Belo Vestido
1 Parte I - Capítulo 1
Notas iniciais
POV Nick
Quase pulo da cama quando meu celular vibra embaixo das minhas costas. Olho pra ele. É minha mãe me ligando. Desligo e deito novamente, ainda não completamente acordado. Apesar de ter olhado o celular há menos de um minuto, não consigo me lembrar das horas. Bom, pela luz que entra no quarto, já deve ser tarde. Estou com uma puta ressaca e vontade nenhuma de atender a ligação.
— Droga... — sussurro baixinho quando lembro que prometi a minha mãe que chegaria ontem à noite. — Droga, droga, droga... — Continuo sussurrando enquanto começo a vestir minha calça jeans. Sento na cama calçando meus sapatênis e sentindo uma dor razoável nas costas. Não consigo me lembrar muito bem do que fiz noite passada, mas sei que foi suficiente para me cansar.
Pego o celular de novo e desbloqueio. 12 chamadas perdidas. Doze, Nick, doze!!! Coloco o celular no bolso enquanto visto minha camiseta. Ah, não! E quando eu pensava que não podia piorar, a blusa branca está manchada de cerveja. Suspiro cansado. Olho para o lado e vejo uma loira enrolada num lençol quase transparente. Por mais que eu tente, não consigo me lembrar como chegamos aqui.
Pego minhas chaves e minha carteira em cima do criado-mudo e saio pela porta de frente que, por sorte, estava destrancada. Vejo meu carro parado na calçada do outro lado da casa, em frente a um terreno baldio. Como já era de se esperar, o portão estava trancado. Vamos, Nick, pense. Preciso sair daqui, mas acordar a moça está fora de questão. Não me lembro nem do nome dela direito, então como iria chamá-la? Apoio meu pé esquerdo na caixa de correio e me sento no muro, me desequilibrando por um milésimo de segundo, mas me reestabilizando com facilidade. Viro e pulo. Isso se mostra um pouco mais difícil, por causa da ressaca. Atravesso a rua, muito tranquila. Entro no carro e dou a partida depois de demorar alguns segundos tentando encaixar as chaves na ignição. Dois minutos depois de estar dirigindo, minha mãe me liga de novo, e dessa vez acho melhor atender:
— Fala, mãe!
— Nick! Por que você não me atendeu? – ela soa claramente nervoa.
— Estava dormindo. — viro bruscamente porque estava confuso e quase esqueci qual rua virar. Os pneus derrapam fazendo um som maneiro. — Sinto muito se só você acorda às seis pra varrer a calçada.
— Seis, Nick? Sério? Já são duas horas da tarde. – ela suspira, recuperando a paciência. Caraca, eu não sabia que era tão tarde assim.— Enfim. Preciso que empreste seu carro pro Patrick.
— O quê?! Nem pensar... Por quê?
— O carro dele quebrou hoje de manhã, e ele precisa viajar amanhã. Você sabe que é muito longe daqui, então ele precisa sair agora à tarde pra chegar lá de manhã. Não dá tempo de consertar o dele. Você não se importa, não é?
— Mas é claro que eu...
— Não é?! — suspiro. Não era um pedido. Era uma ordem.
— Não.
— Ótimo. Não atenda telefones quando estiver dirigindo a não ser que queira ficar sem carro, rapaz!
— Mas foi você quem li...
— Chegue em casa vivo! Tchau, tchau!
Essa é Mônica, minha mãe. Tem 35 anos e está se casando pela segunda vez com um cara chamado Patrick. Ele é 11 anos mais velho que ela, cara. Sei que no mundo mais adulto isso deve ser normal, mas, pra mim, é quase absurdo. Porém não posso dizer que ele não é um cara legal. Pat. Eu o chamo assim. A gente se dá bem, falamos sobre garotas. Bom, na maior parte das vezes, ele fica me dizendo como teve sorte em conhecer minha mãe, mas ele também sabe dar umas dicas de xaveco que não são tão idiotas quanto a maioria que homens da idade dele dão. Pelo que entendi, ele era tão pegador quanto eu antes de se comprometer com minha mãe. E isso é legal. Quando chegar na idade dele quero ser assim. Mas sem a parte do casamento, é claro. Chego na casa, que a propósito é dele, e eu e minha mãe viemos morar aqui há dois meses quando eles ficaram noivos. O portão já está aberto, como Mônica deve ter deixado sabendo que eu estava chegando. Estaciono e entro. Passo pela cozinha pegar um gelo para minha enxaqueca, e Pat está lá.
— Como vai, campeão? — pergunta tirando uma lasanha do forno, com as luvas e o avental da minha mãe. Ok, ele parece bem gay desse jeito.
— O de sempre. — Abro o freezer e tiro um saco de gelo.
— Festejou bastante ontem? — ele começa a tirar as luvas. Isso, assim é bem melhor.
— Sim, que eu me lembre. – rio levemente.
— Que bom... Ah, sinto muito ter que tirar seu carro de você. – ele lembra.
— Sem problemas — Na verdade, até era um problema, mas ele é legal, e não quero implicar.
— Eu tenho uma coisa urgente de verdade, senão eu esperaria o conserto.
— Tranquilo, Pat. Sério. — faço um 'joia' e me viro para sair.
— Ei, ei garoto. Não pense que eu não vi.
— Hãn? — me viro me fazendo de desentendido. Ele aponta minha camisa manchada. – Ah, pois é. Mas Pat, vamos lá, eu já tenho 19..
— Eu sei, o problema não é comigo, Nick, é com a sua mãe... — ele olha sobre meus ombros começa a caminhar até a porta. Ao passar por mim, sussurra: — Falando nela... Olá querida!
— Oi, amor.
Me viro de costas para ela, e abro os armários, fingindo pegar alguma coisa. Há relativo silêncio, e tenho certeza de que eles estão se beijando. Mesmo assim, me viro só para confirmar. Suas mãos estão na nuca de Pat. Ele a empurra contra a parede, e parecem se esquecer de mim.
— Olha, amor, tenho que passar o mercado antes de viajar, então já vou sair, tudo bem?
— Tá bem. Que horas você chega amanhã? — ele mexe no cabelo dela. Volto minha atenção para os armários de novo. Situação constrangedora do caramba!
Ele balança a cabeça para os lados — Antes do almoço.
— Ok. Se cuida. — eles se beijam novamente. E eu me contorço por dentro.
— Até mais, Nick! — ele diz saindo.
— Até. – grito e minha mãe se aproxima.
— Como foi ontem, na festa do seu amigo?
— Normal.
— Falou com a Melissa? — Paro de fuçar no armário à procura de nada e encaro a pia. — Tudo bem... vou receber isso como um 'não'.
— Já faz mais de um mês, mãe...
— Eu sei, eu sei... O que vai fazer agora? – Ela muda de assunto, mas parece perceber que estou escondendo alguma coisa. Bato a mão propositalmente em um pacote de salgadinhos que cai no chão do lado oposto a ela. Me agacho para pegar e quando volto mantenho tampando a mancha.
— Ah, sei lá. Deitar no quarto, assistir TV.
— Eu precisava de uma ajudinha com as caixas.
— Poxa, mãe, já tem dois meses, e você ainda não desencaixotou tudo?
— Falta só mais um pouquinho, vamos lá, me ajuda...
— Ah, fica pra mais tarde — Corro em direção às escadas.
— Obrigada, meu filho, por estar sempre ao meu lado... — ela ironiza. Lembro-me de que esqueci o gelo. Volto rapidamente, pego o saco na pia e lhe dou um beijo na bochecha.
— Também te amo, mãe. — Subo as escadas, viro o corredor à direita e entro no meu quarto.
Tranco a porta e tiro a blusa manchada. Descalço meus tênis e os deixo no chão. Jogo o salgadinho em cima da cama e atiro a blusa no cesto de roupa suja, na porta do banheiro, a 4 metros de mim. Bom arremesso, penso. Vou caminhando até o guarda-roupa pegar algum filme. Sento-me no chão, escolhendo alguma coisa sem muito critério.
— Acho que serve — digo enquanto balanço na mão o filme Iron Man 3. Ao passar pelo espelho, vejo que meu tempo fora da academia está mostrando seu poder. Eu provavelmente deveria voltar a me exercitar mais do que uma partida de basquete vez ou outra, mas no momento não tenho muita vontade para tal. Coloco o filme e deito na cama. Acabo dormindo na metade, com o pacote de salgadinhos pela metade do meu lado.
No dia seguinte
POV Christina
Todas as minhas coisas estão prontas. Malas e caixas. Tudo guardado, apenas esperando para ser levado. Já me despedi de todos os professores e das pessoas mais chegadas, como minhas colegas de quarto. Elas também são as melhores amigas que tive por aqui. Mas agora acabou. Meu pai está um pouco atrasado, então me permito caminhar um pouco pelo campus, relembrando momentos e pensando no futuro. Vejo árvores sob as quais já fiz almoços com minhas amigas. Vejo o estacionamento da escola que frequentei, onde me formei. Sento-me num banco de balanço no jardim de inverno do prédio administrativo. Quando eu cheguei aqui, não fazia ideia do quanto ia crescer, do quanto meus pensamentos iam mudar. Foram só 4 anos, mas que me mudaram completamente. A maioria dos medos que eu tinha, de que ficaria sozinha porque ninguém ia gostar de mim, de que nunca conseguiria alcançar nada. Tudo foi dissolvido e agora em seu lugar eu tenho firmes convicções de que daqui pra frente terei muito sucesso. Isso não significa fama, mas conquistas. Essas pessoas e essa instituição me mostraram que eu sou forte o suficiente para viver mesmo se eu não tiver tudo a meu favor. Espero conseguir colocar tudo em prática agora que vou morar com meu pai. Imagino que não será uma tarefa fácil. Mesmo sendo meu pai, eu não o conheço, poucas vezes interagimos, somos praticamente estranhos. Vou ter que me condicionar a confiar nele, assim como tive que fazer quando me desprendi da minha mãe e cheguei aqui, sem conhecer ninguém. Céus, como foi difícil. Mas se eu consegui, uma vez, posso conseguir de novo. É com esse pensamento que me levanto eu ouvir meu nome sendo anunciado dentro do prédio. Assim que entro no salão, vejo meu pai de costas, apoiado no balcão de vidro que acompanha a recepção. Um funcionário começa a colocar minhas malas perto da porta, ao lado dele. Seus olhos passam por elas e então ele começa a olhar ao redor do saguão, procurando por mim, e assim que ele acha, seus olhos se demoram até que ele solta um sorriso tímido.
Ando até ele com a mesma expressão e apresso um pouco meus passos para abraçá-lo. No começo, ele parece um pouco distante, não muito à vontade. Mas quando percebe que não é um abraço de cumprimento, e sim de saudade, cede à mesma força com a qual o aperto. Ficamos por alguns segundos a mais dessa forma, até que nos separamos e vejo que ele seca de forma muito discreta uma lágrima na bochecha direita.
— Oi, Chris...tina – ele hesita um pouco em me chamar pelo apelido ou não.
— Tudo bem. – rio.
— Eu me atrasei um pouco, espero não ter te feito esperar muito.
— Eu nem reparei. – minto, porque estou muito feliz de finalmente vê-lo aqui, fazendo algo exclusivamente por mim.
— Acho que vou colocar suas coisas no carro.
— Okay, eu ajudo.
Eu pego duas malas e ele duas caixas e vamos até o Hilux. Colocamos coisas no bagageiro até que fica lotado, então as três malas que faltaram vão no banco de trás.
Entramos no carro, colocamos os cintos e saímos pela portaria. Quando entramos na pista, ele pergunta se eu prefiro ar condicionado ou janela aberta. Digo que prefiro a segunda. Depois disso acabamos caindo no silêncio, mas não me incomodo.
Depois de uma hora, ele pergunta se eu estava com fome e paramos eu um restaurante que está servindo um jantar até que legal. Como um bolo diferente do qual estou acostumada a comer no internato. Imagino que daqui pra frente terei várias surpresas com sabores das coisas. Durante a refeição, acabamos nos soltando mais. Conto pra ele algumas coisas da minha antiga rotina, como nadar na piscina no domingo à tarde, comer pizza com as garotas do quarto uma vez por mês, sentar no bosque com uma galera tocando violão e cajón e cantando nostalgias. Ele parece bem interessado. Quando dou uma pausa, é a vez dele de contar algo.
— Fico feliz de saber que você se divertia. Espero que você também encontre coisas legais assim para fazer por lá. Sabe, algumas coisas mudaram bastante nos últimos tempos. Digo, na minha vida. Eu estou noivo. – ele anuncia mostrando a aliança que eu incrivelmente ainda não tinha reparado. Sorrio abertamente.
— Que legal! Fale sobre ela.
— Ela é muito simpática, você vai ver. Bem agitada, sempre fazendo alguma coisa. Ela estava bem ansiosa com a sua chegada, inclusive, arrumando tudo e nunca achando bom o suficiente. Ela é uma pessoa bem otimista. Ótima cozinheira, também.
— Já estou gostando dela! – rimos.
— E... ela tem um filho. – ele faz uma pausa esperando minha reação.
— Como ele é? – pergunto casualmente.
— Bem tranquilo. Devo dizer que não se parece muito com a mãe, ele é mais quieto, na dele, sabe? Mas é um bom menino. Tem quase 20 anos, ele também mora com a gente. Acho que vocês podem se dar bem.
— Espero que sim. – sorrio. Conversamos mais algumas coisas triviais, e então voltamos pro carro. Andamos por mais algumas horas até pararmos em um hotel. Meu pai diz que é um bom lugar, e me avisa a hora em que vamos sair no dia seguinte, para eu colocar meu celular pra despertar. Pego o necessário que estava nas malas e subo para os quartos. Antes de entrar no meu, ele me chama, está com um pacote na mão.
— Bom, como não fomos muito próximos eu não sabia exatamente do que você gostava, sabe? Então eu liguei para a sua diretora há alguns dias e ela disse que no seu quarto havia várias como essas, imaginei que fosse acertar. – ele parece um pouco nervoso. – É só uma lembrancinha, mesmo. – me estende o pacote.
Eu o abro, curiosa, e sorrio ao ver uma caneca de corujas.
— Gostou?
— Sim! Eu amei. Ela te deu a dica certa, eu coleciono canecas, e também adoro estampas de corujas. Muito obrigada. – dou-lhe mais um abraço, dessa vez de boa noite também, e vou para a cama. Quase não me levanto para escovar os dentes, mas venço a preguiça e me olho no espelho um pouco depois de enxaguar a boca. Estão quase sumindo, mas ainda consigo vê-las perto da orelha direita e embaixo do olho, quase no nariz. Suspiro me lembrando de coisas não muito agradáveis, mas em pouco tempo elas somem da minha mente, dando lugar ao cansaço que não percebi ter sentido o dia todo, e me entrego ao edredom geladinho.
Fale com o autor