Bem Vinda Ao Campo

66 O Louco e a Leviana


Notas iniciais
Eis o novo capítulo, e tem um dedinho de prosa lá embaixo.
Boa Leitura.

O dia era 20 de abril de 1945, era o dia do aniversário de 56 anos do Führer. Os alemães sabiam disso, os russos, os americanos, os ingleses e todo o resto do mundo sabia disso.

No bunker o mundo exterior vinha sendo ignorado há algum tempo e assim permanecia. Uma festa era preparada para Hitler como se os inimigos já não estivessem com os pés na porta da cidade.

Não era possível dizer quem estava mais louco naquela situação, se era o próprio Hitler ou as pessoas que haviam decidido ficar com ele no bunker.

Joseph Goebbels estava lá, e havia levado a família para que ficassem todos seguros junto ao Führer.

Eva Braun também estava, mas nesse caso, era de se esperar que a amante de Hitler ficasse com ele até o fim.

Fim este absurdamente eminente, mas ainda assim invisível aos olhos do delirante ditador alemão.

Adolf Hitler realmente acreditava em uma reviravolta favorável à Alemanha Nazista. Simplesmente ignorava o fato de que os soldados britânicos estavam posicionados perto de Hamburgo. Não via que os americanos aproximavam-se pelo rio Elba na fronteira com a Tchecoslováquia, chegando a Baviera. O 1º Exército francês avançava em direção ao sul da Alemanha. A sudeste vinha o Exército Vermelho e, na Itália, os Aliados se moviam para o norte pelo vale do rio Pó.

E justo naquele dia, o dia de seu aniversário, a cúpula nazista tentava lhe convencer a sair de Berlin o quanto antes.

– Mein Führer... – disse-lhe Robert Greim¹, comandante da Força aérea. – insisto que deixe Berlin. Não existem mais condições de ficar...

Não conseguia acreditar no que ouvia. Como podia aceitar que Greim, um de seus melhores homens pudesse estar lhe dizendo uma coisa daquelas?

– Partiremos em um vôo para Hamburgo, o mais depressa possível e...

Ouvia o comandante falar, mas todas as palavras dele soavam como se fossem fraqueza.

– E assim que chegarmos lá nós...

– Nós?! – indagou furioso – Nós?!

Sua mão direita tremia ao redor dos óculos que ele se recusava a usar em público e antes que pudesse perceber a armação de metal já estava entortada entre seus dedos.

– Querem que eu abandone Berlin só porque estamos em uma situação desfavorável agora?! Nein!- esbravejou o Führer indignado – Querem que eu me acovarde? NEIN!

Socou a mesa com força, estava tão eloquente no alto de sua raiva que um desavisado poderia crer que Hitler estava ensaiando um de seus famosos discursos.

A verdade era que ele odiava fraqueza, lhe tirava do sério pensar em fugir, era não só um sinal de covardia como também uma traição.

Ficava possesso em se deparar com seus homens pensando em coisa tão desonrosa quanto uma rendição.

– Não vou fugir, e digo mais, não vamos desistir! Vamos provar que a Alemanha é um país de fortes! Vamos mostrar que jamais no renderemos! Vamos virar o jogo e ganhar a guerra!

Os olhos azuis de Hitler brilhavam febris, loucos, dentro das pálpebras empapuçadas. Os cabelos castanhos e despenteados caiam sobre o rosto vermelho de cólera do ditador.

Aos poucos ele mesmo se acalmara, já não estava mais a beira de um colapso, estava agora no reconfortante apogeu de seu delírio.

– Quero uma ofensiva mais poderosa. – disse suave enquanto sentava-se novamente atrás de sua mesa e retirava um novo par de óculos de dentro da gaveta.

Como deveria ser, os oficiais presentes não podiam crer no que fora dito. Não havia a menor possibilidade de uma ofensiva, até porque o exército alemão mal conseguia se defender.

Mein Führer, creio que não seja possível, na verdade não nos sobraram muitos soldados e a população seria obrigada a lutar...

– Pois que lutem. – interrompeu Hitler displicentemente.

– Mas mein Führer, o povo alemão não está preparado, e considerando a quantidade de homens que já perdemos, velhos e meninos seriam obrigados a lutar...

– Pois que lutem. – repetiu ao ajeitar o cabelo e retomar postura de governante plácido – Se o povo alemão não conseguir destruir os soviéticos, então deve morrer. O mundo não tem lugar para fracos...

E assim encerrou-se aquela reunião. O Führer já não tinha mais nada para dizer, e os oficias não se atreveriam a contradizê-lo.

Enquanto o primeiro continuava insistindo em persistir no erro, os outros começavam a pensar em como fariam para escapar de Berlin antes da chegada dos inimigos. O tempo era cada vez mais curto.

***

A personalidade fútil e aérea da amante de Hitler era totalmente expressa por aquela festa de última hora.

Eva Braun demonstrava alegria nada condizente com a situação do Reich e de seu amado Führer.

– Está tudo pronto? – indagou ela a Traudl Junge². – Quero que tudo seja perfeito esta noite...

– Sim, está tudo pronto fräulein Braun.

– Ah, isso é maravilhoso! Vou me preparar então, quero estar linda...

E foi-se frívola como de costume. Poderia ser de se surpreender que uma mulher como ela, que beirava perigosamente a tolice pudesse ser a eleita do Führer, mas como o próprio já havia dito antes “um homem extraordinariamente inteligente tinha que ter uma mulher burra e primitiva".

Sua devoção ao líder nazista era tamanha que ela havia se prontificado a ficar ao lado dele no bunker até a dita “Batalha Final”, mesmo que tivessem tentado lhe convencer a deixar Berlin.

Dedicava-se e o amava tanto que suportara viver quatorze anos ao lado de Hitler sem que a relação dos dois fosse conhecida pelo público.

Aguentava a humilhação de não poder exercer seu papel de “dona-da-casa”, porque sua união com Adolf não era oficial, e tinha de fingir que não via quando as mulheres dos oficias nazistas a olhavam de cima a baixo com total reprovação.

Assim era Eva, uma mulher extremamente vaidosa, demasiadamente dependente de atenção, excessivamente cortês, completamente submissa, totalmente desligada de assuntos políticos, eternamente esperançosa com a possibilidade de um casamento, e no mais, falsamente feliz.

Apesar da eminência do desfecho da guerra, a senhorita Braun permanecia ostentando um sorriso e uma tranquilidade surreal. Eva agia como se estivesse constantemente à passeio, como se tudo estivesse ótimo, como se o homem que amava não fosse um lunático.

E era aquilo o que fazia com que o Führer tivesse escolhido Eva, não a sua estupidez e banalidade, mas sim a qualidade que ela tinha de lhe parecer sempre calma e feliz.

Não fossem os falsos sorrisos de Eva, que escondia seu pavor com futilidade e exibicionismo, não fosse sua alegria mentida, ele provavelmente já teria enlouquecido por completo. Eva Braun era para Hitler um porto seguro no qual o ditador buscava refúgio e prazer.

A existência de Braun era desconhecida pelo mundo, mas ainda assim, de suma importância na vida do homem que seduzira para em seguida destruir a Alemanha, exatamente como viria a fazer com sua ingênua amante.

Notas finais
E agora uma perspectiva diferente dos últimos dias antes da tomada de Berlin.

Espero que tenham gostado desse capítulo sobre Hitler e sua amante Eva Braun.

As vezes é importante saber sobre as coisas que acontecem nos bastidores para podermos entender o espetáculo. ;)

Vale deixar aqui um obrigada todo especial a nova leitora Miss Know All que fez uma recomendação super querida para a fic. Muito obrigada sua linda! *-*

--X--

1. Robert Greim - Robert Ritter von Greim (Bayreuth, 22 de junho de 1892 - Salzburgo, 24 de maio de 1945) foi um piloto e marechal-do-ar alemão, último comandante da Força Aérea Alemã.

2. Traudl Junge - Trauld Junge (Munique, 16 de março de 1920 Munique, 11 de fevereiro de 2002) foi a última secretária pessoal de Adolf Hitler entre 1942 e 1945.

--X--

Pois bem queridas, o capítulo acabou demorando a ser postado porque continuo com o tempo contado. =/

Por conta disso, quero deixar avisado que o próximo capítulo só virá na primeira ou na segunda semana de Outubro, porque estou em final de semestre e tem um milhão de trabalhos pra entregar e provas pra fazer.

Obrigada pela paciência, e novamente, espero que tenham gostado. =)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.