Notas iniciais
– São só estes biscoitos, moça? — perguntou a atendente enquanto a caixa registradora fazia um sonoro bip.
– Só isso. — Belarus respondeu, guardando apressada a compra no saco plástico.
Ela entregou o dinheiro para a caixa sem se preocupar com o troco e saiu com rapidez da loja, ansiosa para encontrar o irmão no meio da multidão da ChinaTown russa.
Deus, ou os russos realmente gostavam de comida chinesa, ou era feriado nacional, porque a multidão que cercava Belarus no pátio do bairro chinês estava começando a lhe causar agorofobia.
Na sua luta contra cotovelos e mochilas que lhe atacavam de todos os lados, a bielorrussa podia notar pelo canto do olho uma vitrine expondo um sushiman preparando uma refeição num restaurante japonês.
Deus abençoe a ignorância alheia. Este lugar era pra ser exclusivamente chinês, mas é claro que todos os imigrantes asiáticos encontraram um lugar ali para fazer negócios.Felizmesnte, pouco importava a nacionalidade dos comerciantes para os turistas russos que passavam por ali. Muito menos lhes importava a nacionalidade dos produtos que consumiam.
Não é como se ela estivesse reclamando, é claro. Se não fosse pelo pouco caso que o público fazia sobre a nacionalidade dos residentes da ChinaTown, ela nunca poderia ter achado o produto japonês que procurava.
Seu diário — quer dizer, guia — tinha instruções apenas até o passo número 2. Ela decidira que ia criar os próximos passos naquela tarde. Os eventos a levaram até um lugar onde alguns podem dizer, não oferece recursos para uma tarde romântica. Mas a pequena nação era uma soviética nata, e assim como na guerra, sabia se virar e trabalhar com o ambiente a sua volta.
Afinal, o amor e a guerra podem ser tão similares as vezes. Considere bem: em ambos, vale de tudo para se conseguir oque quer.
Belarus parou num beco entre duas lojas de pintura vermelha e decoração exagerada.Havia um trabalhador indonésio consertando um lâmpada do telhado. Ela não viera pelo cara, é obvio, mas sim pela escada. Belarus puxou o trabalhador para fora da escada, liberando caminho. Ela subiu alguns degraus e se virou para observar o pátio de um ângulo mais alto. Ser pequena podia um pé no saco as vezes, mas ser pequena e provida de determinação letal era uma dádiva. A alguns metros de onde estava, os olhos afiados da garota identificaram os cabelos pálidos, os olhos violeta e o sorriso gentil de Rússia conversando com alguém que estava de costas para ela. Era uma figura pequena e esguia com cabelos negros lisos presos num rabo de cavalo baixo.
Quem. É. Essa. Oferecida?
Tão rápido quanto subiu, Belarus saltou da escada para o chão, mergulhando com agilidade na multidão. Em poucos segundo reconheceu o cachecol pendurado nos ombros do irmão, então se aproximou silenciosamente do homem.
– Irmão. — ela se anunciou no local, o tom como de advertência. "Eu estou aqui. Pode parar com essa palhaçada já."
Rússia ofegou e deu um pulo, afastando-se da fonte da voz.
– B-Bela, você me assustou. — Ele pousou a mão sobre o coração, sentindo-o acelerado.
– Me desculpe. — ela respondeu como se essa não fosse exatamente a sua intenção. Seus olhos se estreitaram para a esquerda de Ivan, onde China a encarava comos olhos arregalados em algo entre medo e surpresa. — E o que ele está fazendo aqui?
Rússia cerrou as sobrancelhas, sorrindo com humor para a pergunta.
– Bela, este é o China, nosso velho amigo, evocê deveria ser mais gentil com ele.
A garota revirou os olhos.
– Tudo bem, oi. — ela cumprimentou a nação mais velha curtamente. — Agora, o que você está fazendo aqui na Rússia?
– Aqui não é a Rússia, jovenzinha. — o chinês respondeu em tom leve.
– Da última vez que eu chequei, era sim. — ela cruzou os braços.
China riu como quem ri de uma criança ingênua.
– Olhe a sua volta, menina. Estamos numa cidade chinesa.
Belarus continuou a o encarar como se ele estivesse ficando louco. Não deixava de ser um bairro. Um bairro russo.
– As ChinaTowns existem em quase todo país do mundo. — Rússia decidi explicar — Elas agem como extensões da China em cada lugar. Quase como uma embaixada extra para o China, só que com menos balela política e mais comida boa e produtos contrabandeados.
– Ei! — China protestou — Meus produtos chineses são inteiramente legítimos e de primeira qualidade.
– Conversa. — Belarus disse com um sorriso sarcástico. — Eu acabei de comprar isso aqui num mercadinho aqui perto que se dizia chinês.
Ela ergueu no ar sua sacola de supermercado e tirou de lá sua única compra, uma embalagem de biscoito Pocky.
– O quê?! — China gritou com raiva e confusão. — O que isso estava fazendo lá? Isso é uma atrocidade aos meus ancestrais!
– Qual é o problema, China? São só biscoitos. — Rússia pegou a embalagem da mão da irmã, conferindo o biscoito. Estava tudo escrito em japonês. Grande coisa. China não daria um surto assim só por causa de um biscoitos do Japão na loja dele.
– Estas maldições são do Japão! A pior criação dele, se quer minha opinião. E o pior é que essa desgraça virou mania no mundointeiro.
– Qual é o problema com o biscoito? — Rússia indagou, abrindo o pacote e provando um dos bicoitos. — Hm, ele é bom!
– O problema não é o biscoito, é o que fazem com ele!
Rússia cerrou as sobrancelhas.
– Do que ele tá falando, Bela?
– Estes biscoitos são chamados de Pocky, e fizeram sucesso nos Estados Unidos e em outros países porque um bando de adolescente criou um jogo com eles.
– Um jogo?
– O jogo do Pocky! — exclamou China. — Uma vulgaridade, um atento as antigas maneiras!
Belarus revirou os olhos e pegou o biscoito da mão do irmão.
– Se joga assim, uma pessoa pega um Pocky e poem uma ponta na boca. — ela o fez — A outra tem que por a outra ponta na boca e as duas comem ao mesmo tempo. Quem conseguir a maior parte, ganha a rodada!
– Ora, mas então não há nada demais! -Rússia sorriu.
– Nada de mais? — o chinês esbravejou. — As pessoas sempre acabam se beijando e se agarrando umas nas outras!
– É só um selinho, China. — o russo pôs um mão sobre o ombro do amigo. — Sabe, aqui em casa, é comum cumprimentar as pessoas com um selinho. É um sinal de confiança e intimidade.
– Vocês russos são loucos.
– Vamos lá, seu velho rabugento. — Rússia sorriu, convidativo. Ele pôs um biscoito na boca e fez um gesto para China se aproximar. — Jogue uma rodada comigo.
– O quê?! — gritaram ambos China eBelarus, ele em espanto e ela, revoltadíssima.
– Só uma vez, China. Pra você deixar de ser chato. — Rússia puxou o mais velhos pela manga . — Eu te mostro, não tem nada demais.
– Não! — ele se libou da mão de Ivan, recuando e afastando-se do russo.
– Irmão! — Belarus protestou.
– Pare de se afastar China, está empurrando as pessoas!
– Saia de perto de mim com esse treco! — China empurrou Rússia para longe, sem sucesso.
– Não vou te machucar, anda.
– Não, Rússia! Pare de--
Belarus se projetou na frente de Ivan, o surpreendendo quando colou seus lábios nos do irmão.
Ela podia sentir uma parte do biscoito cutucando a sua bochecha mas o ignorou diante da explosão de fogos de artifício que sentia em seu peito, e as borboletas em seu estômago.
Então era assim que era beijar Ivan. Se soubesse antes, teria tentando mais vezes. Ela aos poucos aliviou as mãos que seguravam a cabeça do irmão até que suas mãos penderam nos cabelos da nuca de Ivan.
Subitamente, o esforço das canelas para mantê-la à altura dos lábios de Ivan começou a incomodá-la e ela lentamente foi abaixando-se, hesitando pelo momento que teria que deixar de tocar seus lábios. Surpreendentemente, ele se abaixou junto dela por um instante, tentado a continuar. Mas logo se deu por si e percebeu o que estava fazendo, então voltou a se erguer.
Belarus sentiu as solas dos sapatos plantarem no chão, e abriu os olhos.
Ivan estava confuso. Ele tinha um ar de confusão, mas mais gritante que isso era seu semblante com medo. O que diabos ele tinha feito?
O chinês gritava atrocidade em algum ponto próximo deles, mas o som não passava de um eco abafado para os irmãos que travavam uma conversa silenciosa com o olhar enquanto tentavam se acostumar as borboletas que ainda batiam asas nos seus estômagos.
Isto é, até China os tirar de seus pensamentosao puxar Belarus pelos ombros com força, a afastando de Rússia e se pondo em defesa do maior.
– O que você estava pensando, mocinha? Que comportamento inaceitável foi este?
Belarus estreitou os olhos.
– Saia da minha frente, China.
– Não! Você não deveria atacar o seu irmão assim! É inaceitável.
– Se eu não o fizesse, você iria beijá-lo. — ela protestou.
– Mas que ideia é essa? Eu nunca iria beijar o seu irmão.
– Deixa de conversa fiada, Yao. Sei que você tem estado muito amiguinho do Ivan estes últimos tempos.
– Do que está falando? — China indagou, confuso.
– Eu estive na sua cola, só por precaução. Sei quais são as suas fraquezas. — ela o avaliou de cima a baixo. — E eu te garanto, você não quer me enfrentar.
– Ora garota! Eu sou o país do kung fu. Você é que não vai querer me enfrentar.
– E eu sou soviética. Agora, fique longe do meu irmão seu velho nojento. — ela cuspiu suas palavras com veneno.
– Que modos são estes, jovenzinha! Você deveria aprender a respeitar os mais velhos! Sabe, Confúcio dizia que—
Belarus ergueu um canivete e o aproximou do maxilar de China. Estava cansada deste cara.
Ela o olhou friamente nos olhos e anunciou pausadamente:
– Eu tenho o seu panda preso como refém.
Os olhos de China, antes tão pequenos se arregalaram em espanto.
– Tudo bem, vamos com calma… — ele ergueu as mão ao ar em sinal de rendição.
– Natalya, — Rússia chamou sua atenção, a fitando com um olhar duro. — Peça desculpas para o China agora mesmo.
– Por que eu deveria?
– Por que ele não lhe fez nada. E, ahn, o panda dele também não.
Belarus suspirou, afastando-se de China em sinal de desistência.
O alivio da tensão foi imediata, mas Rússia ainda não estava satisfeito, e coçou a garganta em sinal para Belarus. Ela revirou os olhos pela centésima vez na mesma tarde.
– Me desculpe. — respondeu, sem olha-lo nos olhos.
– Desculpas aceitas. Agora, aonde está o meu panda?
– Num galpão atrás da minha casa. — ela disse com desinteresse, usando o canivete para lixar as unhas.
– Você diz a sua casa? Na Bielorrússia? — o chinês saltou para trás. — Como você pode? Separar um animal do seu amado lar?Se você tiver feito algo com ele…
– Ai, relaxa. — ela suspirou dramaticamente. -Ele tá bem. Tem bastante bambu lá e sinceramente, ele é muito fofo pra eu ter infligido qualquer mal a ele. — ela se voltou para o mais velho, com um sorriso zombateiro. — Viu, China? Não sou tão cruel assim.
– Você sequestrou ele. — China a lembrou.
– Não foi tão difícil. Foi só oferecer um bambu que ele vinha atrás.
– Vocé é completamente louca. — ele apontou acusadoramente para ela.
– A novidade chegou no China! — ela exclamou com ironia.
– Não tenho tempo pra isso. — China abanou o ar para finalizar a conversa. — Preciso arranjar uma passagem pra Bielorrússia.
E se afastou.
Belarus ainda acenava tchau para ele comum sorriso vitorioso quando A voz de seu irmão a tirou de seu momento feliz.
– Natalya. — a voz de Ivan ressou, séria.
Belarus estremeceu levemente. Pronto, lá vem.
Ela se virou para o irmão. O olhar dele era pior do que ela imaginava. Era fria, acusadora. Mas também preocupadae cautelosa.
– Por que fez aquilo? — ele perguntou brevemente.
Ela sabia sobre o que ele se referia Sobre o beijo.
Natalya desviou o olhar para o lado, cruzando os braços.
– Eu já disse. Se eu não fizesse, o China faria. E eu não ia deixar isso acontecer.
– Pelo amor de Deus, Natalya. — ele massageou a testa. — Era só um selinho, fazia parte do jogo.
Ela se sentia pessoalmente ofendida por isso. Aquilo que eles compartilharam, aquilo não fora só um selinho. Ela já havia dado milhões de selinhos em casa. Havia até tentado alguns beijos mais aprofundados com alguns garotos. Mas nada que tivesse despertado uma faísca como ele havia feito. Nada que a fizesse ver fogos de artifício e sentir o intestino inteiro revirar.
Ela fitou o chão.
– ... O nosso não foi só um selinho.
Não houve resposta da parte dele. Belarus ergueu o olhar, procurando aqueles olhos violetas que tanto admirava. E os encontrou, a estudando a fundo.
Rússia finalmente desviou o olhar e suspirou.
– Não... Não foi. — decidiu. — É por isso que não vai voltar a acontecer. Vamos, pegue as suas coisas. — ele gesticulou para a bolsa que trazia e o saco com o biscoito. — Eu vou te levar pra sua casa.
O russo deu as costas a menina e seguiu em frente sem olhar para trás. Podia ouvir pelos passos irritados e pelo incessante protesto que Belarus estava o seguindo de volta para o estacionamento.
– Ivan! — ela chamou a atenção do mais velho mais uma vez, ainda sem obter sucesso.
Ele apenas a ignorou e apertou o alarme
do carro, que se acendeu com um bip. Ele deu a volta no veículo e abriu a porta do motorista entrando lá.
Se ele realmente achava que poderia apenas ir embora sem dar a ela uma satisfação, ele devia estar bem enganado.
A bielorrusa não só não entrou no carro, como havia parai de segui-lo a dez metros atrás. Quando ele deu por si, ela estava parada a info metro de distância do carro, de braços cruzados e cara de poucos amigos.
Rússia baixou o vidro do carro e pos a cabeça para fora.
– Natalya, saia daí.
– Não!
– Pare de agir como criança. Vamos, entre no carro, vamos acabar logo com isso.
– Por que você sempre foge de mim? — ela gritou.
Rússia respirou fundo e abriu a porta, apenas para por uma perna para fora e se apoiar na porta.
– Eu não estou fugindo de você. Estou te levando de volta. Anda, entra no carro.
– Está se livrando de mim, então! — ela riu sem humor. — Você sempre faz isso. Você nunca me quer por perto.
– De onde você tirou isso? — ele a encarou — Eu nunca— Ahn…
Rússia se interrompeu antes que continuasse. Isso sim seria uma bela de uma mentira. Ele vivia fugindo a irmã mais nova. Não que quisesse fazer isso, é claro. Mas não havia outra opção quando Natalya entrava no seu modo perseguidora.
Ele imediatamente se sentiu culpado por todo o tempo que fugiu dela. E principalmente, do que isso custou a ela. A culpa não era de ninguém, mas ele deveria ter tentado ser menos covarde e a confrontado sobre o assunto antes que ela tivesse se machucado.
Ele era o pior irmão mais velho do mundo. Ou pelo menos, era o que ele acreditava.
– … Tudo bem, me desculpe. — ele fechou a porta e caminhou alguns passos pra frente com cuidado. — Eu não devia—
– Durante toda a sua vida, — Natalya o interrompeu. — tudo o que você têm feito foi se afastar de mim. E justo agoraque eu acho que você está dando o primeiro passo pra frente e parando de agir como se eu fosse uma estranha, você dá dois passos para trás.
Havia uma boa distância entre os dois mesmo sem o carro entre eles. Mas Ivan podia notar os cantos dos olhos da irmã se enchendo lentamente com lágrimas.
Ela não iria chorar. Era muito forte e orgulhosa pra isso. Mas a resposta física a situação era mais que clara. Ela estava tão infeliz. Tão machucada por dentro. Mas escondia isso de todos tão bem.
– Por que você faz isso? — ela ergueu a cabeça, exibindo uma careta triste enquanto juntava forças para retrair as lágrimas. Mas era inevitável, não era? Depois de tudo, até Belarus chorava. — Tudo o que eu quero é me aproximar de você.
– Eu sinto muito, Bela…
– E o pior de tudo, é que eu sei que você não faz por querer. — ela o interrompeu mais um vez, fitando os seus pés. -Sei que se sente sozinho. — ela pausou, talvez para respirar e se concentra em não derramar uma lagrima.
Foi então que Ivan notou. Não, ela não estava concentrada em não chorar. Na verdade, agora, a primeira lágrima escorria por sua bochecha. Mas não havia sentido em sentir pena por ela, porque quandoele ergueu os olhos de encontro aos dela, seu semblante era de raiva. Ela estava furiosa. Frustrada. Revoltada.
– Mas sabe, eu também tenho o direitode me sentir sozinha! — ela esbravejou. — Eu também tenho o direito de querer meu irmão por perto! Por que acha que eu voltei depois da Guerra Fria? Eu voltei por você! Eu fiquei do seu lado! Então por que você não pode ficar do meu lado só dessa vez?!
Seu rosto estava molhado e seu cabelo, uma confusão pelo estresse. Belarus estava completamente fora do controle, e Ivan sabia que era responsável. Ele assumia cada uma das acusações da irmã. Mas ele não podia suportar encara-la nos olhos. Sabia muito bem que estava errado. Tudo o que ela dissera era verdade. E ele se sentia um lixo.
Ele fora injusto com ela. A circunstâncias não ajudaram o relacionamento dos dois. Não demorou muito para que a amizade que tinham na infância desmoronasse diante de seus olhos. E ele não fez nada.
Olhando para trás, tinha vontade de se dar uma marretada na cabeça. Que grande idiota que foi. Mas não mais. As coisas haviam mudado. Ele havia mudado. E iria compensar Natalya por todas as suas idiotices.
Por isso, ele se aproximou em passos largos e rápido da garota. Ela ainda estava com raiva, e por isso recuava e o empurrava pelo peito para longe, mas ele era mais forte.
– Não me toque! — ela esmurrou seu peito. — Fique longe de mim! Seu grande brutamontes! Idiota! Ingrato! Desgraçado! — ela lançava uma sequência de socos em seus braços, ombros e peitos. Rússia rapidamente tratou de segurar
seu punhos e então puxou-a para perto, num abraço apertado.
– Não, me solte! Eu não quero a sua pena! Eu não quero mais nada de você! — ela lutava contra o aperto de Rússia.
– Eu estou bem aqui. Bem aqui, Natalya! — ele dizia em seu ouvido, tentando acalmá-la.
– Não, você não quer saber de mim! Onde está você quando eu preciso? Onde está a sua preocupação? Onde está o seu amor por mim?
Ela gritou este último com um tom que beirava o desespero. Rússia a soltou levemente para segurar melhor suas mãos mas ela continuou a lutar, decidida a infligir algum dano ao mais velho. Com esforço, Rússia arrumou lugar para os pulsos de Belarus em uma só mão, que aninhou em seu próprio peito e a outra a segurou tão próximo que mal havia ar paraela respirar.
Mas ela respirou fundo, sugando o ar que havia ao seu redor em sinal de que ainda estava viva e não havia desmaiado.
E então, ela soluçou.
Tão ocupado em evitar que ela atingisse seu próprio rosto enquanto o atacava, ele mal percebeu quando os grunhidos de raiva começaram a se transformar num choro desesperado.
Ele aliviou o aperto. Assim que notou o espaço a mais para se movimentar, Natalya se livrou da mão que prendia seus pulsos e contornou o corpo de Ivan, agarrando-se com força as costas do irmão. Ele a abraçou tão forte quanto, e ela aninhou sua cabeça em seu peito forte.

– Eu estou com você. — ele sussurrou ao vento. Shhh, vai ficar tudo bem, Nat. — ele acariciou o topo loiro da cabeça da irmã.
Em algum tempo, o soluço começou a diminuir até que só se ouvia as breves fungadas que a pequena dava. Rússia podia sentir pelos braços a respiração ainda pesada de Belarus. Mas ela estava decididamente mais calma agora do que antes. Então, ele julgou seguro soltá-la.
– Tudo bem? — ele segurou seu pescoço com as duas mão de forma que ela olhasse para ele. Queria checar se ela estava bem. Um nariz vermelho e o rosto úmido.
– Estou melhor. — ela se livrou das mãos do irmão, pondo certo espaço entre eles. — Mas ainda não estou bem.
Ela lhe deu as costas e andou alguns passos. Ivan a seguiu.
– O que eu posso fazer pra melhorar a minha situação? — ele se aproximou lentamente.
Houve uma pausa significativa. Havia poucas coisas que poderia fazer Belarus feliz.
– Eu ainda acho que deveríamos nos casar. — ela respondeu ainda de costas para ele.
Ivan cerrou os olhos.
– Nós já conversamos sobre isso… — ele tentou desconversar. A única resposta de Belarus foi cruzar os braços. Ela nunca iria desistir dessa hipótese, iria? Mas de qualquer maneira, ele não estava ali pra voltar a estaca zero. Havia desenvolvido uma proximidade com ele e não iria deixá-la na mão.
– De qualquer forma, eu acho que nunca te perguntei o porquê. — ele tentou atrair a atenção dela novamente. — Porque você acha isso?
Ela se voltou para ele, se aproximando alguns passos.
– Por que nós precisamos um do outro. — ela estendeu a mão para Rússia, e ele a alcançou. Belarus olhou para suas mãos entrelaçadas. Suspirou com um sorriso triste mas esperançoso. — Seríamos grandes juntos. E nunca mais ficaríamos sozinhos.
– Odeia tanto assim ser independente? — ele indagou.
– Odeio ficar longe de você. Me sinto completamente só no meio daquele bando de idiotas. Sinto falta de ter alguém pra me apoiar, me ajudar, estar do meu lado.
Então era isso. O fruto de toda aquela loucura, de todo aquele comportamento estranho e toda a sede incansável por se casar com ele. Mas é claro. Era tudo tão simples. Ela só queria ter alguém.
Ela queria o irmão dela.
Os olhos de Rússia brilharam com o esclarecimento. Mas logo eles escureceram de novo. Pois tão rápido veio a luz da verdade, a realidade voltou.
A solidão não fez bem a cabeça de sua irmã.
– Eu entendo… Mas Bela, me casar com você não é a resposta.
– Então qual é? — ela perguntou em desespero. — De que outra forma eu posso garantir que você vai ficar do meu lado? Se você não pode tentar ser meu marido e me ajudar... — ela estava prestes a voltar aquele estado deprimente e desesperado ao qual havia se reduzido a minutos atrás.
Rússia tratou de acalmá-la, acariciando seu rosto e beijando sua testa. Mas ela continuava perdida, pensando longe.
– Meu povo esta sofrendo, Ivan. — ela continuou. — A Bielorrússia está em crise econômica desde a Guerra Fria, e por mais que meu chefe goste de fingir, gente não vai aguentar por muito tempo. Precisamos de ajuda. Eu preciso de ajuda. — ela ergueu os olhos de encontro ao irmão. — Eu preciso de você. Sem você eu não tenho ninguém...
– Não fale assim. — ele afastou a franja do cabelo de seu rosto. — Você tem a Ucrânia também.
A Ucrânia tem problema o suficiente pra lidar, irmão. — ela riu sem humor. — Eu só tenho você.
Rússia a puxou para mais um abraço. Ele suspirou, pesando as informações e logo a afetou novamente, um novo fio de ânimo em seu olhar.
– Então está decidido. Eu vou te ajudar.
– Então... Vai se casar comigo? — ela indagou com um traço de esperança. — Vai ser meu marido?
– Não... Eu vou ser seu irmão. — ele balançou seus ombros, sorrindo. — Nós somos uma família. Eu vou te proteger e ficar do seu lado agora e sempre. Eu prometo compensar por todo o tempo perdido, me preocupando mais em ser o Rússia do quê ser o Ivan. Eu vou tomar conta de você como um irmão mais velho deve. E você vai me apoiar como uma irmã mais nova deve. Vamos sempre estar juntos. Seremos inseparáveis. O que me diz?
Natalya hesitou, pensando no assunto.
– Não seremos casados? — ela perguntou.
– Não. E nem precisamos ser. Você não precisa ser minha esposa pra me manter por perto.
– Então… — ela o fitou em seus olhos violetas. Não era a união que ela sempre pensou. Mas ei, se é um oportunidade de ficar perto do Irmaozão, que mal pode haver? — Eu aceito.
Ivan sorriu largamente, depositando um beijo em seu rosto.
Ela também sorriu. Um de seus sorriso verdadeiros, eu digo.
– Obrigada Vanya. Eu... — ela se interrompeu. Não sabia se devia dizer, mas disse do mesmo jeito. — Eu te amo.
Ivan sorriu ao som daquelas palavras, e puxou Belarus para mais perto para um abraço. Ele não respondeu, e ela sabia que não responderia. Por que por mais que Ivan amasse Natalya, ele nunca poderia admitir amá-la do mesmo jeito que ela o amava. Não era justo responder as palavras se ela não teriam o mesmo significado para os dois.
Ao invés disso, ele acreditava que o abraço seria o suficiente para garantir a ela o quanto ele se importava e estava feliz com a sua companhia.
Ivan se afastou de Natalya. Por um instante, ele contemplou o sorriso triste que ela trazia junto dos olhos marejados.
Ele segurou o rosto pequeno da irmã.Queria tanto fazê-la feliz. Queria tanto dizer que a amava e que iria ficar por perto, mesmo que fosse uma mentira. Talvez não precisasse ser uma mentira. Ele não sabia direito o que queria. Sentia um calor no coração toda vez que a olhava nos olhos e poderia fazer qualquer coisa por aquela menina se ela apenas sorrisse para ele. Ao longo dos anos, rejeitar qualquer avanço do sinal por parte de Belarus se tornou automático, mas ultimamente era cada vez mais difícil encará-la quando ele partia seu coração.
Talvez toda essa confusão fosse por causa do tempo que tinham passado juntos ultimamente. Antes era mais fácil dizer não para ela. Hoje era tão difícil. Mas prometeu que não iria mais se afastar e iria cumprir sua promessa, de um jeito ou de outro.
Então ele a beijou na testa e abriu a porta do carro para ela com um sorriso acolhedor.
– Vamos pra casa.
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