Belos tempos.
10 Conversas
Notas iniciais
Por Laura.
Os dias que se seguiram não trouxeram novidades ... Eu me recuperei completamente, o pé já não me incomodava em nada. Mas o castigo de não sair de casa sozinha, pela conversa que tive com o papai, se manteria ainda por um bom tempo. Então me restava apenas aproveitar a escola e dedicar-me às aulas que ainda tinha em casa, para quem sabe assim, convencer o Dr Assunção de meu arrependimento e da promessa de não desobedecê-lo mais. Não consegui conversar com Edgar ... apesar de tê-lo visto algumas vezes mas sempre de longe. Para tornar a semana ainda pior, minha amiga Tais não foi à aula nos últimos dois dias, então pedi ao meu pai que me deixasse ir à casa dela para ver como estava, e assim aproveitava para levar-lhe as lições que ela perdeu. Para meu espanto ele consentiu, sem colocar empecilhos ... Há alguns dias que eu o notava triste e preocupado, mas sempre que perguntava ele dizia que estava tudo bem e que estava se organizando para ir buscar a mamãe na capital, provavelmente na próxima semana ele iria buscá-la. Eu sentia falta dela, afinal é minha mãe, mas não podia negar que minha vida ficava muito mais fácil com ela longe ...
Então, logo após o almoço no sábado, eu e Du, subimos na charrete, e o Seu Chico nos conduziu até a fazenda dos pais de minha amiga. Não avisei que iria. Minha mãe ficaria mortificada se soubesse que fiz algo assim, mas seria uma visita rápida e Du me garantiu que não haveria problemas...
E realmente, fomos muito bem recebidas na casa de Tais. Sua mãe, sempre muito atenciosa logo envolveu Du numa conversa animada de senhoras e eu e minha amiga fomos para a varanda.
_ Fiquei preocupada amiga, você não foi à aula dois dias seguidos!
– Nem me diga Laurinha! Meu pai não passou bem e mamãe foi com ele para a cidade e eu precisei ficar aqui com meus irmãos, mas agora já esta tudo bem, Graças a Deus!
– Nossa Tais, que susto. E o seu Pai esta tudo bem com ele?
– Sim, já esta bem melhor, não foi nada sério. Venha quero te mostrar o baú!
Sempre alegres, fomos ao quarto que ela dividia com a irmã, e fiquei encantada com as edições, e com a estória que acompanhava todos eles.
– Meu avô só aprendeu a ler depois de adulto e já com os filhos crescidos, mas ele sempre foi um apaixonado pelas letras. Alguns desses livros ele conseguiu bem antes de saber ler.... – com carinho Tais acariciava os volumes, pensativa. – por isso fez todo o possível para que os filhos estudassem e conseguiu. Até que resolveu ele mesmo estudar, na época, todos caçoavam dele dizendo que ele não tinha mais idade para aprender, mas ele persistiu e logo já lia, devagar, mas lia. Sinto saudades dele Laurinha ...
Num abraço carinhoso eu dividi com Tais a dor que a saudade as vezes nos faz sentir, mesmo sendo tão novas...
–Não fique triste Tais, você era um orgulho para o seu avô, pense nisso!
Enxugando as lágrimas que teimavam em cair, ela olhou para mim e sorriu...
– Era mesmo, ele brigou feio com papai quando a escola abriu aqui em Riacho Velho e ele não queria dar a autorização para que eu estudasse. Você precisava ver como ele ficou bravo, e tanto fez que convenceu o meu pai. Se hoje eu sei ler e escrever e estou estudando é graças a ele ... – Já se refazendo da saudade ela logo perguntou:
– Vamos deixar de conversa mole e me diga, depois daquela visita inesperada, você falou com o Edgar de novo?
– Não. Imagina Tais! — Eu já estava vermelha de vergonha ... — Só o vi de longe, não conversamos.
– Sei, mas você queria ter encontrado com ele de novo não é?! Pode confessar, eu sei! — Era impossível resistir ao interrogatório da Tais ...
– Sim, eu gostaria de ter conversado mais com ele. Edgar não se parece com os outros meninos, com ele é possível conversar sobre qualquer coisa, e ele me trata como uma igual. Eu me sinto a vontade quando estou conversando com ele.
– Então o que vou lhe contar não vai te agradar nem um pouco!
– O que é ?
– Meu irmão, ouviu uns garotos fazendo brincadeiras com ele por causa de sua amizade com você.
– Mas que bobagem! Eu não disse Tais, esses meninos são muito imaturos. Onde já se viu?! Qual é o problema em sermos amigos?
– Problema nenhum... mas vai explicar isso para aqueles garotos.
E assim passamos uma agradável tarde juntas, conversando, brincando e saboreando um o delicioso lanche! Eu fiquei um pouco triste com o que a Tais me contou. Talvez por isso o Edgar estivesse procurando se manter longe de mim ...
Já bem de tardinha, voltamos para casa, Du animada com um novo ponto de bordado que aprendera com D. Célia, e eu envolvida em meus pensamentos ...
Na manhã seguinte, logo cedo, procurei pelo papai e descobri que ele estava no galpão conversando com Sr Benjamim, estranhei porque era muito cedo ainda, mas esperei por ele para tomarmos o desjejum juntos ...
Por Edgar.
No domingo, assim que meu pai me liberou das tarefas da mercearia, sai a galope sem um destino definido, eu queria apenas aproveitar meu tempo. Para não perder o costume, embrenhei-me na mata da fazenda Laranjeiras e quando já estava indo embora, resolvi parar para conversar com Sr. Benjamim. Encontrei-o no galpão, já se preparando para sair.
_ Bom dia Senhor.
_ Olá rapaz! Não imaginei que viesse hoje. Você anda sumido!
_ Estudos e trabalho. Meu pai não me dá muita folga ... E o senhor como está?
– Bem. – Depois de certo silêncio, o administrador resolveu dar o recado a que fora orientado – O Dr Assunção me pediu para levar você para conversar com ele. Pode ser agora?
– Pode. O que ele quer comigo? Será que vai me proibir de andar pela área da fazenda?
– Não, não é nada disso. Ele quer apenas te agradecer direito por ter socorrido a menina Laura. Não se preocupe. Venha comigo.
Eu acompanhei o Sr Benjamim, mas estava ficando nervoso, não entendia o porque desse interesse em mim depois de tanto tempo do acidente com Laura. Assim eu segui até o escritório do Dr Assunção, que ficava num prédio separado da casa grande, onde, conforme me explicou o sr Benjamim, funcionava a administração da fazenda. Assim que me anunciou o Sr Benjamim, saiu e me deixou com o Dr Assunção. Era uma situação muito desconfortável e eu não tinha certeza se ele queria só me agradecer.
–Bom dia meu rapaz. Sente-se.
Sentei-me numa das cadeiras enfrente a mesa onde o Dr Assunção estava.
– Bom dia.
– Não se preocupe, eu só quero conhecer melhor o rapaz que salvou a minha menina. No dia do acidente não tivemos tempo de conversar... Benjamim, me disse que você vem sempre por aqui a passeio e que seu lugar preferido é o bosque que circunda a gruta. É isso mesmo?
– Sim Senhor. Eu gosto de andar pela mata e aquele bosque esta numa região muito bonita.
Conversamos sobre amenidades, era fácil conversar com ele, deixou-me a vontade e se mostrava atento ao que eu lhe dizia. Perguntou se eu conheci a Laura no dia em que ela se machucou, e eu lhe contei que já havia conversado com ela na escola. Quando dei por mim já havia lhe contado sobre meus pais, quem era meu avô, até das peripécias do meu irmão nós comentamos. Eu não entendi a razão daquela conversa, mas fiquei feliz por ele não ter proibido que eu andasse por suas terras nem que falasse com sua filha. Num clima bem cordial, me despedi e voltei para casa.
Ao chegar em casa encontrei minha mãe, arrumando uma pequena bolsa pra o Edson e agitada me disse que nós íamos visitar o Vô João. Visitá-lo era sempre uma alegria, mas a agitação de minha mãe é que era estranho.
– Mãe, está tudo bem?
– Sim meu querido, é que seu avô vai mandar um coche para nos buscar, e quero estar pronta quando chegar.
– O papai vai conosco?
– Não filho, ele precisa cuidar da mercearia e nós só voltaremos amanhã.
Há muito tempo eu percebi que meu pai não era bem aceito na casa de meus avós maternos e por isso mesmo ele raramente nos acompanhava nessas visitas, e também os meus avós nunca vinham em nossa casa. Sempre que eu perguntava a minha mãe o porque disso, ela arrumava uma maneira de fugir do assunto, para não me explicar o motivo desse distanciamento.
Por Laura.
Eu estava sentada no jardim, em frente a casa, esperando minha Bá, para mais uma aula de bordado. Eu realmente não levava nenhum jeito para essa arte, mas Du era incansável e dizia que não desistiria enquanto eu não fosse capaz de executar pelo menos um simples ponto. E como ela tinha total apoio de minha mãe nessa tarefa, eu não tinha para onde correr. Tanta coisa boa para fazer, tantas brincadeiras e eu ali sentada naquele banco segurando uma agulha. Mas eu não poderia reclamar, afinal ainda estava de castigo, e não queria deixar o meu pai zangado, por isso esperava pacientemente.
– Ah, que bom, aqui esta você!
– Qual a surpresa Du, você não me pediu para te esperar aqui?!
– Pedi, mas você ficar a me esperar é novidade, e ainda mais para bordar.
Começamos o trabalho e logo estávamos entretidas com a tarefa... por mais que eu preferisse ir brincar, tinha que reconhecer a vantagem que o bordado me dava, eu poderia mergulhar em meus pensamentos enquanto lutava com a agulha ... Eu estava tão concentrada em meus pensamentos que só percebi que Du me falava algo, quando ouvi o nome Edgar.
– O que você disse Du?
– Mas menina, onde você estava ? Garanto que eu desperdicei o meu latim aqui ...
– Me desculpe. Pode dizer, sou toda ouvidos... – Du me olhava querendo ver o que se passava em meu interior. Mas mesmo contrariada repetiu :
– Benjamim, veio tomar o café da tarde na cozinha da casa e me perguntou se eu sabia como havia sido a conversa do Dr Assunção com o menino que te salvou.
– Como é que é? Edgar esteve aqui hoje?! Quando foi isso Du?
– Hoje cedo. Mas Benjamim, não soube me dizer de que se tratava a conversa, ele achou que eu saberia ...
–Ai, Ba. Que vergonha! O que será que papai falou com Edgar? No dia do acidente, que ele me trouxe, papai foi tão rude com ele ... Porque ele o chamaria aqui? Será que ele descobriu que eu estive conversando com Edgar aqui no jardim?
– Como é que é D. Laura? Que história é essa?
–Nada demais, Du! Dias atrás ele apareceu, enquanto eu fazia a lição aqui no jardim e conversamos um pouco, só isso.
– Mas era só o que me faltava. E eu feito uma boba, ainda trago noticias dele para você! Porque não me disse que havia conversado com ele aqui? Sua mãe vai me matar quando descobrir essa estória.
– Ela só irá descobrir se você contar. E não tem nada demais, somos amigos e colegas de escola, só isso. Não entendo porque todos se incomodam com nossa amizade!
– Você não tem idade para esse tipo de amizade. E agora acho bom você se preocupar, por que o seu pai esta vindo ao nosso encontro.
Meu coração deu um salto e parou de bater ... eu não fiz nada de errado! Mas sentia-me apavorada com o resultado da conversa de meu pai com Edgar.
– Olá, senhoritas! — papai nos cumprimentou com um sorriso amável. – Dona Lurdes, preciso conversar com Laura. É só um instante, logo vocês poderão retomar o bordado, sim?!
– Sim Senhor, vou buscar um refresco.
Papai aguardou, que Du se distanciasse um pouco e disse:
– Estive conversando com seu novo amigo hoje.
Eu não sabia o que dizer. Não esperava que papai fosse tão direto!
– Pai, por favor, não me diga que o senhorr foi rude com ele novamente!
– Por que eu seria rude com ele? Tenho motivos para isso?
– Não! Claro que não.
Ele recostou-se em seu assento e me olhou profundamente, como se pensasse muito bem no que ia dizer.
– Pode ficar despreocupada, apenas lhe agradeci devidamente, por ter socorrido você. E conversamos um pouco, sobre coisas bobas... – após um pequeno silêncio, em que ele me observava e eu não sabia o que fazer, ou para onde olhar, meu pai continuou: — Ele me pareceu um bom menino, como aliás Benjamin já havia me dito. Até que eu tenha motivos, não vejo porque vocês não possam ser amigos, principalmente se a senhorita cumprir a promessa que me fez de me obedecer e não fazer nada escondido.
– Papai, o senhor tem a minha palavra. E o Edgar é apenas um colega da escola, imagino até que deve mudar de escola, porque já me disse que gostaria de estudar na capital.
– É mesmo! Que interessante! E tudo isso você já sabe de um menino que é apenas seu colega de escola?
Meu pai era muito esperto e sempre conseguia arrancar de mim tudo o que quisesse. Eu estava muito sem jeito de ter essa conversa com ele. Principalmente porque eu não conseguia entender o que ele pretendia.
– Sim ... ele ajuda D. Ana na biblioteca e conversávamos com ela certa vez e ele nos disse isso.
– Que bom!
Du chegou trazendo o refresco mas meu pai dispensou a oferta e saiu dizendo-nos para ficarmos a vontade com nosso trabalho.
Depois dessa conversa estranha, eu precisava conversar com o Edgar e ter certeza de que o meu pai não o destratou. Seria penoso esperar o dia seguinte para tentar conversar com ele.
Fale com o autor