Notas iniciais
A história é original e é uma homenagem ao meu falecido pai, que tanto me ensinou e me amou do jeito dele. Faz tempo que não me debulho em fanfics, mas pode ser que tenham inspirações de leituras passadas. A ideia da história veio algum tempo depois da bad profunda de perder meu pai (em 2017) e algumas músicas. Espero que gostem! Agradeço à Luísa que betou a versão antes de eu alterar várias coisas (espero não ter feito muita caca e me perdoem pelos erros), à Yuki Saiko por ter me ajudado demais em tudo e todo mundo que me ajudou muito nesses tempos f*das.

Grécia

A Lua cheia estava próxima à terra e fazia companhia para a escuridão que se instaurou naquele momento de despedida. Assim, sendo espectadora do sepulcro dos cavaleiros após a batalha das 12 casas. Abaixo dela encontrava-se Atena, os dourados sobreviventes e mais alguns servos que realizavam os procedimentos necessários nos corpos dos que pereceram, antes de levá-los ao seu destino final. Com uma cerimônia curta para não deixar espaço a questionamentos, o destino dos 5 cavaleiros de ouro foi finalmente selado.

Atena não ia puni-los com uma cova comum fora do santuário, onde deveriam ser enterrados os traidores. Para isso, ela usou uma de suas regras: na sua ausência, o mestre é o poder supremo. Então os que acabaram batalhando arduamente naquela guerra não mereciam a culpa; afinal não lutaram contra ela, mas em prol do santuário. Para o geminiano ser colocado ao lado dos companheiros o motivo foi mais simples: mesmo que tivesse agido, por total, vontade própria, em seus últimos minutos pediu o perdão de Atena. Este foi concedido de todo coração e ela nunca iria se negar em perdoá-lo. Sabia que o verdadeiro Saga sofreu todo esse tempo sozinho, se culpando por não conseguir evitar que seu lado maligno atentasse contra a vida da deusa e de seus irmãos de armadura.

Atena pediu à Mu que se encarregasse da recuperação das armaduras de bronze e das atividades de mestre do santuário. Lembrou também que todos deveriam ficar atentos com a reencarnação de Hades e de outros deuses, ainda mais agora que tinha algumas casas desfalcadas de seus guardiões e os que sobreviveram estavam enfraquecidos.

Alguns fisicamente, outros psicologicamente.

Todos que cresceram com o Milo sabiam que era o que mais tinha sido afetado naquela guerra e o único que não expusera sua dor, pelo menos não na frente de ninguém. Sabiam do amor e da dedicação inigualável que Milo nutria por Camus e embora tivesse todos os motivos para desabar, não deixou que nenhuma lágrima rolasse. Nem quando o túmulo do aquariano foi fechado.

Nos dias que se seguiram, ao voltar para a rotina de treinos, conversava de vez em quando com os outros cavaleiros, mas seu assunto era sobre qualquer coisa que não envolvesse o nome de Camus. Perguntavam constantemente se ele estava bem. Ele sempre afirmava roboticamente e monossilábico que sim. Se comentavam da falta de vontade e indisciplina em seus treinos apenas retrucava que sempre esteve pronto para morrer em qualquer batalha que viesse. Seus companheiros zodiacais sabiam que aquele loiro não tinha nenhum resquício do escorpiano que um dia fora. Também não procurava ajuda para tentar amenizar aquele sentimento de perda. Como se trancar aquele luto em si, fosse o melhor a se fazer.

Sem notar que na verdade, aquilo o corroía cada dia mais.

O rosto esculpido do grego estava com marcas de insônia e inchado. Seus olhos azul turquesa, agora vazios, evidenciavam cada dia mais o resultado deste sofrimento retido. Além da perda de peso pela falta de apetite, mas esta atitude negativa foi logo revertida pelas súplicas de Atena. De todas as mudanças, a que mais marcou em sua rotina foi o desaparecimento do seu sorriso, das brincadeiras e da sua intensidade de viver. Depois que Camus se foi, seu mundo entrou em uma penumbra cheia de ansiedade e turbulência. Hora culpava-se pela morte dele, culpava Hyoga, Saga, até mesmo o próprio Camus, nas demais, o destino fatídico. Suas noites eram sempre carregadas de pesadelos ou imagens de Camus sem vida sendo preparado para ser colocado em sua cova. Quase toda noite as lágrimas conseguiam escapar de seus olhos, mas logo levavam bronca por terem saído sem sua permissão.

Para se refugiar das perguntas e dos consolos exagerados, Milo fazia alguns passeios na vila próxima ao santuário, após os treinos da tarde. Sua preferência era pelas caminhadas noturnas, assim podia sentir a brisa fresca passar por seu corpo naquele local abafado, coisa que acontecia somente quando Camus estava perto de si. Não que o calor da Grécia fosse ruim ou que odiasse aquele clima de verão, que nem era dos mais áridos do mundo, já que se encontravam perto da costa marítima. Mas já tinha se acostumado com os pelos se arrepiando e o frio na espinha por causa do mestre do gelo.

Com o passar do tempo, ao invés de melhorar, a dor ficava mais aguda e a saudade aumentava. Parecia que o tempo não curaria as coisas para ele.

Mas naquele dia, Milo estava descendo um pouco mais cedo, se poupando no fim do treino. Shaka tinha lhe tirado do sério com o excesso de preocupação. Admirava aquele ser sempre calmo e pacífico e gostava de brincar e amolar o indiano; não tanto quanto gostava de ver o francês enrugar a testa irritado. Agora podia experimentar do seu veneno na insistência do virginiano em querer ajudá-lo, mas o que ninguém entendia é que somente seu francês tinha o poder de tirar aquele peso de seu coração.

Fechou os olhos por alguns instantes, assim que chegou à entrada da vila. Respirou fundo, detendo o ar por um tempo, por fim deixando-o sair vagarosamente entre seus lábios. O ambiente ainda carregado dos raios intensos do Sol que se fizeram presente durante todo o dia ali, lhe causava uma decepção enorme em sua atitude de antecipar sua descida. Enquanto a visão mais adiante daquela paleta aérea, mescladas entre o amarelo, mais perto da linha do horizonte, fazendo um gradiente com o alaranjado e rosa manchando alguns lençóis de nuvens e o contraste com o céu escurecido acima de sua cabeça, anunciando mais uma noite fresca, lhe dava esperança. Tomando coragem para começar seu trajeto por dentre a vila, pôs-se a caminhar com passos firmes.

Antes que pudesse completar seu objetivo de ir à floresta, seus pés travaram no chão ao ouvir um som doce e calmo das cordas de um instrumento. Era mais agudo que um violão comum e que conhecia tão bem...

Em seu pensamento logo veio o nome do cavaleiro de Aquário, olhou para os lados tentando identificar de onde as ondas sonoras vinham. Entrou por uma viela e depois virou à direita, parando em uma rua paralela à passagem principal. Se deparou com um senhor de idade avançada, deveria ter uns 60 anos mais ou menos. Os poucos cabelos que havia em sua cabeça se transformavam de preto para cinza. Estava sentado em um banquinho público, perto da porta de uma casa simples e o bandolim apoiado em sua perna. Tão grande foi seu desapontamento, que ficou ali, estático, como se esperasse que a imagem daquele homem virasse um certo ruivo a qualquer momento. Na falta da transformação, sua memória o recompensou com a imagem de Camus sentado na escadaria de Aquário, dedilhando docemente um bandolim idêntico e parando de vez em quando, escrevendo algumas notas ao conseguir harmonizar a melodia. Teve que tencionar os pulsos e os lábios para conter o sentimento que tentava invadir seu coração e seus olhos.

Percebendo a presença daquele ser altivo, vestido com uma calça azul petróleo colada ao corpo e uma túnica branca envolta por um cinto largo preto, o homem olhou para o loiro e parou imediatamente.

— Estou o incomodando, meu jovem? — se preocupou ao perceber que o rapaz estava com os olhos marejados.

— Não! — respondeu prontamente, abaixando a cabeça, envergonhado por ter assustado o aldeão sem a mínima necessidade, mas não conseguiu deixar o olhar longe do instrumento por muito tempo.

Era tão similar com o dele, parecia que podia senti-lo ali perto. Seu corpo se arrepiou e seus olhos começaram arder. Virou-se e saiu correndo pela mesma viela que entrou, não iria chorar ali, ainda mais na presença de um estranho. Não seria fraco na frente de ninguém, nem em sua privacidade deveria se dar ao luxo de fazer isso. Só que aquele instrumento avivou fortemente a saudade de seu companheiro rabugento, esta que tentava guardar a sete chaves em seu peito. Sem contar que tinha quase certeza que já ouvira aqueles acordes calmos pelos próprios dedos de Camus.

Milo se embrenhou nas redondezas do santuário. Ali era bem mais isolado que a floresta ao qual poderia encontrar outros moradores do vilarejo. Corria para esquecer o turbilhão de pensamentos e sentimentos. Tentava fugir da melodia que parecia não mais soar do bandolim e sim da sua cabeça.

Sentia seu coração apertar a cada nota.

Por que tinha que ter encontrado aquele senhor? Por que o bandolim se parecia tanto com o de Camus? Poderia ser o aquariano mandando um aviso ou seria tudo coisa de sua imaginação? A música não parou de tocar, mas suas pernas sim. Seu peito inchava forte mostrando que seus pulmões estavam precisando de ar. Se apoiou no tronco de uma coluna quebrada e fechou os olhos. A imagem de Camus tocando lindamente o instrumento lhe vinha à mente novamente. Podia vê-lo, perfeito, com seu cenho franzido pela concentração, seu lábio inferior preso entre seus dentes em um sinal de foco e esforço. Seus dedos compridos e fortes faziam a melodia ser tocada claramente.

Ao abrir os olhos percebeu que estava nas redondezas do cemitério. Arrastou seus pés, inconscientemente, até o lugar em que o corpo de seu amado descansava. Ajoelhando-se na frente da pedra em que tinha escrito “Camus”, com as letras gregas bem talhadas, desistiu de lutar contra tudo e contra todos; principalmente contra si mesmo. Se permitiu derramar todo seu sentimento e chorar como nunca chorou em toda sua vida. Deixou esvair um pouco de sua dor, segurando fortemente a terra entre seus dedos.

A madrugada começou a se fazer presente quando começou a subir a escadaria de Áries, mas antes de conseguir entrar no templo foi atacado por olhares de um ariano e um virginiano que queriam saber o porquê Milo demorara e o que estava fazendo no cemitério.

Apesar de ver a cara inchada do outro loiro, Shaka não se deteve a começar seu questionamento.

— Milo! Por que você...? — Shaka já fechava a cara, estava preocupado pela depressão que o escorpiano poderia se afundar.

— Agora não Shaka... Mu preciso entrar na casa de Aquário. Por favor, me dê permissão para isso? — Milo cortou o virginiano, que não gostou nada.

— Você acha que é uma boa hora para... — arregalou os olhos, tentando argumentar.

— Mu... eu só preciso me certificar se uma coisa está lá... ok? — Milo não estava a fim de muita conversa e cortou Mu, assim como fez com Shaka.

— Uma coisa? Hum... — Mu ficou um tempo parado, como se estivesse pensando. Milo sabia que ele estava se comunicando com Atena — tudo bem, mas Shaka deve ir com você.

— Mas...

— Sem “mas”, Milo — foi a vingança do ariano — todo mundo sabe, principalmente você, que não está tudo bem e você insiste em ocultar tudo, até a sua falsa superação, atrás dessa máscara de teatro. Sem Shaka você não entra na casa de Aquário e ponto final. — falou calmo e cruzando os braços na frente do peito com um ar autoritário que lembrava o antigo mestre.

— Está bem — soltou um suspiro longo e olhou para o virginiano — vamos, Shaka... Ah, obrigado, Mu — virou-se para o ariano, antes de seguir seu caminho. Sentindo uma certa ansiedade e felicidade por poder entrar novamente naquele templo.

A subida foi rápida, como era de se esperar para os cavaleiros de ouro. Milo e Shaka estavam parados, lado a lado, na escadaria que levava ao 11ª templo que agora se encontrava totalmente escuro e com algumas colunas quebradas.

— Tem certeza, Milo? — Shaka falou com um certo receio. Um arrepio tinha acabado de lhe passar pela nuca.

— Eu preciso tirar uma dúvida que atormenta meu coração... — Milo fechou os olhos — uma delas, pelo menos... — deu o primeiro passo para subir o último lance de escadaria, ao qual Camus adorava ficar sentado, contemplando o céu.

Às vezes, ele tinha a impressão que Camus conseguia ler o destino nas estrelas, assim como o mestre fazia quando ia ao pico Star Hill. Um dia, o próprio mestre disse a Milo que o cavaleiro de Aquário do passado, foi quem aprendeu a interpretá-las e escreveu livros secretos sobre este assunto.

Chegando quase ao fim da subida, olhou para o seu lado direito. Havia um pequeno espaço que não era coberto pela marquise da casa de Aquário; podia senti-lo e vê-lo com o pé apoiado em uma pequena mureta e o rosto sério fitando o horizonte. Teve vontade de pedir passagem como era acostumado, mas ao fechar e abrir os olhos, não existia mais nada ali.

Balançou a cabeça e riu da sua tolice.

— Vamos logo, Milo... A casa de Camus me dá arrepios. -Shaka fez a atenção de Milo voltar para si. O virginiano já quase dentro do templo, passava a mão pelos braços em um sinal do frio que sentia.

— Com o tempo você acaba se acostumando e até acha gostoso esse friozinho... -terminou de subir as escadas e se aproximou do virginiano

— Talvez se ele estivesse aqui... -Shaka percebendo uma penumbra tomar conta do coração de Milo, ergueu a sobrancelha sem abrir os olhos e se virou — Perdão Milo! Sei que é triste a ausência corporal, mas também sei que aqueles que se foram estão olhando por nós. Não vamos demorar a nos reencontrar.

— Relaxa Shaka... a visita vai ser rápida. Prometo! — Milo adentrou o templo, indo diretamente para os aposentos do aquariano, seguido pelo budista.

O aposento ainda estava com os objetos, roupas e bebidas que Camus tanto estimava. Sua mala estava totalmente desfeita da viagem que fez para a Sibéria e a cama como sempre bem arrumada. Seu quarto ainda tinha seu cheiro, seu jeito. Parecia que a qualquer momento o pinguim, como Milo gostava de chama-lo, entraria por aquela porta, pegando os dois no flagra e brigaria por estarem invadindo seu espaço pessoal.

O escorpiano foi até uma cômoda que ficava à direita da porta e pegou um pequeno vidro que estava em cima. Fechou os olhos e respirando fundo, sentiu o perfume de Camus que ele mesmo ajudou a escolher. A armadura de Aquário encostada ali perto ressoou feliz ao sentir a presença de Milo, como se a visita dele trouxesse a esperança de Camus aparecer logo mais, já que eles eram como unha e carne.

— O que você está procurando, Milo? -Shaka perguntou incomodado. Milo que teve seus devaneios interrompidos, teve vontade de xingá-lo, mas se deteve para não viver o resto da vida sem os seus sentidos.

— O bandolim de Camus -o escorpiano se virou e entrou em uma outra porta que ficava do outro lado do cômodo, o closet do aquariano. Começou a vasculhar os cantos onde ele sabia que Camus costumava deixa-lo.

— O bandolim? Aquela coisa velha que Máscara deu de presente e que ele chamava “La Mandoline”? -Shaka que estava parado na entrada do quarto, “viu” o outro voltar sua cabeça pra porta do closet, fazer uma careta de ciúmes e confirmar com a cabeça.

Sim, seu desagrado era real... Amava ouvi-lo tocar, mas odiava quando ele falava aquele nome, pois parecia que o aquariano o colocou em homenagem à alguma mulher. Camus sempre explicava que era apenas o nome do instrumento em francês, mas não adiantava muito. Milo o olhava de canto e pedia para mudar o nome. O aquariano rebatia que não poderia mudar a língua nativa por caprichos dele. Por fim, tudo se resolvia quando cansado do mal humor e das mal-intencionadas fantasias do escorpiano, chamava o bandolim de “o instrumento”.

— Milo... — continuou o virginiano, depois de um tempo, trazendo o outro loiro de novo para realidade — se eu não me engano, Camus comentou comigo que o doou antes de viajar para a Sibéria.

O escorpiano paralisou por alguns instantes. Será que o fato de ter se encontrado com aquele senhor e o bandolim poderia ser mesmo uma mensagem de Camus? Saiu do closet com o dedo na boca, mostrando o sinal de seus pensamentos a milhão.

— Tinha uma partitura que ele estava escrevendo. Eu lembro bem, era até um papel velho... parecia aquele papel de pergaminho. Será que foi junto com o bandolim?

— É bem provável... se ele conseguiu terminar antes de viajar, está com a mesma pessoa que recebeu o bandolim de Camus.

— Vamos Shaka... está bem tarde e ficar aqui está me deixando mal — ia sair do quarto, bem mais rápido do que entrou.

— Sim... — Shaka fez a menção de o seguir, mas parou, fazendo Milo parar também — O que você escondeu em sua cintura na hora que foi ao closet?

— Filho de uma.... — mordeu a mão de raiva por Shaka ser tão sensitivo. Queria pular, gritar, espernear — não é nada...

— Milo, me fale o que é ou vou ter que falar com o Mu... — ouviu o outro soltar o ar pela boca irritado — e não bufe para mim!

— É o perfume do Camus... por favor, Shaka — segurou os ombros do virginiano, quase implorando com os olhos — não conte a ninguém que eu peguei isto!

— Mas Milo... não vai ser pior ficar recordando o cheiro?

— Não Shaka! Eu preciso disso... por favorzinho — fez seu bico infantil e sua voz de misericórdia. Típico quando pedia um favor que não poderia ser negado.

— Está bem, vamos embora logo, antes que você afane mais alguma coisa... — Shaka saiu, “fechando” os olhos para aquele ato.

Foram diretamente para seus respectivos templos e finalmente descansar. No entanto, Milo mal conseguiu dormir naquela noite por culpa da ansiedade. Queria que o dia passasse logo e assim poder descer ao vilarejo para questionar aquele senhor sobre o instrumento.

Como previsto, o tempo passou vagarosamente, quase se arrastando. Quando o treino estava para terminar, Milo adiou sua saída novamente. Correu para o vilarejo, acompanhado visualmente por dois seres atentos.

— Quer que eu vá atrás dele? — Mu perguntou a Atena, sem retirar seus olhos do ser que corria desesperado para o vilarejo.

— Não Mu, ele precisa desse tempo para ele — sorriu enigmaticamente — Tenho certeza que ele terá as respostas que precisa.

Sem se importar se o vigiavam ou não, Milo descia correndo o mesmo caminho de ontem, parando somente quando chegou na ruazinha em que viu o senhor tocando o bandolim. Colocou a mão no joelho, puxando ar para seus pulmões, afinal conseguiu atravessar tudo em menos tempo que o normal.

Olhou para o banco vazio e teve vontade de desabar no chão.

Será que o senhor não morava naquela viela? Será que morava em outro lugar e só estava de passagem? Pensou em bater de casa em casa, quando ouviu o barulho da porta que fitava próxima ao banco. Seus olhos brilharam novamente ao ver o mesmo senhor de ontem e o bandolim em sua mão. Esticou o corpo para não demonstrar seu desespero e cansaço.

— Ah! Olá, meu jovem! Ontem me deixou preocupado ao sair correndo sem falar nada... está tudo bem? -sorriu e seguiu para se sentar

— Agora está tudo bem... — Milo abriu um sorriso enorme, vendo o senhor sentar-se — posso lhe perguntar onde conseguiu este bandolim?

O senhor sorriu, fazia muito tempo que não tinha ninguém para conversar, esperava que o rapaz se interessasse por sua história.

— Há alguns anos fui ao luthier com a minha única filha, que na época tinha 10 anos, para ver se conseguiria arrumar meu violão. Lá tinha um rapaz de cabelo ruivo tão grande como seu. Estava sentado arrumando as cordas deste instrumento aqui — apontou para o bandolim de madeira rústica, muito bonito em sua perna

— “Com certeza é o Camus” — Milo pensou, mas não falou nada, pois sua curiosidade por aquela história tinha sido aguçada com sucesso

— Ele viu minha filhinha meio quietinha e desanimada sentada perto dele, enquanto eu esperava o luthier avaliar o meu violão e puxou papo com ela. Ela acabou lhe contando que estava triste por saber que precisaria tratar de um dodói e não poderia brincar mais com as outras crianças. — o senhor fez uma pausa e fechou os olhos como se estivesse tentando não deixar escapar nenhum detalhe da cena que se passava em sua memória — Então ele se ajoelhou e falou que uma garota tão bonita e forte quanto ela não deveria ficar triste e acreditava que logo ela estaria livre e poderia correr e brincar por campos muito bonitos. Por isso, que não ficasse chateada, nem com medo. Ele se sentou novamente e tocou uma música belíssima, ao qual ela adorou. Antes de ir, ele me entregou este bandolim e uma partitura dizendo que ia viajar para um lugar longe e não poderia levar muita coisa e que a música nos seria mais útil do que para ele naquele momento. -o homem abriu os olhos -Aquela atitude foi muito bonita e emocionou demais a minha filha e a mim, no fim, esqueci de perguntar o nome dele para poder agradecê-lo.

— “É ele tinha um bom coração, embora às vezes parecia nem ter este órgão” — Milo riu de canto pelas lembranças das brincadeiras que fazia, onde colocava a orelha no peito do aquariano e dizia que ali realmente não se ouvia nada, logo após ele ter dito algo frio e cruel.

— Pediu para eu treinar aquela música que tinha terminado há pouco tempo de compor e tocar para minha pequena, pois aquela música acalmava a alma — o senhor suspirou forte para tomar coragem e continuar sem sua voz falhar — Eu fiz tudo o que ele me falou por quase um ano... Então minha pequena não aguentou mais e entrou em coma, estava com falência de alguns órgãos -ele abaixou a cabeça e passou a mão no bandolim com carinho

Milo arregalou os olhos, realmente aquele senhor parecia carregar uma dor muito grande consigo.

— Ela.... faleceu? -o escorpiano engoliu seco quando o senhor confirmou com a cabeça

— Sim... No começo eu fiquei bem triste e quase destruí esse instrumento pela raiva. Nós realmente tivemos a esperança do tratamento dar certo e ela poder voltar a brincar, comer doces e porcarias, aquelas palavras e a música daquele rapaz nos deu força. Mas ela não aguentou e a doença venceu a batalha... Só que no meio de tanta coisa ruim tive a surpresa e se posso assim dizer; o alívio, de ouvir os médicos comentarem que a música e o meu amor ajudaram a diminuir a dor e a infelicidade por aquele tempo em que ela ficou internada, pois apesar de não reclamar de nada, ela sofria muito.

— Eu sinto muito por sua perda... -Milo sabia que seus olhos ficaram marejados de novo, conseguia imaginar a dor que aquele senhor havia sentido na época.

— Sabe rapaz... Eu tinha uma escolha muito dura para fazer: deixar ela em coma ou fazer a eutanásia para ela não sofrer mais. E nesse momento eu acabei percebendo que mantê-la aqui comigo era muito egoísmo meu. Lembrei das palavras do ruivo e pensei que ela poderia ser muito mais feliz nos campos Elísios, junto aos deuses e brincando com outros anjos que nem ela. Imagino que se não tivesse encontrado aquele rapaz, ela ainda estaria aqui graças ao meu egoísmo — passou os dedos finos e enrugados pelos olhos — Ah... se eu pudesse vê-lo novamente, lhe daria um grande abraço de agradecimento. Ele nos ajudou muito.

— “Eu também...” — Milo olhou para baixo, tentando não mostrar a emoção por seu pensamento e pela história

— Penso que apesar de toda dor, nos tivemos momentos lindos e poder vê-la sorrir e se emocionar toda vez que ouvia a música é algo que não tem preço... Desde então, eu toco toda tarde em homenagem a ela e ao antigo dono deste bandolim. Também porque algum dia acharei alguém que necessite recuperar a esperança. Assim eu poderei ajudar outra pessoa que esteja perdida, como eu e minha pequena naquela época estávamos.

— Então a música que estava tocando ontem.… — Milo ainda sentia seus pelos do corpo todos eriçados por aquela história — por acaso é a mesma que ele o ensinou? É a mesma que você tocava para ela?

Viu o senhor levantar o dedo, abandonar o bandolim no banco e entrar novamente na casa, não entendeu aquela movimentação, mas ficou no mesmo lugar. Enquanto estava esperando, fixou seus olhos no bandolim e sorriu.

— “Você sempre foi lindo, por fora e por dentro, Camus.” — seus pensamentos se esvaíram quando viu o senhor voltar com um papel bem velho, enrolado na mão.

— Esta é a partitura da música... — colocou o papel na mão do cavaleiro, que abriu com cuidado extremo.

— Milo? -perguntou espantado ao ver o título, mas logo os olhos do escorpiano se encheram de lágrima.

— Sim... -achou que o rapaz estava espantado com o nome singular e resolveu explicar — Ele me contou que a música era uma homenagem à um rapaz que tinha uma alma muito forte e agitada, além de se subestimar muitas vezes. Como ele o admirava muito, queria fazer uma música para acalmá-lo e lembrá-lo que a esperança sempre vai existir. — o senhor voltou a se sentar, pegando o bandolim -Fico imaginando se ele conseguiu o que ele queria com a música dele.

— Nossa... eu nem sei o que dizer... é uma linda história e uma nobre atitude... — Milo levantou os olhos da partitura e olhou o bandolim no colo daquele senhor. Na verdade, suas palavras eram reprimidas pela surpresa de ter uma música em sua homenagem.

— Percebo que o rapaz ganhou uma certa admiração pelo bandolim e pela música. Quer tocar um pouco? — Ergueu o objeto pelo “braço”, oferecendo a Milo

— Não, eu não toco. — Milo respondeu e levantou a mão com a palma virada para o senhor, como agradecimento pela atitude. Um suspiro veio seguido de um desabafo, algo que estava em sua mente — mas conheci alguém que tocava um.

— Oh... — o senhor olhou para o instrumento e depois olhou para o jovem — E esta pessoa não toca mais?

— Não pode. Tânatos o levou de mim há alguns dias...

— Tânatos sempre leva o melhor de nós. — o velho voltou a apoiar o instrumento na perna direita, seus olhos parados no infinito mostravam as lembranças e as dores como um projetor.

— Ele desta vez levou tudo, não apenas o melhor. Eu deveria ser forte, mas eu não sou. Não, sem ele... Ele era a minha força. — Milo aproximou-se e parou do lado direito do senhor, para então se sentar no mesmo banco, apoiando a partitura no espaço entre os dois.

— Ele era a sua força ou você sempre foi forte por ele? — olhou para o lado e viu os olhos azuis do jovem se arregalarem ao ouvir aquela frase.

Milo olhou para baixo, parecia envergonhado. Respirou fundo e buscando coragem para fazer um pedido fitou o homem ao seu lado.

— Sei que seria muito abuso, mas, poderia tocá-la para mim?

— Claro, meu jovem. Afinal, vejo que a hora da minha missão está chegando e que sua alma precisa dessa melodia.... — começou a dedilhar a música calma, romântica.

A melodia fez Milo fechar os olhos e ele acabou se deixando levar para alguns momentos que tinha acabado de lembrar com a pergunta do velho músico.

~Início do Flash Back 1~

Aquela estação tão fria e seca formava tapetes de folhas mortas no chão. Milo era aspirante da armadura de escorpião, treinava incansavelmente, tentando alcançar o 6º sentido e finalmente ser merecedor da armadura de escorpião. Era o que almejava de todo o coração e não iria desistir, embora não estivesse indo tão bem nos treinamentos quantos os outros. Olhava para o chão e sentia seu suor escorrer por sua testa, pescoço e costas. Arfava com as mãos apoiadas em seus joelhos.

— Milo, está cansado? Quer desistir do posto de cavaleiro? — o mestre do santuário cruzou os braços, observava os treinamentos da arquibancada. Não dava para ver sua feição, mas podia-se notar na sua voz a decepção pelo loirinho ainda não ter alcançado o cosmo.

— Não, Mestre... eu apenas estou com sede — falou o aprendiz de escorpião, levantando um pouco a cabeça para olhá-lo com respeito.

— Está bem...- virou-se para que todos os jovens que estavam ali o escutassem -aprendizes e cavaleiros, tirem um tempo para tomar água e descansar um pouco. Vou até o salão e volto em 30 minutos. Milo...- o mestre saiu da arquibancada e se aproximou do loirinho — Quero você aqui, pronto para treinar e alcançar o sexto sentido ou não irá entrar na disputa pela a armadura de ouro — virou-se e saiu da arena ao receber a confirmação do pequeno.

Milo, por sua vez, correu no sentido do alojamento, mas antes de entrar, desviara sua rota para uma espécie de depósito de colunas antigas. Várias peças velhas de mármore, destruídas e corroídas pelo tempo. O terreno, embora irregular, continha algumas árvores já sem folhas por culpa do rigoroso outono, onde Milo podia se esconder, ajoelhado dentre as folhas amarelas e laranjas, caídas no chão. Colocou a mão nos olhos, pensando em tudo que passou até chegar ali. Ele não tinha sede, nem fome ou sono, apenas vontade de chorar.

— Chorar não vai te tornar um cavaleiro, Milo — uma voz grave, atrás do escorpiano o fez pular e se virar para sentar e olhar o ser que falou aquilo.

— Camus?! — o loiro se assustou, limpando as lágrimas apressadamente — o que faz aqui?

— Reparei que toda vez que temos um intervalo nos treinos, você não vai para o alojamento, como os outros — pulou uma coluna, se aproximando de Milo.

— Isso não deveria ser indiferente para você? Sua armadura já está garantida, você é um dos mais estudiosos e disciplinados no treino. — Milo olhou para o outro lado, assim Camus não poderia ver seus olhos úmidos.

— Não seja egoísta, Milo. Se quer saber, eu não sou tão forte como você...

— Está ficando doido? Não viu como eu apanhei do Shura há pouco? Sem contar que não consigo nem levantar aquela coluna do treino para dar 1 passo — ergueu o rosto e o encarou. O ruivo estava em pé, ao seu lado, seus cabelos não tão compridos e lisos se moviam, mesmo que não tivesse vento naquele momento.

— Não estou falando da sua força física, Milo...

— Então de que força você está falando?

Milo viu Camus suspirar e com a mão estendida se ajoelhou perto dele, colocando-a em seu peito, em cima de seu coração.

— Você tem a alma e o coração mais lindo dentre nós e quer sempre fazer tudo com paixão, perfeição e com um esforço incomum — Camus afastou as mãos do peito do outro e desviou os olhos para o infinito — Diz que não consegue erguer uma coluna que os cavaleiros mais velhos têm dificuldade de levantar, se sente mal por perder uma luta com alguém que já alcançou o sexto sentindo e detém a armadura de capricórnio, a Excalibur no braço direito e treina incansavelmente todos os dias. Você exige demais de si. Não vê o quanto já é forte? É um dos poucos que suporta eu falar dos livros que leio. — o ruivo disse a última frase em tom de brincadeira, mas ai de Milo se concordasse.

— Mesmo assim, Camus. Eu me sinto tão incapaz, como se eu fosse essas folhas secas e inúteis — passou a mão, jogando longe as que estavam perto de si -Desculpa.... -olhou para Camus que tinha se afastado um pouco para não ser levado junto com as folhas — odeio esse clima feio.

— Tudo na vida precisa de um equilíbrio, Milo. O outono é apenas uma fase e sem ele nós estaríamos cansados da primavera. Pensa assim, se não tivéssemos a renovação, as folhas e as flores não teriam a cor tão jovial como quando elas renascem.

— Mas como poderia me cansar da primavera se ela é tão linda, tão cheia de vida, o outono é mórbido, monocromático, por mim poderia excluir o outono e o inverno.

— Milo, estamos treinando há umas 3 semanas seguidas, certo? O que você acha dos treinamentos? — tentou mudar de assunto para tirar a razão não fundamentada de Milo.

— Chatos e cansativos.

— E quando você lutou com o Shura e apanhou, qual foi a primeira coisa que você falou para mim?

— Que eu tinha que treinar mais e fazer mais exercícios para ser mais forte que ele e vencê-lo.

— Entende o complemento das coisas? Só percebemos a existência quando temos o vazio. Assim como o ser ou não ser, os opostos se completam. Você não daria importância à luz se não houvesse a escuridão, ao silêncio se não houvesse som, aos treinos se não houvesse derrotas... assim por diante.

— Você é muito filósofo, Camus.

— É.… já me disseram. Eu só percebi quando ganhei em uma discussão com o Shaka. -Camus disse com um tom de vitória

— Mesmo assim, acho que não passo da próxima semana. Não sei se conseguirei lutar pela armadura de escorpião...

— Tem certeza disso? Existe mesmo essa certeza em seu coração ou você só está se menosprezando para explodir de alegria quando estiver vestindo a armadura? De qualquer maneira, espero não estar te influenciando, mas você é merecedor, mais do que qualquer um. Sem contar que se você desistir, sentirei falta de conversar com você. Ouso dizer que você é meu melhor amigo. — disse o ruivo antes de se levantar e se virar para sair

~Fim do Flash Back 1~

— Sabe... Ele vivia dizendo que eu era forte, mas eu sempre desconfiava — juntou as mãos ao mesmo tempo que ambos cotovelos foram apoiados em suas coxas

— Então... ele costumava mentir para você?

— Não! Camus nunca mentiu para mim, nem com o olhar.

— Camus. Que nome bonito, nome de escritor.

— Pois é, ele adorava ler e escrever para mim, talvez fosse a reencarnação de um escritor mesmo — sorriu, fechando os olhos. Uma brisa fresca passou por sua face, como se alguém estivesse lhe acariciando.

~Início do Flash Back 2~

Dois jovens cavaleiros estavam sentados debaixo de uma das árvores, no esconderijo favorito deles: o tal depósito de colunas. O mesmo local em que o escorpiano se refugiava quando era mais novo para chorar.

Milo estava muito irritado ultimamente, pois recebera a notícia que o aquariano iria treinar duas crianças na Sibéria. Teria que ficar um bom tempo longe do seu amado amigo. Se ele não sabia lidar com a partida, imagina com a distância.

Quando queria distraí-lo ou acalmá-lo, Camus o levava para longe dos templos e lia algum livro favorito do escorpiano. Para aquela ocasião, pegou o mais especial: “O coelho de veludo” de Margery Williams. Com um dos joelhos flexionados para apoiar a capa do livro e uma das mãos segurando a base, narrava docemente a história.

Milo também tinha os joelhos flexionados. Sentado entre as pernas do ruivo, com as costas apoiadas no peito e sua cabeça encostada entre o pescoço e ombro dele, recebia afagos em seu rosto da mão gélida e livre do outro. Em troca, uma de suas mãos estava apoiada no tórax de Camus, fazendo um leve carinho. Prestava atenção na voz rouca, enquanto olhava para os dedos longos do aquariano passando pelas palavras em que lia no momento.

— O que é REAL? — perguntou o Coelho um dia. — Significa ter coisas que zumbem dentro de você e uma manivela saliente?

— Real não é como você é fabricado — disse o Cavalo de Pele. — É algo que acontece com você.

— Quando uma criança o ama, por um longo, longo tempo, não apenas para brincar com você, mas REALMENTE ama você, então você se torna Real.

—Isso machuca?

—Hummmmmm... às vezes — ele era sempre sincero — Quando você é Real, você não se preocupa em ser machucado.

— Isso tudo acontece de repente, como quando alguém lhe dá corda, ou aos poucos?

— Isso não acontece de repente.... Você se transforma. Demora um longo tempo. Por isso não acontece frequentemente para as pessoas que se quebram facilmente, ou que têm bordas afiadas, ou que têm que ser guardadas com cuidado.

— Geralmente, quando você se torna Real, a maior parte de seu cabelo foi amorosamente arrancado, e seus olhos caem e você se torna frouxo nas juntas e muito surrado.

— Mas estas coisas não importam, no entanto, porque uma vez que você é Real, você não pode ser feio, exceto para pessoas que não compreendem.

— Eu suponho que você seja real? — E então ele desejou não ter dito aquilo, porque ele pensou que o Cavalo de Pele poderia ficar sentido, mas o Cavalo de Pele somente sorriu.

— O Tio do Menino me tornou Real. Isso foi há muitos anos atrás, mas uma vez que você é Real, você não pode tornar-se irreal outra vez. Isso dura para sempre

Camus parou por um instante e abaixou os olhos admirando Milo. Os minutos de silêncio se prolongaram e o escorpiano percebeu a demora para ele continuar.

— Você se irrita com estes contos infantis — concluiu, sem se virar para encará-lo. Não queria perder o contato dos dedos frios em seu rosto

— Na verdade eu gosto muito... -o aquariano por sua vez não desviava os olhos dos cabelos loiros. Fechou o livro, colocando-o de lado, precisava conversar um pouco com Milo agora que ele se encontrava mais calmo.

— Logo você estará longe e não poderá ler mais para mim — Milo mordeu o dedão da mão que estava apoiada no peito de Camus, para sua dor física o fazer esquecer a dor que assombrava seu coração desde que soube que o mestre o tinha mandado para a Sibéria.

— Mas irei me lembrar do seu rosto, toda vez que tiver de ler algo do gênero. Você se tornou Real para mim e uma vez Real, não pode se tornar irreal, correto?

— Eu me tornei real? — Milo se ergueu para olhá-lo — Camus... eu sempre fui real! Eu hein... me comparando a um brinquedo! — estranhou ao fitar um ruivo sorridente e que o olhava fixamente, como se gravasse mentalmente o rosto infantil que o encarava indignado.

~Fim do Flash Back 2~

Milo deixou algumas lágrimas silenciosas rolarem, caindo pela ponta de seu nariz. Foi a primeira vez que chorou na frente de alguém, que não fosse Camus. Não o fez na frente de seus companheiros, nem no enterro de seu amado, nenhuma criatura presenciou suas lágrimas após aquela batalha. Apenas seu travesseiro e o túmulo de Camus.

— Está bem, meu jovem?

— Estou aqui me lembrando de alguns momentos esquecidos.... — passou os dedos pelo nariz e por seus olhos, para secá-los — Fico me perguntando, porque não aproveitei a oportunidade quando a tive?

— Nós somos assim mesmo. Temos esta atitude terrível...

— Que atitude?

— Não saber o que vai acontecer no futuro, se preocupar com o passado e acabamos sempre deixando para amanhã o que podemos fazer hoje.

— Ah sim, mas eu sei que logo estarei com ele, talvez não em um lugar bonito e calmo, mas quem se importa? Se eu passar o resto da minha vida com ele é o que me interessa.

— O amor não precisa de calmaria ou lugares bonitos para acontecer... Pode estar contido em pequenas coisas e em ínfimos instantes. Tem uma frase linda de um livro que lia para a minha pequena Sasha. Era mais ou menos assim: Quanto tempo dura o para sempre? — ele fez uma pequena pausa.

— Às vezes dura um segundo — Milo completou a frase que soou como uma canção e trouxe uma cena esquecida até então. Um momento que tinha sido bloqueado pelo calor da batalha e o trauma pós-guerra.

~ Início Flash Back 3 ~

— Camus, você mal terminou o treinamento do seu pupilo e ele está vindo lutar contra nós e contra Atena -Milo falava olhando o aquariano que estava ao seu lado no templo de escorpião.

— Eu sei disso, Milo, mas tem segredos deste lugar que não serei abusado de lhe contar e que te deixariam de cabelos em pé... Bem mais do que pensar que meu pupilo está contra nós ou contra Atena. — Camus olhava para a entrada do santuário, como se esperasse algo aparecer por lá.

— Vai proteger o pirralho, mesmo sendo um traidor? Por acaso adquiriu algum amor por ele?

— Ele me traz muitas lembranças de você quando criança. Talvez tenha me apegado a ele, de uma maneira paterna.

— Está me comparando a ele? Por acaso quer me ofender? -se virou, parando na frente do aquariano

— Meu pupilo não é quem você pensa ser e farei de tudo para mostrar o quão forte ele é, assim como fiz contigo — Camus passou a mão pelo rosto tenso do escorpiano.

— Camus... -sua expressão suavizou com o toque frio

— Esqueça tudo que ouviu falar até agora e apenas use seu coração para sentir a verdade, Milo. É a penúltima coisa que te peço hoje...

— Penúltima? Por que penúltima? — não estava entendendo aquela conversa, mas sua curiosidade falou mais alto e sabia que Camus não ia se explicar naquele momento tenso — E qual é a última coisa?

— Isto... — Os dedos de Camus escorregaram pelo pescoço de Milo, parando na nuca e o segurando com firmeza, o loiro nem teve tempo de fechar os olhos.

Milo pode sentir os lábios macios do aquariano, não acreditando que estava recebendo um beijo daquele ser que amava de corpo e alma. Ao fechar os olhos para aproveitar aquele momento e poder aprofundar o beijo, ouviu o barulho do jatinho que trazia os tais inimigos. Camus se afastou do beijo.

Se o escorpiano pudesse voltar no tempo, teria derrubado o avião antes dele chegar ao santuário. Internamente estava odiando e xingando todos por terem interrompido aquele momento.

— Aonde vai, Camus? — vendo-o ir sentido contrário do 11º templo.

— Para a casa de Libra, terminar o treinamento de meu pupilo, antes da nossa luta real — Camus sorriu e continuou a descer as escadas.

~Fim do Flash Back 3~

— Pode ser breve igual o beijo de um beija-flor... — Milo toca os lábios com as pontas dos dedos e sorri.

O senhor que terminara de tocar a música, sorriu com aquele gesto do jovem ao seu lado.

— Linda comparação — colocou as mãos enrugadas e frágeis sobre o ombro forte de Milo, fazendo assim, seu rosto ser fitado novamente — Percebo pelo seu olhar que você ainda não passou por todas as fases do luto.

— Você tem razão, meu caro -Milo fechou os olhos suspirando

— Se quer ouvir o conselho de um velho homem, não impeça nenhuma fase. Não tenha vergonha de chorar, sentir falta, ficar triste ou de precisar de um abraço. Não tenha medo de perdoar e muito menos de seguir em frente.

— Confesso que seguir em frente está sendo difícil -abriu os olhos que pareciam brilhar com as lágrimas que teimavam em cair

— Quando minha pequena se foi, eu também fiquei perdido, triste, com raiva de tudo e de todos e sem saber o que seria de mim. Na minha última ida ao hospital, para assinar uma papelada, o doutor que tratou da minha pequena, me puxou para conversar de coração aberto, como estamos fazendo agora. Ele me falou uma frase que me fez pensar muito -se concentrou para usar a mesma entonação que ouvira da primeira vez — A morte não é a grande perda na vida; a maior perda é o que morre dentro de nós enquanto vivemos -virou-se para ver o rosto do loiro que demonstrava que as palavras atingiram o lugar certo — Eu te afirmo: Não deixe de ser quem você é, pois Camus não gostaria que o fizesse e tenho certeza que ele está olhando por você, assim como minha pequena olha por mim.

— Obrigado, meu bom homem — Milo se levantou repentinamente, assustando o senhor e a si mesmo.

— Eu que agradeço a prosa, me fez passar o tempo de uma maneira muito agradável.

— Não é só por isso! — se colocou à sua frente, estendendo a mão para ele

— Então? — o velho fez o mesmo gesto com a mão, encostando na do cavaleiro e em seguida foi calorosamente cumprimentado

— Por me ajudar enxergar a verdade esquecida: que possuo uma grande felicidade guardada em meu coração, pois toda minha vida estive ao lado da pessoa que amo e que me ama, onde quer que ele esteja.

— Então é um homem de muita sorte, rapaz — o senhor se levantou também para adentrar seu casebre, mas antes colocou o bandolim e a partitura, cada um em uma das mãos de Milo. Um mudo presente para aquele que precisava da música para cicatrizar sua alma ferida — e eu também, pois cumpri minha missão aqui neste mundo.

Milo olhou para o horizonte onde o crepúsculo dava lugar ao céu estrelado, respirou fundo e fechou os olhos.

— Eu sou mesmo... eu não me lembrava, mas ele me reviveu naquele dia e me ensinou que não se pode deixar a vida passar por nossos dedos. Que não somos feitos apenas de lutas e armaduras — Milo falou baixo, mas mesmo que tivesse gritado não havia mais ninguém perto de si, apenas o instrumento de Camus em sua mão e a partitura em outra.

~ Retomada do Flash Back 1 ~

— Camus, de onde você busca otimismo para ser desse jeito? — a pergunta de Milo, que agora estava de pé, interrompeu a saída do cavaleiro que estava de costas e já atravessara a coluna caída para seguir de volta ao campo de treino.

— Das pequenas e curtas coisas da vida, Milo... Atena é nossa deusa, ela nos faz renascer toda vez que precisa lutar contra Hades. Desde sempre somos predestinados a sermos cavaleiros e protetores da humanidade, mas ela não nos priva de sermos humanos, correto? Se ela quisesse que fossemos apenas armas ou cavaleiros robóticos e nada mais, por que ela nos faria tão expostos e sentimentais? -virou-se para encará-lo

— Mas você sabe melhor do que eu que Atena não gosta e não permitiria armas ou robôs... Mas você mesmo diz que não devemos expor nossos sentimentos, pois eles são a nossa fraqueza para nosso inimigo.

— Sim, mas também pode ser a nossa força, depende de como você a usa... o que eu estou querendo dizer é: eu posso ser o cavaleiro de aquário desta época, mas eu também sou o ser humano Camus e existem algumas coisas que me fazem amar estar aqui, vivo, podendo conversar com você. Se não tivermos motivos para viver, além do nosso dever com nossa deusa, mesmo que eles sejam efêmeros, iremos apenas passar por estes anos, como múmias guerreiras, que estarão de corpo presente apenas quando algum inimigo aparecer e tivermos que proteger a Terra ou a própria deusa.

— E o que te faz amar estar nesta vida, Camus?

— Não é óbvio? — Camus sorriu de canto e antes que Milo pudesse continuar aquela conversa, completou -seus 30 minutos acabaram. Vá antes que o mestre te coloque de castigo para escrever os manuscritos para ele novamente. — viu o aquariano sair, com seus cabelos vermelhos batendo em seus ombros.

~ Fim da retomada do Flash Back 1~

Milo caminhava tão leve e alegre, como se a brisa que a noite trazia fizesse seu corpo se mover pelas ruas do vilarejo sem precisar mexer suas pernas. Sua energia havia sido renovada pelas lembranças e pela conversa que teve há alguns minutos.

Camus vivera pouco, mas vivera feliz por estar ao lado dele. Ele também vivera feliz e completo ao lado do ruivo. Agora continuaria lutando com os ensinamentos e os sentimentos que o aquariano lhe deixara. Conseguia perceber e lembrar de tantas coisas que ele lhe transmitia nas suas frases e nas suas atitudes.

Sabia que aquele amor tão grande não acabaria assim tão fácil e tão futilmente.

Quando fosse levado, seja para os Campos ou para o Inferno, iria atrás de seu amado, onde é que ele estivesse, iria encontrá-lo, abraçá-lo, beijá-lo e faria questão de o lembrar por toda a eternidade de seu sentimento, até reencarnarem novamente como cavaleiros de Atena. Deixava seus pensamentos fluírem enquanto admirava as constelações.

Assim que chegou em seu templo, olhou para sua armadura, que ressoou reconhecendo o cosmo do velho Milo. Ultimamente, estava tão triste e apagada como seu cavaleiro. Colocou o bandolim e a partitura ao lado da armadura. Mais uma vez esta reagiu, como se também ficasse feliz com aquele objeto por perto.

Tomou um banho relaxante e se deitou em sua cama que agora tinha o perfume Hugo Boss espalhado pelo lençol e travesseiro. Pensou no resumo do dia que teve, nas lembranças que a conversa trouxera e nos momentos que teve com Camus, não se cansaria de tê-lo em seus pensamentos.

— Eu sempre lutarei e serei forte como você me ensinou a ser. Não só por Atena, por mim e por você também! Todos os dias em que eu pude estar perto de você e me sentir completo e vivo, mesmo que tenham sido difíceis, valeram a pena... — antes de fechar os olhos e oferecer seus sonhos à Morfeu, olhou para a armadura brilhante, alegre e com vida e por fim, para o bandolim.

Dessa vez iria dormir, não com lágrimas teimosas, mas com um belo sorriso nos lábios. Pois muito maior que a saudade que sentia dele, era o amor puro e verdadeiro que recebera do aquariano, todos os dias de sua vida.

“Enquanto somos amados, somos compreendidos sem palavras”, A Peste, Albert Camus.

Notas finais
Obrigada por ler e me desculpe se tiver erros muito grotescos na fic. Abraços
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!