Belas Criaturas — Império Santiago I
4 Três - O vestido de Alina
Notas iniciais
Althea
Haviam mais contras do que prós em aceitar a intimação de Dominique. Eu não poderia ficar em casa jogando videogame, algo que eu adorava fazer em meu tempo livre, e também não poderia ficar em meu quarto com meus animais de estimação. Fora o fato de eu não gostar muito de festas, já era obrigada a frequentar os eventos que minha família organizava, e estar num lugar cercada de jovens cujos únicos objetivos eram beber e fazer sexo não me agradava.
Eu torcia para que minha prima me achasse careta demais e desistisse de me levar para o que havia planejado, mas o pior de tudo não foi ela não desistir. Foi Alina, minha irmã mais nova, ficar sabendo de seus planos, que me incluíam.
Alina Santiago parecia uma deusa mirim. Tinha cabelos longos tingidos de um rosa tão claro que chegava ao loiro, olhos verdes como a grama em um dia ensolarado, e ao contrário de mim, era alta como todos os membros de nossa família. Fora isso, minha irmã gravava vídeos semanais para os canais que tinha pela internet, carregava mais de cem milhões de seguidores em suas redes sociais, e adorava interferir em minha vida.
Isso piorava quando eu estava me arrumando para algo.
— Continua sendo injusto eu não poder ir nessa festa, até o Enrique sai mais do que eu — Alina rolou os olhos, pegando uma das jaquetas em meu closet. Automaticamente, seu rosto se franziu e ela guardou novamente a peça de roupa, como se tivesse encostado em comida enquanto lavava a louça. Não que ela fizesse trabalhos domésticos, ela provavelmente não saberia nem segurar uma esponja.
— Você tem catorze anos, o Enrique tem dezesseis — Dominique rebateu. — E nós temos dezoito. E você sai mais do que ele, de qualquer forma.
— Nós todos somos menores de idade, direitos iguais — Minha irmã balançou os ombros, alcançando outra peça de roupa. — Por Deus, Althea, você não tem nada que preste aqui?
Estávamos dentro de meu closet. O cômodo era grande, mas com a presença de Alina e Dominique, as pessoas mais exigentes com a própria aparência que eu conhecia, eu me sentia em uma caixinha de fósforos, prestes a explodir em desconforto. Enquanto eu permanecia sentada em um dos bancos acolchoados do local, minha prima e irmã voavam entre as diversas portas e gavetas ao redor, buscando por algo que eu tinha certeza que não estava ali.
Levantei-me, o que não pareceu incomodá-las, e caminhei em direção à porta, chegando a meu quarto. As janelas estavam abertas, o que me atraiu.
Naquela noite, o céu parecia ter sido feito em algum programa de edição. A imensidão azul cobalto poderia ser comparada a um extenso tecido, e as estrelas que o preenchiam eram como cristais bordados à mão, recheando toda a obra de arte. Não havia um único sinal de tempo ruim, e admirei até a brisa um tanto fria para a época do ano. Se eu não fosse obrigada a sair, não me importaria em ficar horas contemplando o momento.
Suspirei, aproximando-me ainda mais das janelas. Os jardins da mansão estavam iluminados, como um parque noturno, e a água da piscina mexia-se tão calmamente que era como se o vento mergulhasse. Toda a decoração era como um sonho, e mesmo morando ali desde que nascera, eu não me cansava de analisar cada pequeno detalhe, mesmo que ao longe.
Finalmente me afastei do peitoril de madeira, indo direto para um dos espelhos de meu quarto, que ia do chão até o gesso no teto, alto demais para se alcançar sem o auxílio de uma escada. Encarei meu reflexo. A garota no espelho usava uma calça gasta, sua postura era como a de alguém que havia trabalhado o dia inteiro sob o sol escaldante, e usava apenas um sutiã no tronco, cobrindo-lhe os seios grandes demais para seu tamanho.
Sardas envolviam a barriga, colo e pescoço, alcançando os ombros e descendo dispersas pelos braços e antebraços. As mesmas manchas subiam como constelações, eu gostava de pensar, e preenchiam as bochechas, deixando-as mais coradas que o comum.
Sempre me achei bonita, era até egoísta não me considerar bonita tendo tantos privilégios, ou quando meus cabelos cresciam em um tom raro feito fogo. Até meus olhos eram diferentes, um azul e outro verde, embora quase ninguém notasse a diferença. Se eu fosse um pouco mais alta, uns vinte centímetros, e perdesse alguns quilos, poderia até sair em revistas de moda como meus irmãos, embora meus desejos passassem longe disso. Bem longe.
De qualquer forma, mesmo com tantos adjetivos que, como minha mãe dizia, muitos sonhariam em ter, eu não era confiante o suficiente para usá-los. Não era como Dominique, nem como Alina.
Alina não sairia conosco, mas estava pronta para um desfile, de salto alto e saia fúcsia. Provavelmente havia recém gravado algum tutorial de maquiagem ou combinações de roupas, mas preferi não perguntar, já que ela passaria horas falando sobre e eu ficaria como um peixe fora d'água. Já Dominique estava com um vestido preto, colado ao corpo, acentuando cada uma de suas curvas. Assim como minha irmã, ela estava sobre saltos bastante altos, e eu me perguntava como elas não se sentiam inseguras em cair, já que minha insegurança surgia apenas em olhá-las daquele jeito, a centímetros do chão.
Éramos fisicamente parecidas. Dominique e eu tínhamos a mesma cor de cabelo, e a boca das três era larga e cheia, um traço bastante marcante na família Santiago, embora Dominique ainda os preenchesse com ácido hialurônico. Os olhos de Dom não eram raros como os meus ou os de Alina, eles eram castanhos, marrom escuros como terra molhada, mas intimidavam como um par de facas afiadas. Elas sabiam como agir em cada situação, e apenas isso já fazia com que eu as admirasse, como se ambas fossem capazes de correr sobre uma floresta de pedras, usando salto agulha, sem que um fio de seus cabelos saísse do lugar.
— Vocês acham isso uma boa ideia? — perguntei, aceitando o vestido que Alina me oferecia. Sem dúvidas, era uma peça de seu guarda-roupa.
— O vestido que eu a entreguei? Sim — Alina respondeu, puxando meus cabelos para trás dos ombros, expondo meu rosto. — Sua roupa atual? Não.
— A festa — corrigi, cansada.
— Vai ser ótimo — Dominique sorriu, encarando-me pelo espelho. Ela retocava a maquiagem. — James irá, o máximo que pode acontecer é ele surtar, mas nós estaremos bem longe, para que você não saia novamente em algum site de fofoca ao lado dele.
Rolei os olhos. Não entendia como elas conseguiam levar determinadas situações na brincadeira, e justo no dia seguinte do último resgate de meu irmão.
— É até capaz de você arranjar alguém que tire sua virgindade... — Minha prima continuou, o canto direito de sua boca começando a se erguer em um sorriso. Automaticamente, corei. Sabia muito bem como tudo funcionava, só não pensava nisso como a coisa mais necessária do mundo. — Só não abra as pernas para qualquer um.
— Ai, não vejo a hora de transar — Alina suspirou, passando o indicador pela sobrancelha. — Só não encontrei alguém digno.
— É uma transa, não um troféu, e você ainda é uma criança — Dominique riu. — Não se precisa de alguém digno, só de camisinha para que você não pegue nenhuma doença ou engravide aos catorze anos.
— Não pretendo fazer isso agora, mas você não me entendeu — Alina negou, rindo com escárnio, enquanto continuava apalpando meus cabelos. — Não quero um príncipe, quero alguém que eu nunca mais vá ver na vida, e que de preferência não saiba quem eu sou.
— Acho a ideia do príncipe mais possível do que essa, então — Dominique soltou uma risada, olhando-me novamente. — Vamos, Althea, ou chegaremos lá e já terá acabado.
Retirei o sutiã e coloquei o vestido que haviam me entregado, sem questionar. Não valeria a pena argumentar contra elas, ainda mais quando estavam juntas e dispostas a me fazer perder uma discussão. Tudo o que eu teria que fazer era chegar ao lugar marcado e me manter quieta, torcendo para que Dominique ou James não cometessem nenhuma loucura nas horas que passaríamos em público, o que seria difícil, vindo deles.
O glamoroso vestido possuía finas alças que cobriam meus ombros com pequenos cristais entalhados, e o tecido mantinha-se colado em meu corpo, como se fosse uma segunda pele. A peça apresentava um decote grandioso, e me envolvia até metade das coxas, deixando-me exposta, fazendo-me sentir nua. Passei as mãos pela barriga, alisando o cetim verde, e suspirei, encarando as duas garotas. Ambas olhavam-me com sorrisos sinceros e orgulhosos. Imaginei o quão curto aquele vestido ficaria em Alina, já que ela era mais alta do que eu.
Aos catorze anos, eu vestia camisetas dos Power Rangers e bermudas rasgadas. Minha irmã, no entanto, já era sexualizada.
— Você está muito gostosa, Althea — Dominique se aproximou. — Alina, você arruma o cabelo dela? Eu vou atrás de sapatos que combinem.
— Não só o cabelo — Minha irmã continuou sorrindo. — A maquiagem, também. Está toda manchada, não conhece protetor solar?
Sem vacilar, Alina circundou meu pescoço com um colar minimalista de diamantes graduados, e começando a segurar uma escova, indicou para que eu sentasse na poltrona. Percebi que demoraríamos em sair de casa.
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