Beija eu
4 Sessão de fotos - Parte I

— Por que eu te deixo tão nervosa?
— Eu não to nervosa. — Disse e sorri marota, foi aí que ele resolveu aproximar o seu rosto do meu da mesma forma que o havia feito na praia.
— Gustavo? Ju? — Era a voz da Mel, aleluia! Virei-me e ela estava com sacolas de supermercado na mão, então, rapidamente saí do carro com a desculpa de ajudá-la com as coisas.
— Eu passo aqui na volta. — Ele repetiu e foi embora, sem ao menos me dar a chance de resposta.
Dividi as sacolas com a Mel e após entrarmos no prédio, ficamos iguais a duas estátuas esperando o elevador. Eu sabia que ela iria comentar algo, mas por incrível que pareça, estava demorando. Geralmente ela falava alguma coisa assim que estava sozinha comigo, mas desta vez, não. Talvez, achasse que o porteiro estava olhando e ouvindo.
Pegamos o elevador, ficamos totalmente sozinhas, mas ela ainda não estava comentando nada.
— Que estranho... Você em casa essa hora. — Resolvi eu mesma começar uma conversa normal até chegar ao ponto que eu estava indo pegar roupas para a sessão de fotos com o Gustavo e todo o resto vocês já sabem.
— Uma amiga me ligou pedindo pra tirar o meu serviço hoje, porque ela vai pra uma festa amanhã e precisa que alguém tire o dela. E esse alguém, serei eu.
— Mas amanhã é feriado.
— E alguém deixa de trabalhar só por causa do feriado?
— Eu vou deixar.
— Porque seu emprego é indiscutível. Mas me conte o que você está fazendo em casa essa hora?
— Vim pegar umas coisas.
— Que coisas?
— Umas roupas. — Falei tão baixinho que é capaz dela nem ter escutado.
— Ã?
— Umas roupas. — Desta vez, falei mais alto.
— Pra que?
Contei para ela toda a história enquanto entrávamos em casa e a minha previsão realmente estava certa, a Mel riu como uma criança. Achava tudo divertido, achava que o meu emprego e a minha vida eram piadas. Mas apesar de tudo, ela me ajudou a arrumar as roupas na bolsa e até me deu dicas de looks provocantes que eu definitivamente não iria usar.
Depois de me ajudar, ela riu mais um pouco da situação que tinha visto na portaria, sobre Gustavo no carro e etc. E me fez contar tudo detalhado. Eu sabia que ela iria comentar sobre isto também, desde o tempinho no elevador que o meu instinto estava desconfiado. E modéstia à parte, ele não estava errado porque ele nunca está errado.
Contei ainda, que não me sentia a vontade com ele me dando caronas, por isso eu não queria que ele passasse “aqui na volta” — imitei a fala dele e a Mel começou a rir novamente.
— Vocês dois são muito hilários, sério. — Ela parou de rir, respirou e só então falou.
— Ah é mesmo? — Forcei um sorriso, mas a Mel não percebeu — Espera... Meu celular tá tocando. Alô?
— To aqui embaixo.
— Como é que você conseguiu meu número garoto? — Perguntei espantada.
— Peguei com a Mônica. To aqui embaixo. — E desligou na minha cara.
— Vou ter que descer.
A Mel me levou até a portaria e deu um tchauzinho pro Gustavo como de costume, agora, estávamos a caminho da revista. Apesar de ter passado “a manhã inteira” entrando de loja em loja, ainda nem eram onze horas, mas o meu estômago já começava a dar os seus primeiros sinais.
O prédio no qual trabalhamos abriga outras micro-empresas, porque o aluguel é por sala ou por andar. No nosso caso, era por andar e era o último. Um belo dia, o elevador quebrou e eu cheguei morta lá em cima, tive que descansar pelo menos uns vinte minutos até voltar ao trabalho. Enfim.
Assim que chegamos, Gustavo disse-me que ia guardar o carro no estacionamento enquanto eu – esfomeada – fui direto para a cantina. O térreo do prédio era bastante aconchegante: tinha lanchonete, uma recepção bem organizada e alguns estofados para aguardamos atendimento ou simplesmente para um descanso.
— Quer o cardápio? — O rapaz da cantina ofereceu-me, gentilmente.
— Não prec...
— Claro que ela não quer cardápio. Aliás, ela não vai nem comer agora. — Fui surpreendida pela presença nada conveniente da Mônica. Além de interromper a minha fala, empurrou o cardápio para longe — Você enlouqueceu? Daqui a trinta minutos você tem uma sessão de fotos pra fazer e ainda sim, está pensando em comida?
— Claro que eu to pensando em comida. Como é que você quer que eu me mantenha de pé pra fazer as fotos?
— Come depois Juliana. Vocês ainda têm que trocar de roupa e... Onde é que está o Gustavo? Sumiu? Foi comer também?
— Calma Mônica! — Arrisquei meu emprego merreca gritando com a chefe — O Gustavo foi guardar o carro no estacionamento e eu tava morrendo de fome, aliás, ainda estou, por isso eu achei que não ia ter problema vir comer alguma coisa rapidinho.
— Tem todo o problema do mundo! Quer ser uma modelo fora de forma?
— Mas eu não sou modelo. Sou só uma jornalista estagiária!
— Esqueça. Daqui a trinta minutos você será uma linda modelo.
Gustavo apareceu e Mônica começou a gritar com ele também, perguntando por que ele havia demorado tanto para guardar o carro etc. Fomos direto para o elevador e o meu estômago roncava a cada passinho que eu dava. Mônica não estava andando, estava correndo, e nós dois estávamos enfrentando dificuldades para acompanhá-la.
Não imaginei que ela fosse levar tão a sério essa história da sessão de fotos. Percebemos claramente que ela quer surpreender o público com uma matéria desse jeito, mas ninguém foi capaz de imaginar que ela não iria nem ao menos nos deixar comer para não ficar “fora de forma”.
Quando chegamos ao nosso andar, Mônica me mandou para uma sala e Gustavo para outra para que pudéssemos nos trocar com bastante espaço e privacidade. Alice veio olhar as minhas roupas e me ajudar a escolher a primeira para vestir. Ela disse que eu ficaria bem de vermelho, porque era a cor da paixão. Até me arranjou um batom cujo nome era red provocante.
Mônica arranjou alguém que ajeitasse o meu cabelo e alguém para passar as nossas roupas, minhas e do Gustavo, no ferro. Agora, até eu estava começando a me sentir como uma modelo de verdade.
— Ju, fecha o olho.
Senti e ouvi quando a moça que estava ajeitando meu cabelo e minha maquiagem pôs um spray em mim. Talvez fosse um fixador.
— Ju, abre o olho. — Abri e dei de cara com uma Juliana com cabelos de princesa, mas um rosto de mulher, bem maquiado, bem provocante, assim como o batom, e de certa forma, bem... Lindo.
Nunca na minha vida eu fui capaz de ter uma manhã, tarde ou noite de beleza. Quando pequena, não me maquiava. Jovem, raramente ia a festas. E agora que estou na fase meio jovem quase adulta, tenho que trabalhar, estudar e me esforçar para ser alguém melhor. Mas, se todas as mulheres soubessem o quão maravilhoso é ter alguém específico para cuidar de cada parte do seu corpo, fariam isso todos os dias, mesmo que não houvesse qualquer motivo aparente para tal.
Troquei de roupa, olhei-me uma última vez no espelho e me achei extremamente linda demais para ficar dentro daquela sala. Saí junto com Alice e Mônica e quando levantei o rosto, pude ver alguém tão bonito quanto eu no final do corredor: Gustavo.
Andamos em direção ao outro e não paramos de nos olhar um minuto se quer. Ele me olhou de cima abaixo, e eu fiz a mesma coisa com ele. Olhei cada detalhe de sua roupa. Ele estava usando uma calça jeans bem escura, sapato social e um blazer preto, também usava uma camisa branca e abotoada por dentro. Não era um homem qualquer, não era o homem com o qual eu implicava todos os dias por motivos variados, também não era o homem meio meninão que me beijou na praia. Pareciam ter colocado alguém muito diferente no lugar dele.
Paramos bem no meio do corredor e mais uma vez ficamos nos olhando. Todo o caminho parecia não ter sido suficiente para que um fitasse o outro por completo.
— Você tá linda. — Ele sussurrou e rapidamente, pude sentir o meu rosto corar, talvez estivesse mais vermelho que o próprio batom, ou até mesmo o vestido. Olhei para baixo e sorri disfarçadamente.
— Vamos? — Mônica nos encaminhou até a sala que iríamos fazer as fotos e lá dentro, o fotógrafo nos esperava sorridente. Gustavo e eu entramos primeiro, Mônica e Alice depois.
— Vocês se posicionam ali. — Ele apontou para nós dois — E vocês duas ali, quietinhas! — Depois sorriu para as meninas.
O fotógrafo nos mandou fazer várias poses, ficar de vários jeitos diferentes, nos fez parecer um casal apaixonado e logo em seguida, um casal que não suportava nem mesmo a respiração do outro. Sem ao menos conhecer a nossa história, ele nos fez interpretar muitas coisas ao mesmo tempo.
— Agora eu quero um casal no início do namoro...
— E como é que faz isso? — Gustavo perguntou despretensiosamente.
— Você a pega pela cintura e depois, dão ao menos um selinho. Enquanto vocês fazem isso, eu vou fotografando como se fosse uma sequência.
E assim, Gustavo o fez. Pegou-me pela cintura de uma forma selvagem, mas ao mesmo tempo, carinhosa. Juntou nossos rostos e brincou com as nossas bocas como havia feito na praia, foi aí que eu percebi que ele procurava sempre repetir o que fez naquele domingo, exatamente do mesmo jeito, como uma forma de não me deixar esquecer o que aconteceu. Mais especificamente, não me deixar esquecer o nosso beijo.
Involuntariamente, pus as duas mãos no corpo dele, pronta para empurrá-lo e resistir ao beijo.
— Você não tá cumprindo com o que o fotógrafo pediu. — Ele sussurrou bem perto de mim conseguindo com que meu corpo estremecesse.
Foi aí que as minhas mãos descansaram, mas ainda no corpo dele. Sua boca novamente se aproximou da minha e automaticamente, fechei meus olhos pedindo para que ele me beijasse, pedindo pra que ele me invadisse, pedindo pra que ele provasse o que de melhor eu poderia lhe oferecer no momento.
Então ele me beijou calmo, sereno, muito diferente da primeira vez. Me invadiu. Provou. E continuou.
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