Ben E O Paraíso
13 Rumos
Notas iniciais
3 meses depois...
Três meses se passaram desde que a mãe do Felipe foi internada. Os primeiros dias foram difíceis para ele e eu ouvi chorar várias vezes. Posso dizer que se algo positivo surgiu disso, foi a nossa reaproximação. As coisas de repente não estavam mais estranhas e era como se tudo tivesse voltado ao normal. Às vezes havia um momento constrangedor, mas não comentávamos sobre. Era meio que um assunto proibido pra que as coisas continuassem em linha.
A verdade é que acho que o Felipe já superou o crush que tinha em mim. Ele nem deve ter tido tempo para pensar nisso por causa da situação da sua mãe. É o que eu prefiro acreditar. Gosto tanto de estar com ele e sua amizade é tão importante pra mim que qualquer coisa que possa ameaçar isso, eu faço de tudo para afastar.
E isso inclui Ari. Digamos que eu ando evitando ele ao máximo. E não é algo difícil, já que ele parece não fazer muita questão da minha presença. É, pra quem dizia que queria tentar algo sério comigo... Mas ele tá certo. Eu o recusei tantas vezes, tem mais é que seguir em frente mesmo. Não nego que fico feliz com isso, mas foi o melhor a se fazer. Não dá pra comparar uma amizade com um possível relacionamento que eu nem sei onde daria.
— Ei, você se importa de perder essa aula? – disse Felipe chegando na sala e me tirando dos meus pensamentos. A aula de hoje era tipo, a mais difícil do período, mas se ele tava me pedindo pra cabular é porque precisava de mim.
— Claro. – peguei minha mochila e coloquei nos ombos já levantando.
— Tudo bem se não quiser perder. Podemos falar depois.
— Ah, fala sério. Eu já saturei dessa aula e um dia só não vai nos fazer reprovar.
Saímos da sala e fomos para uma praça que tem dentro da faculdade. Procuramos um lugar com sombra pra ficar e consideramos deitar na grama, mas eu tinha medo de ser atacado por um animal. Acabamos sentando num banco que pegava a somba de uma árvore.
— Promete que não vai surtar com o que eu vou dizer. – disse Felipe já me deixando receoso.
— O que é?
— Eu vou trancar o curso. – abri a boca, pensei no que falar, não consegui pensar em nada e fechei. Era alguma brincadeira? Não, ele tava com uma expressão séria. E também ele não ia pedir pra faltar aula por uma brincadeira. – Você não vai falar nada.
— O que eu posso falar? Eu não esperava por essa.
— É, eu imaginei que fosse me repreender.
— Claro que eu não quero que você tranque o curso, mas eu vou deixar você se explicar.
— Bom, meu pai decidiu que o melhor pra minha mãe é ficar no povoado onde a gente morava e onde mora parte da nossa família. Ele tomou essa decisão há um tempo e tava ajeitando tudo. De primeria, eu ficaria aqui e continuaria os estudos normalmente, mas pensei melhor e decidi que seria melhor se eu fosse com eles, pelo menos por um tempo. Esse tempo em que minha mãe esteve internada, eu mal tive tempo de dar a atenção que ela merecia com o estágio e a faculdade. Eu quero estar com ela agora que ela vai sair da clínica, cuidar dela sabe? Sinto que vai me fazer bem.
— Uau, você é a melhor pessoa que eu conheço.
— Ah, ela é minha mãe. E não vai ser um sacrifício cuidar dela. Vou apenas retribuir um pouco do que ela fez comigo.
— Então você vai voltar?
— Vou sim. Ainda não sei quando, mas pretendo terminar o curso, sim. Não há outra coisa que me imagino fazendo. Isso não é tudo.
— Tem mais? Porque eu tô quase chorando já.
— Pois espera um pouco. Falei com o meu chefe do estágio, avisando que ia deixar o estágio. Expliquei toda a situação e ele foi super legal comigo e me pediu uma indicação de um colega pra substituir a minha vaga. Eu falei de você.
— Você... Meu Deus! – coloquei a mão na boca. – Eu não acredito, Felipe!
— Trate de acreditar porque ele quer conversar contigo amanhã. – abracei Felipe o mais forte que eu consegui. Ficamos assim por um tempo, mais que o normal. Provavelmente quem passava por nós, não entendia, mas só quem precisava entender éramos nós.
— Eu não quero que você vá.
— Não é para sempre. E eu ainda posso aparecer de vez em quando pra fazermos algo. Não é como se eu fosse me tornar incomunicável. Ainda vamos poder conversar de madrugada, falando mal de alguém da sala.
— Você foi a melhor pessoa que eu conheci nesse lugar. Como eu vou suportar tudo isso sem ti?
— Não faça tanto drama, Ben! E se prepare, porque estagiar e fazer faculdade é muito difícil. E meu ex-chefe confiou em mim pra fazer a indicação. Você tem que arrasar ou eu não poderei nem pedir um emprego efetivo à ele no futuro.
— Eu serei o melhor possível pra honrar o seu legado. Quando é que você se muda?
— No sábado.
— Então precisamos sair na sexta. Eu não vou abrir mão da despedida.
— Você vai me fazer virar a noite e fazer uma mudança na sábado? Sério?
— Vai ser divertido. Faz muito tempo que você não sai. Tenho certeza que tem algumas bocas pra se despedir.
— Tudo bem, eu vou. Preciso aproveitar porque lá no interior não tem nada disso. Não imagina o quanto eu vou sentir falta.
— Amo. Vou marcar com o pessoal, a gente pode fazer um esquenta na minha casa.
Na sexta, eu senti como se nada tivesse mudado. Todo o squad juntos novamente em um esquenta e depois fazemos todas as loucuras possíveis em algum bar karaokê ou boate. Mas infelizmente tudo mudaria após hoje, pois não sabíamos a próxima vez que sairíamos com o Felipe.
— Dizem que nos interiores é onde mais tem gay no armário. – comentou Micaela. – Quem sabe você arranje um príncipe por lá e vocês vivam uma história de amor às escondidas.
— É 2018, Micaela. Amor às escondidas não é romântico. É na verdade preocupante que duas pessoas ainda tenham que esconder que se amam.
— Tá bom Alice. Você sempre me cortando com as suas militâncias.
— Vocês não vão começar a brigar, né? Deixem isso pra outro dia. – eu disse aparecendo na sala com um liquidificador com caipirinha. – Quem quer um gole?
— Não acredito que já vamos chegar bêbados no rolê. – comentou John.
— E é assim que economizamos uma grana. – disse Matias.
— Realmente. As bebidas daquele lugar são muito caras. – falou Felipe.
— Precisamos aproveitar ao máximo essa noite. Pelo Felipe! – levantei a minha taça e todos fizeram um mesmo, compartilhando um brinde.
— Eu quero falar um pouco. – disse Felipe.
— Ai meu Deus, já sei que vou chorar.
— Calma, Micaela. Não achou que eu ia partir sem dizer algo bem sentimental pra vocês, né? Vamos começar pela Micaela, porque ela vai chorar durante o tempo em que eu falar de qualquer jeito. Bom, eu adoro a sua espontaneidade e como você consegue alegrar qualquer lugar. Eu com certeza vou sentir muita falta de você ver você humilhando algum macho otário em todo lugar possível que a gente vai. Alice, eu adoro como você sempre me apoia em todos os assuntos possíveis e como você faz a conversa mais idiota do mundo ser um estudo de antropologia. John, eu adoro quando fazemos alguma besteira em público e você fica envergonhado e nós começamos a rir sem parar e adoro como sempre me arranja os meninos mais lindos pra dar uns beijos. Matias, eu adoro que sempre que quero sair do rolê cedo, você me leva pra casa de moto. E também, você sempre tem um pouco de maconha pra quando a gente precisa relaxar um pouco e o apelido do seu fornecedor é o melhor possível.
— Isso foi forte! – falou Micaela que se acabava de chorar e todos abraçaram Felipe.
— Eu não vou ganhar nem uma menção especial? – perguntei um pouco chateado.
— Mais tarde. Agora, vamos? Já vai dar onze.
— Vamos lá! – eu disse sem muita animação.
Queria saber o que Felipe falaria pra mim. Eu era ansioso, odiava ter que esperar pra alguma coisa. O que poderia ser?
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