Bela Morta

29 Capítulo 28


Bruno era o retrato perfeito de um jovem apaixonado, durante o caminho para o trabalho, ele conseguia escutar os passarinhos que cantavam a quilômetros, conseguia sentir o cheiro das flores que nem existiam ali e ansiava pela presença de Ana, presença essa que se tornava mais possível a cada passo.

Ana e Bruno já eram oficialmente um casal, ela ainda não demonstrava seus sentimentos com clareza e parecia distante por muitas vezes, porém ele não ligava, eram oficialmente namorados e isso era tudo que Bruno precisava para continuar a existir, mesmo que sua mãe não estivesse gostando nada disso. Dona Omara ainda não havia sido apresentada oficialmente a sua nova nora, mas tinha visto como seu querido filho se transformou em um novo ser completamente dependente do afeto de Ana.

Dona Omara estava muito assustada e preocupada, nunca tinha visto Bruno agir de forma impulsiva, sorri feito um completo idiota e respirar como se fizesse isso em função de alguém. Qualquer mãe super protetora já fica com os dois pés atrás quando o filho começa a namorar, mas o que ela estava vendo era pior que isso.

Tiago riu baixo ao chegar em sua sala e presenciar Bruno cantando uma música romântica qualquer, era o momento perfeito para zombar do melhor amigo e ele não perdeu tempo.

— Nossa! O The Voice está perdendo um grande talento.

— Bom dia para você também, Tiago! — o bom humor de Bruno chegava a ser irritante.

— Meu Deus! Você está insuportavelmente feliz.

— Para de ser chato. Deixa eu aproveitar esses dias incríveis que estou tendo. Eu te contei que eu e Ana fomos no cinema na terça? Fomos ver um filme de comédia e ela riu... Você tem noção? Ela riu! Foi a coisa mais linda do mundo. — mais dois segundos e Bruno vomitaria um arco-íris.

— Caramba! Alguém traz a insulina, porque eu estou tendo uma crise de diabetes. Você está ridículo, Bruno.

— Não, eu estou apenas feliz. Ela é incrível, sempre foi, mas agora com emoções... ela parece um sonho.

— Tá, tá. Um sonho, entendi. Mas agora vamos trabalhar antes que eu desperte você desse sonho a base da porrada.

Bruno apenas girou os olhos em resposta e voltou a atenção ao computador com um sorriso fixo na cara, ele estava vivendo um sonho e não fazia a mínima questão de acordar.

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Finalmente havia chegado a hora mais esperada do dia para Bruno. A hora do almoço! Para muitas pessoas a principal alegria nessa hora do dia é se alimentar, se afastar temporariamente das funções do trabalho, mas para Bruno havia um motivo muito mais especial. Já não era surpresa alguma constatar que a maior alegria de Bruno naquele horário era rever Ana.

Bruno estava de costas para a entrada do restaurante, aguardando ansiosamente por sua amada. Já se passava mais de uma semana que estavam juntos, mas para Bruno cada momento com Ana era como o primeiro, e ela não se sentia muito diferente, apesar da volta de suas emoções ainda sofrerem um processo contínuo de recuperação, ela se sentia realmente apaixonada, conectada e até mesmo dependente.

Ana virou o corredor que dava acesso ao restaurante e no mesmo momento o coração de Bruno bateu em um ritmo acelerado. Era extremamente patético. O amor, a conexão, a paixão, a dependência, o ar faltando, tudo era extremamente patético e lindo. Mesmo os mais mal-humorados e ranzinzas iriam se entregar aquele momento de pura beleza subjetiva.

Assim que Ana estava a um passo de Bruno, um pequeno sorriso se formou em seus lábios e as mãos do rapaz a alcançou tomando seu corpo para si em um abraço pleno. As mãos de Ana espalmadas na base das costas de Bruno o prendendo apertado contra si, já havia se tornado um costume e aquilo a fazia se sentir viva como nunca. Eles não precisavam de palavra a alguma, aquele gesto que parecia simples para alguns, contemplava bem toda a plenitude daquela recente relação.

— Eu já estava com saudades. — Bruno sussurrou contra a bochecha de Ana antes de beijá-la.

— Eu também. — respondeu o apertando mais ainda contra si.

— Hoje é minha vez de pagar o almoço. — comentou desfazendo o abraço e tomando a mão da namorada.

— Você sabe que isso não faz muito sentido. Reversar quem vai pagar é o mesmo que pagarmos nossos pratos individualmente.

— Com o tempo você vai entender toda a dinâmica do namoro, ok?

— Ok. — respondeu ainda sem entender, mas se a dinâmica o fizesse feliz ela faria e isso começava assustá-la um pouco.

Para Bruno nada podia estar mais perfeito, ele estava vivendo um sonho, isso era evidente, mas mesmo que Ana estivesse vivendo o mesmo, as coisas não eram completamente iguais. A ex Bela Morta se sentia completa, mesmo com a dor da perda de volta a superfície, porém um medo quase silencioso vinha rondando seus pensamentos. E se ela perdesse Bruno?

Ana estava decidida a viver com emoções, queria demonstrar a Bruno o mesmo amor que ele demonstrava a ela, mas ela sabia que havia se tornado dependente dele isso não a agradava. Ela por várias vezes havia conseguido impor sua vontade nos últimos dias, mas mesmo nas vezes mais simples isso parecia difícil, porque ela só queria fazer tudo o que o fizesse feliz. Ana se importava mais com Bruno do que com si própria, afinal, ela conhecia mais os sentimentos dele do que os dela, e isso até poderia dar certo, já que Bruno se importava mais com Ana do que consigo, porém ela sabia que aquilo não estava certo.

— No que está pensando? — Bruno questionou com um sorriso gigante ocupando o lugar de frente para Ana, que parecia distraída ao remexer a comida.

— Nada.

— Tem certeza?

— Absoluta.

— Ok. Ah! Já ia me esquecendo! Amanhã você tem uma importante missão.

— Missão? — seus olhos estavam fixos em Bruno, esperando pela explicação.

— Amanhã é feriado e eu gostaria que você almoçasse comigo na casa dos meus pais, para que eu possa te apresentar oficialmente como minha namorada. — seu sorriso ainda era amplo, mas parecia apreensivo pela resposta.

— Almoço com seus pais? — a emoção medo e susto já eram íntimas de Ana e ela já as reconhecia e manifestava bem.

— Fica tranquila, será algo simples. Se você não quiser ir, tudo bem, mas seria muito importante para mim. — o sorriso solar diminuiu, mas o efeito sobre Ana não.

— Eu estarei na casa dos seus pais amanhã. Você passa na minha casa para me buscar?

— Claro. — o sorriso se ampliou novamente e sem pensar duas vezes se inclinou sobre a mesa beijando Ana nos lábios por um breve momento.

— Eu gosto te ver feliz. — liberou um sorriso tímido.

— Você me faz feliz.

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Era sexta-feira, dia de feriado municipal, dia de Ana conhecer os sogros. O fato de conhecer a família de seu namorado assusta muitas pessoas, isso não estava sendo diferente com Ana, porém existia algo a mais que a perturbava.

Diante do espelho simples do banheiro, Ana terminava de escovar os cabelos sentindo seu coração acelerar. Toda a sua vida havia mudado drasticamente duas vezes em menos de dez anos. Seu mundo havia ruído diante dos seus olhos quando era apenas uma adolescente inexperiente, sete anos depois seu universo voltou a existir de uma forma linda e inesperada, intensa e mágica, um amor daqueles de filme de sessão da tarde, daqueles que a maioria das pessoas sonham e esperam, o único problema era que todo esse novo universo maravilhoso baseava-se em uma única pessoa, que Ana sabia que se perdesse não sobreviveria, talvez nem parcialmente como da última vez.

Ana tinha um grande problema e ela precisava resolvê-lo. Um raio podia cair duas vezes no mesmo lugar? Talvez! Ela não arriscaria. A dependência que nutria cada dia mais era assustadora, ficar longe de Bruno mesmo que por poucas horas parecia doer tão forte que chegava a ser físico. Aquilo não era normal!

Bruno havia lutado, se machucado e se negado para que Ana pudesse viver livre e com emoções, ela tinha noção disso, uma noção tão clara e ampla que nem o próprio Bruno conseguia enxergar. Ela não podia desperdiçar os esforços de Bruno, nem mesmo com ele. E seu príncipe desencantado parecia tão dependente também, aquilo começava pesar sobre os ombros de Ana e ela precisava ter certeza que ele poderia viver sem ela se algo de ruim acontecesse.

Tomar decisões emocionais sempre eram difíceis, até mesmo para quem estava acostumado com isso, para Ana parecia impossível. Em um movimento rápido Ana jogou a escova na cama em sinal de irritação, depois de atos como esses ela costumava ri levemente, se divertindo com a volta do sentimento de raiva, mas não hoje. Ana estava experimentando um novo sentimento de raiva, tristeza e preocupação, a conhecida e nada agradável frustração.

O toque agudo do celular soou pelo quarto, rapidamente Ana o pegou confirmando o que suspeitava, era Bruno avisando que a esperava no portão. Mudando completamente te humor, Ana puxou a bolsa de cima da cômoda, colocou o celular na bolsa e correu para fora de casa. Era excitante e agradável demais saber que em poucos segundos estaria com Bruno e isso fez com que todo o debate interno de segundos atrás se dissolvesse como se nunca houvesse pensado nisso.

— Bruno! — a alegria era clara como a luz do sol em sua voz.

— Razão da minha existência! — Ana sorriu mesmo que aquilo fosse incrivelmente brega, mas o mais brega era que ela tinha amado.

— Por que eu me sinto assim? — ela não precisava explicar aquela interrogação, ele entendia completamente, ele a lia como um livro aberto.

Sem mais nenhuma palavra, Bruno tomou a mão de Ana a fazendo passar pelo portão e o fechando atrás de si. Eles estavam de frente um para o outro, em silêncio absoluto, de forma lenta, Bruno usou a mão livre para acariciar cada centímetro do rosto de Ana, com os dedos ele contornava o nariz e as maçãs do rosto em uma ação de admiração cabal, em pouco tempo os dedos chegaram a lateral do pescoço e sem obstáculos ele foi atraído como um pequeno pedaço de metal por um ímã gigante.

Ana sentiu sua pele formigar quando os lábios de Bruno tomaram os seus, o sangue se tornou mais quente em suas veias quando ele prendeu os dedos nos dela e com a outra mão tocou sua cintura a pressionando contra o muro áspero que não parecia fazer efeito nenhum em sua pele, já que ela só respondia ao toque de Bruno. Sentindo se alheia a existência de qualquer outra coisa, Ana puxou Bruno pela gola da camisa xadrez, sentido todo o calor da boca dele em sua língua. Respirar parecia algo tão banal e todos os seus questionamentos de minutos atrás eram tão ridículos agora.

— O que eu tinha perguntado mesmo? — ela realmente parecia confusa sobre o que havia falado.

— Perguntado? Acho que você só falou que me amava. — sorriu torto pronto para beijá-la novamente, mas ela o impediu com o indicador em seus lábios.

— Eu preciso chegar respirando na casa dos seus pais.

— Tudo bem. Eu faço você parar de respirar depois do almoço. — ele não segurou a risada infantil quando ela corou.