Belo Desastre
1 Erro 404: Dia dos Namorados
Notas iniciais
C A P Í T U L O Ú N I C O:
Erro 404: Dia dos Namorados
A porta do meu apartamento mal havia se fechado, selando o meu santuário de sanidade, quando o celular vibrou dentro do bolso do sobretudo.
Uma vez. Duas. Três.
O meu despertador digital marcou exatamente 06:30.
Não programei nenhuma melodia estúpida, nenhum daqueles sons de pássaros ou harpas que as pessoas usam para suavizar o início do dia. Prefiro o bip seco, mecânico e repetitivo.
O visor vermelho iluminava fracamente o meu quarto minimalista. Nada estava fora do lugar. O lençol azul marinho permanecia perfeitamente esticado sobre a cama, sem rugas ou dobras desnecessárias porque, ao contrário do resto do mundo, eu não me debato à noite lutando contra demônios emocionais. A cortina bloqueava a maior parte da luz externa, permitindo que apenas uma faixa pálida da manhã atravessasse o ambiente.
Abri os olhos. Sem suspiros, sem reclamações, sem aquela resistência sonolenta e patética que a maioria das pessoas sentem ao abandonar o colchão. Eu simplesmente despertei. Permaneci imóvel por alguns segundos, encarando o teto. O silêncio era absoluto. Nenhuma televisão ligada em outro cômodo, nenhum som de máquina de lavar batendo a roupa, nenhuma voz. Nenhuma mensagem maldita sendo reproduzida. Apenas o leve zumbido do aquecedor.
Aquilo era a perfeição: ausência completa de seres humanos.
Afastei o cobertor e sentei-me na beirada da cama, deixando que o piso frio recebesse meus pés descalços. Passei a mão pelos cabelos e me levantei. Meu apartamento sempre foi uma extensão da minha personalidade: linhas retas, cores sóbrias, poucos objetos, nenhum excesso e, acima de tudo, nenhum detalhe emocional.
Na cozinha, a luz branca refletia no aço escovado dos eletrodomésticos. Abri a geladeira de inox e o clique da vedação ecoou pelo ambiente. Dentro dela havia exatamente o que precisava existir para a sobrevivência biológica: uma cartela de ovos, uma garrafa de água e meio limão. Nada mais. Nenhuma sobremesa açucarada, nenhum refrigerante, nenhum chocolate comprado por impulso psicológico.
Peguei a água, bebi diretamente da garrafa e fechei a porta.
A cafeteira já aguardava sobre o fogão. Preparei o café com movimentos precisos, quase automáticos. Água, pó e fogo. Nenhum desperdício de movimento, nenhuma distração. Enquanto esperava, apoiei a mão sobre o balcão de pedra escura, olhando pela janela. Konoha despertava lentamente e o céu estava coberto por nuvens cinzentas, o tipo de clima deprimente que afastava a massa das ruas.
O café começou a subir com um chiado suave. O aroma preencheu o espaço vazios: forte, amargo e intenso. Servi o líquido escuro em uma caneca preta. Sem açúcar ou leite. Eu não sinto a necessidade de suavizar algo que nasceu para ser amargo. Encostei-me próximo à janela e tomei um gole. A bebida queimou levemente a minha língua.
Ótimo! Pelo menos eu me sentia vivo sem precisar de validação externa.
Do lado de fora, os carros começavam a circular. Olhando através do vidro duplo, pessoas caminhavam acompanhadas, falavam, riam, checavam notificações de forma ansiosa. Elas necessitavam constantemente umas das outras. Só de olhar, eu já me sentia exausto.
Mais um gole. O silêncio continuava intacto. É engraçado como a maioria dos mortais tem medo da solidão. Eu nunca consegui compreender esse pânico. A solidão nunca me decepcionou. Nunca fez exigências idiotas, nunca criou expectativas absurdas, nunca flutuou de humor. Ela simplesmente existia. Constante e confiável.
Involuntariamente, meu olhar caiu sobre o calendário preso à parede.
12 de junho.
Uma careta instantânea e ranzinza apareceu no meu rosto.
Dia dos Namorados.
Aquela maldita época do ano em que a humanidade inteira parecia sofrer algum tipo de intoxicação cerebral coletiva. Flores que vão morrer em três dias, ursos de pelúcia feitos de poliéster vagabundo, cartões com poemas que fariam qualquer pessoa com dois neurônios funcionais sentir vergonha alheia. Um verdadeiro festival de cafonice.
Lavei a caneca imediatamente, sequei e guardei. Nenhuma louça acumulada, nenhum vestígio de desordem na minha pia.
Voltei ao quarto e abri o guarda-roupa. Fileiras organizadas. Camisas escuras, calças escuras, casacos escuros. A escolha não exigiu reflexão. Pego o sobretudo preto. O tecido pesado caiu sobre os meus ombros como uma armadura de lã grossa. Ajustei o cachecol cinza grafite ao redor do pescoço e encarei meu próprio reflexo no espelho.
Não havia nada faltando ali. As pessoas costumam falar bobagens sobre encontrar a sua outra metade. Aquilo sempre me pareceu uma admissão humilhante de incompetência. Por que alguém aceitaria viver incompleto por aí? Eu nunca precisei de uma metade; sempre fui inteiro sozinho.
A simples ideia de dividir a minha rotina com outra pessoa me parecia um pesadelo logístico. Imagine acordar com alguém falando no seu ouvido. Perguntando os planos para o dia, mudando meus objetos de lugar, escolhendo músicas barulhentas, deixando xícaras sujas na pia... respirando perto demais.
Um arrepio involuntário de puro horror percorreu a minha espinha.
Peguei as chaves, a carteira e o celular. Lanço um último olhar ao apartamento. Então, abri a porta e saí.
Parei diante do elevador e apertei o botão de chamada. Retirei o aparelho do bolso e cometi o erro crasso de olhar para a tela. Imediatamente, fui invadido por um profundo arrependimento existencial.
Naruto.
Quem mais na face da Terra teria a audácia de interromper uma manhã perfeitamente silenciosa, às sete horas, para despejar carência?
A foto de perfil daquele infeliz parecia um atentado ao bom gosto visual. Ele aparecia usando um chapéu ridículo em formato de raposa de pelúcia, fazendo uma careta exagerada que desafiava a anatomia humana. Ao lado dele, Hinata sorria com aquela timidez crônica. Os dois formavam exatamente o tipo de imagem que meu estômago rejeitava logo cedo: o retrato falado da cafonice consentida.
As portas do elevador se abriram com um som metálico. Entrei. O celular vibrou de novo. Uma mensagem de áudio.
Três minutos e dezessete segundos.
Encarei aquela barra de reprodução e senti meu olho esquerdo tremer discretamente. Soltei um suspiro que veio do fundo da minha alma e dei o play, encostando o aparelho no ouvido.
— SASUKE! — A voz daquela criatura explodiu, tão estridente que jurei que ia rachar o espelho do elevador. Afastei o aparelho três palmos de distância. — Cara, você precisa me ajudar! Tipo... uma emergência romântica!
O elevador começou a descer. Naruto continuava despejando palavras na velocidade de um trem-bala, aparentemente sem a necessidade biológica de oxigenar os pulmões.
— Hoje é Dia dos Namorados! E eu tenho um plano incrível! Um plano que vai revolucionar a história dos relacionamentos modernos! — Fechei os olhos. Eu já estava exausto e ainda estava no sétimo andar. — Comprei um urso de pelúcia gigante, Sasuke. Mas tipo, GIGANTE.
Ele enfatizou o gigante como se estivesse anunciando a aquisição de um tanque de guerra soviético.
— Só que agora eu não sei onde esconder o bicho porque a Hinata pode aparecer a qualquer momento, e o urso é tão imenso que bloqueou a visão do meu retrovisor interno, e o cara da loja disse que as garotas adoravam isso, mas agora eu acho que ele tem dentes demais e parece que vai me assassinar enquanto eu durmo e...
Senti um desconforto na nuca, sentindo uma dor de cabeça tensional nascendo. O elevador continuava descendo.
— ...então eu pensei que você podia passar no café da esquina e me ajudar! — Ele não havia terminado. Para o meu azar. — Ou pelo menos aprovar o plano! Como você odeia tudo e sempre encontra defeito em absolutamente qualquer coisa viva, se você olhar para o urso e não criticar, significa que ele é perfeito! É uma lógica infalível! Ah, e eu também preciso de uma opinião técnica sobre flores. Comprei doze buquês diferentes.
Abri os olhos, incrédulo. Doze buquês diferentes. Aquilo não era uma demonstração de afeto, era um surto psicótico com prejuízo financeiro.
— Ah! E chocolates artesanais! E talvez eu devesse recitar um poema em voz alta! Ah, e—
O áudio finalmente cortou.
Exatamente um segundo depois, a tela acendeu com uma mensagem de texto: ESQUECI DE FALAR UMA COISA.
Bloqueei a tela na mesma hora. Não existia absolutamente nada nessa encarnação que me fizesse dar o play em um adendo daquela insanidade.
O elevador chegou ao térreo, as portas se abriram e eu saí pisando firme, deixando que o ar frio da manhã batesse no meu rosto para purificar meus canais auditivos. Caminhei pela calçada sem olhar para o aparelho, tentando digerir o fato de que um homem adulto havia comprado doze buquês de flores para uma única mulher.
O pior de tudo era saber que o Naruto estava genuinamente feliz. Saltitando como uma criança que ganhou a porcaria de um espetáculo de fogos de artifício. Isso me acendia um alerta: o amor claramente deveria ser catalogado pela Organização Mundial da Saúde como uma patologia neurológica degenerativa. Uma infecção silenciosa.
Primeiro surgem os sorrisos idiotas, depois vêm os apelidos no diminutivo e, antes que a vítima perceba, ela está no meio da rua abraçada a um urso de poliéster maior que uma geladeira.
O bolso do meu sobretudo vibrou novamente. Duas mensagens em sequência:
Por favor...
Você é o meu melhor amigo.
Parei no meio da calçada, digitei uma única palavra com o meu melhor desdém: Não.
Enviei e guardei o celular. Fim da interação.
Atravessei a rua, enterrando as mãos ainda mais fundo nos bolsos do sobretudo.
E então, o celular vibrou.
Se não me ajudar, eu vou ter uma crise de ansiedade no meio do café.
Eu conseguia visualizar perfeitamente a cena patética: Naruto correndo em círculos, suando frio, tentando rimar amor com alguma atrocidade linguística, tentando impressionar uma garota que já aceitou namorar com ele apesar de todas as suas limitações cognitivas. Era o ápice do desnecessário. Era como ver alguém tentando convencer um peixe de que o conceito de água é vantajoso.
Parei de andar.
Senti uma veia pulsar na minha têmpora. Olhei para o horizonte cinzento da cidade, respirei o ar frio e expirei lentamente.
Meu melhor amigo era um ser insuportável.
E foi exatamente por isso que eu mudei a direção dos meus passos na esquina seguinte. Não porque eu pretendesse estender a mão para ajudá-lo, jamais. Mas porque a sociedade precisava de uma linha de defesa. Alguém com um pingo de discernimento precisava ir até lá, olhar nos olhos daquela catástrofe ambulante e desferir a dose de realidade fria que o cérebro dele precisava.
Chame de intervenção humanitária em prol da dignidade masculina. Ele precisava ouvir verdades cirúrgicas, e ninguém na cidade estava mais qualificado para esse trabalho de demolição do que eu.
A cafeteria ficava a duas quadras. Ajustei o cachecol e apertei o passo.
Bastou dobrar a esquina para que a minha retina fosse sumariamente agredida.
A cidade parecia ter sido evacuada e repovoada por uma seita coordenada de designers de cartões de Dia dos Namorados da pior espécie. Laços de cetim asfixiavam os postes de iluminação pública; faixas promocionais cafonas atravessavam a avenida de ponta a ponta, ostentando descontos para jantares apaixonados. Até os comércios locais decidiram que era uma excelente ideia abrir mão de qualquer resquício de dignidade corporativa, substituindo seus letreiros habituais por frases escritas em tinta guache branca que flertavam abertamente com o analfabetismo funcional: Espalhe amor, Compartilhe momentos ou Celebre seu coração.
Se existisse um círculo específico do inferno projetado pelo arquiteto com o pior gosto estético do universo, eu tinha a absoluta certeza de que acabara de cruzar o seu pórtico. Senti uma necessidade física, quase espiritual, de golpear uma parede de concreto.
O vento da manhã balançava aquela massa flutuante sobre as calçadas. Os balões subiam e desciam lentamente, uma multidão silenciosa e flácida de látex observando a mediocridade dos pedestres. Vermelho. Rosa. Vermelho. Rosa. Uma lavagem cerebral cromática interminável.
Até o cheiro daquela região havia sido corrompido. Normalmente, o bairro exalava aromas urbanos aceitáveis: o amargor do café recém-passado, a fumaça dos escapamentos dos ônibus e o cheiro distante de pão na chapa das padarias. Naquele dia maldito, parecia que um caminhão de xarope de milho industrializado havia tombado em cada centímetro quadrado do asfalto. Canela sintética, baunilha sufocante, morango artificial, chocolate barato, caramelo hiperglicêmico. O ar inteiro tinha textura de marshmallow derretido. Era biologicamente perturbador. Eu estava respirando açúcar refinado.
Os casais se arrastavam em todas as direções, como zumbis desprovidos de córtex pré-frontal. Mãos dadas, braços entrelaçados em nós cegos, cabeças caídas nos ombros alheios em ângulos que desafiavam a ergonomia e a coluna vertebral. E os moletons combinando? Um casal atravessou a faixa de pedestres vestindo exatamente a mesma vestimenta: o mesmo tom de bege-hospital, o mesmo tênis branco sem graça, a mesma estampa de urso depressivo na frente. Pareciam sobreviventes de um experimento social soviético fracassado, ou membros de um culto de suicídio coletivo que decidiram tomar um brunch antes do fim do mundo. Desviei o olhar para preservar a integridade da minha saúde mental.
Uma criança passou correndo e quase enfiou um balão pontiagudo no meu olho. Na calçada oposta, um Golden Retriever usava um laço vermelho gigante no pescoço, exibindo a cara de humilhação que apenas os animais domesticados forçados a participar de rituais humanos conseguem ter. Até o cachorro. A biologia havia jogado a toalha. A humanidade perdera completamente as rédeas da civilização.
Meu bolso vibrou. Naruto. Ignorado com sucesso.
Vibrou de novo. Naruto. Ignorado com o dobro de desdém.
Enquanto todos pareciam iluminados por uma demência radiante, eu avançava envolto na escuridão do meu sobretudo, o cachecol cinza grafite puxado até o queixo e os olhos negros, atentos como de uma águia. Eu parecia o único soldado convocado para uma guerra de trincheiras enquanto o restante dos civis participava de um piquenique regado a espumante morno.
O estabelecimento estava entupido de seres humanos.
O aroma forte de expresso que eu tanto apreciava fora completamente soterrado pelo cheiro enjoativo de flores frescas vindas de floriculturas. Guardanapos de papel com estampas de coraçõezinhos vermelhos ocupavam cada mísero centímetro das mesas de madeira; velas de led com luzes trêmulas e cafonas enfeitavam o balcão, e tocava Friends, um cover horroroso de Kim Taehyung, conhecido mundialmente como V, integrante do grupo sul coreano de k-pop, Bts, saía dos alto-falantes com a sutileza de uma britadeira.
Senti a minha alma ameaçando cometer suicídio e abandonar o meu corpo ali mesmo.
Foi então que localizei o epicentro do desastre.
Naruto ocupava sozinho uma mesa de seis lugares nos fundos do salão. Ou melhor, ele estava sendo mantido como refém por ela. O espaço fora transformado em uma zona de guerra de consumo desenfreado: sacolas de grifes, caixas de papelão hexagonal, rolos de fita de cetim vermelha, buquês de flores que pareciam desmatamentos inteiros, cartões purpurinados e pacotes de trufas artesanais. Parecia que uma franquia inteira de mimos românticos havia detonado um coquetel Molotov em cima da mesa.
Ele vestia um sobretudo preto com cachecol vermelho. Os olhos azuis e, quando me viu, sua expressão ganhou o brilho histérico de quem encontrou a salvação na Terra.
— SASUKE! — berrou, levantando os braços.
Cinquenta por cento dos clientes interromperam seus flertes particulares para olhar para a minha cara. Minhas orelhas queimaram de puro ódio. Eu devia ter bebido o meio limão e aceitado o silêncio da minha casa.
— Você veio! Eu sabia!
— Eu ainda estou tentando decifrar qual trauma de infância me fez aceitar sua amizade — respondi, parando diante da mesa com os braços cruzados.
— Senta aí, cara! Olha quanta coisa!
— Não vou sentar. Não quero ser associado a essa cafonice.
— Senta logo! — Ele puxou a cadeira com o pé, fazendo um barulho estridente no piso. — Por favor, me ajuda, eu tô correndo contra o tempo!
Cedi, sentando-me na ponta da cadeira com o mesmo entusiasmo de quem se acomoda em uma cadeira elétrica.
— Muito bem. Desembuche. O que é tudo isso?
Naruto abriu os braços, orgulhoso da própria ruína financeira.
— O que você acha? Seja sincero!
Encarei os presentes por dez segundos em silêncio absoluto. Fixei os olhos em um urso de pelúcia com olhos de plástico que pareciam encarar o vazio com um desespero existencial profundo.
— Acho que você sofreu um colapso psiquiátrico severo e precisa de uma internação compulsória antes que o seu cartão de crédito seja cancelado por insanidade.
— Pô, Sasuke! Isso é positivo ou negativo? Fala na minha língua!
— É um diagnóstico clínico de estupidez avançada.
Ele me ignorou completamente, o que já era de se esperar de alguém cujo cérebro opera na frequência de uma ameba. Ele pegou dois cartões com letras douradas e relevo.
— Ó, estou na dúvida entre esse aqui: Você é o raio de sol que ilumina minha existência e esse outro: O meu universo começou a girar no segundo em que seus olhos encontraram os meus. Qual soa mais profundo?
Encarei o teto da cafeteria, procurando uma rachadura estrutural que pudesse desabar na minha cabeça.
— Existe uma opção oculta onde você rasga ambos, engole os pedaços e mantém a boca fechada até amanhã?
— Você é um poço de amargura, sabia? Não entende nada de romance!
— Graças às minhas faculdades mentais intactas, de fato, não entendo.
Naruto abriu a boca para rebater, provavelmente com algum insulto infantil, mas a sua mandíbula simplesmente travou no ar. O sino de metal da porta da cafeteria tocou.
E, de repente, o oxigênio do ambiente pareceu mudar de densidade.
Hinata havia entrado.
O sorriso que brotou na cara do Naruto foi tão instantâneo e violento que pareceu uma reação química perigosa envolvendo sódio e água. Os olhos dele se dilataram, a postura desleixada se endireitou num sobressalto e a voz dele, quando ele tateou o ar tentando chamá-la, perdeu toda aquela crueza estridente, tornando-se algo vergonhosamente patético e terno. Assisti à metamorfose completa de um homem virando um tapete de boas-vindas em tempo real. Uma onda de vergonha alheia tão avassaladora me atingiu que precisei fixar os olhos na minha caneca imaginária para não ter uma convulsão de constrangimento.
Hinata caminhava entre as mesas. Os cabelos lisos e negros estavam soltos. Ela usava um vestido rosa bebê e um suéter branco feupudo, os sapatos brancos iguais de uma boneca, as bochechas estavam levemente coradas pelo frio da rua. Ela exibia aquele sorriso contido de quem achava que o meu amigo era a oitava maravilha do mundo. Outra prova cabal de que o amor cega as pessoas para a realidade dos fatos. E o Naruto ali, parado, parecendo que ia liquefazer e escorrer pelo chão de taco só porque a garota respirava no mesmo ar que ele. Não era normal. Era um ultraje à evolução das espécies.
Porém, quando ela finalmente alcançou a mesa e os dois se olharam, ignorando os buquês, as caixas e a minha presença, aconteceu um fenômeno físico irritante. O ar ao redor deles pareceu perder o cheiro de baunilha artificial. Ficou... limpo. Mais leve. Um silêncio particular se instalou ali, como se o barulho da cafeteria e a música de fundo tivessem sido colocados no mudo. Havia uma frequência invisível ali, um entendimento estúpido e perfeitamente sintonizado que apenas aqueles dois idiotas conseguiam escutar.
Apertei os braços contra o peito, recuando as costas contra a cadeira. Senti um desconforto agudo. Uma irritação que não vinha da cafonice dos papéis de presente, nem do barulho do Naruto.
Abandonei aquela cafeteria com a mesma urgência de um civil escapando de uma zona de testes nucleares clandestinos.
Minha cara de bunda já era um traço permanente da minha identidade, mas naquela manhã de Dia dos Namorados, ela operava em sua potência máxima. A cena de Naruto e Hinata se fundindo naquela simbiose patética de beijos e juras de amor na mesa ao lado havia sido o meu limite. Aquele brilho imbecil nos olhos azuis dele. O jeito vergonhoso como a voz dele mudava de frequência, afinando feito um pré-adolescente, quando falava com ela. Era um espetáculo deprimente de cafonice globalizada.
Desci a calçada marchando, pisando tão firme. Meu sobretudo escuro chicoteava o ar atrás de mim, e o cachecol cinza parecia ter ganho o peso de uma âncora de navio ao redor do meu pescoço. E, claro, o universo continuava jogando na minha cara o seu estoque infinito de infelizes: mais casais, mais risadinhas despropositadas, mais dedos entrelaçados, mais botânica morta sendo carregada em embrulhos de celofane.
“Uma praga comercial que amolecia os cérebros mais fracos.” Repeti mentalmente meu mantra de autopreservação.
O universo, porém, não tolera a arrogância.
Eu não tinha dado três passos quando o primeiro desastre aconteceu. Kiba, correndo feito um desidratado atrás de Akamaru, colidiu direto com o meu ombro esquerdo. O impacto me desequilibrou para o lado, arremessando o meu corpo contra um poste decorativo. O resultado? Uma corda inteira de balões vermelhos em formato de coração se soltou, espiralando ao meu redor. Em dois segundos, eu estava completamente embolado em plástico brilhante, lutando contra fios de nylon como se estivesse enfrentando uma criatura mitológica de fita adesiva.
— Ei, Sasuke! Foi mal! — o idiota gritou de longe, sem parar.
Antes que eu pudesse rasgar o último coração inflável com os dentes, Chouji cruzou o meu caminho carregando um buquê monumental de lírios e rosas tropicais que parecia ter o tamanho de uma árvore de médio porte. No instante em que aquele arbusto perfumado passou a dois centímetros do meu nariz, o meu sistema imunológico declarou estado de sítio.
Meus olhos arderam instantaneamente. Minha garganta fechou. Uma crise alérgica violenta explodiu no meu peito, e o primeiro espirro veio com tanta força que o meu pé esquerdo enganchou no meio-fio.
Eu não caí elegantemente. Eu tropecei, cambaleei por três metros tentando recuperar a gravidade e fui parar direto no meio da rua, com os balões de coração ainda amarrados no meu calcanhar. O bolso do meu casaco vibrou. Ignorei. Tentei puxar o ar, os olhos chorando pelo pólen, a dignidade reduzida a pó.
Foi exatamente aí que veio a todo vapor.
Não houve música dramática ou câmera lenta. Houve apenas a física crua. Um carro preto, em alta velocidade, surgiu dobrando a esquina na contramão. Olhei para a esquerda, vi apenas o reflexo do para-brisa e os pneus derrapando no asfalto molhado. Um guincho de freio violento, estridente, vindo rápido demais.
BUM.
O metal atingiu o meu flanco com uma brutalidade terrível, o mundo girou em um borrão de asfalto cinza, e a minha cabeça chocou-se contra o meio-fio com o som de uma porta de aço batendo.
Senti o sangue quente e viscoso começando a escorrer pela minha têmpora, desenhando um caminho escuro até o asfalto frio. A visão começou a afunilar, a luz do dia sendo revogada pela escuridão que subia pelas bordas da minha retina.
Mas antes que o disjuntor caísse por completo, um rosto entrou em foco.
Uma garota de cabelo rosa, completamente bagunçado pelo vento e pelo susto. Ela caiu de joelhos ao meu lado na lama, as mãos trêmulas pressionando o ferimento na minha testa enquanto os seus olhos verdes se inundavam de pânico absoluto.
— Ei! Foca em mim! Você está me ouvindo?! — a voz dela gritava, mas o som já estava sumindo, virando um zumbido abafado, distante, submerso. — Alguém chama a ambulância! Por favor, fica comigo!
O escuro engoliu tudo. Escuridão total.
Pisquei.
A iluminação mudou drasticamente. Não era o cinza hostil da rua; era uma luz clara, macia, quase morna, filtrada por uma cortina de linho. O cheiro de asfalto havia sido revogado. No lugar dele, o ambiente exalava um perfume fresco, delicado, uma mistura de flor de cerejeira.
Senti um peso leve no meu peito. Olhei para baixo.
Cabelo rosa desalinhado pelo sono, com alguns fios cobrindo o rosto tranquilo. Ela estava dormindo abraçada a mim, a respiração calma subindo e descendo compassada contra o meu peito. Meu coração deu um golpe forte, mas não por pânico. Era uma sensação absurdamente pacífica, uma engrenagem que se encaixava perfeitamente depois de anos rodando em falso.
A mulher se mexeu devagar, abrindo os olhos verdes. Um sorriso sonolento surgiu nos lábios dela.
— Bom dia, Sasuke-kun — sussurrou.
Antes que eu pudesse processar o choque térmico, Sakura se inclinou e me deu um selinho.
Minutos depois, estávamos diante do espelho do banheiro, escovando os dentes juntos. Eu olhava para o reflexo, nós dois ocupando o mesmo espaço geométrico sem o menor esforço, dividindo a pia.
Na cozinha, assumi o fogão. Preparei panquecas americanas, douradas na medida certa, decoradas com uma calda brilhante de frutas vermelhas e duas xícaras de café fresco. Sakura, encostada no balcão com uma caneca nas mãos, me observava com os olhos brilhando. Quando me curvei para colocar o prato na mesa, ela esticou o dedo sujo de massa e tocou a ponta do meu nariz.
— Pronto. Agora está simétrico — ela riu.
Limpei o nariz com o polegar, sorrindo de volta.
Foi quando o meu celular, intocado em cima da mesa, vibrou com uma mensagem de áudio. Apertei o play. A voz do Naruto explodiu:
— Teme! Eu briguei com a Hinata! Uma discussão imbecil por causa do restaurante, ela chorou, eu me estressei... Quer saber? Que se dane! Vou cancelar a reserva, vou devolver o urso gigante, vou queimar todos os presentes daquela porcaria de Dia dos Namorados! Acabou!
Olhei para a Sakura, que ergueu as sobrancelhas, surpresa. Peguei o aparelho e respondi com uma calma que eu desconhecia:
— Não seja idiota, Dobe. É só um desentendimento besta. Vai atrás dela, pede desculpas e resolve isso. O Dia dos Namorados é uma oportunidade para celebrar o que importa. Não estrague tudo por orgulho.
A resposta do Naruto veio em segundos, em texto, transbordando choque: Ué???? Quem é você e o que fez com o Sasuke? Não é você que diz essa data não passa de uma jogada capitalista para incentivar o consumo e amolecer cérebros fracos! O que tá acontecendo aí??
Não respondi. Apenas bloqueei a tela.
Saímos de casa meia hora depois. Eu usava o sobretudo escuro, mas o peso dele havia sumido. Caminhávamos de mãos dadas pela calçada em direção ao café, os dedos perfeitamente entrelaçados. Em um dado momento, parei a caminhada, olhei para a Sakura e, com um sorriso de canto, fiz o gesto clássico: curvei dois dedos e dei um leve toque na testa dela.
— Dá próxima vez — prometi.
Ela sorriu, as bochechas levemente coradas.
O problema era o resto do mundo.
Ao nosso redor, o cenário parecia um filme de zona de guerra apocalíptica, mas com temática romântica. A cidade havia entrado em colapso total. Casais discutiam aos gritos em cada esquina. Na frente de uma floricultura, Ino rasgava cartazes decorativos com fúria, enquanto Sai jogava buquês inteiros de rosas no lixo com uma expressão de puro ódio. Mais adiante, Shikamaru e Temari batiam boca no meio do cruzamento, enquanto carros buzinavam numa sinfonia ensurdecedora de estresse urbano.
Mas nós dois? Nós éramos o olho do furacão.
Entramos no café ignorando a histeria coletiva da rua. Nos sentamos. Agora, o mundo podia estar desmoronando do lado de fora do vidro, mas Sakura e Sasuke estavam imersos em um universo particular, trocando olhares cúmplices, sorrindo de amores um para o outro enquanto tomavam o café. Uma bolha intocável de calmaria.
Terminamos e saímos de volta para a calçada úmida. O clima na rua conseguira piorar.
Logo na esquina, topamos direto com o epicentro do desastre: Naruto e Hinata estavam no meio de uma briga homérica. Ele gesticulava, desesperado, e ela desviava o olhar com os olhos cheios de lágrimas, visivelmente magoada.
Sakura, com o seu instinto natural de amiga, soltou a minha mão imediatamente.
— O que está acontecendo aqui? — ela interveio, dando um passo à frente para se intrometer na discussão e tentar acalmar os dois.
Eu dei um passo atrás para dar espaço, observando a cena.
Foi quando um som agudo cortou a gritaria da rua.
Um pneu derrapando no asfalto molhado. Um guincho de freio violento, estridente, vindo rápido demais.
Olhei para a esquerda por puro reflexo biológico. O mesmo carro preto. A mesma velocidade insana, perdendo o controle na pista escorregadia, vindo em rota de colisão direta contra a calçada. Tentei dar um passo, tentei esticar o braço para puxar a Sakura de volta.
Tarde demais.
BUM.
O impacto foi seco, brutal. O metal atingiu o meu flanco com a mesma brutalidade terrível de antes, o mundo girou em um borrão de asfalto cinza, e a minha cabeça chocou-se contra o meio-fio com o som de uma porta de aço batendo.
Senti o sangue quente e viscoso começando a escorrer pela minha têmpora, desenhando um caminho escuro até o asfalto frio. A visão começou a afunilar, a luz do dia sendo revogada pela escuridão que subia pelas bordas da minha retina.
Mas antes que o disjuntor caísse por completo, o rosto dela entrou em foco de novo.
Sakura. De joelhos ao meu lado na lama, o cabelo rosa bagunçado pelo susto, as mãos trêmulas pressionando o ferimento na minha testa enquanto os seus olhos verdes se inundavam de pânico absoluto.
— Ei! Foca em mim! Você está me ouvindo?! — a voz dela gritava, mas o som já estava sumindo, virando aquele mesmo zumbido abafado, distante, submerso. — Alguém chama a ambulância! Sasuke, por favor, fica comigo!
O escuro engoliu tudo.
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