Ben E O Paraíso

12 Companheiro


Notas iniciais
Desculpa, desculpa, desculpa! Eu sei que demorei quase um mês pra postar capítulo novo, mas é que eu não estava com cabeça pra escrever. Aconteceram muitas coisas e meu tempo acabou indo para outras atividades. Mas estou de volta e se eu prometi em algum momento que o drama iria dar uma pausa, não será nesse capítulo que isso irá acontecer. Boa leitura, amadxs!

"Preciso falar com você" — Enviada às 19:31.

"Onde você tá?" — Enviada às 19:35.

"Deixa pra lá!" — Enviada às 19:48.

Essas foram as três mensagens que Felipe havia me mandado enquanto meu celular estava descarregado. Eu as respondi assim que li, mas ele não chegou a visualizar. Liguei duas vezes para ele, que não atendeu.

Eu estava muito preocupado. O que faria Felipe me mandar misteriosas mensagens diante do estado na nossa amizade. Talvez fosse sobre isso que ele quis falar. Talvez ele tenha se arrependido de não ter aparecido em minha festa surpresa (Micaela e Alice me garantiram que ele foi convidado) e está tentando acertar de vez as coisas entre a gente.

Mas algo estava apertado em meu coração. Se eu fosse da geração da minha mãe ou da minha avó, provavelmente diria que se tratava de um mal pressentimento.

A ansiedade e a curiosidade me impediram de ter uma noite boa de sono. Acordei às 08h e resolvi ligar para Felipe. A essa hora ele estaria no estágio. Precisava saber o que ele tinha pra falar.

— Alô? – falei assim que vi que ele havia atendido.

Oi, Ben!

— Que bom que atendeu. Eu fiquei preocupado com as mensagens que você me mandou ontem. Desculpa ter demorado a responder, meu celular tava descarragado e eu só fui ver um tempo depois.

Não tem problema.

— Não tem mesmo? Você falou que precisa conversar comigo. Acha melhor esperar até a hora da aula?

Na verdade, não vou pra aula hoje. Aconteceu uma coisa.

— Que coisa? Você não tá com uma voz boa, Felipe. Por favor, me conta o que aconteceu.

É a minha mãe. Ela surtou ontem e meu pai trouxe ela pra uma clínica. Acho que ela vai ficar internada um tempo.

— E você tá onde agora?

Na clínica. Isso aconteceu logo depois que eu cheguei da faculdade. Quando mandei aquelas mensagens, eu já tava aqui esperando ela ser atendida. Depois fui pra casa e acabei dormindo, por isso não vi quando você ligou ontem.

— Você quer que eu vá até aí?

Não, não precisa.

— Claro que precisa, Felipe. Você precisa de alguém pra te apoiar. Vamos esquecer por um momento esse bloqueio entre nós. Eu só quero ser seu amigo e estar aí por você.

Tem certeza que não precisa fazer algo? Não sei quanto tempo vou ficar aqui.

— Tenho sim. Me manda o endereço da clínica e eu tô indo.

Okay. Te vejo mais tarde, então!

Tomei um rápido banho e vesti um camisa cinza e calça jeans. Calcei meu tênis, ajeitei o meu cabelo o mais rápido que consegui para ficar ao menos decente e esperei dois minutos até o Uber chegar.

Durante o trajeto, eu só conseguia pensar em como eu tenho sido um péssimo amigo pro Felipe. Provavelmente, as coisas na casa dele não estão indo bem há algum tempo e eu não estava por dentro porque ele não sentia confiança em mim para contar. Eu sabia que a relação dele com os pais era um pouco danificada por eles serem muito religiosos e tentarem impor uma vida ao Felipe totalmente diferente da que ele quer seguir.

Felipe também havia comentado uma vez que sua mãe tinha depressão e foi uma época muito difícil e traumática pra família. Ela deve ter tido uma recaída e por isso está na clínica.

Eu deveria estar lá, estar presente pelo meu melhor amigo num momento em que ele certamente precisou de um ombro, de um companheiro. Mas não, estava pensando apenas em mim e nesse meu drama com o Ari. Drama que eu deveria ter cortado pela raiz desde o início.

Não importa se eu estou apaixonado ou o quanto eu tenha vontade de tentar algo. Preciso esquecer Ari e colocar minha amizade com o Felipe em primeiro lugar. Não dá pra comparar um amigo com um garoto, não nessa época da minha vida.

Chega de ser egoísta! Eu deixei de comemorar meu aniversário com Felipe por causa disso. Fui longe demais por esse capricho, essa loucura que é o Ari e eu. Nós já estávamos fadados desde o início a dar errado. O que me fez pensar que isso poderia render algo bom? Eu estraguei tudo com os dois e eu só posso escolher um deles pra consertar as coisas.

O carro parou em frente a clínica. Já imaginava meus pais reclamando dos meus gastos com Uber porque o lugar ficava do outro lado da cidade. Quando entrei no lugar, avistei Felipe sentado em um banco que ficava embaixo de uma árvore. Fui até ele e fiquei em pé, esperando que ele se levantasse para que eu o abrassasse.

Acho que ele hesitou um momento quando me viu, mas logo ficamos frente a frente e eu o puxei para aquele gesto de carinho. Eu queria transmitir o meu apoio por meio daquele abraço. Era um silencioso dizer de que eu estava ali para quando ele precisasse e não o deixaria sozinho.

Após nosso momento, nos sentamos no banco e viramos um de frente para o outro. Felipe estava abatido, parecia frágil.

— Você não precisa falar nada sobre o que aconteceu se não quiser. Podemos falar sobre algum outro assunto ou ficar em silêncio.

— Eu tenho sido um babaca com você, não é?

— Não, claro que não. Eu penso exatamente o contrário. A culpa da gente ter se afastado foi na maior parte minha.

— Ai, não tô com cabeça pra pensar a porcentagem de culpa que nós temos nisso.

— Tem razão. Deveríamos falar sobre algo mais simples.

— Vou te contar o que aconteceu.

— Pode ser também. – eu estava nervoso. Não sabia como reagir. Não sabia se precisava dizer algo que melhorasse as coisas pelo menos um pouco. E se eu precisasse, o que diria? Eu sou tão ruim em dar conselhos ou consolar alguém quando as coisas ficam ruins.

— Minha mãe vem andado um pouco alterada nas últimas semanas. Eu não imaginei que isso era um sinal de que a depressão estava voltando. Ouvi algumas brigas entre ela e meu pai sobre ela não estar tomando os remédios. Eu também tenho andado de mal humor nos últimos dias e acabei sendo ignorante com ela algumas vezes. Eu só queria ter uma mãe normal, sabe? Uma que me aceitasse do jeito que eu sou. Uma mãe com quem eu pudesse desabafar e conversar sobre os meus problemas. Mas eu não sinto confiança nem pra contar que gosto de garotos e não de garotas. E me irrita o jeito em que ela acredita cegamente na religião, mesmo se tratando de coisas absurdas. Quando cheguei em casa ontem, meu pai e ela estavam discutindo. Ela pegou uma faca, das que a gente usa pra comer, e se trancou no quarto deles. Nós ficamos desesperados, eu pensei no pior, pensei que ela ia acabar fazendo aquilo. Foi horrível e ela ficou uns cinco minutos naquele quarto, mas depois a porta e meu pai decidiu trazê-la pra cá. Eu não sei se ela vai ficar, porém o meu pai disse que quer deixá-la internada.

— Eu sinto tanto por isso, amigo. Não consigo imaginar o medo que você sentiu. Queria tanto ter estado com você durante a noite. Me desculpa, de verdade!

— Isso já não importa mais.

— E o que você tá sentindo agora?

— Eu não sei ao certo. É um pouco confuso pra mim. Eu quero que ela fique internada se é o melhor pra ela no momento, mas e se não for? Eu apenas não tava pronto pra passar por isso de novo.

— Acho que não tem como ficar pronto pra isso. Você é muito forte, sabia? A depressão não é algo que machuca apenas quem está sofrendo com isso, mas também quem está ao redor. Eu espero que sua mãe consiga passar por isso, ela já conseguiu antes, lembra? Ela também é uma pessoa muito forte. – dei um outro abraço em Felipe. Se minhas palavras não foram suficiente, esperava que meu abraço tivesse tirado um pouco de sua dor.

— Quem é você? – uma outra voz pairou em cima de nós e Felipe rapidamente se afastou de mim. Eu olhei para aquele homem sem entender.

— Pai, esse é meu colega de faculdade, Benjamin.

— E o que ele faz aqui?

— Eu vim para dar um apoio ao Lipe. – me levantei e estendi a mão. – Prazer!

Nunca havia visto se quer uma foto do pai do Lipe, ele não costumava mostrar fotos em família e também não havia em suas redes sociais. Mas eu sabia que o nome dele era Aelson. O homem pareceu hesitante, mas acabou segurando minha mão num cumprimento sem vontade.

— Você contou pra mais alguém da sua mãe? – perguntou o homem pra Felipe com um tom me fez engolir a seco.

— Não, só pro Benjamin.

— Eu vou ver como sua mãe está. Vigie!

— O que ele quis dizer com vigie? – perguntei assim que o pai do Lipe tinha se afastado.

— É tipo um vigie suas atitudes. Ele não gostou nada de nos ver abraçados.

— Eu percebi. Pensei que ele me daria um murro. – dei uma risada nervosa. – Desculpa! Não deveria fazer piada com isso, né?

— Não, só eu posso. Também achei que ele fosse fazer isso.

— Mas então, você vai contar pro pessoal sobre sua mãe?

— Não, melhor não.

— Por que? Eu tenho certeza que eles te apoiariam igual. Você sabe que eles nunca fariam alguma brincadeira com isso.

— Acho melhor assim, okay?

— Claro, você que tem que decidir! Como está indo no estágio?

— É mais difícil do que pensei. Não tô sabendo conciliar muito bem o estágio com os estudos. Capaz de eu acabar perdendo matéria esse período.

— Não fala isso. Você é quem me dá esperança nesse curso. Se até você não está conseguindo fazer os dois, imagina comigo? Acho que não vou estagiar nunca.

— Deixa de besteira. Você é mais inteligente que eu. Só não estuda tanto quanto eu estudo. Estudava, no caso.

— Agradeço pelo elogio, mas não concordo. Tem estado interessado em algum garoto?

— Tirando você? – provavelmente fiquei vermelho em instantes. Felipe começou a rir e eu não entendi o motivo. – Sua reação foi impagável.

— Espera, você fez isso de propósito pra me ver sem graça?

— Talvez. Você ainda não sabe lidar com isso, né?

— Não. Eu fico repassando na minha cabeça quantas vezes eu devo ter te magoado quando falava sobre algum garoto ou até mesmo ficava com alguém na sua frente.

— Não faça isso. A culpa não é sua. Você não tinha como saber.

— Aparentemente todo mundo sabia, menos eu.

— Continua não sendo sua culpa. Eu nunca cheguei pra ti e contei a verdade. Fui um covarde durante muito tempo.

— Você continua gostando de mim?

— Não tive muito tempo pra te esquecer completamente. Mas também não tive muito tempo pra pensar em você. Estou no caminho pra superar isso.

— Então eu devo continuar longe de ti pra não estragar seu processo de superação.

— Acho que sim. Eu não gosto disso. Não me sinto bem vendo você todo dia e não sendo seu amigo. Eu poderia tentar te superar enquanto somos amigos mesmo.

— Não é fácil pra mim também. Você não é qualquer amigo. É o meu melhor amigo.

— Não tente me fazer chorar. Não estou em uma boa posição, se começar a chorar posso não conseguir parar.

— Tudo bem, tudo bem. Seja qual for sua decisão, eu vou respeitá-la.

— E você? Ficando com algum garoto?

— Quer mesmo falar sobre isso?

— Sei lá, talvez ajude. Saber que você já tem alguém, sabe?

— Eu não tenho. Estava enrolado em algo, mas percebi que não vai pra frente.

— Posso te perguntar uma coisa.

— Pode.

— Era o Ari, né? – revirei os olhos pela obviedade da pergunta. Eu deveria ter previsto aquilo e dado um jeito de me safar.

— Era.

— Eu sabia que você gostava dele.

— Não é tão simples assim.

— Nunca é.

— Tá bom. Agora vamos falar mal de alguns professores e do pessoal da nossa sala?

— Sempre!

Eram essas conversas simples que as vezes se tornavam a melhor parte do meu dia. Estar ali com Felipe, com certeza não era na melhor das situações, mas mesmo assim era como se nada tivesse acontecido. E por um momento eu senti que tudo voltaria ao normal e que não iria surgir nada pior depois.

Notas finais
Uma amizade é uma amizade né? Vocês imaginam algo mais surgindo disso? Espero que comentem nesse capítulo, ein? Um beijão e até o próximo (dedos cruzados para que não demore outro mês).