Bruno acordou tarde, algo muito incomum para ele mesmo em dias de sábado, domingos e feriados, o motivo era que havia ficado até tarde vendo filmes e tentando parar com a situação esquisita de pensar em Ana. O rapaz começava a notar que a cada minuto sua mente era cada vez mais tomada pela jovem esquisita. Não! Ele não estava apaixonado, acredite em mim. Mas Bruno tinha sua mente tomada por Ana.

Os olhos, os órgãos mais chamativos e assustadores de Ana, eles eram os protagonistas dos pensamentos de Bruno, ele pensava neles como nunca. Mesmo quando Ana parecia um pouco mais com um ser humano, eles estavam lá mortos e vazios e quando a voz dela soava era impressionante a semelhança com uma assombração. E pra que tão branca? Se não fosse a pele quentinha e macia, Bruno ia começar cogitar a ideia louca de que Ana era um vampiro, fantasma, demônio encarnado, ou qualquer outra coisa medonha que ele não conseguia explicar.

A pele tão quentinha e macia, outra coisa incrivelmente presente na cabeça de Bruno, por um momento ele imaginou seus braços envolta do corpo de Ana, sentindo seu calor e maciez, mas não ia acontecer, ele não cometeria um ato tão invasivo sem intimidade, porém a cada segundo essa vontade aumentava e mais sorrateiro que uma cascavel outro desejo muito mais perigoso começou a surgi. Se a pele da bela mulher morta era quente e macia, seu cheiro deveria ser bom também, Bruno concluiu mesmo sem ter dado permissão para que sua mente trabalhasse nessa ideia.

— Preciso arrumar alguma coisa para fazer! — falou para si como uma ordem ao se afastar da mesa da cozinha onde tomava seu café / almoço.

Decidido a parar de pensar em Ana, Bruno foi até seu quarto vestiu uma roupa mais apresentável a sociedade, arrumou a cozinha e saiu de casa em direção a uma loja de artigos de informática em busca de alguns cabos e equipamentos que estava precisando.

Já na loja Bruno escolheu alguns cabos, um novo mouse e começou a dar uma olhada nos videogames. Ele era um nerd não dos mais completos, mas ainda um nerd e sua casa ainda não tinha um videogame, o seu antigo havia ficado na casa de sua mãe, pois apesar da pesca, carteado e todas as outras tradições de um velho pai tradicional, Ruben gostava dos joguinhos eletrônicos e não deixou o filho levar o console, e Bruno também não podia reclamar logo ganharia um carro.

Analisando mentalmente suas finanças, achou arriscado comprar um videogame agora, esperaria um pouco mais, depois que pagasse todas as compras que fez para casa nova, com certeza compraria um console e alguns jogos, por isso começou a observar os jogos com mais atenção, anotando mentalmente os de sua preferência.

— O três ficou bem melhor que o dois. — uma voz conhecida por Bruno comentou ao percebê-lo olhando para os jogos.

— Felipe! — Bruno exclamou feliz ao notar a presença do amigo da época da escola.

— Tudo bem, cara? Faz um tempão que a gente não se vê. — falou sorrindo antes de abraçar o amigo rapidamente.

— É verdade! Depois que terminamos a escola ficou difícil de nos encontrarmos.

— Pois é, a última vez que nos vimos foi no aniversário do Tiago ano passado... Falando nele, como ele está?

— Como sempre, cheio de saúde, alegria e falta de vergonha na cara. — respondeu brincando.

— Ele é um eterno crianção, mas parece ser maduro profissionalmente. Vocês não conseguiram ser efetivados naquela empresa?

— Sim, e tivemos nosso projeto aprovado recentemente. — informou orgulhoso como sempre quando se trava do seu projeto.

— Que ótimo, cara! Fico muito feliz por vocês, precisamos de um dia para conversarmos, lembrar os velhos tempos.

— Deveríamos marcar alguma coisa. — sugeriu com uma vontade real de marca, não era apenas uma desculpa.

— Lógico! Sábado que vem é o aniversário de um ano da minha filha, naquele salão de festa próximo a nossa antiga escola. Aparece lá com o Tiago, se vocês tiverem namorando, as namoradas também estão convidadas, vou pôr o nome de vocês na lista. — respondeu empolgado.

— Pode deixar! Eu não vou levar ninguém, o Tiago está solteiro como sempre, mas é bem provável que leve alguém. Que horas vai ser?

— A festa vai começar às 18 horas.

— Confirmado, sábado que vem às 18 horas.

— Agora vou deixar você escolhendo seus jogos em paz, eu só vim comprar tinta para impressora.

— Ok, até sábado. — respondeu dando um abraço de despedida no amigo.

— Até! — falou por fim, indo até o caixa.

Festa de crianças no Rio de Janeiro, eram na grande maioria das vezes uma boa desculpa para adultos se reunirem, comerem e se divertirem, enquanto crianças corriam de um lado para outro e pulavam em camas elásticas como umas doidas, e isso não seria diferente com a festa de aniversário da filha de Felipe, que só após a partida do amigo que Bruno lembrou que não sabia o nome da menina, ou melhor, que havia esquecido, mas ele poderia resolver isso no próprio dia da festa, onde provavelmente o nome da menina estaria espalhado por todos os lados.

Bruno estava satisfeito com o convite de Felipe, teria que comprar um presente para criança e ele não fazia ideia do que, mas teria uma semana inteira para pensar sobre. Ele avisaria Tiago sobre a festa assim que chegasse em casa para não esquecer e já sabia que enquanto ele passaria a semana pensando em que presente dar para a filha de Felipe, Tiago passaria a semana toda pensando em que garota levar para festa e de como passaria uma imagem de bom moço para as outras mulheres que estariam na festa, para que elas pudessem ser as próximas vítimas.

Era certo que Tiago levaria alguém, ele sempre fazia isso, o rapaz tinha uma estranha necessidade de aparecer com garotas em eventos sociais, Bruno não conseguia entender essa necessidade do amigo. Afinal o que tinha de errado em ir sozinho em uma festa, principalmente uma de criança? Enfim, Bruno não gastaria seu tempo divagando sobre os problemas de relacionamento de Tiago, mesmo que isso o ajudasse a afastar os pensamentos sobre Ana da sua cabeça.

Bruno terminou suas compras e saiu da loja distraído com sua pequena sacola de compras conferindo se tudo estava ali certinho. Com os olhos na sacola Bruno não prestou a atenção na pessoa a sua frente e acabou esbarrando nela sem querer.

— Desculpa, eu não te vi. — se desculpou rapidamente.

— Tudo bem. — a voz monótona e sem vida preencheu os ouvidos de Bruno e seus olhos logo encontraram o exício dos dela.

— Ana, que surpresa. — falou sem pensar e sem tirar os olhos dela.

— É.

— Você quer ajuda? — questionou ao ver a grande quantidade de bolsas de mercado que ela carregava.

— Não, obrigada. — respondeu sem ao menos considerar a oferta.

— Eu insisto. — ele normalmente não insistiria, mas algo dentro dele o moveu até as bolsas.

— Realmente não precisa. — ela não foi agressiva, mas também não fazia charme.

— Eu não saio daqui sem te ajudar. — Ana não estava acostumada com insistências, então apenas entregou algumas bolsas a ele.

— Obrigada. — respondeu antes de continuar sua caminhada até em casa agora com Bruno a seguindo.

— Você mora aqui por perto? — perguntou mais por vontade de iniciar uma conversa do que por curiosidade.

— Mais ou menos, a umas seis quadras daqui.

— Seis? Você já andou umas duas quadras do mercado aqui e ainda ia andar mais seis com todo esse peso? Você é maluca? — Bruno em situações normais não seria tão sincero assim, mas ele sabia que Ana não sentiria nada, ou pelo menos, não demonstraria como sempre.

— Não me incomodo de andar. — respondeu indiferente.

— Estou vendo. Você faz isso sempre?

— Sim, mas se você não quiser andar isso tudo pode me devolver as bolsas. — essas palavras na boca de outra pessoa poderiam parecer uma provocação, mas na dela parecia ferir mais ainda o ego de Bruno, pois era apenas uma afirmação lógica sem emoções envolvidas.

— Claro que não. Vou com você até a sua casa. — respondeu firme.

— Como quiser. — falou simplesmente aumentando um pouco mais o ritmo da caminhada.

O caminho foi bem silencioso, Bruno investia hora ou outra em algum diálogo, mas nada emplacou, nenhum assunto provocava o esforço de se comunicar em Ana. Próximo ao fim do percurso Bruno já não aguentava mais, sempre fora sedentário, longas caminhadas não eram com ele, sinceramente nem curtas caminhadas, ainda por cima com o peso extra das sacolas.

Ana parecia tirar a caminhada de letra, o fato dela estar com tênis de caminhada ajudava, mas não era só isso, ela estava acostumada a andar bastante, a moça não gostava de meios de transporte, só usava quando era realmente necessário. Ana não se sentia confortável em nenhum tipo de veículo principalmente carros.

— Já estamos chegando? — Bruno questionou preste a desistir e se dar por vencido.

— Sim, estamos na última quadra.

— Graças a Deus. — soltou um pouco aliviado.

— Ficou cansado? — questionou já tirando as chaves do bolso.

— Para falar a verdade, muito! Não estou acostumado a andar. — assumiu colando as bolsas no chão enquanto Ana abria o portão.

— Eu assumo daqui. Muito obrigada por sua ajuda.

— Se você não se incomoda, eu preciso sentar e beber um pouco de água. — pediu realmente com necessidade.

— Claro, pode entrar. — ofereceu passagem sem expressar qualquer emoção, apenas educação.

Bruno entrou na casa se sentindo fadigado e envergonhado com o seu desempenho, sentou-se no sofá da sala, respirando com calma, enquanto Ana colocava as bolsas na cozinha e ia pegar um copo de água para ele.

Bruno começou a observar a sala de Ana e só então se deu conta de que havia conseguido entrar no refúgio da morta viva, ele então começou a buscar por qualquer coisa estranha, fora do normal para uma casa, talvez um caixão e uma capa do Conde Drácula, mas nada parecia estranho. De repente os olhos do jovem rapaz pousaram sobre uma caixa ao lado da TV, a caixa parecia destoar das outras coisas.

A decoração da sala era muito simples, um sofá, um móvel largo e preto que suportava a TV, alguns poucos DVDs, uma quantidade considerável de CDs, um home theater e a caixa de madeira decorada por flores entalhadas e pintadas a mão, ela parecia ser o único objeto de cunho decorativo, não havia vasos, quadro, porta-retratos, ou outras coisas do tipo, apenas a caixa.

O rapaz que começava a se tornar cada vez mais curioso, sentiu-se induzido a abrir aquela caixa misteriosa, mas se deteve ao escutar os passos de Ana, voltando para a sala.

— Aqui está sua água. — falou entregando o copo para Bruno.

— Obrigado. — respondeu sentindo-se repentinamente nervoso e bebendo a água em um gole só.

— Faz mal beber água tão rápido assim. — Ana não demonstrava estar preocupada, seus olhos ainda eram mortos e sua voz anêmica, mas aquele comentário trouxe um sentimento novo em Bruno em relação a moça.

— Eu sei, é que eu estou com muita sede. — respondeu olhando intensamente para moça e devolvendo o copo

— Quer mais água? — perguntou pegando o copo de volta.

— Se não for incomodar.

Bruno continuava olhar para Ana com intensidade, qualquer outra moça estaria com vergonha, mas ela não demonstrava nada. Mas a falta de emoções da moça não pareciam incomodar mais tanto assim, Bruno começava a prestar mais atenção em outras características de Ana.

Era a primeira vez que ele a via fora do trabalho, ele reparou na forma diferente como ela estava vestida, short até metade das coxas, uma camisa de mangas curtas lisas, estava descalça no momento e seus cabelos longos estavam soltos como sempre, essa não era a descrição da mulher mais glamourosa do mundo, porém ele começava de fato a reparar na beleza de Ana e isso de alguma forma mexia com ele.

— Eu pego mais. — Ana informou após um curto momento de silêncio, onde Bruno a analisava dos pés a cabeça descaradamente com admiração.

— Eu vou com você. — falou rapidamente se levantando e ficando ao lado da bela morta.

— Como quiser. — respondeu simplesmente sendo seguida por Bruno até a cozinha.

A cozinha de Ana era tão simples quanto a sala, apenas itens básicos necessários a uma cozinha e uma prateleira grande com temperos expostos, olhando superficialmente acreditava-se que a moça gostava de cozinhar devido a grande variedade de temperos, os utensílios de cozinha não estavam a mostra, porém Bruno deduziu que eles também fossem diversos e só não estavam aparentes devido a sobriedade da casa de Ana.

— Você gosta de cozinhar? — Bruno questionou esperançoso por uma resposta mais emocional.

— Eu cozinho bem. — não era uma resposta arrogante, ela só não sabia se gostava de cozinhar.

— Sério? Eu não cozinho muito bem, mas dá para sobreviver. — ele queria se convidar para experimentar a comida de Ana, mas ele não estava tão fora de si assim.

— Fique à vontade. — falou entregando um copo e a garrafa de água para que ele pudesse se servir da melhor forma que o conviesse.

— Obrigado. E me fala, o que você mais gosta de cozinhar? — mesmo que fosse frustrante não receber alguma resposta emocional, Bruno não estava disposto a desistir.

— Eu costumo cozinhar bastante lasanha e nhoque.

— Eu amo os dois, tenho um problema sério com massas. — era claro o tom de autoconvite em sua voz.

— É um tipo de comida que eu gosto. — Bruno sorriu discretamente contra o copo enquanto bebia a água.

Que milagre! Ana gostava de alguma coisa, sua voz e expressão não demonstravam isso, mas ela tinha dito que gostava e isso já era uma vitória para Bruno.

— Eu tenho que ir. Obrigado pela água. — Bruno queria tentar mais algum avanço, porém ele não sabia mais o que falar e saber que Ana era capaz de gostar de algo, já havia sido um ganho considerável.

— Obrigada por me ajudar. — respondeu simplesmente andando até a saída da cozinha.

— Foi um prazer te ajudar. — de uma forma esquisita realmente havia sido um prazer.

Bruno seguiu Ana até a saída em silêncio, apenas observando o seu caminhar, que parecia lento e desanimado, mas o movimento do quadril da moça conseguiu cativar o rapaz, que o olhava atentamente sem maldade, Bruno apenas achava o movimento e a forma graciosos.

— Nos vemos na empresa. — Bruno falou sem graça com a vontade que surgiu em seu interior.

— Nos vemos.

Ana abriu o portão para Bruno e antes que ela pudesse fechar, o garoto ajuizado e metódico esqueceu-se dessas suas características e abraçou a colega de trabalho esquisita. Ana não devolveu o contato físico e também não mexeu um músculo para afastá-lo, Bruno segurou firme o corpo dela em seus braços e aproximou o nariz dos cabelos longos e escuros por tempo mais do que necessário. Os cabelos de Ana tinham um cheiro doce sem ser enjoativo, com certeza era cheiro de fruta, mas Bruno não conseguiu identificar qual e isso não importava, porque ele havia gostado e muito.

— Tchau. — o rapaz falou sentindo-se estranhamente tonto e satisfeito.

— Tchau. — Ana falou por fim, com a voz um pouco mais fraca do que o normal e com o seu rosto imparcial.

Bruno caminhou com seus sentidos confusos em direção ao ponto de ônibus, pois mesmo no seu estado atual ele sabia que era loucura voltar para casa a pé com seu condicionamento físico deplorável.

O ônibus não demorou, assim que o jovem sedentário alcançou a parada de ônibus o mesmo chegou. Bruno sentou-se próximo a janela e respirou fundo voltando a raciocinar plenamente. A textura, a temperatura e o cheiro de Ana haviam provocado sensações maravilhosas em Bruno, mas, ao mesmo tempo o havia tirado da realidade.

De volta ao planeta Terra, Bruno percebeu que não estava com a bolsa que guardava suas compras, ele sorriu sem entender ao concluir que algo seu estava nos domínios de Ana. A ideia de descer do ônibus e voltar para buscar suas coisas passou pela cabeça do rapaz, mas se ele esperasse pelo próximo dia de trabalho teria uma boa desculpa para ir até a mesa dela reivindicar seus pertences e apreciar a beleza que havia descoberto nela.

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O resto do sábado pareceu lento e vazio para Bruno, ele havia voltado direto para casa, após sua ida a casa de Ana e começou a arruma a casa, ajeitando coisas que ainda não haviam sido organizadas depois da sua mudança. Ligou o computador, checou os e-mails, as redes sociais, preparou algo para comer e pensou em como seria bom experimentar uma lasanha feita por Ana, mas ele no momento ficaria com a de micro-ondas mesmo.

No meio do jantar reprovável por qualquer nutricionista a frente do computador, reprovável por qualquer mãe tradicional, o celular começou a tocar, Bruno olhou para a tela antes de atender, pelo horário e ao ver quem era já sabia qual seria o assunto.

— Coloca uma camisa limpa e vamos curtir a noite. — Tiago praticamente gritou ao telefone.

— Você sabe que não. — respondeu sem culpa, ele já estava acostumado.

— Cara, para de ser chato! Você vai ficar em casa fazendo o que?

— Boa pergunta! Eu estava vendo algumas notícias na internet mas já cansei, preciso procurar outra coisa para fazer.

— Então, vem para a balada comigo! Eu conheci uma gata incrível... E olha a boa notícia! Ela tem uma prima muito gata, que curte um nerdizinho. — para Tiago isso era mais do que o suficiente para qualquer cara colocar o celular e carteira no bolso e ir ao seu encontro, mas o melhor amigo pensava muito diferente.

— Você sabe que esse tipo de arranjo não me agrada e eu estou cansado.

— Não acredito que você vai preferir ficar... sei lá, assistindo séries do que sair com seu amigo e faturar uma gata.

— Primeiro, assistir séries é uma ótima ideia, obrigado. E faturar uma gata? Sua mãe não te deu educação?

— Para de ser chato e vem logo.

— Não, eu vou ficar assistindo séries e descansando minhas pernas porque eu andei muito hoje.

— Andou? Resolveu fazer exercícios físicos?

— Não, acompanhei Ana até a casa dela e a doida gosta de andar.

— Ana? A garota da contabilidade?

— Sim.

— Já entendi! Vou para minha festa. — falou por fim.

— Como assim entendeu? Tiago? Tiago! — Bruno tentou continuar a conversa mas o amigo já havia desligado.