Notas iniciais
História narrada por Isabella

Sábado. Meus pais dirigiam há quase quatro horas e meia e eu apenas observava pelo banco de trás a chuva caindo através da janela. Minhas pernas já doíam de câimbra e ler no carro já começava a embrulhar meu estômago. Mudar de cidade nunca é algo tão legal, principalmente quando você não está abandonando só os seus amigos, mas a sua história em outro lugar para simplesmente começar uma nova vida, tentar um novo começo.

Minha mãe tinha sido chamada para trabalhar em uma escola grande de artes, desde que ela era formada em artes cênicas, e meu pai daria aulas em uma das faculdades da cidade enquanto estudava para o pós-doutorado, qual ele tinha enfim decidido fazer. E eu? Bom... Eu estava indo para o segundo ano do ensino médio.

- Ei, gente, será que podemos parar em algum lugar? Minhas pernas não aguentam mais, quero levantar um pouco... – Pedi a meus pais que fizéssemos uma parada. Por sorte, havia um restaurante na estrada e eles concordaram em parar e comer alguma coisa.

Estacionamos o carro e adentramos o lugar, que era grande e simples. Cadeiras de madeira, mesas cobertas por toalhas brancas, um grande balcão e um canto do lugar cheio de jogos eletrônicos. As paredes da frente eram de vidro, e as do fundo levavam uma cor creme e dispunha de algumas prateleiras com várias garrafas coloridas. Uma mulher gordinha de uniforme laranja e preto veio nos atender com um sorriso assim que chegamos ao restaurante:

- Boa tarde, senhores! Como está indo a viagem?

Meu pai deu uma gargalhada cansada e respondeu com um sorriso largo:

- Está indo bem demais, mas a pequena aqui está com dor nas pernas.

Sentamo-nos em uma mesa perto dos jogos eletrônicos.

- E então, filha? Animada para a nova cidade? – Disse minha mãe.

- É, mãe... Um pouco. – Respondi sem muita animação.

Estávamos à espera da nossa comida quando me dei por conta de que estava novamente sentada, com as pernas ficando novamente dormentes.

- Vou jogar um daqueles. – Disse apontando um dos jogos enquanto olhava para minhas pernas, dando a explicação do porquê deixar meus pais sentados sozinhos.

Tirei uma moeda do bolso e comecei a jogar. Eu não era lá muito boa, mas aquilo já era uma boa distração para minha câimbra.

A verdade é que não estava animada para a nova cidade. A antiga era ótima, pois tinha parques, cinemas, era perfeita. Minhas amigas estavam lá, minha vida estava lá. Mas não, eu estava abandonando tudo, deixando essas coisas para trás para simplesmente adentrar uma nova cidade, com novas pessoas. Minhas expectativas estavam baixas devido ao mau humor. Dramatizar sempre foi meu forte e isso só me favorecia durante a viagem.

Voltei à mesa quando os pedidos já estavam servidos. Não demoramos muito e logo voltamos para a estrada.

O balançar do carro e árvores passando depressa pela janela me fizeram adormecer e eu acordei somente quando chegamos ao destino: uma pequena cidade no interior da França com casas tradicionais e ruas largas. Faltavam algumas horas para o pôr do sol quando finalmente avistei a minha casa: telhado europeu descendo inclinado sob paredes brancas, janelas de madeira com vidros esbranquiçados do frio, uma varanda na frente e um caminho levando da calçada até a entrada. Era uma casa simpática, diferente da casa ao lado, que era mais velha, rústica, de madeira escura, janelas sombrias contrastando drasticamente com o jardim, que dispunha de belas rosas vermelhas.

Andei com dificuldade até a entrada enquanto carregava algumas malas. As depositei ao lado da porta e voltei para pegar as demais coisas. Pelo que minha mãe tinha dito, o caminhão da mudança tinha chego mais cedo e minha tia, que mora na cidade, recebeu todas as coisas e já organizou boa parte delas. Quando todas as nossas malas de mão já estavam na varanda, um carro vermelho parou do outro lado da rua. Saiu de dentro do carro uma mulher loira e ela veio correndo abraçar minha mãe.

- Mary! – Ela disse abraçando minha mãe, que a abraçou de volta.

- Isabella, como está crescida! Que linda! E esse cabelo? – Tia Rô me abraçou e começou a mexer no meu cabelo. – Nossa, está gigante desde a última vez que eu vi! E esses cachos? Você está linda.

- Obrigada, tia...

Meu pai já estava levando as coisas pra dentro.

Entramos as três e eu analisei a casa com todo cuidado. Era bonita. Muito bonita. As paredes cruas e brancas, o piso de madeira, uma escada do lado direito e janelas que seguiam o corrimão. A cozinha ficava depois de um corredor no fundo da sala, que era ampla e agradável.

Peguei algumas malas e fui ajudando meu pai a levá-las para cima. Com um aceno de cabeça, ele indicou meu quarto. Ficava de frente para a rua, apresentava duas janelas e um armário encostado no meio da parede direita. A janela lateral ficava de frente para a janela da outra casa e olhando para baixo, dava pra ver as rosas plantadas no corredor do vizinho.

Se eu já estava cansada devido a longa viagem, fiquei ainda mais tentando arrumar tudo antes de escurecer. E se antes minhas pernas estavam para cair, agora meus braços estão também. O esforço para não cair na cama repleta de roupas foi grande demais para ser medido, mas a força de vontade de terminar tudo antes de domingo foi maior.

Ao lado do armário haviam algumas prateleiras de madeira, onde seria a minha estante. Desci novamente até a sala e peguei algumas caixas com os meus livros. Dali alguns longos minutos, o lugar estaria repleto de clássicos, ficções, romances, poesias e histórias. Livro por livro, a estante ia se formando.

Quando dei por terminada, encontrei pelo menos quatro caixas lacradas na porta do meu quarto. Ainda estava longe de acabar. Exausta, fui até a cozinha para comer alguma coisa antes de descansar. Meu pai tinha pedido uma pizza, o que, àquela altura, era verdadeiramente divino.

Eu não queria, mas meu corpo clamava pela cama, então desmaiei assim que cheguei ao meu quarto e tive um sono tranquilo, sem sonhos e no dia seguinte, claro, acordei tarde.

Muita coisa ainda tinha que ser feita e eu estava decepcionada por ter acordado tão tarde, visto que meus planos para o dia eram dar umas voltas na cidade e com aquelas caixas, não sobraria muito tempo.

Desci as escadas a passos lentos com cuidado para não tropeçar em meu pijama listrado, um pouco grande para o meu tamanho.

Pelo visto, meus pais acordaram bem mais cedo do que eu e adiantaram boa parte do trabalho na cozinha e sala, pois estava tudo diferente, mais organizado. A jarra no balcão da cozinha continha suco de laranja, qual eu me servi em um copo de vidro e andei em direção aos fundos da casa.

Não tinha muito a se ver naquele espaço, era apenas um jardim com um pequeno banco de madeira envolto nas sombras de uma frondosa árvore. Era calmo, o tipo de lugar que eu iria para ler.

- O que vai fazer hoje? – Meu pai perguntou com ar descontraído enquanto se aproximava de mim. – Bom dia – Ele disse ao beijar minha testa.

- Tenho que terminar minhas coisas lá em cima – Acenei com a cabeça – mas quero conhecer a cidade ainda hoje.

- Eu te levo, podemos ir juntos – Ele falou enquanto entrava na cozinha para lavar as mãos sujas de terra.

Dei uma última olhada no jardim e voltei para a cozinha.

- Onde está a mamãe? – Perguntei enquanto pegava uma maçã.

- Montando aula. Ela começa amanhã, junto com você. – Ele respondeu. – Ei, estou pensando em colocar algumas rosas no jardim, o que acha?

Balancei a cabeça e sorri em resposta. Em seguida, me dirigi ao meu quarto e guardei mais algumas roupas, certificando-me de deixar uma camiseta e uma calça para me trocar.

Era uma cidade bonita, diferente do que meu mau humor esperava. Tinha um ar rústico e aconchegante, lembrava-me vagamente aquelas cidades de filmes onde as ruas são largas, há grandes praças com bancos e flores e todos se conhecem. Era uma cidade grande, mas haviam mais casas do que prédios, o que me agradava. Eu e meu pai estávamos andando de carro pela cidade a procura de uma biblioteca para que ele pudesse pesquisar livros para seu pós-doutorado.

Depois de alguns quarteirões, uma grande construção branca surgiu no final da rua. Altos pilares e janelas compridas compunham a biblioteca da cidade e, olhando com cuidado, era possível vislumbrar as paredes repletas de estantes.

Encontramos uma vaga do outro lado da rua e estacionamos o carro. Empolgados, adentramos a biblioteca e contemplamos a sua riqueza cultural cuidadosamente digitada em múltiplas páginas. Haviam altas escadas ao longo das estantes para que pudéssemos alcançar os mais altos livros e mesas redondas espalhavam-se no salão. Ao fundo havia uma escada que levava ao segundo piso, onde estavam os computadores e mesas mais amplas para reuniões e encontros de grupos.

Aquele lugar era inacreditável.

Infelizmente, eu não estava autorizada a desfrutar daquelas maravilhas impressas, porque minha mãe vivia dizendo para terminar de ler os livros que eu tenho em casa para depois comprar mais. Acontece que não controlo meus impulsos.

No entanto, eu, por mais que parecesse estranho, não estava interessada na biblioteca, por ora. Avisei meu pai e o deixei imerso às suas pesquisas e estudos enquanto eu passeava nos arredores da biblioteca. Devia ser por volta de dez da manhã, o sol estava fraco e o vento soprava levemente por entre meus cabelos, tornado o dia agradável e possibilitando um passeio a pé.

Algo estranho começava a surgir dentro de mim, uma espécie de carinho pela cidade começava a ser desenvolvido. Era tudo tão acolhedor e indiferente ao mesmo tempo... Senti uma pontada de saudades da minha antiga cidade.

Andei pela calçada e observei atentamente as pessoas que passavam por mim tentando adivinhar como elas seriam, se estudariam comigo ou se havia possibilidade de encontrar alguém que tivesse os mesmos gostos do que eu. Nunca tinha sido muito fácil fazer amigos, porque eu sempre fui muito tímida, mas eu pretendia perder um pouco dessa timidez para a nova cidade.

Timidez não era algo legal. É claro que as pessoas sempre dizem que é meigo, que te faz uma pessoa doce, mas eu não gostava de ser tão tímida. A timidez me impedia de fazer muitas coisas, de falar muitas coisas, de conhecer novas pessoas... Espere... Mas não de conhecer novas sorveterias! Chequei os bolsos. Eu estava com sorte. Abandonei minhas filosofias de timidez e fui em direção àquele pequeno e colorido estabelecimento que faria a felicidade da manhã.

Sorvete de chocolate, o mais doce dos doces, o mais divino dos divinos. Paguei aquela maravilha e estava prestas a sair do lugar quando algo me atinge nas costas e por pouco não me faz derrubar o sorvete.

Levemente atordoada, viro a cabeça e encontro uma garota de cabelos vermelhos correndo em minha direção. Ela tentava segurar o riso enquanto chegava perto de mim.

- Ai... Desculpa... – Ela falava enquanto tentava examinar minhas costas e certificar-se de que estava tudo bem – Meu irmãozinho estava brincando e acabou... – Então um garotinho de cabelos castanhos passou correndo e apanhou do chão o que quer que tivesse me atingido.

O garoto era agitado, engraçadinho e não devia ter mais de seis anos.

- Não, está tudo bem – Esbocei um sorriso. – Como é seu nome?

- Kate, e o seu?

- Isabella.

- Então, Isabella, desculpa pelo meu irmão... – Ela riu mais uma vez.

- Não foi nada – Tornei a repetir.

E com isso, girei em direção a saída. Minhas mãos quase tocavam a maçaneta quando Kate me chamou.

Começamos a conversar a partir de então. Descobri que ela estudava no mesmo colégio que eu, o que me animou, porque eu não entraria num colégio desconhecido como uma completa desconhecida, mas num colégio desconhecido como uma pessoa que conhece alguém. Ela era muito simpática e engraçada, fazia piadas o tempo todo e não parava de falar nem um segundo, o que era bom pra mim, que não conseguiria me livrar de um silêncio desconfortável sozinha.

- Há quanto tempo está aqui? – Ela perguntou enquanto terminava seu sorvete de morango.

- Na verdade, cheguei ontem mesmo...

- Ah, então você não conhece a cidade! – Kate interrompe.

E essa foi a deixa para que Kate me conduzisse pelas ruas daquela cidade meiga. A ruiva tinha uma visão crítica de onde me levava, explicando o tipo de pessoas que eu encontraria e onde seriam os lugares mais legais para almoçar ou passar a tarde.

Definitivamente ela seria uma boa amiga, tinha um senso de humor aparentemente inabalável e tudo ficava ainda mais divertido com seu irmãozinho Tommy correndo para todos os lados e puxando a barra da blusa de nós duas para apontar pássaros e borboletas que por vezes apareciam no caminho.

Kate era irmã de Tommy e eles moravam na cidade desde pequenos com seus pais. A garota era louca por música e artes plásticas, gostava muito de desenhar e era muito espontânea, assim como Tommy, que gostava de andar de bicicleta pelo bairro e vivia pintando paisagens coloridas. Eles dois eram muito parecidos.

Eu nunca tive irmãos, sempre fui filha única, mas parecia muito legal ter um irmão pequeno como Tommy, sem falar que devia ser divertido cuidar dele durante a tarde. Kate não concordou quando eu disse isso, ela afirmou que irmãos mais novos eram irritantes, só pareciam fofos na frente de outras pessoas.

- Você não entende, é inacreditável! Ele sorri o tempo todo com você aqui do lado e está sendo educadinho, mas quando estamos sozinhos... – Kate começou a fazer cócegas em seu irmão, que se contorcia em deliciosas risadas. – Ele é uma pestinha!

- Ah, às vezes eu tenho vontade de ter um irmão... – Falei enquanto mexia na ponta de meus cabelos.

- Ei – Ela segurou meu rosto com as duas mãos. – olha pra mim – Ela estava séria. – Nunca. Mais. Diga. Isso. – E riu como uma louca apertando a barriga, eu fiz o mesmo. – Me fala uma coisa, você acha que eu devo manter a cor? – Kate alisou os cabelos de maneira rápida.

- Espere, você não é ruiva? – Perguntei incrédula.

- É claro que não! – Ela respondeu indiferente, como se fosse quase obvio. Bem... olhando por certo ângulo, ruivos naturais não costumam ter o tom do cabelo puxando para um vermelho cereja.

- Acho que deve manter sim, seu cabelo é lindo. – Respondi a pergunta.

- Sim, mas é liso.

E uma nova discussão foi iniciada, dessa vez sobre cabelos e não sobre irmãos. Era interessante como tudo fluía muito fácil com Kate, os assuntos pareciam puxar outros e a conversa não tinha fim e para a minha pessoa, tímida do jeito que eu sou e cheia de vergonha, era algo difícil de acontecer.

Demos uma volta na cidade e voltamos para a sorveteria até que eu disse que meu pai estava na biblioteca. A ruiva me acompanhou até a entrada e nos despedimos, torcendo para ficarmos nas mesmas salas no dia seguinte, o primeiro dia de aula.

Adentrei a biblioteca e encontrei meu pai em pé segurando alguns pares de livros ao lado de uma mesa.

- E então, pequena? – Ele perguntou enquanto recolhia os livros para levar para casa.

- Encontrei uma sorveteria! E conheci uma garota, ela estuda no mesmo colégio. – Recolhi alguns papéis e o ajudei a carregar para o carro.

No caminho de volta para casa, passei um relatório geral sobre a cidade e eu estava, sinceramente, começando a gostar dela. Digo, já não era tão ruim saber que eu moraria ali pelos próximos anos.

Notas finais
Gostaria de dizer novamente que daqui a alguns meses, a história completa será publicada em sua versão impressa e estou postando um capítulo por semana para uma pré-divulgação. Críticas e comentários são bem vindos. Muito obrigada desde já.