Belos tempos.

18 Uma despedida.


Notas iniciais
Escrevo para aplacar a ânsia que invade minh'alma.... "Quem escreve constrói castelos, quem lê, passa a habitá-los."

Laura, não conseguia dormir. No telegrama seu pai informava que sua mãe não havia melhorado e que seria bom que ela fosse para a capital. Assim que voltaram da escola, arrumaram uma bagagem mínima, para facilitar a viagem, mas essa atividade foi executada em um silêncio pesado e cheio de temor. Uma parte de seu ser estava em júbilo pelo pedido de Edgar. Ela era sua namorada agora, certo?! Mas foi tudo tão rápido e eles sequer puderam conversar. Havia tantos pensamentos e sentimentos misturados dentro dela que era impossível conciliar o sono. Por mais que tentasse, a situação de sua mãe, a necessidade de estar com Edgar, de conversar com ele ..., saber o que ele estava sentindo. Se esse tumulto de pensamentos desencontrados também acontecia com ele. E se quando ela retornasse da capital ele já estivesse partido? O que faria?

Muito pouco, ou quase nada... Seu pai lhe dissera que ela poderia ir para a capital a fim de continuar os estudos. Mas quando seria isso? Será que a mãe realmente concordaria? Mas seja lá o que acontecesse, uma certeza ela tinha: iria continuar a estudar, talvez se tornaria uma artista, ou quem sabe aprender a cuidar de cavalos ... O cansaço finalmente a vencera e ela mergulhou em um sono agitado.

Por Edgar.

O céu ainda estava escuro, um mínimo de luz indicava que o dia logo iria raiar... Rapidamente Edgar, levantou-se e sem acordar os pais, saiu de casa rumo a fazenda Laranjeiras, queria estar lá antes da partida de Laura. Talvez conseguisse falar com ela a sós... havia tanto a ser dito! Por mais que ele se sentisse mortificado de vergonha, resolveu deixar claro para a sua Laura como se sentia em relação a ela. Pensou muito para tomar essa resolução enquanto confeccionava a casa de boneca que fizera para ela. Ela lhe contara certa vez, que lera um livro em que uma linda história acontecia em uma casa de boneca e que desde então ela quis ter uma, que talvez conseguisse comprar uma na capital, como lhe prometera o pai. A cada detalhe reforçava em seu interior que estava fazendo o certo. O sentimento que a revelia de sua vontade tomou todo o seu coração, o enchia de alegria. Por isso tinha certeza de que não podia ser errado.

E desde que recebeu a resposta dela marcada naquele pequeno pedaço de papel, seu coração acelerava ao relembrar o teor da resposta. Laura, sua Laurinha aceitara namorar com ele!! Isso superava tudo. Mesmo que ele tivesse que viajar, até mesmo se eles fossem para países diferentes, ela agora era sua namorada. Sua namorada...

Seu cavalo já estava tão acostumado com o caminho para a fazenda, que precisou de pouca orientação, e logo Edgar se viu no jardim logo abaixo da janela do quarto de Laura.

Por Laura.

O sono agitado, não trouxera muito alivio, e junto com o raiar do dia Laura despertou. Manteve-se mais tempo deitada, pensando e então ouviu uma pequena batida em sua janela, como se ... E de novo o mesmo barulhinho, como se alguma coisa pequena houvesse sido jogada na janela. Curiosa para saber de que se tratava, levantou-se e foi até a janela.

Quando conseguiu que seus olhos acostumassem com a penumbra que o amanhecer derramava sobre o jardim, ela o notou por entre os pés de rosas bem ao pé de sua janela...

— Você pode descer um pouco?

Perguntou Edgar, assim que a avistou na janela.

Laura apenas olhou-o, sem saber como responderia sem acordar sua Bá no quarto ao lado, se é que ela já não estivesse acordada... Então apenas acenou para que ele esperasse.

Com uma agilidade imprópria para aquela hora da manhã, ela vestiu-se e com a roupa de mantaria e com as botas nas mãos saiu do quarto, indo para o jardim.

Quando chegou no jardim, encontrou Edgar sentado no mesmo banco que tempos atrás eles conversaram, quando ela se recuperava de um forte resfriado.

— Você disse que viria, mas não acha que exagerou? Se alguém te encontra, Dú principalmente, nós estaríamos enrascados...

Ao ouvi-la, Edgar levantou-se e foi até ela, e sem responder-lhe apenas a acolheu em um forte abraço.

— Me desculpe. Eu fiquei com receio de que vocês saíssem muito cedo e nós nos desencontrássemos...

Com a face acomodada em seu ombro, Laura encontrou a resposta para todas as suas agonias...

— Não precisa pedir desculpas. Se eu pudesse também teria ido ao seu encontro. Ontem nós não conseguimos conversar direito e tudo ficou parecendo imaginação de minha cabeça, pensei nisso quase toda a noite!

Num abraço frouxo, Edgar acariciava levemente a face de Laura.

— Eu também. Não sei se eu deveria fazer isso, eu não escolhi Laura, mas eu gosto muito de você e precisava te dizer.

Olhando profundamente naqueles olhos verdes, Laura não poderia duvidar, e em seu triste olhar ela viu refletido o que ela também sentia.

— Nós não sabemos o que vai acontecer quando você for embora. Eu estou preocupada em como vou encontrar minha mãe. Provavelmente meu pai me deixaria de castigo para sempre se nos visse aqui, agora... Mas eu também quero que você conheça os meus sentimentos, Edgar. Você é muito especial para mim. Dói de um jeito que nunca senti, quando penso que ficarei longe de você...

— Laura... nós não vamos nos perder. Eu te prometo. E você pode se acostumar com isso. Eu cumpro minhas promessas.

Com um anuncio de sorriso, Laura fechou os olhos para absorver melhor a proximidade com Edgar.

Serenamente, em contraste com o momento angustiante em que viviam, Edgar segurou as mãos de Laura entre as suas.

— Ao fim dessa semana, vou para a casa de meu avô João, devo ficar lá alguns dias...

— Então quando eu voltar, você não estará mais aqui?

A tristeza, era tão profunda que não conseguia derramar-se em lágrimas. Eles haviam se encontrado tão perfeitamente, apenas para se perderem.

— Provavelmente não. Meu avô não esta muito bem de saúde e vamos para lá a fim de ajudar no que for preciso. Meu pai contratou um rapaz para ajudá-lo na mercearia e para meu espanto, concordou docilmente com minha ida para terminar os estudos na capital. Só que não sei se irei para a cidade do Rio de Janeiro...

— Como é que é? Como assim Edgar?!!

— Eu fui aceito no colégio Marista Arquidiocesano em São Paulo, e meu avô, acha que será melhor que o colégio Liceu Franco Brasileiro, no Rio de Janeiro, mas eu tenho minhas dúvidas.

— Se papai realmente cumprir o que me prometeu, eu também vou para a capital, continuar os estudos. Mas talvez você não estará lá!

— Calma, Laurinha. Não está decidido ainda. Mamãe não quer que eu vá para São Paulo, segundo ela lá não terá ninguém para cuidar de mim e na capital tenho um tio...

— Já esta clareando, logo Dú vai procurar por mim em meu quarto ...

— Não vá ainda! Eu poderia tomar café com vocês?

— Olha só! Já está completamente à vontade! Isso não vai dar certo! — Laura queria muito prolongar ao máximo esse tempo com Edgar. Não tinha como saber quando o veria novamente... – Então tá... venha. Provavelmente já tem um café na cozinha...

Arrastando-o para a outra entrada da casa, logo estavam sentados na imensa mesa que ocupava o centro da espaçosa cozinha da casa. Um café simples com biscoitos foi servido pela cozinheira com estranheza.

-Srta Laura, D.Lurdes não desceu ainda. – disse a cozinheira.

— Não, Maria, ela está a terminar de arrumar a bagagem e logo se juntará a nós.

A senhora, olhou ainda desconfiada para os jovens, mas como já havia visto aquele rapazinho conversando com o Sr Benjamim, e também com o Dr, entendeu que não deveria ter problemas. De qualquer forma eles estavam com ela, e ela não tiraria os olhos dos dois.

Laura e Edgar, ainda conversaram muito, fazendo planos, trocando endereços para cartas e fazendo promessas.

Lurdes os encontrou assim.

— Bom dia. Não esta muito cedo para visitas não menino?

— Bom dia D. Lurdes. Eu sabia que vocês viajariam cedo, vim apenas me despedir, eu também estou de partida.

— Você já esta indo para a capital?

— Não, ainda não. Meu avô não esta muito bem de saúde e mamãe quer ir ajudar minha avó. Provavelmente ficarei lá nos próximos dias.

— Sei... – Dú olhava atentamente sua menina, perto daquele rapazinho, e o que viu lhe assustou. Eles não se tocavam, ao contrário, o rapaz mostrava-se sempre muito respeitoso, mas havia algo que os ligava, uma certa sincronia.

A conversa entre os três desenrolou-se por mais um tempo, até que Dú precisou retirar-se para resolver algumas questões e deixando-os aos cuidados de Maria.

— Edgar, melhoras ao seu avô. Diga a sua mãe que assim que retornar, eu a procuro, sim?!

— Direi sim, D. Lurdes. E obrigada.

Pouco tempo depois de Dú deixá-los, Laura e Edgar voltaram para o jardim onde ele havia deixado sua montaria.

— Preciso ir Laurinha. Te escrevo dizendo quando irei para capital, caso eu vá direito da casa do meu avô.

— Estarei aqui a espera de sua carta.

Segurando em suas mãos, Edgar a conduziu para um caramanchão que fornecia uma bela sombra e não permitia que fossem vistos de longe, por alguém que por ventura estive a atravessar o pátio da fazenda, que aos poucos começava a despertar para um novo dia.

Olhando um nos olhos do outro, por um tempo, que para eles escorria muito rápido, e que foi quebrado pelas palavras de Edgar:

— Você me é muito querida Laura. Eu farei de tudo para vir aqui antes de ir de partida para a capital. Mas se eu não conseguir, tenha certeza de uma coisa, você é o meu sonho.

— E você o meu, Edgar. – era impossível segurar as lágrimas, e Laura não resistiu a elas. – Eu estarei esperando por você, sempre.

Tão suave quanto as palavras que eram ditas, foi o beijo que trocaram. De início um leve roçar de lábios, mas depois do primeiro contato e de sentirem o gosto um do outro, o beijo transformou-se em um beijo de despedida, carregado de sentimentos e de promessas.

Sem encontrar palavras que expressassem para Laura tudo o que ia em seu íntimo, Edgar, afastou-se, olhou para Laura que com os olhos fechados, perdia mais uma lágrima, que delicadamente ele aparou com os dedos... fazendo uma última carícia em sua face.

Quando Laura abriu os olhos ele já montava e com um aceno, despediu-se.

Notas finais
Um abraço carinhoso para você.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.