Bem-vindos a Heide
1 O Lugar perfeito
Notas iniciais
CAPÍTULO 1: O LUGAR PERFEITO
A chuva de Forks não era apenas um fenômeno meteorológico; era uma sentença de perpetuidade, uma cortina cinzenta e espessa que parecia manter o tempo estagnado entre os pinheiros colossais e o asfalto sempre úmido da Península Olympic. Naquela tarde de 1957, o som das gotas pesadas contra as vidraças da casa dos Swan criava uma sinfonia rítmica que Isabella Swan conhecia desde o berço. Aos dezoito anos, Bella carregava a beleza delicada e atemporal das jovens daquela década: a pele de porcelana contrastava com o castanho profundo de seus olhos e a cascata de ondas escuras que Renee, sua mãe, a ajudava a prender com bobs todas as manhãs. Tendo acabado de concluir os estudos na escola local, o destino de Bella parecia traçado pela tradição da época: ela passava os dias entre o aroma de lavanda e o vapor da cozinha, ajudando Renee a manter a casa impecável, cuidando das camisas de linho do xerife Charlie Swan e aprendendo os segredos de um assado perfeito. Não havia o horizonte da faculdade ou de uma carreira; o seu horizonte era o amor, e ele tinha um nome, uma voz aveludada e um perfume de sândalo que a fazia esquecer o frio de Washington.
Enquanto a noite começava a cair, tingindo o céu de um roxo profundo e nebuloso, o som de um motor potente e refinado anunciou a chegada do futuro. Edward Cullen não dirigia apenas um carro; ele pilotava uma promessa de ascensão. Aos vinte e dois anos, o filho do respeitado Dr. Carlisle Cullen possuía uma presença que parecia deslocada da pequena Forks. Ele era alto, de ombros largos e cabelos de um bronze rebelde que ele tentava dominar com brilhantina, seguindo a moda dos jovens cavalheiros de sua geração. Edward trajava um terno de lã escura perfeitamente ajustado, uma gravata de seda fina e um sobretudo que ainda carregava o frescor da chuva. Ao entrar na casa dos Swan, sua postura era a de um homem que carregava o peso de uma decisão monumental, mas cujos olhos, ao encontrarem os de Bella, suavizavam-se em uma adoração quase devocional.
O jantar fora preparado com um cuidado excepcional por Renee e Bella. A mesa estava posta com a melhor prataria, e o aroma de carne assada com alecrim preenchia a sala de jantar. Charlie Swan, sentado à cabeceira em sua farda de xerife impecavelmente engomada, observava o jovem Edward com uma mistura de orgulho e melancolia. Carlisle e Esme Cullen também estavam presentes, formando um quadro da elite local. Esme, a personificação da elegância doméstica, exibia um sorriso doce, embora seus olhos castanhos traíssem uma sombra de preocupação materna enquanto observava o filho. Carlisle, o médico cujas mãos salvaram metade da cidade, mantinha uma expressão serena, mas havia uma tensão sutil na maneira como segurava sua taça.
— Edward, meu rapaz, você tem mantido todos nós em um suspense desnecessário desde que mencionou a ligação daquela empresa italiana — comentou Charlie, sua voz grossa rompendo o silêncio enquanto cortava a carne. — O que os Volturi poderiam querer com um jovem químico de Forks?
Edward pousou os talheres e olhou primeiro para Bella, como se buscasse nela a coragem necessária para proferir as palavras que mudariam tudo. Ele segurou a mão dela por cima da toalha de renda, um gesto audacioso que fez as bochechas de Bella corarem em um tom carmim.
— Eles não querem apenas um químico, senhor Swan. Eles estão recrutando as mentes que eles acreditam que construirão o próximo século — Edward começou, sua voz ganhando uma cadência apaixonada. — Fui aceito no Projeto Heide. É uma iniciativa ultrassecreta no sudoeste, um bairro planejado inteiramente pela corporação Volturi. Eles estão construindo uma comunidade modelo, uma utopia no deserto onde o progresso científico encontra o estilo de vida perfeito.
— No deserto? — Renee interrompeu, sua voz soando estranhamente aguda. Ela parou de servir o purê de batatas, seus olhos fixos no folheto que Edward agora retirava do bolso interno do terno. — Por que esconder o futuro no meio do nada, Edward? Nenhuma empresa oferece casas de luxo e salários astronômicos para jovens recém-formados sem querer algo em troca.
Edward abriu o folheto sobre a mesa. As cores eram vibrantes demais, quase artificiais. Imagens de jardins verdes que pareciam desafiar a aridez do deserto, mulheres com sorrisos de comercial de pasta de dente e crianças brincando sob um sol eterno. O título em letras douradas brilhava sob a luz da sala: BEM-VINDOS A HEIDE — ONDE A PERFEIÇÃO TEM UM PREÇO.
— Eles querem dedicação, Renee. Eles querem que sejamos os pioneiros de uma nova sociedade — Edward explicou, ignorando o tom de aviso da sogra. — Mas há uma condição. O contrato exige que eu me mude imediatamente e que eu seja um homem de família. Eles acreditam que a estabilidade do lar é a base da produtividade. — Ele se virou para Bella, seu olhar queimando com uma intensidade que a fez perder o fôlego. — Bella, eu não posso ir para o futuro sem você. Eu não quero uma casa perfeita se você não estiver lá para torná-la um lar.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Bella sentiu o coração martelar contra as costelas, uma mistura eletrizante de medo do desconhecido e um desejo avassalador de estar ao lado de Edward. Ela olhou para Charlie, que apenas assentiu com a cabeça, vendo naquilo a segurança financeira que ele nunca poderia dar totalmente à filha. Olhou para Carlisle, que mantinha o olhar fixo no folheto, e para Esme, que agora apertava o guardanapo de linho contra o colo.
— Eu aceito, Edward — sussurrou Bella, sua voz firme apesar do tremor em suas mãos. — Eu vou com você para qualquer lugar.
Após o jantar, a tensão da revelação precisava de espaço. Edward e Bella escaparam para a varanda da frente, onde a chuva de Forks caía como uma cortina de isolamento, protegendo-os do mundo interior. O ar estava frio e carregado de umidade, mas o calor que emanava de Edward era o suficiente para manter Bella aquecida. Ele a pressionou contra a madeira da pilastra, suas mãos grandes emoldurando o rosto dela com uma ternura que beirava o desespero.
— Você tem certeza, Bells? — Edward murmurou, seu hálito quente contra os lábios dela. — Será uma vida diferente. Longe de Forks, longe de tudo o que você conhece. Só nós dois contra o mundo naquele deserto.
— Se for com você, Edward, eu não preciso de mais nada — respondeu Bella, fechando os olhos e inclinando-se para o toque dele. — Eu sinto que minha vida só vai começar de verdade quando cruzarmos os portões de Heide.
Edward não esperou por mais palavras. Ele inclinou a cabeça e capturou os lábios dela em um beijo que era uma mistura de promessa e posse. Era um beijo roubado na penumbra da varanda, carregado de uma sensualidade contida que fazia o sangue de Bella ferver. Ele se afastou apenas alguns milímetros, respirando o mesmo ar que ela.
— Eu vou te dar tudo, Bella. Cada grama dessa perfeição que eles prometeram, eu vou colocar aos seus pés — ele jurou, roubando mais um beijo rápido, um selinho estalado que a fez rir baixinho em meio à ansiedade.
Lá dentro, através da janela, Renee observava a silhueta dos dois na escuridão. Ela não via apenas um casal apaixonado; ela via o folheto sobre a mesa, onde a frase "A perfeição tem um preço" parecia brilhar com uma advertência sinistra. Ela sentia em seus ossos que aquele deserto não seria um jardim, mas uma miragem que poderia consumir sua única filha.
— Eles são jovens demais para entender que o sol do deserto não apenas ilumina, Charlie... ele também queima — sussurrou Renee para o marido, mas Charlie já estava brindando com Carlisle ao sucesso de Edward, ignorando as sombras que começavam a se alongar sobre o futuro da família.
A cerimônia de casamento ocorreu sob um céu de chumbo, com a chuva persistente de Forks batendo ritmicamente contra o telhado da pequena capela metodista, como se a própria natureza estivesse tentando protestar contra a partida iminente dos dois jovens. Foi um evento de uma intimidade quase febril, realizado em menos de duas semanas após o anúncio do Projeto Heide, com apenas os pais presentes nos bancos de carvalho polido. Bella Swan, agora Bella Cullen, atravessou o corredor em um vestido de cetim marfim que Renee e ela haviam ajustado às pressas, segurando um pequeno buquê de lírios-do-vale que pareciam pálidos contra a sua pele de porcelana. Edward estava ao lado de Carlisle, com o maxilar travado em uma expressão de determinação absoluta, seus olhos de bronze brilhando com a promessa de um futuro que nenhum outro homem em Forks poderia oferecer à sua esposa. O "sim" de Bella foi um sussurro carregado de uma entrega total, enquanto Edward colocou a aliança de ouro em seu dedo com mãos que, apesar da força habitual, tremiam levemente de pura antecipação.
— Agora você é minha para sempre, Bella — disse Edward, sussurrando contra o ouvido dela após o beijo final da cerimônia, um toque que selava não apenas um casamento, mas um pacto de isolamento em relação a tudo o que eles conheciam.
Os dias que se seguiram foram um borrão de fita adesiva, caixas de papelão e a logística implacável de uma mudança para o outro lado do país. A casa dos Swan, outrora um refúgio de rotinas domésticas e o aroma constante de café, transformou-se em um labirinto de malas que Bella e Renee preenchiam com o enxoval cuidadosamente preparado. Edward passava a maior parte do tempo em reuniões telefônicas com a administração Volturi ou revisando os extensos documentos de segurança que o Projeto Heide exigia, sua mente já habitando as ruas planejadas e os laboratórios modernos do deserto. Cada vez que ele entrava na cozinha para tomar um café rápido, roubava um beijo de Bella, pressionando-a contra o balcão entre pilhas de pratos embrulhados em jornal, como se precisasse reafirmar que aquela transição era real.
— Eu sinto que estou vivendo um sonho, mas a Renee olha para essas malas como se fossem caixões — disse Bella, sussurrando e olhando para Edward com uma sombra de dúvida cruzando seus olhos castanhos enquanto terminava de dobrar um de seus vestidos de verão.
Edward segurou o rosto dela com ambas as mãos, seu polegar acariciando a maçã do rosto de Bella com uma ternura possessiva.
— Sua mãe só tem medo do que não conhece, meu amor — Edward respondeu, sua voz soando como um veludo reconfortante. — Heide é o auge da civilização. Lá, você não terá que se preocupar com a chuva, com a sujeira ou com o tédio. Você terá tudo o que sempre sonhou e muito mais.
A tensão na casa, entretanto, era palpável. Renee movia-se pelos cômodos como uma sombra silenciosa, suas mãos por vezes hesitando ao tocar os pertences da filha. Ela observava Edward com uma desconfiança que não conseguia dissipar, notando como ele parecia ansioso demais para deixar Forks para trás. Charlie, por sua vez, tentava manter a compostura de xerife, mas o silêncio durante as refeições era carregado de uma tristeza profunda pela perda da única filha para um destino que ele mal conseguia visualizar no mapa.
No dia anterior à partida, um caminhão preto e discreto com o selo dourado dos Volturi chegou para recolher os itens pesados. Edward observou o carregamento com um senso de autoridade crescente, enquanto Bella se despedia dos pequenos cantos da casa que a viram crescer. Ela sentia que estava abandonando sua pele de menina para vestir a armadura de uma mulher de Heide. Naquela última noite em Forks, Edward a levou para a varanda uma última vez sob a névoa fria.
— Eu prometo, Bella, que quando você acordar daqui a alguns dias no deserto, você nunca mais vai querer olhar para trás — ele sussurrou, roubando um beijo que sabia a adeus e a um novo começo, enquanto o vento soprava o cheiro dos pinheiros que eles nunca mais veriam da mesma forma.
Fale com o autor