Beija eu

1 First Kiss


Nossa, mas hoje já é domingo?

Amanhã volta toda a rotina chata da semana inteira, como por exemplo: o Gustavo exibindo seu lado garanhão para cada rabo de saia que passa por perto, a Alice falando que não faz o que gosta e que preferia ter seguido outra carreira. Ou melhor: uma chefa carrancuda que pede matérias impossíveis de serem escritas por três estagiários, sendo dois meio avoados.

Perdão, você ainda não sabe quem eu sou! Meu nome é Juliana, tenho 19 anos e estagio em uma das revistas menos conhecidas do país: Eveiza. É claro que eu não estou amando de fato o meu trabalho, mas também, não estou judiando dele como a Alice. Independente de está onde eu queira, procuro me dedicar ao máximo e colocar as minhas responsabilidades acima de tudo. Ao contrário dos meus colegas de trabalho, que já me renderam boas noites de stress, além de manhãs com excelentes olheiras.

Divido o apartamento com a Melissa, mais conhecida por Mel, que é como eu a chamo. Somos amigas desde os tempos de colégio e como a minha família mora em outra cidade, eu vivo aqui com ela. Não é querendo fazer inveja, mas a Mel tem boas mãos para a cozinha, então ela me proporciona algumas felicidades quando o trabalho me proporciona o contrário.

— Acredita que a preguiça da segunda-feira já começou a me atacar? — Falei, quando ainda eram 8:10 da manhã.

— Mas já? Não acredito que você não está nem um pouco ansiosa pra encontrar com o Gustavo, dar um abraço bem apertado nele... — Sentiu o deboche? Porque eu senti.

— Penso nele e fico com dez vezes mais preguiça.

— Então você admite que pensa nele? — Mel abriu um sorriso que até os dentistas iriam gostar.

— Ah, faça-me o favor. Vou me trocar e sabe pra onde a gente vai?

— Pra onde? — Ela se mostrou empolgada e curiosa.

— Praia!

Nada como um domingão, solzão, praião e mulherão, que modéstia à parte, me tornei desde que voltei a frequentar a academia. Mel foi arrumar as nossas coisas enquanto eu estava trocando de roupa. E quando ela finalmente foi trocar de roupa, eu acrescentei algumas coisas à bolsa que iríamos levar. Comemos alguma coisa e dentro de minutos, estávamos numa praia maravilhosa, aproveitando o descanso que só um final de semana pode nos oferecer.

Estávamos as duas torcendo para não encontrar ninguém conhecido. Eu, porque não queria nem me lembrar de trabalho e a Mel, porque estava se achando “gorda demais”. Dei um mergulho e tive a melhor sensação de todos os tempos, foi aí que eu percebi o quanto a água me fazia bem. Voltei pra areia e pelo combinado, era a vez da Mel mergulhar, mas ela não quis.

— Vim só pra pegar um bronze. — Rapidamente ela pôs o óculos de sol e seu chapéu elegante.

— Ora, ora! Quem eu acabei encontrando. — Essa voz não podia ser verdade no meu domingo de paz. Olhei pra Mel e ela estava sorrindo com a presença daquele ser, pra variar.

— A minha educação exige que eu te cumprimente, então... Bom dia, Gustavo.

— Só assim pra você falar diretamente comigo. — Ele sorriu e continuou — Bom dia, Juliana. Oi Melissa! — Ele acenou para ela, certamente, os dois estavam de complô contra a minha pessoa.

— Oi Gustavo. — Mel sorriu de volta e depois olhou pra mim, como se dissesse “estou na torcida”. É, porque eu não sei se vocês sabem, mas a minha querida amiga e parceira de apê, só falta criar um fã clube e confeccionar uma plaquinha escrito JuGus com um coraçãozinho do lado. [Entendeu? JuGus... Juliana, Gustavo].

— Você já tá indo embora? — Perguntei com um sorriso de canto de boca.

— Não, eu acabei de chegar. — Ele sorriu de uma forma provocante.

— Ah. — A minha decepção ficou clara neste simples “Ah”. E não fosse o bastante ele ter acabado de chegar, a querida Mel – novamente em ação – convidou ele pra ficar conosco, “jogando conversa fora, aproveitando o sol”. Talvez ela estivesse se vingando de mim, porque na semana passada eu implorei pra que ela fizesse uma lasanha deliciosa, mas acabei saindo pra jantar com o pessoal do trabalho. Só que, eu não podia imaginar que a Melzinha fosse tão vingativa, afinal, eu pedi mil desculpas.

Enfim, o garanhão aceitou ficar junto de nós e cada palavra que ele falava, diminuía um ponto da minha paciência. É extremamente incrível a capacidade que esse nobre rapaz tem de me causar raiva, principalmente quando ele e a minha querida amiga estão juntos. Mas agora eu tenho a comprovação! A Mel realmente estava se vingando de mim. ELA E O GUSTAVO COMEÇARAM A FALAR DE TRABALHO, mais especificamente, do MEU trabalho.

— É demais pra mim, eu vou voltar pra água. — Saí ao som de risadas, e ao longe, pude ouvir ELE me chamando. Apressei o passo, mas quando cheguei na água, meu ritmo diminuiu graças à correnteza e ele conseguiu me alcançar.

— Vai fugir de mim pra sempre?

— Sempre que eu tiver oportunidade. — Virei para responder e acabei dando de cara com um Gustavo com o corpo quase colado ao meu, sem camisa e com o cabelo bagunçado.

— Por que você não gosta de mim? — Ele ficou sério de repente.

— Porque não.

— E por que não?

— Porque... — Foi impossível manter a concentração com aquele tanquinho bem na minha frente — Não. — Finalizei com a mesma resposta por não conseguir pensar em nada melhor. Virei novamente para poder mergulhar e senti quando ele me puxou rápido pela cintura. Nossos corpos estavam definitivamente colados agora. Minha respiração ficou ofegante e eu pude perceber que ele estava totalmente diferente de mim. Parecia mais relaxado, mais tranquilo.

— “Porque não” não é resposta. — Ele sussurrou em meu ouvido e depois sorriu sacana — Por que você não gosta de mim? — Depois repetiu a pergunta e me virou, fazendo com que eu olhasse bem nos seus olhos. O sorriso sacana sumiu e ele ficou sério de novo, parecia mais bonito assim, mais... Homem.

— Porque você... — De novo a minha concentração tava bem longe.

— Eu o que? — Ele aproximou o rosto do meu e a Juliana revoltada de alguns minutos atrás, não teve qualquer reação.

— Você...

— Eu...? — O rosto dele ficou mais próximo ao meu. Ele brincava com as nossas bocas e mais uma vez, eu fiquei sem reação. Fechei os olhos e ele me beijou. Era uma boca desconhecida que eu precisava provar, precisava sentir. O nosso beijo foi ficando selvagem aos poucos e depois acalmou pela simples falta de ar.

— Me solta! — Empurrei-o.

— Não to te prendendo.

— Tava me segurando...

— Tava te agarrando. — Mais uma vez, Gustavo sorriu de uma forma provocante — E você tava gostando.

— Quem disse?

— Ninguém disse, eu vi.

— Você tá muito enganado. ARGH! — Saí da água batendo os pés e pude ver que ele ficou rindo de mim. Na areia, mais risos. Discretos, porém, risos! E logo da Mel! Vesti a roupa por cima do biquíni, de qualquer jeito e com muita raiva.

— O que aconteceu?

— Aconteceu que eu estou indo pra casa e se você quiser ficar aí, boa sorte.

— Mas você tava tão animada pra vir à praia.

— Estava! Você disse bem. Até aquele garoto... — Apontei para o Gustavo ainda sem camisa, mas desta vez, com os cabelos molhados, que logo se aproximava de mim —... Estragar o meu domingo!

Novamente, saí batendo os pés. A Mel veio atrás de mim, mas até chegarmos em casa, ela não disse se quer uma palavra. Entrei e fui direto para o chuveiro, com as lembranças à flor da pele. Ainda era possível sentir a boca dele na minha já que estava tudo tão recente.

Coloquei um roupão e fui para o quarto escolher alguma coisa pra vestir, mas em vez disso, fiquei sentada na cama olhando pro nada e novamente, senti a boca dele na minha. Pus a mão nos lábios e quase fui flagrada pela Mel, que simplesmente entrou sem ao menos bater na porta.

— Aconteceu alguma coisa lá na praia? — Ela me percebeu mais calma e resolveu sentar-se ao meu lado para investigar.

— Ele me beijou.

— E você gostou?

— Claro que não.

— Certeza? — Mel conseguiu fazer com que eu me calasse por um tempo e me fez pensar: ele não pode sair beijando todo mundo só porque ele é lindo, é popular, é lindo, envolvente, tem um corpo em forma e é lindo. Não pode!

— Absoluta. — Finalizei para que não restasse qualquer dúvida ou ainda, torcidas.

Mel foi preparar o nosso almoço enquanto eu trocava de roupa e por um momento, me arrependi amargamente de ter voltado pra casa. Apesar da presença nada agradável do Gustavo, eu podia ter descansado nem que fosse um pouquinho. Até o próximo final de semana, serão cinco dias de algum stress no meio.

Parei para pensar e percebi que era o nosso primeiro beijo, mas não era a primeira tentativa dele.

~ Flashback On ~

— Dá pra se concentrar ou tá difícil, Gustavo?

— Nossa! Quanto stress. Vem cá que eu te ajudo a relaxar. — Ele me puxou pela cintura e a minha raiva, o empurrou para longe.

— Se você não quer trabalhar, então não me atrapalha.

— Mas o que eu vou fazer não vai te atrapalhar, eu juro. — Novamente ele puxou o meu corpo para perto de si e mais uma vez, foi empurrado.

— Cresce garoto!

~ Flashback Off ~

— Juliana? JULIANA? — Não sei há quanto tempo a Mel tava me chamando, mas me surpreendi com os gritos dela.

— Desculpa, eu tava desconcentrada.

— Eu percebi. Tava pensando no beijo?

— Não, claro que não. — Menti — Tava pensando numa matéria que a gente vai ter que fazer pra revista amanhã.

— Revista? Hum... Sei. — Ela balançou a cabeça de um modo irônico e depois sorriu. Era quase impossível mentir pra Mel, a gente já tinha anos de amizade. Mesmo assim, prossegui com a minha história.

— É. Pra revista. Você acha que eu to mentindo?

— De forma alguma! — Ela fingiu está ofendida e fez uma pausa — Eu tenho certeza.

— Que ridícula! — Joguei a primeira coisa que estava perto de mim, nela. E por pura sorte, era só um travesseiro.

Almoçamos e passamos a tarde inteira numa maratona de filmes e pipoca. Assistimos Os delírios de consumo de Becky Bloom e A fantástica fábrica de chocolate que em parte, nos deixou com muita fome. A essa altura, o nosso domingo já estava chegando ao fim e apesar dos acontecimentos da manhã, o resto não foi de todo tão ruim.

Tomei um banho e me preparei para dormir. A Mel fez o mesmo. Nossos quartos ficavam de frente um pro outro, então isso facilitava algumas das nossas conversas no meio da noite, já que dormíamos com as portas abertas. Apesar disso, ela preferiu vir diretamente no meu quarto.

— Posso te fazer uma pergunta antes da gente ir dormir?

— Fala.

— Como vai ser amanhã, no trabalho?

— Como assim?

— Você e o Gustavo... — Joguei um travesseiro nela, pela segunda vez. Só que, esse não era tão leve quanto o primeiro.

O pior é que a Mel tinha toda razão. Eu teria que rezar pra que minhas bochechas não corassem quando ele passasse perto de mim, caso contrário, eu seria totalmente denunciada por mim mesma. E teria que rezar mais ainda pra que ele não comentasse nada sobre o que aconteceu hoje.

O que acontece na praia, fica na praia.

Notas finais
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