Beijo de Halloween

1 Capítulo Único


O ginásio da escola estava irreconhecível.

Luzes laranjas e roxas piscavam no teto, teias falsas pendiam das colunas, e o cheiro de pipoca com caramelo se misturava ao de spray de cabelo barato e perfumes adolescentes. Era o baile de Halloween do Colégio Konoha, e ninguém queria perder.

— Eu devia ter vindo de enfermeira sexy — Ino reclamou, ajeitando a saia curta de sua fantasia de fada. — Mas não, você me convenceu a vir de fada das flores. Ninguém leva fada das flores a sério!

Sakura bufou, puxando o zíper do vestido de sua fantasia de bruxa rosa.

— Ino, sua fantasia tem mais glitter do que o céu noturno. Acho que ninguém aqui vai ignorar você.

— E a sua tem mais decote do que uma heroína de anime! — ela retrucou em seguida.

As duas riram, empurrando-se amigavelmente enquanto caminhavam em direção à entrada.

Sakura só queria se divertir. Depois de semanas estudando para as provas, precisava de uma pausa — e, sinceramente, um pouco de diversão inocente não faria mal.

Pelo menos até avistar ele.

Encostado na parede, vestindo uma fantasia simples de vampiro, com uma capa preta e olhos tão frios quanto as noites de outubro, estava Sasuke Uchiha.

Claro. Ele tinha que estar ali.

E ainda mais bonito do que o normal.

— Oh, não — Sakura murmurou, tentando desviar. — Por que o Sasuke está aqui? Achei que ele odiasse festas.

Ino deu uma risadinha.

— Porque alguém o convenceu. Naruto jurou que ia arrastar ele pra cá nem que fosse amarrado.

Como se tivesse ouvido o nome, Naruto, vestido de lobisomem, surgiu entre as pessoas, abanando a cauda postiça.

— Sakuraaa! Inoooo! Vocês vieram! — gritou ele, puxando as duas para um abraço sufocante. — Cara, o Sasuke quase fugiu, mas eu o tranquei no carro até ele colocar a capa. — Isso fez com que as duas rissem, e não demorou para que Sasuke surgisse no campo de visão dos três, com seu semblante de mal humor de costume.

Sakura não podia negar, que a presença do Uchiha sempre lhe causava efeitos. Seu coração sempre parecia bater mais forte quando o via por perto. E naquele dia não seria diferente. A cada passo que ele dava, ela perdia o ar.

Afinal, ela sabia que era impossível não sentir tudo aquilo se tratando do cara mais popular do colégio. Eram raras as vezes em que ambos trocavam palavras, mas mesmo assim, não mudava o fato de que ele a fizesse ter sentimentos pelo mesmo. Mas evitava parecer igual as fãs malucas que corriam atrás do Uchiha como stalkers.

Sasuke revirou os olhos, aproximando-se com um copo de ponche.

— Você é insuportável, Naruto.

— E você é um vampiro sem graça — Naruto rebateu, com um sorriso canino. — Cadê o charme?

Sakura tentou não rir, mas falhou. Sasuke lançou um olhar rápido em sua direção — e ela corou.

Por que ele tinha que olhar assim?

Aquele tipo de olhar que parecia atravessar tudo.

E, droga, por que um simples traje de vampiro o deixava ainda mais bonito?

— Bela fantasia — ele disse, a voz baixa e casual.

— Obrigada — respondeu ela, ajeitando o chapéu pontudo —, você também. Combina com seu temperamento sombrio. — Certo, ela não havia pensado em uma resposta direito, mas de fato aquela fantasia combinava com o jeito reservado costumeiro.

Naruto soltou um: “Uhhhhh, briguinhaaa”, antes de ser arrastado por Hinata para a pista de dança.

Sakura achou melhor se afastar, antes que começasse a gaguejar.

Mas a música mudou — e, como se o universo tivesse conspirado, o DJ anunciou:

— Caros, alunos. Neste ano iremos fazer uma premiação. — Todos ficaram agitados e assoviaram em comemoração, fazendo o DJ sorrir pela animação dos alunos. Em seguida, ele completou: —

Casal com as melhores fantasias vence o concurso de Halloween! — E ficaram ainda mais animados.

E adivinha quem o Naruto empurrou pro palco?

— Vai lá, Sasuke! Mostra sua capa brilhante! — ele riu. — E leva a Sakura! Vocês combinam, bruxa e vampiro!

Sasuke naquele momento faltou xingar o amigo, mas nada disse. Apenas continuou ignorando-o enquanto bebericava seu ponche, com sua postura séria de sempre. Mas não deixou de reparar na reação da garota, que simplesmente arregalou os olhos em choque.

O que esse idiota está pensando em fazer? Ele por acaso bebeu? Pensou consigo. E o pior, dançar não era muito do seu feitio. Dançar com Sasuke naquela noite também não estava em seus planos.

Não mesmo.

— O quê?! — Sakura exclamou. — Eu não-

Porém antes que ela pudesse terminar de falar alguma coisa, Naruto já os tinha empurrado para o centro da pista, enquanto a multidão gritava e aplaudia.

Sasuke cruzou os braços, olhando para ela.

— Relaxa. A gente só finge por um minuto.

Sakura respirou fundo, nervosa.

— Ok. Mas se você pisar no meu pé, eu te transformo em sapo — ela disse.

Ele então arqueou o canto de seus lábios, em um sorriso ladino.

— Não é assim que feitiços funcionam, bruxa — ele retrucou.

Sakura então riu.

Ele estava a desafiando, só podia ser isso.

— Quer testar? — rebateu, enquanto olhava bem nos fundos dos olhos ônix dele.

Ele arqueou uma sobrancelha, quase sorrindo por completo — o que já era raro o suficiente para deixá-la meio sem ar.

A música começou — algo entre rock e eletrônica — e, por impulso (ou pura loucura), Sakura segurou a capa dele e girou, fingindo puxá-lo para um “ritual sombrio”.

O público vibrou.

Sasuke, no reflexo, segurou sua cintura, girando-a de volta.

De repente, eles estavam dançando.

Mal.

Mas de um jeito ridiculamente divertido.

E foi no meio daquela dança maluca que tudo mudou.

Sakura tropeçou, e num instante Sasuke a segurou firme, impedindo que ela caísse.

O olhar deles se encontrou — e por um segundo, o barulho do ginásio sumiu.

Ela podia sentir o perfume dele, quente e amadeirado, contrastando com o frio da noite entrando pelas portas abertas.

— Sasuke…? — murmurou, meio sem fôlego.

— Você dança pior do que imaginei — ele disse, sério. Mas havia um pequeno sorriso em seus lábios, quase mostrando seus dentes brancos.

— Idiota. — Ela empurrou o peito dele, rindo. — Eu quase caí por sua culpa!

A plateia aplaudiu — achando que a briga fazia parte da encenação.

Naruto gritou algo do tipo: “Casal do ano!”

Ino gritava: “Vai, Sakura! Beija ele!”

Naquele momento Sakura sentiu vontade de enfiar-se em um buraco, suas bochechas ficaram rubras e olhou Sasuke sem graça, que a fitava intensamente. Ela podia jurar que ele estava gostando da situação.

E o DJ, para piorar, tocou “Monster Mash”, o clássico das festas.

Sasuke só balançou a cabeça.

— Isso é ridículo.

— Ridiculamente divertido — ela retrucou. — Vai, vampiro, me acompanha.

Ele suspirou.

— Você é impossível.

Mas não a soltou.

Mais tarde, depois de perderem o concurso (para Choji, que veio de zumbi cozinheiro), Sakura foi até o jardim dos fundos pegar um pouco de ar.

O som da música distante, o luar prateando as árvores, e o eco das risadas criavam uma atmosfera mágica.

Ela se sentou no banco, tirando o chapéu e suspirando.

— Foi um desastre — murmurou, rindo de si mesma.

— Nem tanto. — A voz familiar veio de trás. Sasuke se aproximava, com as mãos nos bolsos. — Você fez o ginásio inteiro rir.

— De mim ou de você? — perguntou ela, arqueando a sobrancelha.

— Ambos.

Sakura riu.

— Bom, pelo menos eu não deixei você entediado.

Ele parou ao lado do banco, olhando o céu.

Por um momento, ficaram em silêncio — e não foi desconfortável.

O vento balançava as folhas, e uma abóbora iluminada lançava sombras divertidas no rosto de Sasuke.

Ele parecia mais relaxado, menos distante.

— Você devia rir mais — ela disse, sem pensar.

— E você devia falar menos — respondeu ele, de leve.

— Ei! — Sakura bateu no braço dele. — Não estrague o momento.

Ele virou o rosto em sua direção, e… sorriu.

Um sorriso verdadeiro, tímido, mas que fez o coração dela bater mais rápido.

— Você é diferente quando não tá me irritando — ela confessou.

— E você é irritante mesmo quando tenta ser simpática.

— Então estamos quites.

Os dois riram.

Um grito alto veio de dentro da festa — provavelmente Naruto tentando dançar moonwalk com o rabo do traje preso.

Eles riram ainda mais.

— Quer saber? — Sasuke disse, depois de um tempo. — Foi menos pior do que eu esperava.

— Isso é o máximo de elogio que vou ter hoje?

— Provavelmente.

Ela balançou a cabeça, sorrindo.

E então, quando ambos olharam para o céu, uma rajada de vento soprou — o chapéu de bruxa de Sakura voou direto no rosto dele.

— Ah, droga! — Ela se levantou para pegar, mas acabou tropeçando na barra do vestido.

Sasuke tentou a segurar, mas os dois caíram juntos.

Direto um sobre o outro.

Nariz com nariz.

Boca com boca.

O choque foi rápido, suave, inesperado.

Mas real.

Os olhos dela se arregalaram, o coração disparou.

Sasuke congelou — e, antes que ela pudesse falar algo, ele se afastou devagar, o rosto ruborizado.

— Isso… foi um acidente — disse ele, com a voz rouca.

— Claro — ela respondeu, tentando parecer tranquila, mas o rubor em suas bochechas a denunciava.

Um silêncio constrangedor pairou.

Então ele acrescentou:

— Mas… um acidente interessante.

Sakura piscou.

— Você acabou de fazer uma piada?

Sasuke de ombros.

— Talvez.

Ela sorriu, inclinando a cabeça.

— Então, vampiro quer repetir o feitiço?

Sasuke arqueou a sobrancelha, aproximando-se um pouco.

— Você é impossível, sabia?

— Mas irresistível — respondeu, atrevida.

E antes que ele pudesse retrucar, ela o puxou pela capa e o beijou de novo — dessa vez, de propósito.

O coro de “Ooooooh!” vindo da janela da festa revelou que o público (composto por Naruto, Ino e Hinata) tinha visto tudo.

Mas, sinceramente, naquele momento, Sakura não se importava.

Porque o beijo era doce, quente e assustadoramente perfeito.

No dia seguinte, as fofocas já corriam pela escola:

“A bruxa e o vampiro se beijaram!”

“Eles ganharam o prêmio moral da festa!”

Sakura tentou disfarçar o sorriso o dia inteiro.

Sasuke fingiu não ligar.

Mas no fim das aulas, quando ela saiu para o estacionamento, ele estava lá, encostado no carro — novamente com aquele sorriso discreto.

— Oi — ela disse, tentando parecer casual.

— Oi, bruxa.

— Oi, vampiro.

Ele estendeu um pacote pequeno.

— Doces.

— E se eu disser travessuras? — provocou ela.

Ele deu um meio sorriso.

— Aí a gente repete o feitiço.

Ela corou, rindo, pegando o pacote.

E enquanto caminhavam juntos pela calçada, o vento frio de outubro balançava as folhas — como se o próprio Halloween comemorasse o início do novo feitiço deles.




Fim.


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