Bem Vindo Ao Mundo Real.
6 Capítulo V: Conversas e Discussões.
Notas iniciais
Socius era um Eohippus, um animal pré-histórico do tamanho de um cão, mas que pertence a família dos cavalos. Eu o tinha desde a minha 8ª vida e... espera! Eu estou me lembrando! Socius significa companheiro em latim, e eu lhe dei esse nome, pois ele era o meu único companheiro. Todos os outros vinham por obrigação, e eu dei a opção ao Eohippus de ir embora várias vezes, mas ele gosta de mim.
– Vejo que se lembra do animal. — Falou 12
– Ele não é um animal, que eu saiba, é muito melhor que muitos... números aqui no céu. — Eu falei olhando para ele. Hesitei ao falar números, mas parecia o modo certo de me dirigir as pessoas pós-morte.
– Sabe, — ele falou depois de uma gargalhada. — ele sentiu muita sua falta. — 12 esticou a mão para acariciar o focinho de Socius que rosnou e se retraiu para mim.
– Não acredito que ele sinta a sua. — Outra gargalhada soôu na sala.
– Não, ele não gosta de mim. — Ele olhou para mim como se estivesse simplesmente fitando algo sem propósito, com o pensamento lonje. Depois de um tempo piscou e sacudiu a cabeça saindo dos seus pensamentos e sorriu para mim afetuosamente. — Acho que Ele quer se encontrar com você.
– Não lhe dei intimidade para me chamar de 'você'. Corrija-se. — Eu sai da sala, sabia onde O encontrar.
– Espere, senhorita. — Ele falou aquilo com uma exagerada reverencia.
– Que ótimo senso de humor, 12.
– Muito obrigado, meu senso de humor é realmente, impecável. — Ele falou aquilo e deu uma piscadinha. — Acredito que Ele gostaria de te encontrar louca, pelo menos.
– Louca? — Que confusão! Pensei que ele fosse dizer lúcida, ou lembrada, mas louca? Na presença Dele?
– É por essa e outras perguntas ridículas que é muito melhor você se sentar e antes, falar comigo. — Eu senti que era verdade, teria que antes me lembrar de tudo que ocorreu para poder falar com Ele.
– Tudo bem... Primeiro eu quero saber o que eram aqueles remédios, aqueles 'Cheiro de não sei o que' e 'Águas de alguma coisa'
– Sim, Cheiro da Infância. Bom, você deve saber que as pessoas não têm conhecimento sobre como é aqui. Mas é por causa que elas não querem ter esse conhecimento, ela querem esquecer o que só poucos acreditam. Durante a Infância, toda pessoa sabe de tudo, sabe sobre Papai Noel, Coelho da Páscoa, Fada do Dente, tudo bem, nem tudo é real, mas a Infância é pura e única, você pode casar várias vezes, você pode aprender várias coisas, mas você nunca pode ser ingenuo novamente.
– Eu... acho que compreendo.
– Sim, tenho certeza que compreende. Esse aroma, traz de volta toda a simplicidade da vida para a pessoa, é o cheiro que mais promove a felicidade. Você pode perceber, as pessoas não conseguem não ser crianças. Elas já correram e pularam, não importa se isso foi em apenas um dia, já no outro, estavam mortos ou trabalhando. Mas todos já tiveram um momento de querer ser 'gente grande'.
– É, é uma coisa muito bela. Realmente, achei uma coisa muito criativa o Cheiro da Infância, mas ainda não entendi para que ele é usado.
– Para trazer a pureza e as lembranças de volta. Eu te expliquei que na Infância sabemos de tudo, então, quando você sente esse aroma, que a propósito, é diferente para cada pessoa...
– Como assim? Quero dizer, não quis te interromper... Contiue.
– É diferente para cada pessoa por que cada um têm um aroma que marcou todas as suas vidas.
– Qual é o seu? — Perguntei curiosa, ele não era tão detestável quanto imaginei, era belo, sincero e carinhoso. Comecei a duvidar da teoria de que não existia amor no céu.
– É... o cheiro da minha primeira vida, eu acho. É um aroma natural, como água de uma cachoeira num dia de chuva, e esse cheiro se mistura ao da terra molhada e das frutas que caíram das árvores, isso tudo com o cheiro do orvalho.
– Parece ser incrível... — Comentei e ele sorriu.
– Realmente, é delicioso. Mas agora, que aroma você sentiu? — Hesitei. Não sabia falar exatamente. Então, optei por descrevê-lo da melhor forma possível.
– É um aroma doce, como alguns perfumes. Mas ele é simples de mais, e parece feito de vidro, como se a qualquer momento fosse se quebrar e eu nunca mais pudesse senti-lo. Ele é especial, quando o senti, vi algumas de minhas vidas, mas em especial, um borrão, uma garota, provavelmente eu, abraçada a um garoto. Nós aparentavamos ter 17 anos, ele... — Eu me segurei, 12 me olhava com raiva. — Eu sinto que aquilo nunca aconteceu, pode um dia vir a acontecer.
– Novamente, é ele de quem você lembra. — Ele bufou e percebi que aquela cena não agradava 12.
– Quem é ele? Me explique! Eu suplico! Foi por causa dele que fui embora? Que te abandonei e a todos aqui? — Ele ficava mais assustado com cada frase que eu pronunciava.
– Continue! Você está lembrando! Continue!
– Você, minha vida número 8... Eu... Você era meu... amigo? — Ele balançou negativamente a cabeça e me implorou com os olhos. — Irmão. Isso, você era meu irmão. — Ele suspirou de alivio. — Eu... minha cabeça doí, eu queria... — Então eu me vi em outro lugar. Um homem alto, de aproximadamente 35 anos acariciava minhas mechas de cabelo e quando viu meus olhos se abrirem mostrou um lindo sorriso.
– Tribus! Nunquammerefugit! Innemout restituois! — Ele estava falando comigo? Ele? Mas, o que Deus dizia?
– Eu não estou entendendo, Senhor.
– Acredito que não, seu latim está muito desgastado. Mas eu também acredito que se repitir consiguirá lembrar-se, certo?
– Acredito que sim. — Ele repitiu e pediu para eu traduzir.
– Três... Nunca mais, escape? — Ele balançou negativamente a cabeça. — Nunca mais fuja! Nunca mais fuja de mim, não encontrei ninguém para...
– Substituí-la. Nossa, você está mal mesmo!– Assenti.
– Mas não tão mal para que não lembre do seu apelido, Di. — Ele riu e me dirigiu um olhar de segundas intensões.
– Mesmo assim, está mal o bastante para não se lembrar de que certas pessoas te mataram. — Então ele estalou os dedos e não me lembro do que ocorreu depois. Somente acordei escrevendo em Praesent com Verum. O pote de Atramenti Iudicati estava ao meu lado e eu sabia que tinha que fugir daquele lugar.
Notas finais
Socius - Companheiro.
Eohippus - Espécie de animal pré-histórico da família dos cavalos cujo o porte é o de um cão.
Cheiro de Infância - É um aroma dos céus que faz com que a pessoa que o sinta se lembre do que é realmente importante após a morte.
Gente Grande - É o nome usado por nós, mortais, para falar de quem já é responsável pelos seus atos e ignorante pela sua lucidez.
Tribus - Três.
Nunquam me refugit! - Nunca mais fuja de mim!
In nemo ut restituo is! - Não encontrei ninguém para substituí-la!
Di - Apelido usado por Tribus para se dirigir a Deus.
Praesent - Destino. O Livro que Três usa para falar tudo que acontecerá na nossa vida.
Verum - Pena usada para escrever em Praesent, essa pena só escreve o que é verdade e só obedece a um senhor. Ela não é usada em nenhum outro livro, somente Destino, além de que nesse livro não se pode escrever com nenhum outro instrumento.
Atramenti Iudicati - Tinta da Decisão. Tinta usada para escrever com Verum em Praesent. Esses três itens ficavam sobre a Escrivaninha da Vida, onde Três escrevia o destino da história do mundo. Nenhum destes instrumentos era usado por outra pessoa além de Tribus e niguém, nem mesmo Deus ousava tentar, já que vidas se perderam quando isso foi tentado.
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