Beijo de uma rosa
4 Conto 03 - Perfeitos Estranhos
Conto 03 – Perfeitos Estranhos
Você estava me olhando como se você quisesse ficar
Quando eu te vi ontem
Mesmo com anos decorridos pós-Guerra, Draco ainda vivia enclausurado na mansão, mais precisamente no escritório, pensando de que modo iria lidar com as finanças naquele mês.
Seu dia tinha se resumido a ficar trancafiado com papéis até que não percebeu que Narcisa havia entrado e estava olhando-o.
— Draco...
O homem bufou, cansado de ver contas e mais contas, além, é claro, de ver pelos jornais como a vida dos outros prosseguia.
— Meu filho, você só fica neste escritório todos os dias da sua juventude. – Narcisa falou calmamente, pois tinha visto a expressão aborrecida de Draco.
— Mãe, e realmente tem algo diferente disto para fazer?
— Eu sinto muito que você esteja pagando por todas as decisões erradas que eu e seu pai fizemos, meu filho, mas eu percebi, Draco, naquele guerra que somos mais que pessoas fúteis. – Narcisa se aproximou do filho para olhá-lo nos olhos. – Quando percebi o caos que havia sido criado e optei por mentir pelo Potter ao Voldemort, meu filho, eu quis naquele momento que você tivesse muito mais que somente a herança de pais ex-comensais.
Draco odiava comentar sobre aquilo, reviver todos os momentos daqueles fatídicos dias e admitir que estivera errado... Sobre tudo. E não era um momento bom para a mãe começar com aquele papo que a transformava.
— E o que você quer de mim?
— Eu desejo mais para você, Draco. Saia deste escritório uma vez na vida e vá viver algo que valha a pena.
— Algo que valha a pena? – Draco levantou-se da cadeira. – O que realmente vale a pena agora, mãe?
Ele sabia que tinha explodido com a mãe, mas havia chegado o momento. Viu a expressão de Narcisa se contorcer um pouco.
— Desculpe-me se o interrompi, só vim sugerir que saísse um pouco de casa e... Todos estão seguindo com a vida, Draco, encontrando alguém, trabalhando em algo... Eu sei que você já faz muito por mim e Lucius, mas pense no seu futuro também.
Ao terminar, Narcisa deixou para trás a sala e um Draco confuso e com raiva.
O futuro era algo bem sombrio quando pensava nele. O que o aguardaria ao final daquele túnel escuro?
*~*
Draco não acreditava onde estava de verdade.
Após a discussão com a mãe, ficara mais tempo sozinho do que o normal e nem descera para jantar. Somente quando foi para o quarto que algum empregado o avisara que os pais tinham saído para visitar alguém. Draco balançou a cabeça e achou melhor que eles estivessem saído, afinal seu humor estava horrível.
O discurso da mãe havia surtido efeito em partes... Draco resolvera sair para caminhar somente para que pudesse respirar o ar frio da noite e estar sozinho, não para “encontrar a pessoa certa”.
Como ainda era olhado de soslaio quando saia nas ruas bruxas, estava cada vez mais habituado a andar pelo centro trouxa de Londres. Ali, ninguém sabia sua história, sua linhagem e seus erros. Ele era apenas mais um que podia criar uma nova história.
Como saía por Londres há algum tempo, já sabia de alguns costumes trouxas. Assim, como era uma sexta-feira, algumas ruas de casas de festas e boates estavam agitadíssimas e, sem pensar, se viu andando no mesmo fluxo que aquelas pessoas animadas e arrumadas iam para dançar.
Não sabia o porquê de ter entrado em uma boate londrina, talvez fosse por ver a movimentação e quisesse saber mais ou até mesmo porque saberia que existiria bebida e algumas mulheres para observar.
Talvez uma bela mulher mudasse seu humor naquela noite.
As músicas eram agitadas e as pessoas pulavam e se exibiam na pista de dança, na verdade parecia um concurso de quem era o melhor. Para Draco bastava olhar.
Quando pegou sua bebida, o homem respirou fundo e esvaziou a mente, concentrando-se somente naquele momento que de certa forma o relaxava.
Draco percebeu que estava sendo observado e ao seu lado havia uma ruiva. Ela sorria sensualmente e nem ele poderia negar que era realmente tentadora.
Mas Draco sabia que não poderia se relacionar com alguma trouxa porque ela nunca entenderia sua vida, somente daria para estarem juntos por uma noite e nada mais. Se ela aceitasse, os dois poderiam aproveitar.
A mulher se aproximou até quase não sobrar um espaço entre eles.
Enquanto observava a mulher, Draco imaginava o que ela via nele naquele momento. Seu humor estava péssimo, barba por fazer, cabelo desgrenhado.
— Olá.
Draco anuiu com a cabeça.
— Então... Me chamo Katharine. – os dentes alvos apareceram novamente e Draco tentou um sorriso de lado.
— Belo nome.
— E o seu? – ela insistiu e no mesmo momento foi empurrada pelo ombro por alguma mulher de vestido verde que passara rapidamente. – Poxa vida, todos estão cegos aqui?
Ela molhara com sua bebida um pouco da sua blusa e Draco não pôde achar ruim porque tornou visível certos detalhes.
— Por que você não senta, então? – ele proferiu, fugindo da pergunta de nomes porque não levaria a nada.
— Obrigada.
Ela sentou-se e tentou puxar assunto com Draco, e ele respondia porque até que ela era agradável.
Então que seus olhos se fixaram em uma cena que ocorria no corredor escondido da boate. Os olhos de Draco se cerraram para entender o que estava havendo.
Um homem estava segurando o braço de uma mulher e a imprensava na parede, mas ela aparentava gritar com ele e querer sair de perto. Enquanto Katharine falava com Draco, ele só conseguia olhar a cena e vero quão humilhante seria obrigar uma mulher a ficar com você.
— Vim procurar um descanso para noite aqui, e você? – a voz de Katharine soou, mas Draco olhava fixamente para o casal no corredor. E reconheceu a moça.
De vestido verde curto com alças, os cabelos longos estavam presos em uma trança bem feita desde o alto da cabeça. O rosto fino de Astoria, como Draco lembrava, estava contorcido de raiva e ele imaginava a voz dela proferindo palavras grosseiras ao cara.
Por algum motivo, imaginou que os olhos verdes estivessem brilhando de ódio também.
— Você não parece ser o tipo que conversa muito e eu...
— Não sou mesmo. – Draco cortou a fala de Katharine. Levantou-se e pagou a bebida. – Olha, você é bem legal, mas eu estou saindo.
Katharine olhou, perplexa, o loiro se afastar até desaparecer naquela boate escura, na qual a música tomava conta do ambiente.
Não que Draco fosse o tipo de cara que bancava o herói, e nem tinha porte para tal (embora ele estivesse até mais forte já que praticava exercício na mansão pelas manhãs, pois não tinha mais nada a fazer mesmo), mas ele conhecia Astoria, e ela claramente precisava de ajuda. Não deve ser nada legal alguém querer te engolir contra sua vontade.
Quando se aproximou dos dois no corredor, Draco não sabia bem nem o que dizer.
— Greengrass? – para sua surpresa, sua voz soou até mais firme do que achava. – Está com algum problema?
O rosto de Astoria virou-se para observá-lo e Draco jurou ter visto um alívio nela. O homem que a segurava afrouxou momentaneamente o braço dela e também olhou para Draco.
— Malfoy! Nossa! – Astoria exclamou, aproveitando-se para esquivar-se da parede rapidamente e passar para o lado de Draco. – Acho que estava com um pequeno problema, mas passou.
O homem viu Draco passar o braço na frente de Astoria e empurrá-la para trás dele.
— Existia algum problema, cara?
— Não. – o homem respondeu depois de alguns segundos encarando os olhos cinza-gelo de Draco. – Esta belezinha só perdeu uma grande brincadeira.
— Olha lá como fala de mim, seu brutamontes! – Astoria cuspiu as palavras ao mesmo tempo em que Draco deu um passo para frente.
— Tenho certeza de que ela não queria nenhuma brincadeira.
Respirar acelerado e sentindo-se ficar quente próximo a uma briga era uma sensação que rejuvenescia Draco. Ele era bem mais preparado para qualquer soco ou empurrão que pudesse levar de alguém.
— Tá bom, cara. – o homem bufou e, ao passar por Astoria para ir embora, disse: — Toma cuidado, boneca.
— Ela vai tomar a partir de agora. – Draco respondeu no lugar de Astoria.
Enquanto observavam o homem partir, eles ficaram em silêncio.
— Uau! Ainda bem que me livrei desse cara. Idiota – Astoria virou-se. – Obrigada, Draco.
— Você se livrou, não é? Eu te livrei, Greengrass. Você deveria tomar mais cuidado. Conhecia esse cara?
— Não! Quer dizer, só bebi um copo com ele e ele entendeu tudo errado. Já falei obrigada pra você! O que quer mais ouvir?
— Que você vai tomar cuidado, quem sabe? – Draco exclamou alto por cima da música. – Pode não existir alguém para te ajudar futuramente e tenho certeza de que você não ia gostar das consequências disso.
— Urg, também acho que não. Mas enfim... Pare de brigar comigo como se fosse meu pai, eu já sei o que ia acontecer e vou ser mais cuidadosa!
Draco passou a mão pelos cabelos e suspirou.
— Mas o que traz Draco Malfoy a uma boate trouxa, meu Merlin? Em plena sexta-feira! – Astoria riu. – Estou surpresa!
— Nada de especial, mulher. – Draco sentia uma dor de cabeça vir à tona. – Já estava de saída.
— Ei, Draco! – Astoria puxou o braço dele que já estava indo embora. – Já que nos encontramos, por que você não fica mais um pouco? Eu sou uma ótima companhia!
— Imagino que seja. – Draco murmurou e, por conta do barulho da festa, Astoria teve que aproximar seus lábios vermelhos no ouvido de Draco.
— Fica, pelo menos posso agradecer de alguma forma por ter me livrado de uma péssima experiência.
Draco a observou, os olhos verdes brilhando como sempre, combinando dessa vez com o vestido e um sorriso plantado no rosto esperando sua resposta.
— Só porque você vai pagar a próxima bebida, ok?
Ela gargalhou.
— Vem, vai que mais alguém tenta me agarrar e estou sem meu herói.
Draco revirou os olhos diante do comentário iludido da mulher.
Eles eram completos estranhos e, mesmo assim, Draco Malfoy se sentia no seu devido lugar ao observar a mulher que Astoria Greengrass era.
De toda forma, ele tinha saído para espairecer naquela noite, e conseguira matar seu tempo da melhor forma possível.
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