e a casa dele é caminho da minha.

— Ué. Pensei que você morasse longe do bairro da faculdade. Por isso, ia de carro. – ouço Micaela falar.

— É, mas eu não vou dormir em casa hoje e sim na casa de um amigo.

— Uhum.

— Muita obrigada, Ari. E desculpa por incomodar.

— Imagina. E aí. – Ari segura no meu ombro e eu olho para ele. – Podemos ir?

— Não quero.

— Achei que tivéssemos resolvido aquela história.

Eu não estava em condições de discutir naquele momento. Até porque não conseguiria formular um argumento direito e isso podia me fazer perder a discussão, sendo que claramente eu era o certo ali.

Mas eu já tinha esmagado a minha reputação naquela noite, então fiz o mesmo com o meu orgulho e aceitei a carona de Ari. As meninas me abraçaram e disseram para eu mandar mensagem quando acordasse amanhã – que no caso é hoje, pois já havia passado de 00h.

Ari segurou minha mão e me arrastou para fora daquela boate. A mão dele colada a minha me fez sentir um calafrio pelo corpo. Eu definitivamente não deveria ter aceitado aquela carona. Será que ele estava pensando que isso era um sinal de que eu estava querendo ficar com ele?

Eu acabei pegando no sono no carro de Ari. Acordei com ele me chamando e me balançando com cuidado. Quando abri os olhos e me situei, já estava na porta da minha casa. Me perguntei como ele sabia onde era, mas óbvio que ele já devia ter vindo aqui antes. Qual dos meus amigos não veio?

Não me orgulho disso, mas tive que me apoiar nele para sair do carro. Fiquei um tempo olhando para a porta sem saber o que fazer. Eu realmente não estava bem. Quando me dei conta de que precisava abri-la, passei a revirar os bolsos da minha calça preta à procura das chaves. E eu não conseguia acertar a chave no buraco da fechadura.

Ari pegou a chave da minha mão e perguntou qual era a da porta. Eu apontei e ele em um instante abriu a porta. Entramos e ele fechou a porta e correu para ficar ao meu lado.

— Vamos pra cozinha. Eu vou pegar água pra você.

— Como você sabia onde era minha casa?

— Não se lembra de quando deu um festa aqui? Os seus colegas de quarto não gostaram muito. – eu ri, mas na verdade eu não lembrava.

Fomos para a cozinha e Ari me fez sentar numa cadeira enquanto pegava um copo e abria a geladeira. Ele encheu o copo com água e me entregou. Eu bebi forçadamente e olhei para ele. Definitivamente era compreensível porque Felipe não conseguia esquecê-lo. Ari era muito lindo. A pele bronzeada, o cabelo perfeito, um pouco ondulado e escuro. Os olhos castanhos e a boca um pouco grande, mas rosada.

— Eu vou te deixar na sua cama agora. Ou devo te colocar no chuveiro?

— Cama. – respondi em algum tipo de transa (transe*).

Suas mãos me ajudaram a levantar. A mão novamente, que antes me fez suar frio. Andamos até o meu quarto e ele estava me encaminhando até a minha cama, mas eu girei meu braços pelo pescoço dele.

Era um daqueles momentos em que você em perfeito estado não faria o que estava prestes a fazer. Mas havia alguma coisa dentro de ti, incentivando a fazer aquilo. Porque se não fizesse naquele momento, nunca mais faria. E eu vou culpar qualquer outra coisa sim, porque não quero me responsabilizar por isso. Não agora.

Sem perceber, eu estava na ponta dos meus pés e alcancei aquela boca. E galera, eu poderia esquecer muita coisa sobre aquela noite, mas eu não me esqueceria daquele beijo. Mas não foi apenas um beijo. Foi ficando cada vez mais quente e mais rápido e quando percebi já tentava tirar a roupa dele e a minha também.

— Não acho que devemos fazer isso. Não no estado em que você tá. – disse ele, me fazendo bufar.

— Eu quero, Ari. Por favor. – entenda, essa é a minha única chance de fazer isso, porque isso nunca vai acontecer novamente.

Ele começou a tirar suas roupas. Eu comecei a tirar as minhas. Ele começou a beijar o meu corpo. Eu gemia no seu ouvido. Ele descia beijos pelo meu corpo inteiro e parou nas minhas pernas. Eu agarrei seus cabelos e puxei um pouco.

Nós dois, transando no meu quarto. Eu nem conseguia me importar se estávamos fazendo barulho. Se os meus colegas de quarto conseguiriam ouvir alguma coisa. Na verdade, eu não me importava com muita coisa naquele momento. Porque tudo conspirava erro naquele ato.

E foi em meio ao seu corpo, aos seus braços, que eu dormi naquela madrugada. E acordei para ter um dos piores dias da minha vida. Vou só resumir uma parte porque vocês ainda saberão de tudo com mais detalhes.

Acordei ouvindo um barulho insistente na minha porta. E depois ouvindo uma voz que jurava fazer parte de algum tipo de alucinação.

— Ben, meu filho! Isso são horas de estar dormindo?

Sim. Essa era a voz da minha mãe.

Notas finais
Pois é, como dito no capítulo anterior, esse capítulo é um ponto de virada da trama. O que vocês acharam? E o que vocês pensam/querem que aconteça? Um beijo e até o próximo!