Bem Vinda Ao Campo
48 O Silêncio Diz
Notas iniciais
Boa Leitura.
Com normalidade a semana transcorreu. Rudolph foi visitado por Kristina mais três vezes, e na última já andava apesar de estar ligeiramente manco.
Wilhelm impressionava aumentando de tamanho a olhos vistos. Valkyrie dizia que era pelo fato de o leite de Anne ser forte.
Liesel e Anne mantinham seus laços profundos. Já não se podia ver uma sem a presença da outra.
Heinrich achava que estava na melhor fase de sua vida, ainda que com os bombardeios quase diários. Ir para o porão havia se tornado uma rotina.
Aproveitava o último jantar em família que teria em meses, tentando esquecer que assim o era.
Como se podia esperar de Valkyrie, ela se esmerara no preparo da refeição e dessa vez com o auxílio de Anne.
- Vou sentir falta disso... – falou ele sorrindo de canto.
- Você volta logo.
Anne parecia muito séria, mas considerando o quanto a conhecia, Heinrich sabia que ela só estava querendo parecer durona.
- Sim meine liebe, logo volto para você.
E então ela se permitiu dar um ligeiro sorriso.
- Papa, o senhor e Anne são casados?
Pergunta capciosa a de Liesel. Bastante difícil de responder.
- Sim...
- Mas papa, porque Anne dorme no outro quarto?
- Porque alguém precisa dormir com o Wilhelm.
- Quando ele for maior, o Wilhy pode dormir comigo.
Parecia muito satisfeita com sua conclusão, e que não haveriam mais perguntas quando ela fez a mais derradeira delas.
- Papa, você também é papa do Wilhy?
Um pigarro de Heinrich. Nana engasgou-se com um suco, Rudolph soltou uma gargalhada e Anne corou levemente.
- Ahm... sim mein schatz, sou papa dele também.
- Eu sei, ele é meu brüderlein.
Aquele era um dom de Liesel, surpreender e divertir. Era uma menininha incrível.
***
Tarde na noite foi quando Anne ouviu leves batidas na porta. Só escutou porque acordara para amamentar Wilhelm, que já dormia novamente.
Levemente sonolenta, se dirigiu a ela para abri-la, aquela possivelmente era a única desvantagem de ser mãe, seu sono sempre era cortado.
- Heinrich? – surpreendeu-se ao se deparar com ele parado ali.
- Posso entrar meine liebe?
- Claro, mas o que houve?
O major balançou a cabeça negativamente e lhe deu um sorriso.
- Não houve nada, eu só queria saber se posso ficar aqui essa noite...
Anne suspirou, deu um beijo em sua bochecha.
- É claro que você pode ficar aqui.
Não disseram mais nada até deitarem. Como nos tempos em Auschwitz, Heinrich recolheu Anne nos braços e ela pousou a cabeça em seu peito.
- Odeio ter que deixar vocês...
- Pense que é melhor assim.
- Tento fazer isso.
- Quando essa noite acabar, tudo terá valido a pena.
Sabia que por “noite” deveria entender guerra, e sabia que Anne tinha razão, mais isso não diminuía a angústia de deixar sua família.
- Quando a noite acabar vamos poder ser felizes.
- Tenho certeza que sim, Heinrich.
Calaram-se por longos minutos, Heinrich acariciava os cabelos de Anne. Sentira saudades da maciez dos fios negros sobre si.
- Você me ama?
Sua pergunta ecoou no silêncio. Achou que não haveria nenhuma resposta ou que ela tinha dormido.
- O que você acha?
- Eu... eu penso que sim...
Ouviu o riso dela, bem baixinho no escuro.
- E isso já não é o suficiente?
Não sabia o que dizer. Será que Anne não podia ser uma mulher normal, e agir como uma em alguns momentos?
- As vezes seria bom se você dissesse.
Não conseguia vê-la, mas tinha certeza de que estava sorrindo.
- O silêncio diz tão mais que as palavras Heinrich...
A cigana beijou-lhe a boca. E ela estava quente como se tivesse febre.
- Boa noite.
E o seu sussurro permaneceu dançando nos ouvidos de Heinrich.
***
Chacoalhava no trem já sentindo vontade de voltar para casa. Lembrava-se da despedida que tivera pela manhã.
Rudolph disse que em breve o encontraria. Valkyrie o obrigou a levar quatro vidros de biscoito. Liesel pediu que ele trouxesse uma boneca polonesa. Anne segredou-lhe que queria que ele voltasse logo, e Wilhelm esboçou uma expressão que lembrava o sorriso da mãe.
Ainda não conseguia acreditar que o pequeno era real. Ele era tudo o que sempre desejara.
Podia vê-lo correndo atrás de uma bola de futebol, brincando com outros meninos, pedindo-lhe para dirigir o carro.
Não teve muito tempo com o filho, coisa demais acontecera desde o seu nascimento, e ele estava naquela fase em que só Anne era importante.
Mas sabia que quando o menino ficasse maior seria a sua vez, e aí ele e Wilhelm seriam companheiros, e sairiam para pescar nas férias.
Era incrível que conseguisse pensar em um futuro positivo mesmo estando a situação como estava. Em outros tempos aquilo lhe pareceria impossível, mas a esperança constante de Anne se instaurara em seu peito.
Ia para a Polônia já sentindo saudades, mas com a certeza de que voltava em breve, e que logo tudo estaria resolvido.
Notas finais
E a Anne sempre esquiva...
Beijocas, suas lindas.
Comentem! ;D
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