Notas iniciais
Espero que gostem!

Tiago sempre havia sido um cara curioso, aventureiro, sempre pronto para um novo desafio, gostava de estar bem informado, ter sempre como se virar em qualquer situação, ou pelo menos, saber como lidar com a maioria delas. Quando encontrou Bruno com olhos perdidos, mente avoada e um jeito estranho de respirar, soube na hora que havia uma grande novidade pela frente e era óbvio que iria querer saber o que era e como lidaria com ela.

Pela manhã o melhor amigo de Bruno se arrumou, tomou um bom café da manhã e foi para o trabalho, para sua surpresa o amigo não estava na sala quando passou lá para colocar as suas coisas, mas não se deteve muito a isso e logo foi fazer o que havia planejado. Passou no setor jurídico, resolveu alguns problemas, fez charme para a nova estagiária, pediu alguns favores para o pessoal da informática e finalmente foi em direção ao seu alvo menos profissional.

Tiago entrou no setor de contabilidade, cumprimentou alguns conhecidos e aproveito para perguntar quem era Ana e logo apontaram ela. O rapaz logo se despediu do colega lhe havia dado a informação, com um sorriso simpático e se direcionou a mesa de Ana. Com a clichê postura de conquistador barato, Tiago apoiou a mão na mesa da moça, levou a outra a nuca e soltou um “Olá” cheio de uma sensualidade desnecessária.

— Você é a Ana, não é isso? — era óbvio que ela era a Ana, mas perguntas óbvias faziam parte do jogo.

— Sou — a resposta curta e objetiva não parecia um corte, mas também não era o convite para uma conversa.

— Eu sou o Tiago, sou o outro idealizador do projeto de marketing que você está ajudando na parte contábil. Foi o Bruno que veio trazer o projeto para você.

— Posso ajudar?

— Sim, eu gostaria de saber mais sobre o seu papel na execução do nosso projeto. — aquilo era uma mentira deslavada, ele só queria assunto para conhecê-la melhor.

— Eu não tenho papel na execução. — Tiago franziu a testa confuso ao escutar isso e até puxou uma cadeira para se sentar próximo a mesa de Ana.

— Como assim?

— Eu faço a prestação de conta, forneço relatórios e dados de como vocês estão investindo os recursos financeiros, impostos pagos, retorno financeiro adquirido e similares. — a explicação parecia ter sido oralizada pelo Google Tradutor, mas sem o ritmo robótico.

— Agora eu entendi, me parece um trabalho um pouco chato.

— É o meu trabalho. — ela não parecia ofendida e também não parecia concordar, simplesmente era o trabalho dela, como é trabalho da faca corta, ninguém nunca ouviu uma faca reclamar da sua função ou do seu orgulho por ela.

— E há algo que eu posso fazer para facilitar seu trabalho? — tentou uma nova abordagem, já que até agora ele não havia conseguido nem que ela o reconhecesse como um ser vivo.

— Não, mas está faltando parte do orçamento para a oficina de linguagem de códigos, precisarei do orçamento completo. — respondeu sem nenhuma variação do seu tom monótono.

— Pode deixar que eu vou resolver isso ainda hoje. Tem algo mais que eu possa fazer por você? — ser solícito e interessado sempre eram boas estratégias para conquistar a atenção de alguém.

— Não.

— Se eu te convidasse para sair, você aceitaria? — cansado de não ter nenhuma reação da parte de Ana, resolveu ser mais direto.

— Não costumo trabalhar com hipóteses. — aquilo não era um não, ela realmente não costumava responder perguntas hipotéticas, porque isso requer trabalhar por algo que talvez nunca acontecesse.

— Melhor, você quer sair comigo? — corrigiu começando achar aquela conversa cada vez mais incomum.

— Não, obrigada. — “o obrigada” não era realmente uma gratidão, era apenas uma convenção social que ela havia aprendido.

— É comprometida?

— Não.

— Não me achou interessante?

— Não.

Ok! Essa doeu! Ana havia dito na cara de Tiago, sem rodeios, culpa ou inibição, que ele não era interessante. Em situações normais após o primeiro impacto de surpresa e rejeição que Tiago havia sofrido, ele teria sentido muita vergonha, feito uma gracinha e ficado com um pouco de raiva da garota, mas essa não era uma situação normal. O rapaz pode ver claramente nos olhos sem vida de Ana, que ela não achava nada interessante e com ele não teria sido diferente.

Ana não sentiu prazer nenhum em dar um fora em Tiago, na verdade ela não tinha sentido nada, havia sido algo indiferente e sem importância e Tiago sabia bem disso, o que para ele só deixava a situação ainda mais estranha.

— Você usou isso com o Jorge também? — o rapaz perguntou do nada.

Ana não demonstrou em seu rosto, mas seu silêncio mostrou que ela não entendeu a pergunta.

— Jorge já deu em cima de praticamente todas as mulheres da empresa e vocês são do mesmo setor. Sei que não ficou com ele, pois ele teria comentado sobre você, o que me faz concluir que agiu com ele da mesma forma que agiu comigo.

— Essa conversa não me parece relevante. — ela não estava tentando fugir da conversa, só achava que aquilo era realmente desnecessário, mas não demonstrava impaciência.

— Eu vou te deixar trabalhar em paz. Resolvo o problema do orçamento ainda hoje e desculpa pelo incômodo. — Tiago finalizou vencido e foi direto para sua sala.

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— Eu chamei a garota da contabilidade pra sair. — Tiago informou assim que colocou os pés na sala que dividia com Bruno.

— Você é inacreditável. — o amigo respondeu desviando sua atenção do computador.

— Mas não precisa ficar com ciúmes, ela disse não.

— Bem feito.

— Foi muito estranho, até agora não consigo entender. — continuou, ignorando o comentário de Bruno.

— Para com isso! Deu para se achar o irresistível agora? Esse não foi o primeiro e nem o último fora que você tomou, você não é aqueles personagens de filmes de adolescentes que sempre foi o conquistador e depois de tomar o primeiro fora da vida se apaixona pela garota.

— Não é nada disso! Eu só achei estranho o jeito como ela me rejeitou, ela não sentiu prazer nenhum nisso.

— Prazer? — Bruno não conseguia acompanhar o raciocínio de Tiago.

— Sim, existem dois tipos de foras de uma mulher, o prazeroso e o dolorido. O prazeroso é quando a garota gostou do fato de ser desejada e gosta mais ainda do poder que tem de esnobar o pobre coitado que a quer, é como o prazer da conquista acrescido de um bônus de poder.

Já o dolorido é quando ela quer aceitar, mas não pode porque é comprometida, acha que você é um idiota que não vale a pena se arriscar, ou outros motivos semelhantes. — Bruno não conseguia entender como Tiago falava aquilo de forma séria e se achando um especialista.

— Então ela te deu o fora dolorido. — constatou se achando um pouco ridículo por usar a teoria do amigo.

— Também não, aí que está o problema! Ana não me deu nenhum dos dois foras, ela não sentiu prazer em me rejeitar e também não queria aceitar, ela simplesmente não queria sair... E eu nem acho que era uma questão de querer ou poder.

— Isso só não fazia parte da realidade dela, como se relacionamento não fosse um interesse, opção ou ao menos existente. — Bruno concluiu voltando seu pensamento para o dia de ontem onde conhecera Ana.

— É isso! Você não acha isso muito esquisito?

— Agora você entende porque eu fiquei daquele jeito após conhecê-la? — aquela pergunta tinha um tom de “eu te falei.”

— Não. Ela é estranha, só isso. Você parecia ter visto um zumbi, ou alguma entidade do além que mandou um recado e ela não é nada disso. — Tiago respondeu quebrando a postura do amigo e o deixando irritado pelo exagero.

— Eu também não fiquei desse jeito e ela bem que parece um zumbi.

— Que seja! Além de dar em cima dela, eu perguntei sobre o nosso projeto e ela falou que está faltando parte de um orçamento para a oficina de linguagem de códigos.

— Eu sei, o coordenador do curso não tinha conseguido concluir os itens e valores a tempo, mas ele já me mandou tudo ontem e eu terminei agora de manhã.

— Envie pra ela por e-mail.

— Agora que eu vi, eu não tenho o e-mail dela.

— Não tem problema, há uma página no site da empresa com os e-mails profissionais de cada funcionário administrativo. — essa solução era um alívio para Bruno.

— Droga! — o rapaz bufou lembrando que ainda não estava livre de sua viagem até a contabilidade. — Esse orçamento tem algumas especificações, eu vou ter que ir até lá explicar uns detalhes para ela.

— Isso me parece só uma desculpa para revê-la. — Tiago implicou, certo de que o amigo não estava apenas assustado com o jeito estranho da moça.

— Você é ridículo! — reclamou se levantando para pegar as folhas do orçamento que havia enviado para impressão.

— Ela recusou meu convite, mas talvez aceite o seu.

— Cala a boca. — respondeu irritado antes de se retirar.

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Bruno não estava nem um pouco interessado em ouvir as gracinhas de Tiago, ele achava completamente absurda a ideia do amigo de achar que ele estava interessado em Ana, e achava mais absurdo ainda o fato dele ter ido na contabilidade só para conhecê-la e dar em cima dela. Tiago não era o tipo fura olho, mas não era primeira vez que ele havia dado em cima de uma moça que ele achava que Bruno estava interessado, ele fazia isso com o objetivo de ver Bruno reagindo e indo atrás da garota, isso já tinha acontecido uma vez, mas não agora. Agora Bruno apenas estava assustado com a moça.

Entrando, no setor de contabilidade o rapaz não teve dificuldade em encontrar Ana, ela estava junto a máquina de fotocópias que parecia não funcionar. A moça apertava alguns botões tentando destravar uma das abas, mas não obteve sucesso algum, a maioria das pessoas nesse momento já estariam chutando a máquina, ou pelo menos, com uma expressão de raiva e murmurando algumas palavras feias, porém Ana apenas repetia os movimentos como se nada de anormal estivesse acontecendo.

Bruno se aproximou devagar ainda observando a cena incomum, mais de perto pode reparar como as mãos de Ana eram delicadas, mas logo se esqueceu disso e foi ajudá-la. Sem falar nada tocou aba que ela tentava abrir roçando de leve sua mão na dela e para surpresa não era fria como a de um defunto como ele imaginava, era quente e suave, talvez se o toque durasse mais tempo ele percebesse que também era macia, porém ele não estava ali para isso e ainda a achava muito anormal.

A aba da máquina cedeu com o jeito que Bruno a puxou, ele conhecia bem as máquinas da empresa e sabia como lidar com elas, havia sido íntimo de fotocópias durante seu período de estágio.

— Obrigada. — Ana agradeceu puxando a folha que havia agarrado impedido o processo de cópia.

— De nada. Vim entregar o orçamento que faltava. — respondeu mostrando as folhas que havia trazido.

— Podia enviar por e-mail. — devolveu indo em direção a sua mesa sendo seguida por Bruno.

— Eu precisava te explicar algumas especificidades do orçamento e tirar algumas dúvidas rápidas... Você estava na máquina não vai fazer cópias? — questionou curioso ao perceber que depois do problema resolvido, Ana havia se afastado da máquina sem papel algum.

— Eu já tinha feito e entregue ao estagiário, só estava deixando a máquina em boas condições para outra pessoa. — respondeu em seu tom habitual.

— Bonita atitude. — Bruno havia ficado positivamente impressionado, apesar de toda aquela postura de zumbi, Ana não era uma pessoa egoísta.

— Quais as especificidades do orçamento? — questionou estendendo a mão para as folhas de Bruno.

— Alguns itens estão em dólar e eu não tenho conhecimento de alguns impostos que vão incidir sobre a importação, além de que esses itens... — falou encostando as folhas no peito e apontando os itens. — Estão com variações de preços absurdas eu não sei o que fazer quando a nota vier em um valor completamente diferente do orçamento.

— Eu posso resolver todas essas questões, continue a fazer o que está fazendo, guarde todas as notas e depois me envie. Te enviarei o primeiro relatório semana que vem. — respondeu mantendo a mão estendida para os papéis, que Bruno finalmente a entregou.

— Você tem certeza que é só isso? — ele acreditava que precisaria dar mais informações e que ela teria dúvidas.

— Sim — ele não conseguia se acostumar com aquelas respostas diretas e sem emoções.

— Tudo bem, então. Vou ficar aguardando seu relatório. — respondeu sentido aquela sensação de que deveria falar algo a mais, de que queria dizer algo.

Ana apenas começou analisar o orçamento sem qualquer resposta verbal ou visual a última fala de Bruno, ele por sua vez continuou no mesmo lugar a observando. Os olhos de Ana sobre os papéis não tinham mudanças, ela tinha a mesma postura sempre. Será que alguma coisa no mundo provoca alguma emoção nessa mulher? O rapaz se perguntava sem parar, mas ele não perderia mais tempo ali, resolveu ir embora, mesmo sem um “tchau”.

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— Resolveu seus problemas com a bonitinha esquisitinha? — Tiago questionou com um sorriso divertido assim que o amigo entrou na sala.

— Parece que para ela não existia um problema, ela disse que pode resolver tudo. — respondeu sem querer dar muita corda.

— Ela pode resolver tudo? Até a sua quedinha por ela? — ele podia ser bem irritante.

— Quantos anos você tem? Sete? Qual é a próxima gracinha, gritar “tá namorando” quando me ver perto dela? — devolveu se jogando na cadeira irritado.

— Não é uma má ideia. — sorriu mais abertamente.

— Você não tem nada melhor para fazer?

— Tenho sim e mudando de assunto... Já escolhi o lugar onde a gente vai no seu aniversário.

— Aonde? — Bruno não queria realmente saber, na verdade ele tinha medo de saber.

— Assassin's Bar! Tem umas comidas maravilhosas, música boa, bebida gelada e um tema nerd que você adora. — até que não tinha sido um completo pesadelo como Bruno pensava.

— É um bar temático sobre o jogo? — existia um pequeno sinal de empolgação em sua voz.

— Exatamente! Tudo que meu amigo nerd precisa para ser iniciado nas noites de alegrias, festas e baladas.

— Vai com calma. Pode voando mais baixo, eu só concordei em ir no meu aniversário.

— Você vai gostar e não vai querer saber de outra coisa, vai esperando. — falou convicto de que ainda levaria Bruno para seu mundo.