Bellatori
2 Quatro Caminhos, Um Destino
Notas iniciais
Uns dias antes do fatídico duelo, bem longe da península e da metrópole de Hunide, existia o imponente Palácio de Morano. E o reino estava fervilhando de curiosidade com o anúncio que sua recém-coroada rainha faria.
O Palácio estava gritando para preparar tudo perfeitamente. Louças nas gavetas corretas, lençóis dobrados, malas da rainha arrumadas, por favor. Já abasteceram o navio? Tudo tinha que ser perfeito.
O Salão Principal tinha muitas câmeras e microfones. Todos queriam noticiar primeiro: teríamos o primeiro membro da Família Real de De Tsona em gerações a se mudar do reino. E não era um membro qualquer, era a rainha.
Um rebuliço se formou, mas não era quem os jornalistas esperavam.
Uma moça bem vestida — mas de certeza não parte da Família Real — se pôs à frente de um microfone e começou a anunciar.
“Boa tarde, boa tarde.” — iniciou a moça, provavelmente uma agente de relações públicas da realeza. — “Eu posso confirmar, com felicidade, que nossa rainha, Vossa Majestade Talia NaLarah, irá se realocar para Hunide, nas Ilhas Unidas para iniciar seu treino profissional para se tornar uma Bellatori.”
Foram ouvidos sussurros e vários cliques de câmera. Não era surpresa que as Ilhas Unidas eram mal-vistas pelos cidadãos de De Tsona, mas agora que sua rainha estaria se mudando para lá, eles precisariam mudar essa narrativa.
“Eu sei que vocês devem ter muitas perguntas,” — continuou. — “E Vossa Majestade gentilmente cedeu parte de seu tempo para falar com vocês. Por favor, todos de pé para receber Vossa Majestade Talia NaLarah.”
E assim, os cliques das câmeras foram frenéticos para conseguir um registro da rainha.
Jovem, mas com uma postura digna de realeza, Talia tinha os cabelos pretos longos e bem adornados com ouro e apetrechos petrificados por gemas preciosas. Sua pele bronzeada contrastava com seu vestido laranja — a cor da dinastia. Ela sorria gentilmente, mas de forma ensaiada, como uma boa rainha.
“Boa tarde a todos.” — iniciou. — “Eu sei que houve muita especulação sobre este anúncio. E eu sei que faz relativamente pouco tempo que eu sirvo à nação como rainha, mas deixe-me ser clara: Estou muito feliz em poder iniciar meu treino como Bellatori no Instituto Adagnio neste semestre. ”
Os membros da imprensa ouviam cuidadosamente.
“Ser Bellatori é um sonho que eu sempre nutri e eu pensei que minha posição na família real jamais me permitiria realizá-lo. Mas, recentemente, com o falecimento dos meus pais e a mudança que o mundo está passando, eu percebi o que o mundo mais precisa: amor e justiça. E eu quero ser mais uma dos honrosos e valentes Bellatori, trazendo amor e justiça pelo mundo. Espero que vocês possam me apoiar nessa jornada.” — ela discursava.
Logo, um rapaz ligeiramente mais alto e usando vestes similarmente laranjas, se aproximou dela. Talia colocou uma mão no ombro dele.
“Enquanto eu estiver longe do reino, focada nos meus estudos, eu terei o orgulho de deixar a nação sob os cuidados do meu irmão, Julian, que será o regente na minha ausência. Por favor, uma salva de palmas para Vossa Alteza.” — Talia continuou.
Julian sorria sob a chuva de aplausos fortes.
“Eu tenho certeza que Julian fará grandes coisas enquanto eu não puder estar presente. E eu espero retornar mostrando um lado melhor para nossa nação, nosso povo, nosso reino. Obrigada.” — ela terminou seu discurso, sorrindo.
Logo, o espaço foi aberto para perguntas. E um jornalista indagou:
"Por que você escolheu se tornar um Bellatori e deixar seu reino para trás?"
“Como eu disse, tornar-se um Bellatori sempre foi um sonho meu e acredito que irá me proporcionar habilidades e experiências únicas que beneficiarão De Tsona no longo prazo.” — Talia encontrou o olhar do repórter e respondeu calmamente. — “Vai melhorar minhas habilidades e permitirá que eu sirva nosso reino de forma ainda melhor no futuro."
Outro repórter pressionou: "Mas De Tsona tem seus próprios institutos de prestígio. Por que ir até Hunide para seu treinamento?"
E Talia engole em seco.
"É verdade que De Tsona tem excelentes institutos e tenho o maior respeito por eles.” — ela começou. — “No entanto, o Instituto Adagnio em Hunide oferece uma perspectiva diferente e um leque mais amplo de formação. Acredito que esta diversidade me ajudará a crescer e a contribuir para De Tsona de uma forma única." — replicou.
Ela respondia como se tudo estivesse ensaiado na sua mente. Ela sabia que essas perguntas viriam e ela teria que respondê-las com diplomacia e gentileza.
Um terceiro repórter interveio: "Seu povo pode se sentir abandonado pela rainha. Como você aborda as preocupações deles?"
A expressão de Talia suavizou.
"Quero assegurar ao meu povo que não estou abandonando eles e jamais os abandonarei. Como eu disse, o meu irmão, Julian, servirá como Rei regente na minha ausência e continuarei profundamente envolvida nos assuntos do reino, mesmo à distância. O meu compromisso com De Tsona permanece inabalável. " — falou com firmeza.
Ela sabia que sua decisão era incomum, mas acreditava que era o caminho certo para ela e seu reino.
À medida que a conferência de imprensa continuava, ela esperava que a sua sinceridade iria ajudar as pessoas a compreender a sua escolha e a ver que o seu amor por De Tsona permanecia forte.
Não tardou e a coletiva de imprensa foi desfeita e os repórteres viram sua rainha adentrando o navio real no porto.
A viagem às Ilhas Unidas foi longa e reflexiva para a Rainha Talia NaLarah. Ela havia sido colocada no papel de rainha há apenas um ano, após o falecimento repentino de seu pai, o antigo rei. O peso da coroa caiu sobre ela inesperadamente e ela passou meses cumprindo seus deveres reais, participando de sessões da corte e tentando ser a governante de que seu reino precisava.
Agora que seu irmão seria o Rei regente, ela sentia no seu íntimo que talvez ele faria um trabalho melhor que ela, mas ela não poderia admitir isso, não agora.
Enquanto ela estava no convés do barco real, seus pensamentos estavam cheios do desejo de uma vida mais simples. Talia sempre apreciou os momentos em que podia escapar do palácio e interagir com seus súditos como uma plebeia. Esses momentos de normalidade tornaram-se cada vez mais raros à medida que as suas responsabilidades aumentavam. Agora, ao aproximar-se das Ilhas Unidas e do Instituto Adagnio, ela estava determinada a experimentar essa simplicidade mais uma vez.
Com ânimo na voz, ela se voltou para o capitão, um membro leal e confiável de sua comitiva.
"Tomei minha decisão, capitão" — anunciou ela. — “Vou viver como uma plebéia na capital. Sem mais pretensões, sem mais títulos. Quero mergulhar no mundo real, longe da vida palaciana.”
O capitão, que serviu a família real durante gerações, assentiu com compreensão solene.
"Vossa Majestade, seus desejos são minhas ordens" — respondeu ele. — "Eu vou ficar em Hunide por umas semanas, se precisar de mim. E se você desejar aproveitar os privilégios que acompanham sua posição, eles estarão à sua disposição."
Talia sorriu suavemente, mas ela não queria o serviço dele. Ela queria a vida simples. De qualquer forma, ela apreciava a lealdade do capitão.
Enquanto o navio navegava em direção à movimentada capital das Ilhas Unidas, ela olhava para o horizonte com uma mistura de entusiasmo e determinação. Era hora de abraçar uma vida livre das restrições da realeza, de caminhar entre as pessoas comuns e de experimentar o mundo em seus próprios termos.
***
Lina estava do lado de fora da porta do quarto da mãe, com o coração pesado e sofrendo com uma mistura de emoções. Ela sabia o que encontraria dentro do cômodo: a visão muito familiar de sua mãe, outrora uma mulher vibrante e alegre, agora reduzida a uma mera sombra de seu antigo eu. O nome de sua mãe era Elsa, mas ultimamente ela se tornou pouco mais que um fantasma na sua própria vida.
Gentilmente, Lina abriu a porta, revelando sua mãe deitada imóvel na cama, seu corpo frágil coberto por um cobertor fino. O quarto tinha um cheiro estéril, como um hospital, e trouxe de volta lembranças que Lina preferia esquecer. As cortinas estavam fechadas, lançando uma escuridão melancólica sobre tudo.
A mãe de Lina enfrentava o vício há muito tempo e cada vez que acabava num quarto de hospital era uma experiência angustiante para sua filha. Foi doloroso ver a mãe deteriorando e servia como um lembrete constante da fragilidade da vida.
Lina se aproximou da cama com um misto de pena e saudade. Ela desejou, como sempre desejava, que as coisas pudessem ser diferentes. Que sua mãe pudesse acordar um dia e encontrar forças para superar seus problemas. Mas no fundo ela sabia que era um sonho impossível.
Saindo do quarto da mãe, Lina seguiu pelo corredor até o escritório do pai. A grandiosidade da sala, com seus móveis de mogno polido e estantes impressionantes, contrastava fortemente com a atmosfera sombria do resto da casa. Seu pai, o mundialmente famoso Sr. Jonas Charrouse, estava sentado atrás de sua imponente mesa, absorto em papelada.
“Mamãe está dormindo, mas parece melhor” — Lina disse suavemente, sua voz tingida de tristeza.
O Sr. Charrouse mal ergueu os olhos do trabalho, com uma expressão ilegível.
"Oh, que bom, querida" — ele respondeu, seu tom desprovido de preocupação genuína.
Estava claro que ele havia se distanciado há muito tempo das lutas da esposa, concentrando-se apenas em suas próprias ambições e objetivos.
Ele era um dos homens mais importantes do planeta, sendo CEO da Charrouse Inc., que mantinha quase um monopólio na indústria de fabricação de armas. Sem dúvidas, ao menos 3 ⁄ 4 dos alunos em cada Instituto de treinamento para Bellatori usavam instrumentos de combate fabricados pela Charrouse Inc.
A menina sabia que a vida do pai era ocupada, liderando uma das maiores empresas de todo o mundo, mas ainda assim, o coração de Lina afundou com a indiferença na resposta do pai.
Ela esperava por algum pingo de empatia, algum sinal de que ele ainda se importava com a mulher que era sua esposa. Mas ao se virar para sair do cômodo, ela percebeu que suas esperanças continuavam otimistas demais.
Voltando ao seu quarto, Lina não conseguia se livrar do peso no peito. Ela desejava uma vida diferente, onde sua família fosse inteira e feliz, mas parecia que essa vida estava cada vez mais distante a cada dia que passava.
Sempre foi o sonho do pai que Lina fosse a segunda em comando da empresa, como a filha única dele. E agora que ela tinha completado a maioridade, era esperado que ela tomasse à frente em mais responsabilidades, mas essa não era a vontade dela.
Será que ela seria obrigada a viver uma vida que não era o que ela queria?
Mas tinha uma coisa que ainda trazia esperança para a garota.
Mais tarde, naquele mesmo dia, Lina estava sozinha em seu quarto mal iluminado.
O quarto era bem organizado e via visitas regulares das faxineiras. Já que sua família tinha dinheiro para pagá-las, é claro, por quê não usá-las? De qualquer forma, Lina passava muito tempo em seu quarto. Seu quarto servia como um santuário tranquilo, onde ela poderia escapar da realidade opressiva que a esperava do lado de fora. Era um lugar onde os seus sonhos poderiam florescer, longe dos limites rígidos do mundo do seu pai.
Deitada em sua cama, ela se levantou num supetão, cavando por seus pertences até achar um panfleto amassado, divulgando o teste de admissão para o Instituto Adagnio para Bellatori.
O panfleto, um bem precioso escondido dos olhares de seu pai, era sua chave secreta para um futuro com liberdade.
A cada momento que passava, o fogo dentro dela crescia, acendendo sua determinação de assumir as rédeas de seu destino. Ela sabia, no fundo, que não poderia mais suportar a existência sufocante que estava vivendo. Havia chegado a hora de mudar o trajeto do seu futuro e fazer suas próprias escolhas.
Lina enfiou a mão debaixo da cama, os dedos roçando o toque frio e tranquilizador de seu instrumento de combate pessoal – uma elegante epeé prateada. A lâmina brilhou suavemente na penumbra.
Enquanto a quietude da noite a envolvia, Lina começou a árdua tarefa de se preparar para uma fuga.
Seu cabelo castanho-rosado cacheado caía em cascata pelas costas, e ela usava um vestido curto que fazia a transição do rosa para o magenta, um reflexo de sua personalidade vibrante antes de ser apagada por seu pai. Por cima do vestido, ela trajou um colete marrom e botas marrons, que completaram seu look.
Um cinto de couro apertava sua cintura, adicionando um toque de praticidade ao seu traje. Mas o que realmente chama a atenção são os olhos magenta de Lina, um contraste marcante com seu rosto naturalmente pálido. Uma pequena pinta acima do lábio superior acrescentava um charme único às suas feições.
Com seus pertences cuidadosamente guardados em uma mala de couro, Lina levantou-se da cama, com a bagagem em mãos. Ela sabia que estava prestes a embarcar em uma jornada que mudaria sua vida de maneiras que ela só poderia imaginar. O panfleto que guiou seus sonhos estava agora firmemente preso em sua mão, um farol de esperança no escuro.
Antes de sair do quarto, um impulso repentino a levou ao quarto de sua mãe. Ela empurrou a porta suavemente, as dobradiças rangendo suavemente no silêncio. Sua mãe dormia, sua forma frágil envolta no abraço suave dos lençóis.
O olhar de Lina suavizou-se ao observar a mãe. Ela sussurrou seu adeus, com lágrimas brilhando em seus olhos. Embora sua mãe dormisse profundamente, ela lhe desejava uma vida melhor – uma vida livre da prisão do vício.
Com a mala em mãos, ela atravessou a cidade escura até o porto de Halen. Seu coração disparou de medo e excitação, uma sinfonia de emoções que a acompanhava nesta jornada clandestina.
Ela sabia que precisava ser cautelosa e discreta para evitar a ira do pai. Usando seus incríveis poderes de metamorfose, ela observou e então transformou sua aparência, ficando mais alta, esticando seus membros e assim se camuflando melhor entre os membros da tripulação, misturando-se perfeitamente com a atividade noturna do porto.
Ao embarcar em um navio com destino à capital Hunide, ela não pôde deixar de sentir uma mistura de medo e animação correndo em suas veias. Sua fuga havia começado e Lina estava determinada a traçar seu próprio caminho, longe dos limites de sua antiga vida e em direção ao futuro promissor que ela imaginava no Instituto Adagnio.
***
O sol brilhava de forma rigorosa sobre a pequena vila de Komoniscola, e os seus raios fortes lançavam um brilho dourado sobre a paisagem árida. No meio deste terreno implacável estava Karina, com sua determinação gravada em cada linha de seu rosto jovem. Seus olhos verde-floresta brilhavam com uma mistura de excitação e apreensão, refletindo o tom vibrante de sua roupa.
Ela vestia um conjunto prático, mas único, cada peça cuidadosamente selecionada para refletir sua personalidade. Cabelos loiros curtos e lisos emolduravam seu rosto, adornado com uma simples boina verde. Seu traje era uma sinfonia de tons verdes, da blusa às calças, cada uma adornada com intrincados desenhos de plantas. As únicas exceções eram seu fraque marrom, botas resistentes e um cinto fino que segurava uma peculiar arma verde, semelhante a um bumerangue – seu instrumento de combate pessoal.
A mochila verde de Karina, bem apoiada nos ombros, completou o look. Ela carregava seus itens essenciais, uma lembrança tangível da jornada que estava prestes a começar. Enquanto ela estava ali, com o pai ao seu lado, ela não pôde deixar de sentir uma onda de orgulho, suas bochechas tingidas por um rubor quente.
“Minha filhinha vai ser uma heroína” — seu pai sorriu, com os olhos cheios de orgulho.
O coração de Karina se encheu de gratidão por seu apoio, sabendo que trabalho árduo do pai era a única coisa que os mantinha vivos. Ela não podia negar a pontada de tristeza que a atingiu enquanto se preparava para deixá-lo pela primeira vez em sua vida.
“Eu gostaria que você pudesse vir comigo, pai, mas eu entendo” — ela disse suavemente, sua voz carregando um toque de melancolia.
Ele suspirou, com um grande peso de responsabilidade sobre seus ombros.
"Eu também gostaria, minha querida, mas não podemos nos dar ao luxo de me afastar do trabalho." — seu olhar permaneceu focado nela, uma mistura de orgulho e saudades antecipadas. — "Apenas me prometa que você fará o seu melhor, Karina."
"Eu irei, pai" — ela respondeu com determinação, seus olhos verdes encontrando os dele com determinação inabalável. — "Vou deixar você orgulhoso."
“Eu já sou o pai mais orgulhoso desse planeta.” — ele respondeu.
Com a bênção do pai, Karina iniciou sua jornada até a estação de trem. Seu coração estava pesado ao perceber que este era o primeiro passo em um caminho que a levaria para longe de sua casa, de seu pai e da vida que ela sempre conheceu. No entanto, havia também uma sensação de entusiasmo, uma vontade de abraçar os desafios que a aguardavam.
Apesar de seu poder inato de manipular a gravidade, concedendo-lhe a capacidade de desafiar a natureza sem esforço e voar alto pelos céus, ela escolheu andar. Ela não queria chamar atenção desnecessária para si mesma ou sobrecarregar suas habilidades antes mesmo de seu rigoroso treinamento começar.
A estação ferroviária estava à frente, aço e vapor no meio do deserto escaldante. Karina comprou sua passagem, e o dinheiro suado de seu pai garantiu sua viagem para o Instituto Adagnio, onde ela iniciaria sua jornada para se tornar uma Bellatori.
Enquanto o trem ganhava vida, partindo da vila que ela chamava de lar, o coração de Karina se encheu de uma mistura de ansiedade e determinação. Ela observou a paisagem do deserto gradualmente se transformar na vasta vista da península de Nuvaria, o barulho rítmico do trem levando-a para longe do familiar e em direção ao desconhecido.
Através de pontes que atravessavam ilhas do arquipélago das Ilhas Unidas, a viagem continuou, com cada momento aproximando-a do seu destino: Hunide, a capital onde os seus sonhos decolaríam e o seu caminho para o heroísmo começaria verdadeiramente.
Sua exibição de poder no teste de admissão foi ótima. “Impressionante”, o Diretor Tabby comentou. Um elogio que ela levaria para o coração.
***
Nos jardins serenos de sua casa, Nova estava sentada em meio a uma reunião sombria de enlutados, seus rostos solenes contrastavam fortemente com a flora vibrante que os cercava.
O funeral de sua mãe foi de partir o coração, e Nova sofreu para conter as emoções tumultuadas que a agitavam. Ela mal registrou as palavras que sua tia estava dizendo durante um discurso, seus pensamentos rondando um ciclo de raiva, tristeza, confusão e culpa.
A culpa era a mais insistente de todas. A pergunta persistente e incômoda a assombrava: seria ela a responsável pela morte da própria mãe?
Se ela não tivesse sido tão decidida em se tornar uma Bellatori, se ela não tivesse sido tão veemente aos próprios desejos, talvez ela nunca estaria no Instituto Adagnio, fazendo o teste de admissão naquele fatídico dia.
Talvez seu pai sempre estivesse certo. Se ela tivesse se tornado apenas uma professora de história, talvez sua mãe ainda estivesse aqui, viva e bem. O peso dessa responsabilidade pesava sobre ela, um fardo do qual não conseguia escapar.
Enquanto a voz da tia de Nova continuava a zumbir, gradualmente desaparecendo no fundo, seus pensamentos mudaram abruptamente de “Eu matei minha mãe” para “Ele matou minha mãe”.
Seu olhar se fixou em Adrian, que entrou no jardim com uma presença despretensiosa que só aumentou a agitação dentro dela.
Nova mal conseguia acreditar no que via. Como ele teve a audácia de aparecer aqui?
“Eu não sabia onde seria o funeral, mas perguntei por aí e descobri” — explicou Adrian em um tom suave e gentil, sua voz tingida de tristeza.
A presença dele, embora sem aviso prévio, era como uma intrusão na esfera privada da dor de Nova.
"Vim prestar meus respeitos, Nova. Não conhecia sua mãe, mas..." — ele começou.
Porém, antes que ele pudesse completar a frase, a raiva alimentada pela angústia de Nova borbulhou até a superfície, como uma tempestade que não podia ser contida. Ela liberou sua frustração com um tapa forte no braço dele.
"Prestar respeitos? Você a matou! Como posso saber que não foi sua arma que a tirou de mim?" — seus olhos estavam em chamas com acusação e emoção crua.
Adrian recuou diante do golpe inesperado, a dor da acusação foi mais profunda que qualquer ferimento físico. Seu coração doeu e ele tentou argumentar com ela, explicando que não teve participação na morte de sua mãe. No entanto, a raiva de Nova se alastrou como uma tempestade, abafando as palavras do rapaz.
“Sai daqui! Eu não quero te ver, nunca mais!” — ela bradava. — “Eu espero, por tudo que é mais sagrado, que nossos caminhos não se cruzem no instituto. Pois se eu te ver lá, eu vou perder minhas estribeiras.” — declarou.
Desanimado, Adrian suspirou profundamente e se virou, sua figura atordoada recuando da cena. Ele desapareceu de sua vista em um instante, usando seus poderes de supervelocidade.
Assim que ele partiu, a dor de cabeça de Nova se aprofundou, a tristeza pela morte de sua mãe e o peso de sua jornada iminente como Bellatori caiu sobre ela com força opressiva. O funeral continuou, uma lembrança agonizante da marcha do tempo e do futuro incerto que a aguardava quando finalmente pusesse os pés no Instituto Adagnio.
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