Behind the Story
5 Capítulo V – De Volta Para O Futuro
Notas iniciais

"Open your mind, believe it’s going to come to
Keep romance alive and hope she’s going to tell you
She’s got you high and you don’t even know yet
The sun’s in the sky, it makes for happy endings
You can’t deny you want a happy ending"
She’s Got You High, Mumm-Ra
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Por muito tempo, não se ouviu nada além da suave voz do fantasma de uma dos grandes fundadores de Hogwarts. Os quatro jovens ocupavam posições diferentes no dormitório, mas tinham um ponto em comum: estavam tão submersos na história que não conseguiam desviar o olhar, mesmo após Helga ter parado de narrar.
— Uau... — exclamou Scorpius, extremamente admirado. — Só... Uau.
— Pobre Salazar. Deve ter sido terrível ficar órfão dessa forma. — disse Dominique, com o rosto apoiado sobre as mãos.
— Eu não entendo. — afirmou Rose, andando inquietamente de um lado para o outro no quarto. — Benjamin, Cassandra, Jocelyn, Helena. Já perdi a conta de quantas vezes reli "Hogwarts: Uma História" e nunca nem ouvi falar sobre nenhuma dessas pessoas. Por que nada disso está registrado nos livros?
— Historiadores não querem sentimentos, minha querida, isso é coisa para autor de ficção. Ninguém quer saber sobre o Salazar das minhas lembranças, o ser humano Salazar. Não, eles querem grandiosidade e não os culpo por isso. — suspirou Helga, parecendo perdida em pensamentos. — Está realmente tarde. O que acham de continuarmos nossa conversa amanhã?
— Amanhã é sexta-feira, temos jogo contra a Grifinória. É no fim da tarde, então, após as aulas da manhã, o time vai ter maratona de treino. Albus e eu ficaremos meio ocupados. — disse Scorpius.
— Podemos voltar no sábado. — sugeriu Rose.
— Nah, o segundo e o primeiro ano lotam o Salão Comunal. Sem chance de vocês entrarem no meu dormitório sem que ninguém perceba. — descartou Dominique. — Tem que ser no domingo.
— Não há pressa. Estarei esperando por vocês aqui. Agora, se me dão licença... — pediu Helga tranquilamente, logo antes de seu espectro desaparecer por completo.
Todos permaneceram quietos por vários momentos, até que uma gargalhada alta cortou o ambiente.
— Essa foi a melhor ideia que Scorpius já teve na vida! — exclamou Albus.
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Os três amigos haviam combinado de voltar junto para seus respectivos dormitórios, por isso Albus e Rose esperavam Scorpius do lado de fora do Salão Comunal, uma vez que o menino esquecera sua mochila e precisaria voltar para pegar. Rose aproveitou a brecha para tirar a dúvida que martelava em sua cabeça desde que Dominique insistira em usar os cupcakes como oferenda. Albus narrou toda a história e, ao fim dela, a garota não pôde segurar o riso.
— Fala sério, Al, estava na cara que a garota tinha segundas intenções com aquilo.
— Desculpa se não tenho a sagacidade das mulheres Weasley. — ironizou Albus. — Sinceramente? Ainda não vejo motivos para Martha ter feito isso, ela nunca me pareceu psicótica.
— Ela gosta de você, dã! — riu Rose. — Lerdo...
— Ah, você está me chamando de lerdo?! — provocou Albus, virando seu corpo até que ficasse de frente para a prima. — Você, espertinha, não perceberia que um cara está a fim de você nem se ele desse todos os sinais do mundo.
— C-claro que eu perceberia! — gaguejou Rose, mesmo sabendo que não era verdade.
— Essa expressão que você faz quando sabe que está errada é simplesmente genial. — Albus soltou uma risada longa, pois sabia que havia provado seu ponto.
— Você é um babacão, Potter.
— Eu também te amo, Rô. — Albus continuou rindo enquanto passava os braços pela cintura da ruiva, puxando-a para um abraço de urso.
Permaneceram dessa forma até escutarem um pigarrear alto. Scorpius Malfoy tinha a mochila desleixadamente jogada sobre o ombro, mas não fazia qualquer menção de movimento. Apenas continuava observando a cena com uma expressão indecifrável no rosto.
— Ahm... Eu... — Ele franziu o cenho como se tivesse se esquecido do que queria falar, mas logo se recompôs. — Vou ter que voltar direto para o nosso dormitório, Albus. Vejo vocês depois.
Antes que qualquer um tivesse a chance de dizer algo, o loiro saiu andando a passos tão apressados que, em poucos segundos, já não era mais possível enxergá-lo no corredor.
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Era uma manhã de sexta-feira particularmente bonita, mas Scorpius tinha despertado com uma vontade quase nula de fazer qualquer coisa – entre elas, ter qualquer tipo de conversa. Acordou mais cedo para evitar seus colegas de quarto e pulou o café da manhã para evitar as pessoas, em geral. Não havia conseguido acalmar seus pensamentos por tempo suficiente para pegar no sono e, como consequência, havia tido uma péssima noite revirando-se debaixo do lençol.
Ficou na biblioteca até que o relógio marcou a hora da aula de Poções e ele precisou parar de se esconder. Quando chegou à sala, a aula já havia começado e a maior parte das duplas já havia sido formada. Por alguns instantes, apavorou-se com a ideia de acabar tendo que trabalhar com algum idiota qualquer, mas logo escutou alguém chamar seu nome e, olhando por cima do ombro, avistou Luke Zabini no fundo da sala indicando uma cadeira vaga ao seu lado.
— Valeu, cara. — murmurou.
Quando o Prof. Slughorn começou a explicar os efeitos da poção Wiggenweld, que fariam naquela aula, o Malfoy simplesmente bufou desdenhoso e deixou de prestar atenção instantaneamente. Ele já havia preparado aquela poção dezenas de vezes enquanto estudava para os N.O.M.’s e, mesmo que não houvesse, ele sabia que seu preparo era extremamente fácil. Não estava com saco para escutar algo que já sabia.
— Malfoy. — chamou Zabini, baixinho.
Aparentemente, Scorpius não era o único distraído naquela aula.
— Hn?
— Você e o Potter brigaram, por acaso?
— Não. Por que a pergunta? — Scorpius franziu o cenho.
— Ele é a minha dupla nessa aula, assim como você é a da Weasley. — apontou para um lugar na frente da sala. — Mas ele está lá na frente com ela enquanto você está aqui do meu lado com essa cara de cu. Sem ofensas.
— Não ofendeu. — murmurou Scorpius, sem se importar muito com o Zabini.
O olhar de Scorpius seguiu a direção do indicador de Zabini e ele constatou que era verdade. Rose parecia extremamente concentrada no discurso do docente e Albus – que ocupava o lugar que costumava ser o seu— dava a impressão de que cairia no sono a qualquer momento. Ele até tentou desviar o olhar rapidamente, mas a imagem continuou em sua mente e as mesmas reações involuntárias que teve na noite anterior, ao vê-los abraçados, tomaram conta de seu corpo novamente: o desconforto estranho, o formigamento incomum e, especialmente, o impulso de ir até lá e tomar o lugar do amigo.
Scorpius sempre teve orgulho de se considerar uma pessoa racional e controlada, por isso, aquela sensação que queimava em seu peito era algo tão insuportável quanto inevitável. Ele não era ingênuo, sabia que a verdadeira solução para seu sofrimento implicava admitir sentimentos que possivelmente colocariam em risco sua amizade com a Weasley. Só que isso era algo que ele simplesmente não estava disposto a fazer. Então, passou a lidar com seu problema da única outra forma que sabia: fugindo dele.
— Olha, você sabe que eu detesto me meter na vida alheia, mas eu ainda sou o capitão do time. Temos um jogo importante hoje e eu não quero rixas internas. Especialmente, não entre meu apanhador e meu batedor. Se tiver algum problema entre vocês, se resolvam até a hora do jogo ou nenhum de vocês vai entrar em campo. Fui claro?
— Como água. — respondeu Malfoy, voltando-se para os ingredientes e começando o preparo da poção.
Como o loiro havia previsto, a poção ficou pronta rapidamente. Assim que a aula chegou ao fim, Luke prontificou-se a levar a amostra do caldeirão até a mesa do professor, já que o outro havia feito a maior parte do trabalho (coisa que garantiu ao Malfoy um convite para substituir Potter permanentemente como sua dupla), e Scorpius tratou de arrumar das coisas e sair dali o mais rápido possível.
— EI! — pôde ouvir alguém gritando às suas costas quando já estava virando o corredor. — NÃO TÃO RÁPIDO, MOCINHO!
Claro que era o Albus. Quem mais ficaria tão à vontade em berrar a plenos pulmões no meio de um corredor?
— Você saiu todo estranho ontem à noite e já estava roncando quando cheguei ao dormitório. — começou Albus, receoso. — Aconteceu alguma coisa?
— Não, está tudo bem. Eu só tive uma daquelas ondas de mal humor.
— Sabe que pode falar comigo sobre qualquer coisa. — Albus tinha um tom anormalmente sério.
Scorpius sorriu pela primeira vez naquele dia.
— Zabini está cagando nas calças por causa do jogo.
Albus soltou uma risada.
— É melhor não nos atrasarmos para o treino, então. — disse. — Mas, só para fechar o assunto, se realmente está tudo bem, você devia falar com a Rose. Ela ficou preocupada ontem à noite, pensando ter feito algo que te chateou e estava tão desesperada por achar que você não viria à aula hoje que até fez dupla comigo.
— Sério?! — questionou Scorpius, verdadeiramente surpreso.
— Como se ela fosse me aceitar como parceiro sob outras circunstâncias... — bufou Albus.
Scorpius, falhando miseravelmente na tentativa de não se sentir satisfeito pelo comentário, mudou de assunto:
— Aliás, que história foi aquela com Dominique e os cupcakes?
Os dois continuaram a conversar enquanto caminhavam completamente alheios ao fato de que uma terceira pessoa escutara sua conversa. Luke Zabini carregava um sorriso discreto nos lábios, pois finalmente tinha entendido tudo. Apesar de não admitir em voz alta, tinha muita consideração pelo colega de time e não gostava de vê-lo continuar fazendo papel de idiota, por isso, decidiu que iria ajudar a resolver aquela situação e sabia exatamente a quem recorrer.
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Lily Luna Potter já havia se xingado mentalmente zilhões de vezes. Aquilo sempre acontecia: ela procrastinava durante toda a semana e, quando a sexta-feira chegava, precisava passar o dia inteiro na biblioteca para resolver todos os deveres atrasados, do contrário, não poderia ir ao vilarejo Hogsmead no final de semana. Soltou um gritinho de ânimo quando finalizou a dissertação de Transfiguração, mas foi só dar uma olhada na considerável pilha que ainda faltava para ser resolvida que sua animação sumiu.
— Baixinha.
Revirou os olhos. Só havia um aluno em Hogwarts que a chamava assim e, mesmo que todos a chamassem assim, seria impossível não reconhecer a voz de Luke Zabini. Era só o que lhe faltava! Estava pronta para mandá-lo dar um fora, mas acabou descartando a ideia, por saber que aquilo só aumentaria a disposição dele em ficar ali, sendo inconveniente.
— Que surpresa te ver por aqui, Zabini. Achei que não sabia ler.
— Você fica quase bonitinha com o cabelo preso assim, sabia? — rebateu a provocação, bagunçando o rabo-de-cavalo que prendia seu cabelo.
— Estou bem ocupada aqui, se é que ainda não percebeu. Então, vá direto ao ponto ou me deixe em paz.
— Eu preciso da sua ajuda — disse Luke, sorrindo largamente.
— Você e o mundo. — resmungou Lily. — E eu com isso?
— Ah, acredite em mim, você vai querer fazer parte disso.
★
Mais tarde, naquela noite, o nível de animação da festa no Salão Comunal da Sonserina era imensurável. Ganhar uma partida era sempre divertido, mas ganhar uma partida contra a Grifinória trazia consigo uma sensação inigualável de dever cumprido. Apesar disso, Scorpius ainda se sentia estranhamente ansioso, coisa que não passou despercebida pelo capitão do time.
— Presumo que ainda não tenha conversado com a Weasley. — comentou.
— Como você...?!
— Não importa, eu só sei. — Zabini fez um gesto de mão, como se pedisse para que o menino descartasse a ideia. — Você deveria, aposto que te ajudaria a dormir melhor à noite.
— Sei lá, eu a procurei o dia inteiro e nada. Talvez seja o destino dizendo para eu ficar na minha.
— O destino deve estar indeciso, então, porque, se meus olhos não me enganam, aquela ali com a camisa do time da Sonserina é sua amiguinha.
O loiro olhou na direção para qual Zabini havia apontado e não pôde evitar um suspiro com a visão de Rose Weasley de costas, pois, apesar de seus cabelos ruivos caírem soltos pelas costas, eles paravam exatamente no ponto de sua camisa verde que trazia escrita, em garrafais letras de prata, uma única palavra: “Mafoy”. Repirou fundo, recuperando o controle sobre seu corpo e chamou por seu nome. O sorriso receoso que ela abriu quando pôs os olhos sobre ele fez com que se sentisse culpado.
— Você veio. — disse Scorpius.
— Eu sempre venho.
— Olha... Eu conversei com Albus e realmente preciso te pedir desculpar por, você sabe, ontem à noite. Eu sou um idiota, mas nunca tive a intenção de te preocupar, sério.
— Você não tem pelo que se desculpar comigo. Foi uma atitude meio atípica, por isso fiquei preocupada. Tem certeza de que não aconteceu nada?
— Absoluta. — afirmou e, então, deixou escapar um sorriso torto. — Cervejas amanteigadas por minha conta amanhã, ginger?
— Normalmente eu aceitaria, mas... — Rose não teve a chance de terminar sua frase, pois uma voz masculina desconhecida a Scorpius o fez por ela:
— Lo siento, amigo. Rosa vai sair comigo amanhã.
“Quem diabos é esse cara?”, pensou Scorpius. De imediato, detestou absolutamente tudo a respeito dele. Detestou a pele bronzeada demais para alguém que morava na Inglaterra, detestou aquele sorriso débil claramente carregado de deboche e detestou como o nome de Rose soou naquele pretensioso sotaque hispânico.
— Scorp, esse é Olivio Gomez, da Corvinal. Olivio, este é Scorpius, o amigo de quem lhe falei.
— Prazer, cara. Ótimo jogo hoje à noite!
O rapaz estendeu a mão livre para cumprimenta-lo, mas Scorpius não fez nada além de encarar fixamente a outra mão que apertava possessivamente a cintura de sua amiga. Permaneceu imóvel até que o tal Olivio finalmente desistiu, recolhendo a mão estendida. Scorpius mal percebeu quando, acanhada, Rose despediu-se, puxando o rapaz consigo: ele estava preocupado demais com o que acontecia dentro de si.
O desconforto estranho.
O formigamento incomum.
E, especialmente, o impulso de ir até lá e tomar o lugar do babaca.
Eis o problema de ser um fugitivo: mais cedo ou mais tarde, a vida vai dar um jeito de te colocar em uma rua sem saída.
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