Believer
1 Prólogo.
Notas iniciais
I was choking in the crowd
Building my rain up in the clouds
Falling like ashes to the ground
Hoping my feelings, they would drown
But they never did, ever lived,
Ebbing and flowing inhibited, limited
Till it broke open and it rained down
It rained down, like
Pain!
(Believer- Imagine Dragons)
A sensação é excruciante, seus músculos estão tensos e a respiração é custosa. O corpo inteiro reclama no instante em que abre os olhos, a luminosidade repentina dá a sensação de agressão e o impede de abrir totalmente as pálpebras.
Onde estão seus óculos?
Seus pensamentos estão confusos e desconexos, se obriga a manter os olhos abertos, mas ao fazê-lo quer fechá-los outra vez, contudo não o faz e logo reconhece a luminária de teto diante de si, resmunga logo em seguida ao tentar se erguer do chão, a dor que o atinge neste momento é dilacerante. Está em casa e muito ferido, é fácil concluir. Apalpa o local onde o incômodo é maior e se assusta, pois na altura do baço está fincada uma faca.
Como ela foi parar ali?
Fecha os olhos, dessa vez tentando entender o que se passa consigo. Um breve mergulho em sua mente e uma avalanche de flashes e informações a invadem: a casa foi invadida, três homens armados o renderam assim que abriu a porta, lutou contra um deles e durante o confronto recebeu a facada antes de ser arremessado contra o tampo de vidro da mesinha de centro, que estilhaçou no processo…
Torune? O seu menino... Naoto? Onde está sua esposa...? Ambos, eles..."
O mundo para, a ficha não demora a cair.
Os homens, eles…
Vira-se imediatamente para o lado, as imagens captadas pela visão a princípio são disformes, pavor o domina à medida que vão ganhando nitidez e revelando os corpos, mãe e filho, a mulher sobre a criança na clara tentativa de protegê-lo da maldade humana…
Não, não, não…
Quer gritar, tenta, todavia se cala. A dor que o assola no instante que compreende que é tarde demais para proteger sua família, já não é mais só física. Feito fel, lágrimas amargas banham o chão de seu lar e se misturam a cacos de vidro e sangue. Sangue dos seus entes queridos, cujo os quais nunca mais poderá abraçar, pois estão mortos...
— Você está bem? – A voz rouca pelo sono interrompido é o estopim a lembrá-lo que tem companhia – A garota ao lado o analisa antes de deduzir o óbvio: – Teve um pesadelo?
Sempre os têm.
Se afasta antes que o toque se concretize.
Quem é ela?
Senta na cama e a garota o imita, sua mente insistindo em refazer seus últimos passos, porém, é impossível. O gosto amargo em sua boca indica o quanto excedeu na bebida.
Quantos anos aquela garota teria?
A maquiagem lhe roubou alguns preciosos anos, ao menos aparentava maioridade.
O que isso importa agora? O pior já havia feito. Transou com ela.
Balança a cabeça desejando desanuviar a mente e apagar a culpa, a consciência infestada dela. Procura por seus óculos, os encontra sobre a mesinha à direita da cama e os põem no rosto.
Vá! Esconda-se atrás deles.
— Meu nome é Lisa. É... eu disse, pois talvez queira saber.
O sorriso esperançoso e a voz suave o trouxe de volta ao cômodo e a razão.
Não, não queria saber.
A expectativa estampada na face da jovem o faz desejar sair o mais rápido possível dali.
— Tenho que ir.
Ela se agita ao vê-lo se preparar para partir.
— Não dirá ao menos seu nome?
Shibi a observa por um breve momento: a pele clara, o sorriso terno e acolhedor, longos cabelos castanhos a emoldurar o rosto de traços joviais... os malditos olhos negros a escaneá-lo. Lindos, esperançosos, encantadores…
Uma saudade cortante atinge seu âmago, compreende o porquê daquela moça estar com ele ali.
— Me perdoe. – pediu. Não, na verdade implorou, mas não para aquela pobre garota sentada sobre aquela cama.
O Aburame se levanta ainda nu e busca distinguir no chão do quarto barato suas roupas em meio às dela, aflição e desesperança o impulsionando.
— Prefere que eu vá? – Lisa, agora envergonhada, oculta os seios sob o lençol e evita contato visual. Sua voz, antes suave, não esconde a decepção que a acomete.
— Não, você pode ficar até o amanhecer. Deixarei tudo pago ao sair.
Devidamente vestido, pega sobre a mesinha de cabeceira sua carteira e as chaves da sua moto, ajeita os óculos sobre a ponte do nariz e vai embora sem ao menos a decência de olhar para trás.
Lisa fica sozinha no cômodo, abraça os joelhos e descansa o queixo sobre eles. Tinha o encontrado no início da noite no bar onde trabalhava. Não foi a primeira vez que o viu por lá, ofereceu companhia e ficou feliz quando ele aceitou. A jovem sabia que príncipes encantados não existiam, contudo, havia algo naquele estranho sujeito que a encantou e a encheu de expectativas, algo que talvez nem o próprio homem tivesse ciência, algo com o qual ela não se deparava há muito tempo e que imaginava não existir mais naquele tipo de lugar. Humanidade.
Mas Lisa não era a protagonista daquela história, embora, no futuro, tivesse um papel importante a representar nela. Por ora, restava à garota apenas sair de cena.
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