Bela Morta

24 Capítulo 23


O caminho de volta havia sido bem mais tranquilo do que o de ida, apesar da ansiedade ainda estar presente, agora por um motivo diferente, Bruno não tinha mais o medo e as incertezas de não achar o que precisava, ele já tinha achado tudo, todas as ferramentas, agora só precisava formular bem como usaria suas novas informações.

Ao chegar em casa, Bruno tomou um longo banho relaxante, preparou algo para comer, se alimentou como pode e finalmente conferiu a tela do seu celular, lá em Pinheiral não tinha sinal para sua operadora, desde que havia saído da zona sem sinal, não tinha mexido no aparelho, a quantidade de chamadas perdidas de sua mãe e Tiago eram grandes e similares.

A primeira ligação tinha que ser de Dona Omara, ela tinha prioridade, mesmo que sempre reclamasse dizendo que não. Só precisou de quatro toques para que os ouvidos de Bruno fossem preenchidos pelas reclamações de sua mãe. Omara discursou sobre como seu filho havia sido um irresponsável, por ter ignorado seus protesto sobre sua ida a Pinheiral e mais ainda por ter sumido e ficado horas sem notícias dele. Bruno até pensou em rebater, mas sabia que era perda de tempo, então apenas se desculpou, falou que estava bem e desligou.

A segunda ligação não teve gritos como na primeira, mas a cada palavra que Tiago soltava, Bruno podia escutá-lo bufar em seguida, desde do que aconteceu no bar, os melhores amigos não haviam se falado e Tiago exigiu que Bruno contasse tudo o que havia acontecido logo de uma vez e foi o que o rapaz fez, falando até de sua inesperada viagem.

Depois das ligações de justificativa, responsabilidade e consideração, Bruno estava exausto, ele não havia dormido bem na casa de José, além da viagem de ida e volta terem sido bem cansativas, acrescentando o fato de que ele estava ansioso e desgastado psicologicamente e emocionalmente, o que o rapaz mais desejava no momento era dormir e foi isso que ele fez.

Como não acontecia há muito tempo, mais ou menos desde sua adolescência, Bruno só acordou no dia seguinte, cedo demais para ir ao trabalho, porém o suficiente para realizar coisas e se organizar com calma para o trabalho e seu plano.

Ao chegar na empresa, Bruno dedicou-se inteiramente ao seu trabalho, ele tinha que se distrair com algo até chegar a hora de colocar seu plano em prática e precisava adiantar as coisas, Ana ocupava muito do seu tempo e da sua cabeça.

Quando Tiago chegou eles apenas se cumprimentaram, Bruno estava concentrado e sabia que Tiago estava preocupado e começava a gostar cada vez menos do interesse do amigo por Ana, ele começava acreditar que aquilo estava se tornando doentio, e talvez estivesse, mas Bruno não ligava.

Depois do almoço e de alguns afazeres, Bruno finalmente resolveu puxar assunto com Tiago, mesmo ele parecendo irritado.

— Tiago? — Bruno chamou um pouco hesitante.

— Por que almoçou comigo hoje? Ana não veio? — ele soltou sem se preocupar de estar sendo dramático.

— Eu sei que está preocupado, eu aprecio isso, mas eu estou bem.

— Bem? Você ficou bêbado. Você! Você só consegue ficar feliz quando ela está por perto e não é de um jeito bom. Você pegou um carro e foi para outra cidade buscar coisas sobre o passado dela! Do nada! Feito um louco! Estou preocupado. No começo achei que era só uma paixonite, que te faria bem, mas você está fora do eixo. — Tiago conseguia ver como o Plano de Vida do Bruno não existia mais e de como o amigo havia se tornado dependente de Ana.

— Eu sei e você está certo. Mas eu só preciso que você me cubra o resto do dia, vou precisar fazer mais uma loucura e depois disso eu prometo que paro. — ele estava sendo sincero, ele sempre era.

— Que loucura?

— Eu vou invadir a casa de Ana e rouba uma coisa. — os olhos de Tiago se arregalaram.

— Você pirou? De jeito nenhum! Isso é crime, ela não tem sentimentos por você, mesmo que você se mate por isso. Ela pode mandar te prender!

— Eu juro que ela não vai mandar me prender, eu só preciso fazer isso... É a minha última tentativa.

Tiago não acreditava que compactuaria com isso, mas ele iria, claro que iria. Bruno era seu melhor amigo, seu irmão, e amigos se ajudavam mesmo que isso fosse algo completamente louco, como invadir a casa de alguém sem emoções, em busca de uma forma secreta que a fizesse voltar a sentir.

— Ok! Eu te cubro, mas se você for preso, nem pense em dizer que eu te ajudei.

— Obrigado! — Bruno praticamente gritou abraçando o amigo com força.

— Se cuida e isso é seu. — Tiago pegou a caixa retangular que Ana havia dado para Bruno no dia do seu aniversário e ele havia deixado para trás acidentalmente.

— Obrigado mesmo, cara. — falou pegando a caixa guardando em sua bolsa e partindo para sua aventura particular.

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Bruno estava diante da casa de Ana, ele conhecia bem aquele lugar, não havia ido muitas e muitas vez ali, porém as vezes que foi fez questão de guardar cada centímetro daquele lugar em sua memória, afinal, aquele lugar pertencia a ela, Ana, a dona do seu coração mesmo que o dela não parecesse existir.

Aquilo seria difícil, o jovem rapaz nunca havia invadido nada na vida, ele era o certinho, responsável e organizado, aquilo não fazia parte da sua realidade. Esquecer o Plano de Vida do Bruno, viver emocionalmente instável, corre atrás de uma garota como um cachorrinho e praticamente balançar o rabinho quando ela aparecia, ficar bêbado, beijar alguém a força, pegar o carro ir para uma cidade distante, sem nenhum um tipo de planejamento e agora invadir uma casa. O que está acontecendo? Bruno se perguntou mentalmente em um lampejo de lucidez, porém isso logo se desfez, ele começou a pular o muro se certificando que ninguém o tinha visto.

Pular o muro tinha sido a parte fácil, entrar na casa seria difícil. Ele já tinha gastado toda a sua sorte em Pinheiral, não teria a moleza de encontrar a porta destrancada ou a chave embaixo do carpete. Lembrando que a janela da cozinha era grande o suficiente para ele passar por ela, Bruno contornou a casa indo para cozinha, mas a janela estava trancada e quebrá-la talvez atrapalhasse seus planos seguintes.

A falta de um planejamento começou a se tornar mais forte, e Bruno levantou os olhos para o céu na espera que uma resposta caísse dele, e parecia que a sorte estava voltando, porque a resposta veio.

Bruno foi até os fundos da casa, onde ficava a área de serviço e onde podia se ver com clareza a parte da casa que era coberta por telhas, ele iria se machucar, porém ele poderia conseguir entrar.

Largando sua bolsa no chão e lamentando-se por ter subido em pouquíssimas árvores quando criança, Bruno se aproveitou das grades da janela da área de serviço e subiu até o telhado juntando todas as suas forças para arrastar a telha. Com muita dificuldade, ele conseguiu criar uma brecha entre dua telhas que não estavam muito bem presas, e com uma total falta de sensatez, Bruno forçou seu corpo para cima, sentindo suas mãos arderem contra o cimento, usando todo o equilíbrio possível, conseguiu colocar a perna esquerda para dentro da brecha, ficando sentado no topo da parede que sustentava as telhas, tentando recuperar o fôlego.

Se Bruno pensava que aquilo estava difícil, agora seria impossível, colocar a outra perna para dentro da brecha parecia algo fisicamente não solucionável, se apoiando com todo o cuidado possível sobre as telhas para não quebrá-las, ele tentou puxar a perna direita para dentro, mas aquilo não estava dando certo.

Bruno não podia desistir, não agora, não ali. Renovado de perseverança, ele fez mais força sentindo a perna esquerda balançar como um pêndulo na parte de dentro. E em um movimento confuso e desajeitado, Bruno se desequilibrou caindo para dentro da casa, sentido seu abdômen, costas, braços e perna serem arranhados pelas telhas e parede. A queda foi feia e Bruno gemeu alto ao experimentar a dor na lateral de seu corpo, ao se chocar contra o chão. Ele definitivamente havia ficado louco.

Ele gastou um minuto deitado no chão, de barriga para cima, entre a máquina de lavar e o cesto de roupas sujas, tentando se recuperar, após isso, analisou sua camisa rasgada e o pequeno corte que sangrava em seu abdômen, nada sério, mas ia deixar uma cicatriz. Depois de se levantar pegou um banco que estava próximo, subiu e se esticou para colocar a telha no lugar, todo seu corpo reclamou, mas ele conseguiu terminar o serviço.

Bruno ainda teve que passar por uma porta sanfonada que estava fechada por dentro, porém essa não era a parte difícil e após praticamente quebrá-la, não foi muito complicado colocá-la de volta no lugar.

E finalmente Bruno estava na sala, o primeiro cômodo da casa que ele conhecera, ele ficou tentado a ir ao quarto de Ana, sentir seu cheiro nos lençóis, mas não era essa a missão. O rapaz foi até a caixa de madeira, a mesma que havia chamado sua atenção quando chegou aquele lugar pela primeira vez, a mesma que estava naquela foto de família, e a pegou sem hesitar.

Ao abrir a caixa não conteve o sorriso, o envelope amarelado com as palavras "De: Papai Para: Sua Princesa" marcadas no papel, foi a primeira coisa que ele encontrou e era aquilo que ele estava procurando, fechando a caixa com pressa, Bruno foi até a cozinha destrancou a janela e conseguiu sair sem toda a dificuldade da entrada, foi até os fundos da casa, recuperou sua bolsa e guardou a caixa lá, sem tirar o sorriso do rosto. Contudo, quase chorou diante do muro ao lembrar que teria que pulá-lo mesmo que seu corpo não aguentasse fazer isso.