Bem Debaixo da Árvore

1 Bem Debaixo da Árvore


Notas iniciais
A música é "My gift is you", de Gary Powell. Terrivelmente difícil de ser encontrada, mas linda demais pra ser esquecida.E afinal é uma canção natalina da Disney, a culpa não é minha...Aproveitem! :3

“I love a gift wrapped in red, a gift under the tree
When the lights blink only for you and for me
But what I like most and what most rings true
Is the way I feel knowing that my gift is you.

We sip the hot chocolate and we sing “Noel”
Whether first or the second Noel, we won’t tell
I know that I’m tardy and long overdue
In telling my true love that my gift is you

I love a gift wrapped by you, a gift under the tree
When the snow falls lightly for you and for me
But what I like most and what most rings true
Is the way I feel knowing that my gift is you.

All that we hold in each other’s heart
is the hope that each Christmas we won’t be apart
But what I like most and what most rings true
Is the way I feel knowing ….

This is the way…
The way I feel knowing that my gift

My gift, my gift is you”

O milagre do Natal começou com neve.

“Típico” seria meu habitual pensamento, seguido de um revirar de olhos consternado com tamanha previsibilidade. Indignação frugal que não tomaria mais que poucos segundos de meu infindável tempo, logo sendo substituída pela silenciosa atividade de sentar-me à janela, numa inconsciente aproximação dos delicados flocos que deslizavam suavemente até acomodarem-se no solo, formando um tapete macio e branco na porte de entrada de minha varanda. Seu brilho também dava uma tonalidade diferenciada às luzinhas pisca-pisca caprichosamente instaladas por toda a extensão de minha casa do lado de fora, deixando tudo com um aspecto... Não sei... Se eu fosse um tiquinho mais como minha irmã Afrodite diria: mágico.

Enfim, me acomodaria confortavelmente na poltrona de veludo carmesim bebericando um gole de meu chá de erva-doce quentinho. Descansaria a xícara de porcelana azulada no pires apoiado no tampo da pequena mesa de centro, logo ao lado do vaso com lírios brancos e, seria com satisfação que, seguindo os hábitos rotineiros, por fim abriria um dos muitos livros de capa dura e desgastada, com folhas amareladas pela idade, os melhores.

Isso mesmo. Seria. Porque para nevar as barreiras tem que ceder e, eu devia ter sabido, se uma vai ao chão, não demora muito para as outras terem o mesmo destino.

Lá estava eu, despreocupadamente recostada no estofado, quando uma brisa infiltrou-se por alguma fresta da janela, chamando minha atenção e, ao observar pelo vidro, pude acompanhar o suave balançar da fina neve transformar-se em uma tempestade. O frio começou a me incomodar e mal pude terminar de vestir meu inseparável suéter cinza claro quando a quietude do cômodo foi perturbada por apressadas batidas na porta.

Fui, intrigada e curiosa, abri-la quando quase engasguei, surpreendida.

–Poseidon?! O que faz aqui?! – Não que continuássemos sendo inimigos mortais ou coisa assim, longe disso. Desde toda aquela bagunça com Cronos digamos que os deuses criaram juízo e resolvemos findar com essas disputas e rixas idiotas, mas também não é como se fossemos melhores amigos. O que ele fazia na minha casa com aquele tempo?

– Er... Olá, Atena. Será que posso entrar? Está meio frio aqui fora... – Foi só então que notei sua expressão ao me olhar com os olhos verdes límpidos e os cabelos negros incrustados de neve. Parado ali na varanda, ele era o único colorido no meio de todo aquele branco. Algo simples e sincero, seu rosto todo sorria marotamente, algo que beirava o infantil.

– Claro – Apressei-me em dizer, abrindo espaço para a passagem – Entre, entre.

Timidamente, e agradecido, pude notar, ele adentrou para o hall, já bem mais aquecido que o espaço quase congelado porta afora.

Não pude refrear minha curiosidade ao questionar, enquanto ele se livrava do casaco ensopado:

– Perdoe-me se isso soar indelicado, mas que diabos você faz na minha casa com essa nevasca terrível lá fora? Aliais, pelo amor de Zeus, porque ninguém está controlando esse tempo e Deuses! – Exclamei assustada ao roçar minha mão na dele, acidentalmente, quando este me entregava seu paletó para pendurá-lo. Ele estava uma pedra de gelo! – A quanto tempo está lá fora?

– Já faz um tempinho – Assumiu, envergonhado – Estava caminhando e não notei o tempo mudar rapidamente, lembrei que era seu o templo mais próximo e agora estou aqui, o que não é de todo um desperdício, já que eu precisava mesmo falar com você.

Interrompi-o em um gesto brusco das mãos seguido de um empurrão leve nas costas, direcionando-o para a sala.

– Terá tempo de sobra pra explicar-me tudo depois. Ande logo. Você precisa se aquecer.

–----*-----*-----

Minutos mais tarde daquele incomum dia de Dezembro, um Poseidon enrolado em cobertores encontrava-se sentado em meu sofá, aguardando pacientemente enquanto me via preparar um denso chocolate quente de forma metódica.

– Obrigada pela preocupação, Loira. Se eu soubesse que seria tratado assim teria virado um iceberg antes.

– Bobo – Proferi sorrindo ao acrescentar uns pequeninos marshmellows e estender-lhe uma caneca.

Suas mãos envolveram o recipiente de modo a aproveitar o calo exalado e observei milimetricamente seus movimentos até que sorvesse o primeiro gole.

– Atena, isto está divino, com o perdão do trocadilho.

Ele era puro deleite. Seu sorriso aberto me fazia acreditar e, por algum motivo desconhecido, aquilo me fez corar mais do que com suas cantadas baratas.

– Obrigada – Agradeci rapidamente e logo desconversei – Então, posso saber o que o trouxe por aqui? Admito: estou louca para saber.

Poseidon pareceu ajeitar-se melhor antes de responder.

– Bem, a questão é que eu gostaria de escolher o presente perfeito para uma pessoa especial e achei que você seria o alguém mais indicado para pedir ajuda, mas a julgar pela total falta de espírito natalino aqui dentro, não sei se foi uma decisão acertada...

– Ei, como assim “falta de espírito natalino”? Eu te dou abrigo e é assim que me agradece? Olha que te jogo pra fora de novo, viu? – Disse fingindo seriedade, porém não contendo uma risada no final e dando-lhe uma almofadada pela ousadia da piscadinha que ele acabava de me dar.

– Estou falando sério! Os pisca-pisca lá de fora dão uma enganada, mas não são capazes de suplantar a completa inexistência de Papais Noel aqui! – Completou ainda tentando manter a pose de indignado.

– Okay, eu me rendo. Sou um ser horrível e insensível. Meu nome do meio é Grinch. – Depois dessa tirada ele riu, deliciado.

– Nessa você se superou! Agora, falando sério, como não existe nenhuma referência natalina aqui?! Tudo bem que somos deuses e tudo mais, mas o Olimpo todo está enfeitado! Até Atlântida está!

– Eu sei. Tenho até uma árvore aqui em algum lugar, a questão é que não dei muita importância, fui adiando e acabou que não montei nada até agora.

– Pois vamos mudar isso já! Busque nosso amigo pinheiro, eu ajudarei a montá-lo!

– Ãh? Agora?

– É. Veja como uma recompensa pelo favor e por me acolher.

– E quem te disse que vou te ajudar?

– Eu sei que vai.

Revirei os olhos e suspirei resignada enquanto saía para buscar a caixa dos enfeites.

–----*-----*-----

Muitas bolinhas, flocos de neve, Papais Noel, pisca-pisca e lacinhos mais tarde, uma árvore erguia-se imponente em minha sala de estar.

– Tchanã! Fala sério, eu fiz um trabalho magnífico, não é mesmo? – Poseidon, de ar convencido, abria os braços em direção a sua mais recente obra-prima, com um festão prateado amarrado em volta da cabeça, claro.

– Você fez?

– Tudo bem, te dou dez por cento do crédito.

– Dez por cento?!

– Vinte. No máximo. E além do mais, não está pronta.

– O que falta? Lembre-se, é Natal, não Carnaval.

– Ah, mas não podemos esquecer a estrela da noite... – Disse levantando as sobrancelhas sugestivamente e mostrando um objeto brilhante nas mãos.

– A ponteira! – Exclamei animada como uma criança – Eu ponho!

– Não, a honra deve ser minha, afinal, quem montou a árvore fui eu.

– De jeito nenhum! Eu também ajudei e ela é minha, eu ponho!

– Ah, é? Então venha pegar.

E foi assim que começou um pega-pega ensandecido ao redor da recém montada árvore de natal. Recuperei a estrela dourada, porém logo Poseidon agarrou-me pela cintura com um dos braços, minhas costas coladas em seu peito largo, enquanto com a outra mão ele recuperava o espólio de nossa pequena guerra. Ríamos e corríamos enlouquecidamente até um de nós acidentalmente esbarrar no pinheiro e ele quase tombar.

Conseguimos segura-lo a tempo e, ofegante pelo esforço e pelo susto, Poseidon finalmente se rendeu:

– Depois desse quase acidente acho melhor dar a ponteira a você...

Foi sorrindo de orelha a orelha que pus o toque final em nossa decoração.

– Sabe, não sou assim tão criativa para presentes e não sei se conheço os gostos de quem quer que seja que você vai presentear, mas para mim o Natal, o verdadeiro espírito dele, é isso: essa estrela brilhando no topo, a sensação de se estar sendo iluminado, protegido e abençoado por ela. É o que tanto buscamos nessa comemoração. – prossegui envolvida por aquela atmosfera – Acho que se você pudesse dar um jeito de representar isso através de um presente, bem, não tem como não gostar...

Ele pareceu concentrado por um instante, encarando-me fixamente, e então seu rosto iluminou-se. Envolveu-me em um abraço apertado e beijou-me uma das faces.

– É perfeito! Ela vai amar. Obrigado.

Enrubesci ao afastar-me de seus braços. Minha bochecha esquerda ainda formigava.

– Imagine. Eu não fiz nada, fico feliz em ter ajudado.

A tempestade tinha dado uma trégua, por isso guardamos tudo que havia sobrado e logo nos despedimos. Porém algo apertou meu peito ao vê-lo se afastar lentamente naquela paisagem de inverno. Se foi um pouco de inveja da mulher que conquistou o coração do deus dos mares ou simples saudade de sua adorável companhia, não sabia dizer ao certo. Talvez um inconsolável misto dos dois...

–----*-----*-----

Depois daquele dia todos os outros vieram acompanhados daquele véu branco. A neve era presença constante e tudo voltava à rotina, exceto meus pensamentos que insistiam em levar-me a todo instante na direção de certos olhos verdes. Nem mesmo a agitação com a aproximação das festas me distraia e eu já estava a ponto de buscar auxílio profissional.

Era impressionante como até o delicioso cheiro de minha torta com maçãs caprichosamente enfileiradas e polvilhadas com canela me lembrava dele. Deve ser o aroma de lar... Meneei a cabeça como que a afastar tal associação e resolvi sair para tomar um pouco de ar fresco e, qual não foi minha surpresa ao encontrar o próprio deus em questão parado à minha porta.

– Poseidon?! – exclamei.

– Eu já ia bater na porta...

Suas bochechas estavam coradas de frio e algo mais, ele trajava um paletó cor de chumbo, realçando seu olhar de esmeralda, puro brilho na noite estrelada. Nas mão trazia um pequeno embrulho vermelho.

Ao caminharmos para dentro e sentarmo-nos em baixo dos galhos enfeitados uma ideia louca se formava em minha mente. Algo tão maravilhoso que não julguei ser possível. Foi então que, mais uma vez contrariando a lógica e confirmando minhas suspeitas, Poseidon começou a falar.

– Isto é pra você, Loira. – Sua voz rouca soava como se me acariciasse ao estender a caixinha cuidadosamente embrulhada pra mim. Meus dedos ligeiramente trêmulos tocaram o papel, desfizeram o laço e não pude acreditar na beleza do que via. Era pura luz.

– Pensei no que você me disse aquele dia – ele prosseguiu – Então pedi ajuda à Ártemis, embora o tom dourado seja obra de Apolo. Este pingente é feito de pó de estrelas, no formato de uma. Quero que você tenha todas as constelações na palma da mão e quero que possa sempre carregar o melhor do Natal com você, Atena. – ele ficou de joelhos para prender o fecho do magnífico colar, já envolvendo meu pescoço – Sou o deus dos mares, mas teria ido até os confins dos céus buscar-lhe uma estrela, porque eu te amo, Atena.

Calei-o com um beijo apaixonado ao pronunciar a última sílaba de meu nome enquanto lágrimas de puro júbilo escorriam por meu rosto.

Era o momento perfeito para um casal imperfeitamente perfeito e não preciso ser Afroditeana para admitir isso. Descobri que o Natal com ou sem neve, se tiver amor, pode ser... Mágico.

Notas finais
Bom, meus amores, desejo muito chocolate, felicidades e fanfics maravilhosas em 2015!Tudo de bom!Feliz Natal!Beijocas da Bia =)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!