Bem Vinda Ao Campo
1 A Chegada
Polônia, Auschwitz-Birkenau, 8 de janeiro de 1943.
O inverno estava especialmente rigoroso aquele ano, a temperatura chegava abaixo de zero com frequência. Naquele dia não estava diferente, mas apesar do frio, a noite estava estranhamente bonita e a lua imensa e brilhante, cheia.
Sua fantasmagórica luz incidia sobre alguns oficiais alemães armados e sobre os sujos e fatigados prisioneiros recém-chegados. Sua luz fazia brilhar o ódio louco dos olhos nazis e o medo das íris ciganas.
Os oficiais menores em hierarquia definitivamente se divertiam com a chegada de novos carregamentos, era como a manhã de Natal. Antes de levá-los para serem fichados, tatuados, postos em quarentena e enfim posicionados na escala de trabalho, podiam divertir-se com eles, humilhá-los.
- Homens para a direita, mulheres para a esquerda. – ordenou um homem loiro e gordo que aparentemente comandava os outros. – Agora! Jetzt!
Poucos dos ciganos recém-chegados falavam alemão, a maioria era de origem polonesa ou húngara, e mesmo os ciganos alemães, compreendendo a ordem demoraram-se a cumpri-la. A maior parte do carregamento era composta por famílias inteiras, de modo que a separação era dolorosa, aterrorizante.
- Ich sagte jetzt! Agora mesmo!
Aos prantos desgarravam-se uns dos outros, sob o som torturante das risadas dos soldados. Aos poucos a ordem foi finalmente obedecida. De um lado os homens, de outro as mulheres, agarradas as crianças.
- Eu disse que queria homens de um lado e mulheres de outro... – rosnou o capitão Engels andando em direção aos prisioneiros – e isso inclui os meninos e os bebês
Diante da inércia dos ciganos, Engels ordenou que os soldados forçassem a separação. Cena triste, mães agarradas em desespero aos filhos, crianças chorando sem entender nada, homens impotentes vendo suas famílias desamparadas.
Os nazistas riam, gostavam daquilo, gostavam mais ainda de ver que aqueles ciganos não podiam fazer nada.
- Cães imundos! Nem para defender essas cadelas que chamam de esposas! – gargalhou Engels.
- Basta! Não acham que já é o suficiente?!
Para surpresas de Engels e seus homens, a voz era de uma de mulher. Ela saiu do meio das outras, caminhou até o gordo capitão, tinha um olhar muito sério e não parecia estar com medo.
Engels a observou silencioso. Era pequena, talvez tivesse 1,65, ou pouco menos. Os cabelos eram negros, muito compridos, levemente ondulados. Tinha um rosto de feições delicadas, bastante arianas, e olhos de um azul-gelo claríssimo. Não fosse a pele morena, cor de canela, provavelmente passaria por uma moça alemã comum.
- Já fizeram o bastante não? Nos tiraram de nossas casas, nos colocaram enfiados num trem, quase sem comida e água, passando frio, por dias! E agora querem nos humilhar? Eu sei o que significa estar aqui, eu sei sobre a solução final...
- Você fala demais para uma ciganinha suja. – sibilou o capitão interrompendo-a – Se atreve demais...
- E o que vai fazer? Me bater? Me matar? Não diga! Porco nazista!
O soldado mais próximo da moça lhe desferiu um tabefe na cara, derrubando-a no chão. Agiu por puro impulso, espanto, não era todo dia que uma coisa daquelas acontecia.
Alguns segundos de silêncio seguiram-se ao estalido seco do tapa, na verdade, todos estavam estupefatos com aquela situação.
A moça se levantou, tinha um sorriso cínico. Não deveria ter mais de 20 anos, mas naquele momento, seus olhos pareciam muito velhos, amargurados.
- Bata novamente, com mais força dessa vez...
O mesmo soldado que a batera da primeira vez ergueu o braço para fazê-lo novamente, mas Engels o impediu.
- Não... – disse numa voz rouca, regada de doentio deleite – Acho que a mocinha conquistou o direito de falar.
- Mas senhor...
- Eu disse não! — e então voltou-se para a moça cigana, que o observava com atenção – Diga, qual o seu nome senhorita?
- Anne.
- Anne! Que bonito nome...
- Porque não deixou ele me bater? – indagou ríspida.
- Você é alemã Anne?
- Sou de Munique.
- Anne, você certamente teria passado desapercebida se não tivesse se manifestado, eu demoraria para te encontrar no meio de todos os outros ciganos...
- O que quer dizer?
- Você é muito bonita sabia? Que lindos olhos, bastante arianos...
- Não compreendo o destino dessa conversa.
Não compreendia, e era a única a não compreender o que se passava. Os nazis sorriam de leve, e os ciganos tinham nos olhos uma espécie de tristeza antecipada, tudo era muito claro.
- Mocinhas bonitas e atrevidas como você não vão para os campos de trabalho. Seria um desperdício. Mocinhas bonitas e atrevidas assim vão parar no barracão especial.
E Engels distendeu os finos lábios sobre os dentes amarelados, num sorriso horrível, mais parecido com um arreganhar de presas. A expressão no rosto do capitão nazi poderia ser descrita pela palavra “faminta”.
- O que é o barracão especial?
E aí os soldados riram, exultantes.
- Ora, é um lugarzinho peculiar.
- Acho que deveríamos aproveitá-la agora capitão, é capaz de algum oficial maior querê-la...
- Você tem razão Bergman. Viu Anne, não precisa se preocupar com o barracão especial, porque agora você vai se divertir comigo e com meus soldados. Não é rapazes?
- Ja, mein Kapitän! – gritaram eles em coro, adorando a situação.
- Vamos sua vadia, tire a roupa. – disse Engels com aquele sorriso malvado, as mão dentro dos bolsos da farda estufada por sua barriga.
Anne não disse nada, parecia que ia sorrir, mas a feição transformou-se rapidamente e terminou em cuspe, direto na cara do capitão nazista.
- Nunca!
- Isso é o que veremos.
Engels pulou em sua direção, mas ela desviou, precipitou-se a sair correndo, foi pega antes de dar os primeiros cinco passos pelo soldado que a esbofeteara.
- Não vai fugir assim tão fácil!
Anne se debatia muito, gritava, xingava os soldados de porcos nazistas e os amaldiçoava. Em nenhum momento pediu socorro, sabia que não viria.
- Cale a boca! – ordenou Engels dando-lhe um tapa na cara — Guarde seus gritos para quando eu estiver no meio de suas pernas...
E num puxão rasgou-lhe a frente do vestido, expondo os seios redondos e fartos, com os bicos morenos rijos por conta do frio.
Mas uma vez, foi como se o tempo parasse e tudo estava voltado para aquele momento. Os soldados, os ciganos, Engels e a própria Anne, todos olhavam para os seios escapando do tecido em frangalhos. Completo silêncio.
- Deitem ela no chão. – disse o capitão.
Os gritos de Anne voltaram a ecoar. Para deitá-la e segurá-la no chão foram necessários quatro homens, porque ela não parava de espernear nem por um minuto. Engels agachou-se entre suas pernas forçosamente abertas, alisou as coxas envoltas em meias de náilon, estava preste a tirar-lhe a cinta.
Ela gritava, xingava, era só o que podia fazer e não estava disposta a deixar que aquilo acontecesse sem luta, mesmo que naquele momento lutar se resumisse à berrar. Debatia-se, queria causar o máximo de problema possível.
Começava a se sentir cansada, era difícil continuar se movendo, medindo forças com quatro soldados. Engels forçou a mão contra se rosto, fazendo sua bochecha encostar no chão duro e frio, inclinou-se sobre ela, beijou-lhe o pescoço e só o que Anne sentiu foi o mais profundo asco.
- Vai ser um prazer foder você...
Anne poderia, deveria ter se chocado com aquelas palavras, mas mal as ouviu, se distraiu com um par de lustrosas e enormes botas pretas pisando em sua direção.
- Saia de cima dessa moça imediatamente capitão Engels.
A voz era suave, porém grave e imponente. Inexplicavelmente Anne não sentiu mais medo, ao mesmo passo que Engels sentiu gelar a espinha.
O gordo e sádico capitão levantou-se com mais agilidade do que parecia ser capaz. O dono da voz e das botas não disse nada, mas os soldados que seguravam Anne pelos braços e pernas a soltaram, receosos.
- O que diabos está havendo aqui?
- Chegou o novo carregamento e...
- Não falo disso! Falo desta patifaria ridícula!
- Perdão major Von Veltheim...
- Quando um novo carregamento chega, vocês devem mandá-los para os procedimentos necessário e não fazer disso um circo. E se não fizeram o que deviam antes, façam imediatamente.
- Sim senhor, major Von Veltheim. – disse Engels humilhado batendo uma continência – Vamos garota...
Abaixou-se para pegar Anne pelo braço, Veltheim o impediu no meio do movimento.
- Eu me encarrego da garota. Leve os outros.
O capitão concordou, os soldados arrebanharam os ciganos, o grupo foi se afastando, lentamente.
- Levante-se. – pediu a voz suave.
Só então Anne teve coragem de levantar os olhos e enxergar o major Von Veltheim. Era muito alto, parecia forte, loiro, olhos azuis violeta, indiscutivelmente ariano, talvez um exemplo perfeito do que Hitler queria para a Alemanha.
Ele tinha a mão estendida, a cigana hesitou em aceitá-la, e o fez mais por agradecimento, ainda que a contragosto.
- Cubra-se...
E tirou o sobretudo, entregando-o a ela, que vestiu de imediato, cobrindo o belo colo desnudo.
- Obrigada.
- Não me agradeça.
Fitaram-se por mais algum tempo. O major parecia reflexivo, como se pensasse seriamente sobre o que deveria fazer com ela.
Ao longe, o soldado Bergman deu um triste sorriso de canto ao observar o major fitando a cigana.
- É capitão, acho que nunca mais tocaremos nessa aí...
- Também acho Bergman. – concordou Engels num tom de leve decepção.
Finalmente Heinrich se decidiu. Olhava fixo o sujo e belo rosto da moça. Suspirou.
- Venha comigo. E a propósito, bem vinda ao campo...
Notas finais
Prometo me manter bastante fiel aos fatos e fazer com que a história seja o melhor possível. Sei que o tema (Nazismo e Segunda Guerra) é bastante delicado, e por isso vou tratar dele com bastante cuidado.
Por hora é isso, se gostarem posto o próximo capítulo em breve. ^^
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