Belos tempos.
12 Surpresas ...
Notas iniciais
Laura estranhou que Du dirigiu-se para a casa de Edgar, nos fundos da mercearia, ao invés de ir para a loja de tecidos, mas preferiu não falar nada ... Ela e d. Lucia estavam muito animadas com algo que a menina ainda não fazia ideia do que fosse. Sua surpresa foi maior ainda quando D. Margarida recebeu-as na porta com muito entusiasmo e logo Laura descobriu pelo diálogo entre elas que d. Lucia é uma amiga comum de d. Margarida e Du...
– Olá, mocinha, como vai, meu filho fala muito de você!
Se fosse possível sumir, esse seria o momento escolhido por Laura para desaparecer, mas como não poderia recolheu sua vergonha e cumprimentou-a de volta:
– Como vai d. Margarida?!
– Muito bem, obrigada. — Agora dirigindo-se a todas, convidou-as para entrar.
E assim Laura se viu tomando chá, na sala da casa de Edgar, com a mãe dele! Ela queria andar pela casa, olhar tudo e fazer perguntas a d. Margarida, mas não seria correto, então permaneceu calada e quieta, tentando conter seus inúmeros pensamentos!
Após o momento inicial, Laura começou a prestar atenção na conversa das senhoras e logo entendeu que D. Margarida e D. Lucia estavam montando uma associação de senhoras para ajudar as mulheres do vilarejo a desenvolverem uma maneira de aumentar a renda da família. A ideia era muito boa, o entrave pelo que a menina entendeu estava sendo os maridos, mas as nobres senhoras não iriam desistir facilmente, e D. Margarida era a mais eufórica e determinada com o projeto. Laura já havia cumprimentado a D. Margarida algumas vezes nas raras visitas que fazia ao vilarejo com sua Ba, e nessas poucas ocasiões não foi possível notar exatamente que tipo de mulher ela era, mas hoje vira que era firme em seus propósitos sem deixar de ser delicada e meiga, talvez daí viesse o jeito meigo do Edgar, pensou.
Laura lembrou-se que se sua mãe imaginasse, mesmo que remotamente, que ela estava na casa da mulher do “vendeiro”, como ela dizia, com certeza teria uma ataque! Esse pensamento a fez sorrir, mas com a lembrança da mãe, um outro assumiu posição privilegiada: “Porque sua mãe estava demorando tanto pra voltar?” Como a conversa não dependia de sua participação, a menina, pôs-se a refletir sobre o que estava acontecendo em sua casa ... De uns tempos para cá seu pai estava triste e sempre pensativo, isso era algo bastante incomum para o Dr Assunção, sempre tão falante e alegre. Ele fizera uma viagem alguns dias atrás dizendo que ia encontrar-se com a esposa e acompanhá-la de volta, mas retornou sozinho e disse apenas que D. Constância estava fazendo companhia para a irmã que estava adoentada, e que logo voltaria. Mas Laura achou muito vago tudo aquilo e quando o perguntou se a mãe lhe mandara algum recado, viu que ele ficara desconcertado e respondera que a mãe estava com muita saudades e que lhe mandara muitos beijos e abraços. Du também não quis lhe dizer muito, apenas dizia que isso era assunto do casal e que eles logo resolveriam. Mas que assunto era esse? O seu pai e sua Ba, enchiam sua vida de alegria, e ela até sentia um pouco de remorso em admitir, mas não sentia mta falta da mãe, ou melhor não sentia falta nenhuma! D. Constância era incapaz de ver a filha e o que ela era de verdade, ela enxergava apenas o que queria que a filha fosse, e por isso a enchia de criticas. Não ter a aprovação da mãe, já a magoara muito, mas aos poucos isso estava ficando pequeno em relação à tudo o que queria ... Talvez com o tempo elas se acertassem. Assim que o pensamento surgiu foi logo descartado: “Nós duas somos muito diferentes, jamais nos acertaremos.”
Já estava escurecendo quando saíram da casa de D. Margarida e apesar de ter desejado, Laura não encontrou novamente com Edgar. Ao invés disso conheceu seu irmãozinho, Edson, um bebe muito fofo e brincalhão!
Quando chegaram na fazenda, ambas estavam muito cansadas então dispensaram o jantar e recolheram-se. Laura depois de dar boa noite ao pai que estava na sua biblioteca e Du logo que verificou que sua menina já estava pronta para dormir.
Ao longo dos dias, Laura enxergou dois grandes movimentos: o projeto das senhoras do vilarejo, recebendo cada vez mais apoio, e o outro era o seu pai que estava cada vez mais triste ... Sempre que ela tentava conversar, ele dava-lhe um sorrisinho e mudava o rumo da conversa.
Na escola estava uma maravilha, encontrava-se sempre com o Edgar e riam, brincavam e conversavam bastante, parece que as brincadeiras com a amizade dos dois havia acabado por si só.
Ainda sem querer desobedecer ao pai, mas com muita vontade de montar em seu pônei, Laura resolveu arriscar pedir ao pai que a deixasse montar só um pouquinho. Depois de muitas recomendações e alusões a falta de juízo Dr Assunção deu-lhe a permissão para andar apenas no pátio em frente ao estábulo. “Antes um pouco do que nada...” pensou Laura, feliz em poder finalmente voltar a montar. Sua vida parecia toda certa, nos mínimos detalhes, frequentava a escola, tinha bons amigos, uma melhor amiga, podia desfrutar sempre da companhia de Edgar, ajudava sua Bá na estruturação da associação de mulheres e com isso ia sempre ao vilarejo e as vezes até na casa do Edgar.
Numa dessas visitas, já estava aprontando pra acompanhar Du de volta para casa, aguardavam o Seu Chico na casa de D. Margarida, quando Laura ouviu a voz de seu querido amigo nos fundos da casa. Sem conseguir controlar-se pediu permissão de Du e de D. Margarida para ir ter com ele.
– Va Laurinha, mas tem que ser rápido, porque já esta escurecendo e Chico deve chegar a qualquer momento.
– Sim, volto rapidinho! — E seguiu conforme orientação de D. Margarida, encontrando-o no quintal da casa, remexendo em uma caixa.
–Oi Edgar!
– Oi Laurinha! Ah, você estragou minha surpresa!
–Que surpresa menino? Você não me falou nada!
Rindo Edgar caçoou dela, dizendo:
–Ora, se eu tivesse dito não seria surpresa!
Laura aproximou-se da caixa e derreteu-se quando viu dois grandes olhos castanhos a lhe observar.
– Como assim surpresa?! Você vai dá-lo para mim? É isso?
– É sim. Só que era para ser surpresa, eu ia levar para você na fazenda... e agora você descobriu tudo!
Laura não resistiu e deu-lhe um beijo estalado na bochecha, e fez-lhe cocegas para desfazer sua cara amarrada.
–Seu bobo, foi uma surpresa do mesmo jeito, eu não sabia de nada!! E ele é tão lindo!
– Epa! Auto lá. Não é ele, é ela.... e precisa de um nome. Já esta com quase dois meses e é muito mansinha, por isso eu a escolhi para você. Será que seu pai não vai ficar bravo?
– Claro que não! Que nome eu dou para ela? Eu não faço nem ideia! Apesar de morar numa fazenda eu nunca tive um cachorro meu, só os cães da fazenda, mas são todos muito grandes e barulhentos... Essa aqui é muito linda, posso pegá-la?
– Pode, é sua, se você quiser pode leva-la agora ...
–Será? E eu vou saber cuidar dela?
– Vai sim, ela não fica muito grande, e come pouco, basta manter um pouco de água num lugar fixo para ela se acostumar e por enquanto leite, depois pode ate dar comida ...
– Só isso? Tem certeza?!
Enquanto conversavam o pequeno filhote brincava no colo da menina, e as duas sabiam que dali para a frente ninguém as separaria ...
Laura mostrou o filhote para Du, que achou uma ótima ideia, assim a sua menina entenderia o trabalho que uma criança dá, e todos riam das gracinhas da pequena que não saiu mais do colo de Laura.
Em casa, D. Lurdes ajudou Laura a montar um cantinho bem confortável para a pequena cadela, que ainda não tinha nome, no quarto de Laura e contrariando a todos os argumentos de seu pai que dizia que cachorros ficam fora de casa, o filhote dormiu toda a noite sem fazer nenhum barulhinho sequer, ganhando assim a permissão para ficar no quarto de Laura.
Com medo de que sua mãe não permitisse a permanência do filhote, Laura procurou o pai certo dia e perguntou-lhe quando a mãe iria voltar ...
–Filha, eu preciso conversar com você. Venha cá.
Quando os dois já estavam acomodados no amplo sofá da sala de estar, Dr Assunção pegou as pequenas mãos de sua filha entre as suas e disse:
– Eu e sua mãe conversamos em minha ultima viagem e hoje recebi uma carta dela, dizendo que vai ficar morando na capital, com sua irmã, sua tia Carlota...
–Como assim? Nós também vamos? Porque ela esta fazendo isso?
Puxando a filha para seus braços, Dr Assunção tentou explicar da melhor maneira possível que sua mãe nunca aprovou que morassem na fazenda...
– Entenda, filha, sua mãe criou-se aqui na fazenda dos seus avós, mas sempre sonhou em morar na cidade. Quando nos casamos, ela acreditava que com tempo me convenceria a mudar para a capital, mas você sabe o quanto gosto disso aqui. Eu morei lá por vários anos enquanto estudava, mas meu propósito sempre foi voltar para a fazenda e exercer a medicina aqui no vilarejo e na região, e mesmo com todo o esforço de sua mãe é essa a vida que eu quero para mim.
– Mas e eu pai, e o casamento de vocês? O que vai acontecer agora?
–Sinceramente? Eu não sei ... você é muito nova ainda para entender, mas posso te adiantar que a vida de um casal é algo complicado! E nem sempre a dinâmica dá certo ...
Pensativa, Laura perguntou:
– Mas, o sr esta me dizendo que você e a mamãe vão se separar? É isso pai?
– Não sei se chegaremos a tanto, Laura. Mas sua mãe vai morar uns tempos na capital e você filha esta livre para ficar onde você quiser, aqui comigo na fazenda ou na cidade com sua mãe.
Não era possível que isso estivesse acontecendo ... como ela poderia escolher? Mais uma vez se sentiu traída por sua mãe que insensível ao que lhe ia ao coração não se dispôs a voltar e conversar com ela ... “Como eu poderia morar com uma mãe assim? Ela nunca me tratou como filha. E agora isso?!”
Pai e filha choraram juntos ... por um longo tempo permaneceram abraçados e do arco que separava as salas D. Lurdes viu a dor que os uniu mais ainda. E ela nesse momento jurou que se encontrasse sua patroa novamente iria lhe dizer umas verdades. “Ora! Quem você pensa que é criada?! Por mais que você saiba o que dizer, jamais poderá fazê-lo, recolha-se a sua insignificância.” Pensou. E chorou junto com eles, apesar de distante, pela dor que sua menina estava sentindo naquele momento.
Fale com o autor