Beijos de Fogo
1 Sortudos
Quando terminaram, Ygritte deslizou para o seu lado suavemente. Seus cabelos – tão selvagens quanto a mesma – fizeram cócegas no queixo de Jon quando pousou a cabeça em seu peito. Não demorou para que ela caísse no sono, ressonando baixo e remexendo-se contra o seu corpo.
Jon ergueu uma mão, ainda trêmula e sem força do ato, para afagar a cabeleira ruiva. Sortuda, beijada pelo fogo. E de repente já não era o cabelo desordenado de Ygritte que tinha entre os dedos, mas o de Robb.
Robb com seus caracóis de fogo e olhos do azul mais bonito que já vira. Tinha lábios que eram como chamas contra sua pele, brincando de morder a cartilagem de sua orelha como os lobos faziam, marcando seu pescoço, incitando-o a abrir a boca e lhe dar espaço. Em momentos assim, seus olhos brilhavam amáveis e desejosos.
Ygritte insistia em dizer que Jon a tinha raptado quando lhe poupou a vida. Ele gostaria de saber o que ela diria se soubesse como Robb era capaz de raptar todos os seus sentidos com apenas um olhar.
Por baixo dos calções, sentiu uma fisgada. Pensar em Robb tinha seus efeitos colaterais. Sua mão livre dos cabelos de Ygritte quis resolver o problema, porém, não podia se dar ao luxo de acordar a selvagem e ser pego naquela situação. O jeito foi contentar-se em conjurar o rosto do irmão nas estrelas que ardiam gélidas no céu noturno.
Lembrava-se de uma noite fria como aquela em que os dois saíram para o bosque sagrado em surdina, levando mantas sobre os ombros. Nevava apenas levemente, mas Robb conseguira enfiar os pés em pequenos montes brancos uma dúzia de vezes até chegarem às raízes retorcidas do represeiro. Jon tinha lhe bagunçado os cabelos ruivos para tirar os flocos, enquanto o irmão buscava seus lábios divertidamente.
Robb gostava quando faziam à vista dos deuses antigos e também na cripta dos reis do Inverno. Dizia que era como admitir o amor que ia além do nível fraternal perante a família, mas não poder ser reprimido por isso. Depois sorria malicioso e esquecia-se de como proferir palavras com algum sentido.
Jon mordeu o lábio no breu do acampamento selvagem. Você ainda se lembra dessas coisas, irmão? Ou será que um Rei no Norte não tem tempo para isso? Mais provável que tenha se esquecido de seu irmão bastardo, perdido para a Patrulha da Noite e agora para lá da Muralha. Uma parte dele queria acreditar que sim, Robb pensava nas lembranças que tinham juntos e em seu corpo junto ao dele sob as mantas de dormir. Mas reis não se deitam com bastardos, e, agora, tudo isso parece ter acontecido há muito tempo.
Suspirou. Robb Stark, filho legítimo de Lorde Eddard Stark, Senhor de Winterfell e Rei no Norte definitivamente não teria tempo para sonhos molhados com um irmão bastardo que vestira o negro. Você não sabe nada mesmo, Jon Snow. Robb deveria desposar uma senhora para ser sua rainha, ter herdeiros para levar o lobo gigante dos Stark e travar batalhas para manter seu reino a salvo. Enquanto Jon, que proferira seus votos perante os deuses do pai, continuaria sua vigília até o fim de seus dias.
No silêncio da noite, ele fez uma prece silenciosa aos deuses antigos para que dessem força ao poderio do Norte. Uma vez mais, desejou estar ao lado do irmão, empunhando uma espada com um garanhão entre as pernas e com Fantasma e Vento Cinzento a frente deles. Se prendesse essa visão por tempo o suficiente, o mundo parecia um lugar melhor por alguns segundos.
Os deuses serão bons, Robb ficará bem. Ele é beijado pelo fogo, sortudo como Ygritte. Mas o sortudo era ele, por ter tido os beijos quentes dos dois.
E foi comparando Robb Stark com a selvagem que o ajudara a quebrar os votos, que Jon Snow escorregou para um sono repleto de folhas vermelhas como sangue rodopiando ao seu redor e mãos firmes afastando suas pernas.
Pela manhã, com o céu ainda cor-de-rosa, Ygritte o encontraria duro sob os calções com um sorriso nos lábios – não mais bonito do que o Robb lhe ofereceria.
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