Capítulo 03

Ele entrou meio zonzo na pensão, nem tinha notado como seu coração batia acelerado, ao passar pela cozinha foi parado por Jojo.

—Menino, o que você tem? Parece que viu um fantasma.

Ele resmungou um estou bem e correu para seu quarto, sem pensar duas vezes saiu tirando a roupa e entrou no banheiro, precisava de um banho gelado, entrou de cueca e tudo e ligou o chuveiro, passou alguns segundos tentando sentir a respiração voltar ao normal, sua pele parecia que tinha dado uma volta no inferno e agora queimava desesperadamente.

—O que está acontecendo comigo... —resmungou passando as mãos no cabelo.

Batidas na porta o despertam da hipnose.

—Quem é? —Gritou em resposta, sem se mexer.

—Sou eu Drummond, a Jojo te viu entrar como se tivesse morrendo e me mandou ver você, pra saber se você ainda está vivo. —brincou encostado na porta. —Mas falando sério, você passa mal toda vez que entra no convento. Você tem certeza que conseguira substituir o padre Constantino?

Ele finalmente saiu do chuveiro, o torpor passou, e a lembrança do convento retornou.

—Estou bem, estava tomando um banho, o dia está escaldando.

Oi? Você está bem? Hoje o dia está agradável, e um pouco frio, estamos próximo do inverno, tem certeza que você não fez foi passar mal pelas lembranças?

—Não, eu já disse, estou ótimo. Jojo já preparou o almoço?

—Sim, só falta temperar o feijão e a sobrinha dela.

—Não era você que ia busca-lá? —pergunto Sebastian já vestindo a calça.

—Não, ela quis ir busca-lá pessoalmente. Vem vamos esperar elas sentados a mesa. Estou faminto.

A mesa das refeições era enorme, para que todos os moradores pudessem jantar juntos.

Sebastian estava faminto, mas todas as vezes que tentava por sua comida recebia um tapa na mão por Medle, a mãe de Jojo. Quase todos pareciam ansiosos para conhecer a moça, mas o padre, não, estava incomodado, talvez fosse a fome, ou o cansaço, mas a imagem da mulher não saia de sua cabeça, e involuntariamente tinha pensamentos proibidos para ele, pensamentos pecaminosos. Ouve um burburinho na entrada da pensão, e então Jojo sorridente entrou e em seguida apareceu uma jovem. Sebastian esfregou os olhos bufando, agora ele estava tendo ilusões, todavia, ela não era uma ilusão.

—Queridos essa é Ysabela, minha sobrinha. Ela vai morar conosco agora, espero que cuidem bem dela.

Anunciou a orgulhosa tia, conduzindo a garota para se sentar, ela ficou frente a frente com Sebastian, os dois se encararam perdidos. Ele estava a um passo de sair correndo, ela realmente era uma tentação? Alguém queria ver se ele resistiria? Perguntava-se tentando não demonstrar fraqueza. Ela estava pulando de animação, pensava que nunca mais veria o lindo homem de cabelos longos.

—Sabiam que minha querida Bela sabe falar Italiano, Latim e Francês? Pois bem, ela é uma relíquia e ainda é solteira, Sr. Drummond. —Bela corou virando-se para encarar a tia.

—Querida tia, creio que não devia falar essas coisas, é muito cedo para tentar me casar. —sua voz era delicada e sonora, parecia uma mulher de alta classe.

— Não se constranja, ela não está tentando casá-la, e sim ao sempre solteiro Drummond. —respondeu Sebastian, recebendo o olhar dos demais. Ele nunca participava das conversas a mesa.

—E o senhor? És casado? Bem... A julgar pelas roupas amarrotadas e encardidas, parece-me que é solteiro.

Os cochichos e falatórios foram totalmente silenciados após ela falar. E então uma mulher do final da mesa, a que tinha se mudado três dias atrás disse:

—Oh! Vejo que a moça bonita se interessou por nosso belo Sebastian. —As pessoas a mesa encaravam seus pratos, constrangidos, apenas Drummond foi capaz de rir.

—Não, mal o conheço. Todavia, ele parece não ser um bom homem para se casar.

Isso atingiu Sebastian como um soco, é verdade que ele não podia se casar, mas se pudesse seria a primeira escolha de todas as mães de moças solteiras na cidade. Ele se remexeu na cadeira e disse:

—Não pareço ser um bom homem para casar? Permita-me corrigi-la, senhorita.

—À vontade. —zombou curvando os lábios em um sorriso sedutor.

—Se eu me casasse, minha esposa seria a mulher mais amada de todo o país, respeito o juramento e respeitaria ela. Não vejo o porquê eu não seria bom marido.

—O que diz são só palavras, mas um homem capaz de esbarrar em uma dama apenas para enfiar-lhe o rosto em seus seios, não me seria um bom marido. —O rosto de Sebastian se repuxou em uma carranca, furioso e constrangido. Então Jojo se levantou, o rosto em brasas.

—Ysabela, poderia me acompanhar um instante? —as duas saíram, e ao sumir de vista Jojo empurrou sua sobrinha para um canto.

—Estas louca? Como fala com ele dessa maneira? Que deus tenha piedade de tua alma.

—Não disse nada demais, por quê? Ele é casado? Não me parece, parece um homem rude, tosco, mas muito sedutor. —Jojo pousou a mão no coração antes de se encostar-se à parede com os olhos arregalados.

—Por favor, fique longe dele, ou você vai sofrer.

—Não se preocupe, não estou interessada em um homem brusco e carrancudo. Fique tranquila.

Brusco e carrancudo repetiu Sebastian ao se aproximar da porta, ela o achava carrancudo? Como era possível se ela só o tinha visto duas vezes? E como ela não estava interessada nele se seus olhos faltavam desnudá-lo?

Ele se virou para sair antes que elas o vissem.

♥♥♥

Meia noite, Sebastian tinha a péssima mania de acorda essa hora e se sentar no quintal da pensão, ficava horas a fio deitado no banco, e quando finalmente o sono vinha, ele se levantava e voltava para o quarto.

Mas o maior erro da vida dele foi se levantar nessa madrugada e ir ao quintal, parou no batente, e estranhou o lugar que era sempre silencioso ao ouvir o som de água caindo, ele se aproximou lentamente a ponto de olhá-la, lá estava a mulher do capeta tomando banho, o corpo formoso iluminado pela luz da lua brilhava pelas gotas da água. Sua cabeça gritou: saia daí, você não pode ver essas coisas Sebastian... Você não pode...

Mas seu corpo ardia, queimava como brasas... E por mais que ele quisesse sair, os pés não lhe obedeciam.

Ela estava de costas, e ele se pegou rezando para que ela se virasse e o visse e sorrisse...

Ele ouviu passos, e então se virou, andou rapidamente até a porta dos fundos, Drummond estava parado com uma jarra na mão.

—Você ainda faz isso? —sem graça e olhando discretamente para a porta ele concordou. —Eu já ia lá, tenho uma coisa para falar com você. — o coração de Sebastian batia como tambor e suas mãos estavam trêmulas e suadas.

—Ah! Vamos dormir, estou exausto, além do mais hoje tem insetos demais, acho que eles sugaram quase todo o meu sangue.

—Hum... Tudo bem, se é assim, deixa para amanhã. Até. —no instante que ele ouviu os passos de Drummond subindo a escada, ele sorriu aliviando se deixando tombar sobre a mesa. Sua respiração estava pesada.

—Obrigada por não permitir que eu tivesse uma platéia... —Disse ela atrás dele, ele se virou assustado, mas a mulher já se encontrava na horrenda camisola. —Ou você quis a visão só para você? —Completou ao notar os olhos dele lhe percorrendo. Sebastian engoliu em seco e se afastou.

—Não, isso... Isso não faz parte da minha natureza. E senhorita, você devia tomar mais cuidado.

—Tomar mais cuidado? Eu esperei que todos estivessem dormindo para que eu pudesse tomar finalmente um banho.

—E em seu quarto? Depois que me mudei para a pensão, ajudei Drummond e Mateus a construir os banheiros chiques e agradáveis como os da frança. Não há necessidade disso. —apontou a mão aberta para ela, e tentou fingir um olhar de asco, nojo.

Ela o fulminou com o olhar e se aproximou, ele era muito grande em relação a ela, sua cabeça batia em seu musculoso peito.

—Caro senhor lamento lhe informar, eu fiquei com o último quarto, o que não possui um banheiro chique, como disse, e além do mais, nem parece ter uma cama.

—Use o de Medle, sua avó ou o de sua tia. —Ela passou por ele, pegando um copo com água.

—O de minha avó tem um cheiro horrível, tentei usá-lo, mas pensei que morreria e o de minha tia? Ah! essa é mesquinha, nem sequer me abriu a porta. —Abrindo um sorriso suspeito ela o encarou, com o copo encostado aos lábios— E o seu?

— Não, o meu não. Tenha uma boa noite. —despediu-se chegando as escadas.

—Oh! Que desagradável... Terei que tomar meus banhos no quintal todos os dias... e eu não consigo ficar sem tomar banho de manhã, é um habito sabe... Pobre de mim, terei que suportar quando algum cavalheiro me olhar nua, e possivelmente ficarei mal falada. — Lamentou-se encarando os dedos finos e macios.

Sebastian suspirou profundamente, enquanto apertava com força o corrimão, a visão dela no banho lhe veio à mente, talvez se não tivesse sido ele a vê-la, talvez se tivesse sido Drummond como ocorreria se ele não o tivesse impedido, e como Sebastian conhecia muito bem o rapaz sabia que ele se aproveitaria e tentaria de todas as maneiras seduzir a inocente Ysabela. Preparou-se para o que estava prestes a dizer... Talvez estivesse fosse um erro, contudo, o maior erro seria deixá-la a deriva na madrugada.

—Use o meu banheiro, só não diga a ninguém. —finalizando ele a deixou sozinha, sorrindo de orelha a orelha. E ele? Ele estava a ponto de desmaiar.

Notas finais
Seria gentil, se vocês me contassem o que acharam...críticas e elogios são muito bem vindos. *_*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.