Believer
2 Capítulo 1 - Portento
Notas iniciais
Yuhi Kurenai adentrou na sala dos professores blasfemando até a última geração dos alunos existentes naquela universidade. A professora vinha se estressando constantemente com o assédio dos calouros que haviam acabado de ser admitidos naquela instituição de ensino.
— Problemas no paraíso, sensei?
Kurenai olhou com falso espanto para o Aburame, de pé diante dela.
— Quem é você e o que fez com Aburame Shibi? – Kurenai brincou – Uau! Não acredito, é sério que tentou mesmo fazer uma piada, sensei? Pois fique sabendo... – Fez uma pausa dramática – Você é péssimo nisso.
— Desculpe. – Shibi deu de ombros e continuou ajeitando suas coisas dentro da pasta sobre a mesa.
— Sabe o quanto amo ganhar esse monte de mimos dos novatos. – A Yuhi usou deboche ao depositar chocolates e algumas pelúcias sobre a mesa de reunião, no entanto estranhou a movimentação do colega e perguntou: – Não dará mais aulas hoje? Já está indo para casa?
A professora sentou-se em uma das cadeiras à disposição na enorme mesa de madeira onde os professores costumavam discutir seus planos de aulas.
— Sim e não. – Shibi foi objetivo – Shino tem uma consulta médica daqui há alguns minutos, depois irei levá-lo ao Shopping, parece que ele quer comprar algo para alguém.
— Hum, nove anos e aquele safadinho já tem namoradinhas a quem presentear? O pai devia aprender com o próprio filho, quem sabe assim não desencalharia.
— Kurenai… – O tom usado foi de aviso.
— Não está mais aqui quem falou– A professora fez um sinal como se fechasse os lábios com um zíper, porém, após uns segundos continuou: – E como está nosso pequeno portento?
Shibi ergueu o canto dos lábios, adorava a forma carinhosa como a professora e grande amiga se referia a seu filho. Portento: Indivíduo possuidor de um talento ou capacidade incrível; gênio ou prodígio. Sim, seu filho tinha um QI acima da média e por isso a sensei o chamava de tal modo, mas o Aburame preferia a outra definição da palavra para definir o que seu amado rebento significava para si. Portento: Fenômeno ou milagre; acontecimento extraordinário e único.
Diante do pensamento Shibi parou por um instante. Um filme passou pela sua cabeça.
Shibi havia despertado no genkan de sua casa. Meio zonzo, uma enxaqueca infernal. Sentou-se, estava desorientado. Inclinou um pouco a cabeça e notou que estava calçando apenas um pé de sapato, o outro nem sinal. Arrotou. Na boca, gosto amargo e cheiro desagradável, não foi preciso procurar muito para perceber o porquê. Havia vomitado sobre o carpete onde a frase: Bem-vindo! Revelava-se em letras garrafais, e também em todas as surippas que se encontravam próximas ao objeto de aspecto fofo. Olhou o relógio em seu pulso. Era alta madrugada, mais uma que passaria na companhia de sua fiel amante nos últimos três anos: a insônia.
Shibi não se lembrava de como havia sido seu dia, muito menos como havia chegado em casa, coisa que acontecia com frequência desde a morte de Naoto e de Torune, sua amada esposa e seu querido filho. Pensou um pouco no que faria a seguir: limparia o próprio vômito? Tomaria um banho, mudaria de roupa e faria a barba? Prepararia algo para comer...? Apalpou o sobretudo na altura do bolso interno do mesmo, confirmou que estava ali o que procurava. Abriu o casaco e retirou do bolso o cantil de Whisky que guardava ali, destapou o frasco de alumínio e virou-o na boca numa tacada só. Estava vazio, nem espremendo sairia um último gole. Droga! Nem limpeza no genkan, nem asseio no corpo, muito menos comida no estômago. Já sabia qual seria sua prioridade. Retirou o sapato único e calçou outro que tinha o par completo, levantou-se, deu dois passos e já fechava a porta atrás de si. Não andou muito. Na verdade nem chegou a deixar a calçada de sua residência, quando ouviu seu nome ser chamado:
— A-aburame Shibi? – O chamado era feminino e soou tão vacilante, quanto temeroso. Shibi voltou-se na direção da mulher que havia chamado seu nome. Era uma bela jovem e tinha uma fisionomia ligeiramente familiar.
O Aburame parou de vez e franziu o cenho ao não reconhecê-la. Ela, que havia acabado de se levantar, pois até o momento, ao que tudo indicava, estava sentada no meio-fio, sorriu. Diferente de Shibi, ela definitivamente o conhecia. Foi só naquele momento que o investigador percebeu que a jovem trazia uma criança, de aproximadamente dois anos, dormindo em seus braços. A aparência dela não era das melhores. No chão à sua direita havia uma maleta infantil e um urso de pelúcia médio, mesmo estando a passos de distância, Shibi conseguia perceber pelo nariz avermelhado da garota que ela havia chorado antes de sua chegada. Há quanto tempo aquela moça estaria? Não estava vestida adequadamente para um inverno tão rigoroso, tampouco o pequeno que ele carregava em seus braços. Um breve pensamento lhe passou pela cabeça e ele imaginou tratar-se de uma pedinte a sua frente, uma vez que a estranha lhe parecesse estar faminta, entretanto, o próximo gesto realizado por ela ativou um alerta em seu peito.
— Eu jamais pensei em deixá-lo. – A mulher retirou a manta que cobria a cabecinha do bebê e deixou um beijo demorado na testinha dele, o pequeno resmungou e remexeu-se um pouco, mas ela o ninou para que não acordasse. O sorriso no rosto dela era bastante triste, contudo havia tanto amor no olhar dedicado à criança. – Jamais esqueça desse sentimento, meu filho. Carregue-o sempre guardado em seu coração. A mamãe ama muito você, meu pequeno Shino. – A jovem ergueu o olhar e encarou Shibi – Os médicos disseram que ao longo da vida ele sempre precisará de cuidados especiais, cuidados que eu jamais terei condições de proporcionar a ele. Não posso privá-lo de ter uma boa vida por mais que eu o ame... Ele tem uma doença chamada, doença de Stargardt…
Shibi arregalou os olhos, a mente processando todo aquele cenário e aquela avalanche de informações rápido demais.
— O quê?! – E, então tudo começou a se encaixar e fazer sentido, afastando quaisquer vestígios da ressaca na qual estava mergulhado há poucos minutos.
— É uma degeneração macular de caráter hereditário…
— Eu sei o que é doença de Stargardt. – Shibi a interrompeu – Na minha família têm inúmeros casos…
A mulher sorriu diante da compreensão que viu expressada no olhar alheio. Sabia que seu julgamento sobre aquele homem não havia sido ilusório.
— Lisa?!
E Shibi a reconheceu por conta do sorriso esperançoso que recebeu dela naquele extraordinário e único instante.
Aquela madrugada perdida em algum lugar de suas memórias foi um divisor de águas em sua vida. Shibi jamais teria palavras para agradecer a Lisa por ter lhe presenteado com tão precioso milagre...
— Shibi? Shibi-sensei, está me ouvindo?
— Desculpe-me, Kurenai-sensei, divaguei um pouco. O que dizia?
— ‘Tô vendo. – A professora apontou para o aparelho sobre a mesa. – O seu celular estava vibrando.
Shibi pegou o aparelho, mas a chamada já havia sido desligada. Conferiu o visor: número desconhecido. Neste momento, o celular tocou novamente em suas mãos.
— Alô! – Atendeu.
— Aburame-sensei? – Uma voz masculina inquiriu do outro lado e Shibi buscou entre suas memórias se conhecia o timbre grave.
— Sim. – Mesmo tendo certeza que não, confirmou sua identidade – É ele.
— Boa tarde. – O homem cumprimentou educadamente – Sou o detetive Hatake, falo do departamento de polícia de Tokyo. Gostaria de falar com você. É sobre o delegado, Uchiha Fugaku...
A simples menção do nome de Uchiha Fugaku fez as pernas do professor tremerem ao ponto dele ter que puxar uma cadeira e se sentar. De repente sua aura ficou tão pesada que Kurenai preocupou-se com seu estado.
— O que aconteceu com o Uchiha? – Shibi perguntou ao detetive e um silêncio torturante fez-se por alguns segundos até que, sem rodeios, veio a terrível notícia.
— Ele e toda a família acabaram de ser assassinados...
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