A chuva fina começou a cair quando Samantha Cartwright deixou a festa. A casa de Thomas White ainda vibrava com a música, abafada pela distância, como um coração batendo debaixo d’água. Sam caminhava rápido pela estrada de cascalho que levava ao bosque, os tênis afundando na poeira úmida como se cada passo a puxasse ainda mais para longe do mundo que esperavam dela.

Na varanda, Amélia Alder apagou o cigarro contra a sola da bota. Tinha acabado de acender o segundo baseado da noite quando viu Sam se afastar. A primeira ideia que teve foi: Nick deve ter chamado.

Mas Nicholas Carter estava ao lado dela, na competição de beer pong, tão concentrado em tentar acertar um copo quanto em parecer sóbrio. Não era ele.

Algo no peito de Mia apertou, um instinto que ela nunca conseguia ignorar quando se tratava de Sam. Então ela largou a brisa e foi atrás.

O bosque engoliu a música. A escuridão ali tinha outra textura, mais densa, mais íntima. Sam abraçava o próprio corpo enquanto atravessava as árvores, não de frio, mas de pressa. Pressa de escapar de olhares, perguntas, expectativas. A “garota perfeita” de Ravenwood estava fugindo de algo, ou de alguém.

Mia diminuiu o passo quando ouviu a voz da amiga.

— Sabia que você viria. — Sam parecia exausta, mas firme — Já decidiu o que vai fazer?

A resposta veio de um homem. Uma voz familiar demais para ser ignorada, mas impossível de encaixar em qualquer memória nítida de Mia.

— Eu não posso abandonar tudo, Sam. Isso acabaria comigo.

Sam respirou fundo, e o som pareceu quebrar ao meio.

— Uma pena. — Ela disse, baixa. — Vou ter que falar com meu pai.

— Sam, não faça isso. Quanto você quer? Você pode ir embora. Eu mando dinheiro.

O riso dela veio amargo, ferido.

— Eu não sou nenhuma prostituta barata. Esse é nosso filho.

O silêncio que seguiu foi tão pesado que Mia sentiu o ar sumir dos pulmões.

Então veio um ruído brusco.

Um empurrão.

Um choque seco de corpos no chão.

Mia se aproximou o suficiente para enxergar e desejou não ter visto.

Sam estava caída, a cabeça virada para o lado.

Ele estava em cima dela.

As mãos apertando o pescoço frágil da amiga com uma determinação monstruosa.

Mia levou a mão à boca para conter o grito que ameaçava escapar. O coração martelava. Cada batida parecia mais alta do que a chuva.

Sam não se mexia mais.

Antes que pudesse virar e fugir, Mia cometeu o pior erro da noite: cruzou o olhar com o dele.

— MIA! — A voz grave explodiu pelo bosque.

Ela correu. Correu sem olhar para trás, sem pensar, sem respirar. Ela tinha certeza que a amiga estava morta. As lágrimas invadiam sua vista e o desespero começou a tomar conta das suas ações.

As árvores se tornaram borrões. A lama espirrava nas pernas. A dor no peito queimava, mas nada era mais forte do que a certeza: sua melhor amiga estava morta e ela tinha visto quem a matou.

Quando emergiu na avenida, com as luzes dos postes balançando ao vento, Mia acreditou por um segundo que estava salva. Bastava continuar correndo. Chegar à delegacia. Contar tudo.

O ronco de um motor cresceu rápido demais.

Um carro surgiu na curva, com faróis furando a escuridão. Mia levantou os braços, acenando de forma desesperada pedindo ajuda, implorando por alguém que a escutasse.

Mas o carro não diminuiu. Ele acelerou.

Os faróis foram a última coisa que Amelia Alder viu naquela noite.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.