Behind the Story

1 Capítulo I – Genialidades


Notas iniciais
No gif do capítulo: Rose Weasley.

“Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia”

Hamlet, William Shakespeare

★

Quanto mais afrouxava a gravata azul, mais a sensação de sufoco aumentava. Não fazia calor, mas, mesmo assim, Rose Weasley sentia uma gota de suor deslizar pelo canto de seu rosto. Ela tamborilava os dedos em um ritmo frenético e impaciente, além de mal conseguir permanecer imóvel em seu assento por mais de alguns segundos. O pior de tudo: mal sabia por que seu corpo estava reagindo daquele jeito. Ele só estava alguns minutos atrasado, afinal.

— Ei, eu acho que você está superaquecendo. — sussurrou Scorpius, inclinando-se sobre a mesa para tentar encarar a amiga.

Ao ver que seu comentário não havia surtido nenhum efeito, Scorpius Malfoy soltou uma risadinha curta e pousou a mão sobre os dedos da amiga, findando a incômoda batucada e fazendo com que ela o encarasse. Uma estranha sensação de calmaria invadiu o corpo de Rose. O rapaz sorria gentilmente e seus olhos cinzentos transmitiam tranquilidade.

— O Albus disse que viria, ele já deve estar chegando. — disse Scorpius. — Apenas relaxe.

— Como eu posso relaxar sabendo que metade da minha nota em História da Magia depende de que o Albus chegue na hora certa? — Ela torceu o nariz quando pronunciou o nome do primo.

— Olha, eu conheço o cara melhor que ninguém e sei que ele pode não ser um exemplo de pontualidade... — Quando Rose abriu a boca para soltar uma piada maldosa sobre isso, ele levantou a mão direita, gesticulando para que ela o esperasse terminar. — Mas ele prometeu. Quando o Al quebrou uma promessa?

A menina permaneceu calada, cruzando os braços de forma irritadiça. Não porque não sabia a resposta (eis um fato sobre Rose Weasley: ela sempre sabia a resposta), mas porque não queria admiti-la em voz alta. Nunca. Ela olhou seu relógio de pulso mais uma vez. Faltavam cinco minutos para a aula. Bem menos tempo do que ele precisaria para chegar à sala, caso ainda não estivesse a caminho.

— Ok, você venceu, por enquanto. Vou relaxar. — disse Rose, mas então passou a encarar o Malfoy e acrescentou: — Mas se ele não chegar antes do Prof. Johnson, pode começar a pensar em quais flores vai encomendar para o enterro do seu amigo.

— Quanta agressividade, ginger. — ele provocou e, ao ver a expressão furiosa de Rose, soltou uma gargalhada. — Você fica fofa quando está zangada.

Rose desviou o olhar e tentou, disfarçadamente, ajeitar os cabelos ruivos de forma de escondessem o rubor em seu rosto. Ela já deveria ter passado dessa fase de se constranger com comentários desse tipo vindos de Scorpius, afinal, já havia superado sua paixão platônica por ele há anos (a Weasley se encantou no instante em que o viu na Plataforma 9¾ e caiu na real três anos, inúmeros potes de sorvete e duas namoradas irritantes depois). Contudo, havia algo de constrangedor na maneira com que ele fazia os comentários.

— Meus fãs, eu cheguei! — alguém berrou, estragando a quietude da sala.

Todas as cabeças se viraram, surpresas, para a porta da sala por onde entrava Albus Potter. Seus olhos verdes vasculharam a sala rapidamente em busca de seus amigos. Não demorou muito até encontrar seus amigos sentados em uma das mesas da primeira fileira. “Não sei qual dos dois me surpreende menos”, ele pensou, revirando os olhos e tratou de seguir para o local de uma vez.

— Olá, Rosie. — cumprimentou Albus, plantando um beijo rápido na bochecha da prima e, sem seguida, virou-se para Scorpius e acrescentou: — Fala aí, viado. — Socou com força o ombro de Scorpius, antes de ir sentar-se na cadeira vaga ao lado de Rose.

— Outch. — resmungou Scorpius, afagando o ombro. — Que porra de mão pesada, Albus.

— Sr. Malfoy. — Scorpius congelou ao reconhecer o dono da voz. — A sua sorte é que hoje eu vou passar um trabalho que vale metade da nota final e não tenho nenhuma vontade de revê-lo em minha classe no próximo ano, do contrário, eu mandaria o senhor e seu vocabulário esdrúxulo para fora da minha sala!

O Malfoy estava completamente vermelho, não de vergonha, mas de raiva. O Prof. Johnson nunca havia gostado dele e, depois de uma longa série de reclamações e xingamentos nas férias, sua mãe finalmente contou-lhe o verdadeiro motivo: eles tinham namorado por um longo período de tempo e estavam noivos, faltando apenas um mês para o casamento, quando Astoria Greengrass conheceu Draco Malfoy. A fenomenal semelhança entre pai e filho, parecia apenas reacender os piores sentimentos que um homem abandonado pode ter.

— Cuzão... — resmungou Scorpius fazendo com que o professor virasse irado (não no sentido bom da palavra) e praticamente berrasse para ele repetir o que havia acabado de dizer. Sem hesitar, Scorpius levantou a voz e, usando sua melhor expressão inocente, disse: — Perdão, Prof. Johnson. Foi o que eu disse: perdão.

Rose mordeu seus lábios e Albus comprimiu os dele, ambos evitando, com muita dificuldade, deixar a risada escapar. O Prof. Johnson pareceu extremamente confuso por alguns instantes, mas logo ajeitou seus trajes impecáveis e direcionou-se ao centro da sala, batendo palmas de forma que chamasse a atenção de todos os alunos.

— Como eu já havia disse aos senhores, esse trabalho de fim de ano vai valer metade de sua nota final e deverá ser feito em grupo. Os senhores já estão na reta final de seu sexto ano em Hogwarts e devo lhes alertar que, se acharam seus N.O.M.’s difíceis, nem sonham com o que lhes espera nos N.I.E.M.’s. Isso significa que, para que sejam concluam seus estudos com sucesso em Hogwarts, precisam ampliar ao máximo as suas fontes de informação. Precisam entender que o conhecimento vai muito além dos livros.

— O quê?! — guinchou Rose, soando bem mais alto do que pretendia. Quando o professor a olhou interrogativamente, esperando por uma explicação, ela se recompôs rapidamente — Eu... Desculpe... Quero dizer, como faremos uma pesquisa sem livros?

— Esse é o desafio, Srta. Weasley. — respondeu, abrindo um galante sorriso.

Albus e Scorpius trocaram olhares descrentes e bufaram. O motivo da simpatia do Prof. Johnson por Rose era ridiculamente óbvio para todos na sala, menos para Rose, que não tinha nenhuma noção do efeito que causava nos homens, em geral.

— Trouxe comigo uma lista de temas que serão sorteados na aula de hoje. Deverão desenvolver uma redação de, no mínimo, mil palavras acerca deles e, no final, dizer sua fonte. Eventualmente, talvez precisem fazer uso livros, os quais também devem ser listados, mas a originalidade será diretamente proporcional às suas notas. Experimentem, entrevistem, busquem. Enfim, essa parte está toda em suas mãos. Dúvidas?!

Quando a sala permaneceu em silêncio, o professor admitiu que todos tivessem entendido perfeitamente, mas a verdade é que eles estavam tão perplexos com a ideia inusitada que mal lhes ocorreu nenhuma resposta.

— Muito bem, então. Srta. Weasley quer fazer as honras? — O Prof. Johnson gesticulou para uma caixa em cima de sua mesa.

A menina hesitou por alguns instantes antes de começar a andar na direção da caixa, colocar a mão dentro dela e retirar um dos pedaços de pergaminho. Ela o leu cautelosamente e quando seu rosto se levantou, seus olhos azuis tinham um brilho desesperado. Conversou com o professor por alguns segundos, baixo demais para que os meninos (mesmo que estivessem na primeira fila) conseguissem ouvir. Quando se virou, parecia mais calma.

— Vamos logo, temos trabalho pela frente. — disse Rose para os meninos, enquanto pegava sua mochila e saía da sala com pressa.

★

— Rô... — chamou Albus — Assim, não quero interromper esse seu transe sinistro, mas será que a gente pode saber para onde está indo?

— Estamos quase lá — disse Rose, sem parar de andar.

— Ouviu, Scorp?! Quase “lá”, tranquilizador, não acha? — resmungou Albus — Estamos andando há tanto tempo que, até onde eu sei, “lá” pode ser a China, Rose.

— Para de resmungar, seu gordo. — retrucou Scorpius, com um sorriso. — Esse é o resultado desse seu estilo de vida sedentário.

— Jogo Quadribol toda semana e você deveria saber disso. Afinal, já estamos no mesmo time há alguns anos.

— Calem a boca, argh. — ordenou Rose, parando subitamente. — Estamos no subsolo agora. Achei que precisávamos de ajuda e resolvi contar tudo de uma vez só. Vocês não lembram o caminho até aqui, lembram?

— Dã, não. — disse Albus, revirando os olhos, como se fosse algo óbvio.

— Isso é ótimo, ela me mataria se fosse o contrário — disse Rose, apalpando a parede de do corredor de uma forma muito peculiar.

— “Ela”? — perguntou Scorpius, franzindo o cenho.

— Hipogrifo saltitante. — disse Rose, repentinamente.

— Mas que merda...? — Albus começou a falar, mas perdeu a fala quando as paredes de pedra começaram a se mover, formando uma passagem estreita.

— Essa é a Sala Comunal da Lufa-Lufa. Fica vazia em horário de aula. — disse Rose, entrando como se já tivesse feito aquilo milhares de vezes antes. — Vamos ver Dominique.

Os meninos adentraram o ambiente e não puderam evitar a onda de estranhamento ao compará-lo ao Salão da Sonserina. Na opinião de Albus, tudo ali era amarelo demais. As paredes, as poltronas, os tapetes. Tudo. As únicas coisas que salvavam os olhos do jovem Potter de uma overdose da cor eram as escuras paredes de madeira marrom e os raros pontos pretos na decoração. Um destes era o largo sofá onde Dominique, relaxadamente acomodada, parecia absorta lendo.

— Domi, precisamos da sua ajuda. — disse Rose — Acabamos de voltar de História da Magia e o Prof. Johnson passou isso de “pesquisa não-convencional”...

— Ah, também fiz isso ano passado. — interrompeu Dominique. — Qual é o tema de vocês? Acho que pouca coisa pode ser pior do que fazer “Vida e Morte de Albus Dumbledore” com James e Fred.

— Ótima pergunta, minha querida cunhada! — exclamou Albus teatralmente, jogando-se ao seu lado no sofá — Engraçado que estamos fazendo essa pergunta desde que saímos da sala.

— Cala a boca, Potter, já disse que queria contar de uma vez só — resmungou Rose e então, soltou um suspiro — Fundação de Hogwarts.

— Uau, legal. Para quê tanto show por isso? — perguntou Albus. — É só irmos até a biblioteca e... Ah, entendi.

— E o que vocês vão fazer? — Dominique olhava para Rose.

— É por isso que eu vim até você. — explicou. — Como fez a pesquisa para o seu tema?

— Nós fizemos entrevistas. Tipo, muitas entrevistas. — respondeu Dominique. — Começamos pela diretora McGonnagall, procuramos o pessoal aposentado que dava aulas naquela época, falamos com Aberforth e terminamos com os depoimentos do tio Harry, do tio Ron e da tia Hermione. Fred era um pesadelo fazendo perguntas, é claro, mas conseguimos coisas bem legais sobre o cara.

— É uma ótima ideia, mas não existe ninguém que tenha assistido a fundação de Hogwarts. — disse Rose soltando um suspiro pesado.

— É claro que existe. — disse Scorpius, manifestando-se pela primeira vez.

— Oi?! — questionou Rose, mas então se deu conta do erro na frase. — Desculpe, quero dizer, não existe ninguém ainda vivo que tenha assistido.

— Não precisamos de alguém vivo. — o Malfoy retrucou, parecendo pensativo.

— Você cheirou pó de flu, cara? — questionou Albus.

— O que você quer dizer com isso? — perguntou Dominique com curiosidade cintilando em seus olhos azuis.

— Exatamente o que eu disse: não precisamos de alguém vivo. — repetiu, dando ênfase à palavra “vivo”.

— Um fantasma? — Rose chutou, recebendo um sorriso de Scorpius em resposta. — Nunca daria certo. A Dama Cinzenta não é vista há anos e, mesmo se fosse, duvido que ela fosse compartilhar os segredos de sua mãe conosco.

— Eu não duvido. — disse Albus, recebendo olhares questionadores sobre si. — Ah, qual é! Todos sabem que ela e a mãe não tinham uma das melhores relações.

— Ok, mas mesmo que ela conversasse com a gente, ainda não saberíamos como achá-la. — disse Dominique e, quando todos a olharam interrogativamente por ter se incluído no grupo, acrescentou: — É, eu meio que estou nessa com vocês agora.

— Não precisa ser ela! — exclamou Scorpius, virando-se para Rose. — Você estava lendo um livro sobre invocação de fantasmas outro dia, não estava?

— Sim, eu estava. Por quê? — respondeu Rose totalmente desconcertada com a intensidade no olhar de Scorpius ao encará-la.

— Aí está nossa solução! — Scorpius levantou-se do sofá, parecendo extremamente animado. — Vamos invocar um dos fundadores de Hogwarts!

— Esse é o meu garoto! – exclamou Albus. — Esse seria...

— O melhor trabalho de todos! – completou Dominique.

— Ei. Ei. Ei. Vão com calma. — disse Rose quebrando a onda de animação. — Não é fácil invocar um fantasma. Requer muita energia, muita preparação, muita paciência e, acima de tudo, ele precisa querer conversar com você. E despachar um fantasma persistente é um pesadelo ainda maior.

— Convencer pessoas é a minha especialidade, Rosie, deveria saber disso — disse Albus.

— Ah, é? — provocou Rose — Então boa sorte tentando convencer Salazar Slytherin ou Rowena Ravenclaw a bater um papinho com você, porque eu não vou participar disso.

— Por que precisaria ser um deles? — indignou-se Dominique. — Rowena foi a primeira a morrer, Salazar abandonou a escola e, com dois sonserinos no grupo, duvido que Godric venha dizer um “oi, galera”. Por outro lado, Helga ficou conhecida por sua compaixão e vontade de ajudar seus alunos. Posso não ser tão inteligente quanto você, Rose, mas escolha é óbvia, não é?

Albus, Rose e Scorpius se entreolharam, certos de que estavam pensando a mesma coisa. Permaneceram em silêncio por muito tempo, conscientes do lugar em que estavam e da pessoa a quem se dirigiam, mas Dominique não demorou tanto a se irritar com a falta de resposta.

— Qual o problema de vocês?! — Em todos os 16 anos de sua vida, Rose nunca vira Dominique usar um tom tão alto e rude.

— É só que... Nós não achamos que... Ah, Domi, é só que a Lufa-Lufa não é... — Rose começou, mas não conseguiu continuar diante do olhar furioso de Dominique.

— Não acham que é uma casa verdadeira? Que os alunos que vem para cá são os que não têm aptidão nenhuma? Os que não têm as qualidades de nenhuma das outras casas? O resto?! — Àquela altura, a Weasley já estava praticamente berrando. — Vocês estão no nosso Salão Comunal, droga! Eu devia jogar dez azarações em cada um e chutá-los daqui.

Dominique se afastou de onde estavam sentados e, depois de uma rápida troca de olhares, quem se levantou foi Albus, indo diretamente até a loira e abraçando-a carinhosamente enquanto sussurrava palavras tranquilizadoras. Parecia estar sussurrando alguma coisa, mas Rose e Scorpius não conseguiam entender por mais que tentassem.

— Isso pode dar certo. — disse Scorpius atraindo a atenção da ruiva.

— Com um professor ajudando seria completamente diferente, mas quais as chances de quatro adolescentes que mal terminaram Hogwarts conseguirem completar uma invocação?

— Ginger — chamou o loiro, sabendo que o apelido despertaria a raiva da garota. — Entendo seu lado, também não levo fé no Albus, na Dominique ou em mim. — Quando ela abriu a boca para contestar aquilo, ele ergueu o indicador, pedindo silêncio. — Mas se existe alguém em Hogwarts que consegue fazer isso, definitivamente é você.

Ela o encarou com um misto de surpresa e gratidão. Scorpius tomou consciência imediata da proximidade de seus rostos quando sentiu a respiração quente dela contra sua pele. Pensou em dizer algo, mas sabia que, caso abrisse os lábios, sairia aquilo que ele não queria dizer. Ela era tão ridiculamente bonita. O cabelo vermelho, as adoráveis sardas, os olhos azuis...

“Ela é sua melhor amiga, Scorpius”.

— Por que está me olhando assim? — perguntou Rose, após um longo período de silêncio. — Tem alguma coisa no meu rosto?

O pensamento veio junto com a voz de Rose e foi como se alguém jogasse um balde de água fria em Scorpius. Ele se afastou bruscamente, pedindo desculpas repetidamente em um tom de voz baixo. Simultaneamente, Dominique e Albus voltavam, parecendo bem mais relaxados.

— Vamos invocar Helga Hufflepuff. — afirmou Albus.

Notas finais
Ok, momento sinceridade: essa é a terceira (e última) vez que tento postar essa fanfic aqui. Dessa vez, porém, estou me comprometendo a ir até o fim dela. Espero que tenham gostado do capítulo! Deixem um review dizendo o que acharam! Quaisquer erros, por favor, avisem. Beijinhos, até o próximo capítulo! :)