Belldream
1 Oneshot
Uma vez eu tive um sonho muito esquisito.
Era escuro, mas ao mesmo tempo era claro.
Havia várias pessoas, mas ao mesmo tempo não tinha ninguém...
Eu estava parado, olhando para frente, mas não tinha nada em lugar algum.
Só um caminho.
O chão branco, cheio de pedrinhas meio brilhantes...
Um cheiro suave parecido com eucalipto...
Nenhum som, nada.
Essa era a única sensação que eu tinha: solidão.
E então eu comecei a pensar. Foi assim que eu comecei a pensar...
A imaginar. A sucumbir em minha própria mente...
Foi assim que eu comecei a fantasiar.
Foi assim que meu mundo nasceu.
No começo, nesse mundo não existia ninguém.
Acho até que nem eu mesmo existia. Era só a minha mente que existia.
Então eu comecei a me estudar; me analisar...
Se a minha mente existia, então as coisas que estavam dentro dela também tinham que existir.
Então eu aprendi a criar.
Criei uma árvore, passarinhos; depois o campo, a cidade, as nuvens, os carros, a poluição...
E as pessoas.
Pessoas de todas as cores, de todos os jeitos; feias, belas, estranhas, chamativas, exóticas... De todos os modos que eu me lembrava de conhecer. Todas as alturas, todas as idades...
Então eu pensei que todas aquelas pessoas tão diferentes não poderiam conviver num mundo normal se não tivessem algo de comum.
Então eu criei os sentimentos.
Todas as pessoas tinham um sentimento em comum com outra, nem que fosse algo mínimo: o sentimento de existir num mesmo lugar; juntos.
E então eu deixei que essas pessoas criassem as línguas para se comunicarem. Palavras que eu ouvira uma vez na vida se transformaram em frases, letras se transformavam em sorrisos e escritos se transformavam em ações.
Daí eu cansei. Como era muita coisa misturada, não conseguia controlar tudo, então deixei que as pessoas pensassem também. Se elas pensassem, como eu estava fazendo, suas mentes iriam criar coisas iguais as que a minha estava criando.
Então eu dei a liberdade e elas usufruíram dela.
As pessoas criaram o abraço, a dança, a música, o beijo...
Então eu percebi a variedade de coisas que faltava na minha mente. Como eu não tinha conseguido criar tantas coisas quanto aquelas pessoas, me senti inferior, desmotivado, infeliz.
Achei que aquele mundo não precisasse mais de mim, então parei de pensar.
Parei de imaginar as coisas acontecendo e deixei que elas seguissem seu fluxo normal.
Então a vida se projetou na minha frente.
Vi gente nascer, comemorar, crescer, chorar, morrer...
Eram coisas acontecendo o tempo todo sem ninguém pensar, ou imaginar.
Elas só se desenvolviam naturalmente.
E eram muitas. Como se eu nunca tivesse prestado atenção nelas, reparei em cada uma.
Todas as vezes que eu via uma lágrima, sentia vontade de criar uma mão para apará-la.
Toda vez que via um olhar triste, tinha vontade de imaginar um sorriso na sua direção.
Mas, por mais que isso me motivasse, eu não o fazia. Eu só não queria ver coisas ruins. Por isso, para me reservar dessas “coisas”, fechei os olhos.
E a única coisa que eu vi quando os abri novamente foi o brilho dourado daquele objeto curioso.
No começo, não houve nenhum som. Só a imagem.
Depois, meus ouvidos presenciaram uma melodia que eu nunca tinha ouvido.
Um agudo, um eco. Algo que me lembrava coisas brilhantes, como a sua própria imagem.
Algo cintilante, mas delicado. Doce, cheio de ternura.
E então eu olhei novamente a figura e ela se mexia de um lado para o outro, emanando aquele som. Atrás do seu dourado resplandecente, alguém se escondia entre o som e o brilho, me observando...
_Leva esse!
_De jeito nenhum, moleque! Que coisa mais... – Yuri fez uma careta indecifrável.
_Horrorosa. – Mikiti completou, sem nenhuma expressão aparente.
Tomoki cruzou os braços e puxou a touca para cima da testa, escondendo as sobrancelhas, em sinal de descontentamento. O irmão mais velho pegou o sino gigante que ele havia tirado da prateleira da loja e o colocou no lugar.
_A mamãe não precisa de mais guirlanda de natal, Tomo. O quê ela vai fazer com um sino, afinal de contas?? – Yuri explicou ao mais novo.
Tomo deixou as costas baterem contra a prateleira de trás, se apoiando nos cotovelos para não cair. Ainda estava de cara de fechada e provavelmente continuaria assim por mais... uns três minutos. No máximo. Miki suspirou e se recostou ao lado dele. Sair de compras antes do Natal era algo muito cansativo pra ele, mas até achava divertido. E ele entendia porque seu irmão gêmeo queria comprar aquele sino; talvez Yuri não.
_Vamos olhar o outro lado da loja; vamos, vocês dois...
Yuri puxou Tomoki pelo braço, indicando com a cabeça que Miki os acompanhasse. Quando passaram por uma estante cheia de ursos de pelúcia, o garoto com a touca cinza na cabeça se desvencilhou do irmão mais velho, abriu o maior dos sorrisos, esticou-se na ponta dos pés e tirou um enorme urso do topo da prateleira. Abraçou-o por alguns segundos enquanto seus dois irmãos lhe observavam e depois se virou para eles, mostrando o bicho entre as mãos e rindo como se fosse uma criança.
Mikiti passou a mão pelo rosto e riu também, como se fosse algo quase impossível de se acreditar, mas que sempre acontecia. Yuri respirou fundo, pronto para perder a paciência mais uma vez, mas depois olhou mais uma vez aquela cena. Miki foi andando até Tomo, enquanto este balançava o brinquedo nas mãos e o afofava. Depois os dois garotos começaram a apertar os ursinhos e se esqueceram do mundo.
Yuri soltou o ar todo do pulmão pelo nariz de uma vez. O que era impossível era não gostar deles. As duas figurinhas dos seus irmãos mais novos faziam um riso singelo brotar no canto dos seus lábios. Os dois idênticos; olhos claros, cabelos castanhos claros, a mesma altura, roupas parecidas... Yuri até se perguntava se, já quase na adolescência, em plenos 13 anos de idade, os dois ainda não se incomodavam em agradar os pais e saírem meio iguaizinhos para a rua. Apesar de toda a similaridade, os gestos dos dois eram totalmente diferentes. Embora os gêmeos possuíssem características tão parecidas à primeira vista, não só Yuri, mas qualquer um que os conhecesse melhor saberia identificá-los e distingui-los em pouquíssimo tempo.
Mikiti era reservado, até meio tímido, calado... Do tipo que economiza energias até na hora de falar. Pouca facilidade em arrumar amigos, se soltava mesmo só com os dois irmãos, e muito mais com o outro gêmeo. Mas Miki tinha dons que até o próprio mais velho desconhecia. Extremamente inteligente, disciplinado, visionário e protetor.
Entretanto, entre os gêmeos, era Tomo quem protegia.
Tomoki era excêntrico, agitado, afobado. Às vezes até perdia o fôlego quando falava. Era desajeitado, mas não ligava a mínima pra isso. Falava o que dava na cabeça, brincava com tudo e com todos; se sentia em casa em qualquer lugar. E a melhor das características de Tomo era que ele conseguia fazer qualquer um ao seu redor segui-lo; seja na risada ou no choro.
E era exatamente assim que ele conseguia arrancar de Yuri aqueles sorrisos meio idiotas enquanto observava os irmãos mais novos. Era daquela maneira que ele conseguia fazer com que Miki se soltasse, com que se sentisse seguro, com vergonha, feliz...
Mikiti era seu protegido.
_Tá bom, ta bom. Chega. – Yuri andou até a bagunça dos dois no meio da loja, tirou o urso das mãos do irmão, sorriu e continuou. – Eu pago um sorvete depois se vocês me ajudarem logo com isso.
Contente com a proposta, Tomo logo largou os ursos e foi em direção à outra seção da loja para ajudar a escolher o presente de Natal dos pais. Miki quase não acreditava no irmão que tinha. Ficou piscando várias vezes até ver a toquinha desaparecer entre os artefatos e prateleiras. Yuri soltou uma gargalhada e só então ele se virou para o mais velho:
_A gente ta no inverno, Yu... Sorvete no inverno não combina. Ta quase nevando lá fora!
_E você viu que cara ele fez, não viu?! – Yuri ainda ria alto. Depois passou a mão de leve na cabeça do irmão. – Pro Tomo não importa se é verão ou inverno, contando que ele esteja fazendo o que ele gosta!
Miki andou atrás do mais velho em direção ao gêmeo da touca cinza, que já estava com mil tranqueiras equilibradas nos braços. Yuri tinha totalmente razão. Seu irmão gêmeo era assim mesmo; e ele o adorava por isso.
Sabe, uma vez eu tive um sonho muito esquisito.
Ninguém ia acreditar se eu contasse.
Mas mesmo assim eu contei.
Lembra?
E então, depois que eu contei, tive o mesmo sonho várias vezes.
A cada vez mais parecia que aquela pessoa que segurava aquele objeto se aproximava mais de mim...
E eu ficava cada vez mais feliz com isso; não sabia exatamente por que.
_A árvore ta torta. – Yuri estreitou os olhos, observando a mãe arrumar a decoração na sala de estar da casa da família.
_Então me ajude aqui; Tomo, leva essas coisas pra cozinha e fala pro seu pai arrumar a mesa enquanto eu e seu irmão arrumamos essas coisas aqui na sala; anda!
O gêmeo suspirou, levantou-se do sofá, no qual estava deitado observando os dois, e foi até a cozinha atrás do pai. Distraído com a véspera do feriado de Natal, esbarrou-se com Mikiti no corredor apertado. Os dois se encararam por breves momentos. Tomo sorriu; ele adorava ficar olhando para um rosto tão parecido com o seu, e ao mesmo tempo tão diferente. Miki não podia fazer nada a não ser devolver o sorriso, meio encabulado.
_Papai ta na cozinha?
Miki balançou a cabeça em sinal positivo.
Os dois ficaram ali mesmo, parados, de frente um ao outro... Longos minutos se passaram sem que nenhum deles se mexesse ou dissesse qualquer coisa. Então, Tomo falou primeiro, como sempre.
_Acha que mamãe vai gostar do presente?
_Acho que sim. – Miki passou o dedo sobre o nariz, num gesto de nervosismo que Tomo sempre ria quando ele o fazia.
_Não comprei nenhum presente pro Yuri. Você comprou?
_Não. – Miki abaixou o olhar para as próprias mãos, fechadas, escondidas debaixo das mangas do casaco grande que a mãe lhe fazia usar. Pigarreou um pouco e, ainda com a cabeça baixa, continuou a fala. – Mas comprei um pra você.
Tomoki piscou os olhos várias vezes ininterruptamente. Coçou a nuca, olhou para as paredes e depois se adiantou um pouquinho para encarar o irmão envergonhado.
_Um presente? Pra mim?
_Porque a surpresa? Não posso comprar um presente pra você? – Miki suspirou.
_Claro que pode, mas...
_Então depois eu te entrego. – o garoto empurrou de leve o irmão gêmeo para que ele desse passagem para a sala e, antes que ele contestasse, afirmou mais uma vez. – Depois.
Tomoki foi procurar o pai com os dentes branquinhos brilhando no largo sorriso que tinha impresso no rosto.
Na noite da ceia de natal, a família dos três irmãos se reuniu em volta da arvore de Natal. Não tinham convidado muitos parentes porque a casa era pequena, o espaço era trabalhoso de se arrumar e ninguém queria muita confusão. Só descansar e aproveitar o dia. Então, no fim das contas, Yuri, os gêmeos e seus pais foram os únicos que compartilharam daqueles momentos até tarde da noite.
Cantaram, beberam e comeram muito. Mais tarde, os três se reuniram e entregaram o presente dos pais, rindo. Mikiti tinha razão: a mãe deles adorou o que compraram. Não era nenhum item de decoração, como a principio Tomoki queria, mas era algo que ela ia considerar como especial. Tinham decidido comprar uma lava-louça para a casa. Era um presente bastante útil, visto que todos iriam usufruir dele (e que a mãe dos três ia agora deixá-los ver TV depois de comer, já que não precisaria de nenhum briga para ver quem ia lavar os pratos sujos).
Tiveram uma noite extremamente agradável. E a senhora, mãe dos três, ainda estava mais feliz de ver todos os seus filhos reunidos; sua família unida. E ela via a felicidade em cada brilhinho dos olhos dele.
Yuri, o mais velho e agora com 18 anos, tinha acabado de se formar e estava seguindo a carreira na empresa do pai. Ela sabia que ele provavelmente não tinha tantos motivos para ficar rindo como estava fazendo. Estava deixando uma de suas paixões para trás, o basquete, para fazer a vontade do pai e ajudá-lo a reconstruir o negócio. Mas Yuri era sensato. Ele sabia fazer as escolhas certas e ela tinha imenso orgulho disso.
Tomoki e Mikiti eram seus gêmeos iluminados. Ela gostava de chamá-los assim porque sempre clareavam seu dia, sempre a fazia rir e sempre lhe davam uma alegria a mais. Ele se lembrava de, quando mais nova, se imaginar mãe. Só não pensou que seria de gêmeos. Só a presença dos caçulas já tinha sido um presente de Natal e tanto.
Faltando poucos minutos para o relógio badalar a meia noite, Tomo não esperava nenhum Papai Noel para trazer o seu presente. Já era bem grandinho pra isso. Mas estava ansioso para saber o que o irmão comprara para ele. Quando terminou de guardar os pratos na cozinha, como prometido para os pais, voltou para a sala para conversar com o outro gêmeo, mas o encontrou cochilando no sofá. Miki normalmente não era acostumado a ficar acordado até tarde da noite; odiava reuniões com muitas pessoas, mesmo que da família – e cinco pessoas para ele era muito. Isso o estressava e parecia tirar toda a sua energia vital. Por isso ele sempre acabava dormindo no sofá mais próximo.
Tomo estava tão impaciente que ficou rodando o móvel até arranjar um jeito de acordá-lo mais delicadamente. Não queria que ele ficasse nervoso; só estava curioso demais. Então, Tomoki se agachou na frente do irmão e começou a chamá-lo bem baixinho. Mikiti estava no sétimo sono.
Tomo respirou fundo e olhou em volta. Os pais estavam subindo as escadas, dando boa noite e pedindo para ele acordá-lo logo e ir deitar; Yuri já estava no quarto. Depois que a figura dos mais velhos desapareceu, ele olhou mais uma vez para o irmão, se levantou um pouco e encostou a boca no pescoço dele, perto do ouvido. Sussurrou o nome dele uma vez e Mikiti se remexeu no sofá, virando-se imediatamente para encarar o irmão. Tomo riu; sabia que aquilo ia acordá-lo.
_Vamos subir. Já ta tarde e todo mundo já foi deitar... – ele avisou.
Os dois então subiram as escadas para o quarto compartilhado aos tropeços. Mikiti abria a boca de sono a todo minuto. Sentia-se esgotado, mas isso não fazia sua memória falhar. Ele sabia que ainda estava faltando entregar seu presente, por isso tratou de passar por cima do cansaço e correr na frente no irmão para o quarto.
A janela com vista para a rua iluminava o local por causa das luzes da decoração natalina da cidade. Os dois tinham demorado a se acostumarem com elas, porque odiavam dormir senão no escuro total, mas agora elas não Incomodavam mais. Pareciam pequenos flocos retirados de um sonho... Ou pelo menos era assim que Tomo as via.
Os dois entraram no quarto e fecharam as portas. Não precisaram acender as luzes. Tomo logo tirou o casaco pesado e se jogou na cama. Não estava com vontade de dormir; queria perguntar logo ao outro gêmeo sobre seu presente, mas estava com vergonha e com medo. Por outro lado, Miki também tirou o casaco e abriu o guarda-roupa para posicioná-lo junto aos outros, mas deparou-se com um embrulhinho de papel laminado vermelho que tinha feito há uma semana atrás. Ele sentiu as bochechas corarem e o calor aumentar na medida em que ficava encarando-o com mais determinação.
Mikiti sacudiu a cabeça com força, pegou o embrulho e sentou-se na própria cama, a uns dois metros da do irmão, que estava deitado e fitando o teto. Ainda sentia seu rosto queimar.
A cada vez mais parecia que aquela pessoa que segurava aquele objeto se aproximava mais de mim...
E eu ficava cada vez mais feliz com isso; não sabia exatamente por que.
Lembra?
Eu te contei isso e você sorriu. Vi que o tom normalmente claro da nossa pele, no seu rosto, se confundiu com a cor do pudor.
Mas eu adorava te contar isso.
Todas as vezes em que eu fazia, eu tinha o mesmo sonho e você se aproximava mais de mim.
Você sorria, ficava calado por um bom tempo, e depois tudo o que eu falava você concordava. Como daquela vez em que eu disse que você, no sonho, me entregou aquele objeto e disse que era um presente especial para mim. Eu perguntei se era verdade, se você algum dia faria algo como aquilo pra mim... Você só respondeu sinceramente que sim, com toda a certeza.
E eu não parei mais de sorrir desde aquele dia.
_Miki, amanhã a gente pode ir ao parque? Vai nevar hoje à noite e eu quero ir ver as luzes de Natal na neve... Não nevou dia nenhum antes do Natal esse ano, né? Estranho... – Tomo comentou, observando a janela.
O irmão gêmeo engoliu seco e passou o embrulhinho vermelho de uma mão para a outra, nervoso.
_Eu sei que você não gosta de neve, mas eu gosto... Então a gente pode ir, não pode? – Tomo continuou, ao ver que o irmão continuava calado. Ele desviou o olhar da janela e fixou-o na cama do outro lado do quarto, reparando que o outro estava meio inquieto. – O quê foi? Ta com muito sono e quer dormir ou aconteceu alg...
Só então Tomoki reparou no embrulho pequeno e bem cuidado nas mãozinhas finas do irmão. Mãos que não estavam acostumadas a fazer nenhum trabalho, a não ser escrever e estudar. Mãos que quase nunca se machucavam, ou eram maltratadas. Mãos totalmente delicadas, frágeis e sensíveis.
Mãos que Tomo adorava segurar, em qualquer ocasião.
Os dois ficaram imóveis e em silêncio novamente. Mikiti passou o dedo no nariz e suspirou. Se fosse para ter vergonha, já estava passando dos limites. Não era lá algo tão difícil, afinal. Era só se levantar e entregar aquele presente de uma vez. Era isso que Tomoki estava esperando, não era? Mas quem disse que ia ser tão fácil controlar as pernas nos poucos passos que tinha que dar até a cama do irmão? Quem disse que ia conseguir esticar os braços sem tremer e sem deixar o pacotinho cair? Quem disse...
Mas também, quem disse que tinha que pensar nessas coisas?
Miki respirou fundo, reuniu os pensamentos corajosos que Tomo sempre lhe passava e levantou-se. Caminhou pé ante pé até a beirada da cama do outro gêmeo, colocou o embrulho vermelho na palma da mão e esticou-a para os olhos curiosos à sua frente.
Tomoki sentiu o coração palpitar com força no peito. Talvez pela primeira vez ele não soube o que dizer. Só ficou olhando o embrulho na mão do irmão e piscando.
_Pega. É seu presente. Não é muita coisa, mas... – Miki murmurou.
Tomo então alargou o sorriso e agarrou o embrulhinho com as duas mãos. Miki riu do jeito afobado dele. Mas era sempre assim; Tomoki era sempre assim... Ele se perguntava por que, então, todas as vezes que seu irmão gêmeo fazia coisas como aquela ele não podia hesitar em sorrir e sentir uma imensa onda de calor dentro do corpo...
Tomoki tentou tomar cuidado para não rasgar o embrulho tão bem-feito pelo outro gêmeo. Queria guardá-lo como se fosse um cristal precioso, que possuísse um valor inestimável. Por isso demorou bastante tempo para se desfazer do papel e encontrar o conteúdo do presente. Bastante tempo mesmo; talvez uns vinte minutos só abrindo delicadamente, dobrando aqui, tirando a fitinha dali... Quando finalmente pôde apreciar o que estava escondido, ficou um pouco confuso.
Ele equilibrou na palma da mão a caixinha minúscula que encontrou dentro do papel vermelho e perguntou, inocentemente:
_Meu presente é um bauzinho? É pra guardar alguma coisa?
Mikiti não respondeu de imediato. Arregalou um pouco os olhos, mas depois deixou a gargalhada sair. Usou uma das mãos para bagunçar os cabelos do irmão e apertá-los contra a sua cabeça, fazendo-o rir também.
_Não, besta! O presente ta aí dentro... – o gêmeo passou a mão pelo bolso da calça e tirou de dentro dela uma pequena chave, entalhada com desenhos que Tomoki não conseguiu decifrar de primeira, e entregou-a a ele. – Abre.
O pequeno baú de madeira se encaixou naturalmente na chavezinha que Tomo colocou com cuidado na fechadura que agora ele percebia bem visível no centro. Os dois garotos ouviram um pequeno estalido e a chave na mão do gêmeo parou de rodar. Ele a retirou do local e percebeu que seu coração parecia querer saltar do corpo a qualquer hora. Nunca tinha ficado tão ansioso nem tão agitado assim antes. Ao seu lado, Miki voltou a ficar um pouco encabulado e sentiu a necessidade de falar ao ver a euforia do irmão.
_Não vai esperando muita coisa; sabe que minha mesada não é tão grande assim, então...
Mas Tomo não estava ouvindo-o mais. Só ouvia as batidas do próprio coração nas têmporas e no peito quando levantou a tampinha do baú. Ele então viu algo brilhante bem no fundo, envolto em um pedaço de veludo. Usou os dedos para chegar até ele e retirou-o com mais cuidado ainda.
Ao contrário das mãos do irmão gêmeo, as de Tomoki eram grandes, grosseiras até, cheia de calos. Em parte era por causa da sua falta de cuidado mesmo, mas, por outro lado, também era porque ele, assim como Yuri, jogava basquete. E o basquete, eles bem sabiam, acaba com as palmas das mãos deles. Tomo não podia evitar; adorava o esporte quase na mesma intensidade com que adorava o irmão. Talvez este último, teve de admitir, ele adorasse mais.
No meio daquela mão mal-tratada, um pequeno cordãozinho escorregou do veludo. Cintilante, soltava um brilho que só o dourado do ouro conseguia emanar. Pendurado no meio, um pingente ainda mais suave e ainda mais dourado. Um objeto tão delicado que Tomo teve quase medo de tocá-lo com todo o seu jeito desastrado. Mas não pôde evitar fazê-lo porque, assim como imaginou, quando o balançou no ar, um som agudo e brilhante pairou no quarto. Um som tão pequeno e ao mesmo tempo tão profundo que ele teve certeza de nunca ter escutado igual.
Tomoki riu, achando-se a pessoa mais sortuda do mundo naquela noite de Natal. Apesar de não ter comprado para a mãe aquela guirlanda da loja, agora ele tinha seu próprio sininho de Natal, que podia pendurar no pescoço e ouvir seu barulho a onde quer que fosse. E Miki bem sabia que significado um objeto tão comum como aquele tinha para ele, por isso o tinha escolhido como presente. Na verdade, existiam outras razões, mas ele não queria pensar nelas agora, senão ficaria com ainda mais vergonha do irmão...
Eu não parei mais de sorrir, mas nunca sorri tanto como sorri hoje.
Porque, assim como no meu sonho, a única pessoa que estava me observando, que sabia da minha existência e que dizia gostar de mim, carregava consigo um sino de Natal só para me lembrar disso, hoje eu vejo essa mesma pessoa na minha frente, me entregando o melhor dos símbolos desse sonho, dessa minha vida e desse meu mundo. O melhor presente que já ganhei.
_Feliz Natal, Tomo.
O gêmeo risonho colocou o cordão em volta do pescoço, prendeu-o na nuca e se levantou com um salto da cama, assustando um pouco o irmão tímido. Tomoki estava tão feliz que não conseguia expressar toda aquela alegria com palavras. Então ele só abraçou Mikiti o mais forte que pôde, o máximo de tempo que conseguiu e com o máximo de carinho que teve. Queria que ele sentisse todas aquelas coisas que ele estava sentindo; sentimentos tão bons que só Miki conseguia despertar nele, que só Miki o ensinara a cultivar e que só Miki ia presenciar.
_Obrigado pelo presente! – Tomo o apertou ainda mais, antes de soltar-se um pouco, encostando sua bochecha na do irmão.
Mikiti estava sorrindo com muita vergonha, mas também muito feliz. Tomoki se curvou para o lado e plantou-lhe um beijo estalado no pescoço, depois no ouvido e por último na maçã do rosto, ficando de frente a ele. Os olhos dos dois estavam transmitindo as palavras que nenhum deles conseguia pronunciar. Tomo esfregou a ponta do seu na pontinha do nariz do irmão, enquanto apertava sua mão na dele, causando um misto de cócegas com excitação nos dois, fazendo-os sorrir por um breve momento. Como não tinha comprado nada para Miki, o gêmeo achou que só tinha uma maneira de demonstrar o quanto estava feliz e agradecido, ao mesmo tempo que serviria como um presente para o irmão. Era algo que ele já tinha dito que faria, há muito tempo atrás, mas não tinha tido a oportunidade certa. E uma oportunidade como aquela que estava tendo não iria aparecer outra vez tão facilmente...
Então Tomoki parou de sorrir e de mirar os olhos do irmão. Abaixou suas íris para os lábios de Miki, curvou sua cabeça um pouco para o lado e se aproximou dele devagar, ao mesmo tempo em que sentia as pálpebras de ambos caindo. Tomo encostou os próprios lábios de leve nos do irmão gêmeo, depois fez uma pequena pressão, para que ficasse mais que registrado que não era só um sonho. Dessa vez era real.
Mikiti não o empurrou, nem o impediu de forma alguma. Deixou sua mente se esvaziar e ficou sentindo o beijo do irmão durante um longo tempo. Seu primeiro beijo – talvez o primeiro de ambos. Mas mais importante que isso; era seu melhor presente de Natal.
Ao afastar os lábios, Tomoki passou as costas dos dedos de uma das mãos na bochecha extremamente corada do irmão e sorriu; a outra apertava os dedos delicados dele contra os seus e os olhos de ambos estavam brilhando assim como as luzes da rua que perpassavam pela janela. Lá fora, eles ouviram o sino da Igreja perto do parque badalar doze vezes.
_Feliz Natal, Miki.
O melhor presente que já ganhei do melhor irmão gêmeo que já tive.
Obrigado, Mikiti.
Eu amo você. Pra sempre.
Ass. Natsuyama Tomoki.
Notas finais
Não foi betada e pode ser lida no BL Hyper! com todos os gráficos bonitinhos +_+~ Erros de formataçãos ão culpa do Nyah!
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