Behind the Steam

1 Capítulo Único


— Recapitulando... Apollo se mudou. Athena, Trucy e Juniper estão visitando a vila Nine-Tales durante todo o final de semana a convite de Jinxie. Maya e Pearls estão em Kurain cuidando da mansão e de seus respectivos treinamentos. Como eu acabei sozinho mesmo? – o advogado de defesa fitava dois convites em sua mesa de trabalho, sem saber exatamente o que fazer com eles.

Antes de se dirigir ao escritório, ele havia passado em uma feira com o intuito de comprar uma refeição que não fosse tão salgada quando o macarrão de Eldoon. Acidentalmente, acabou sendo premiado com dois convites para um fim de semana em uma certa fonte termal. Por um momento, sentiu-se feliz com o prêmio. No entanto, no segundo seguinte, lembrou-se de que estava completamente sozinho, impossibilitado de ter uma companhia para aquela viagem.

O mais curioso era o fato de que a agência sempre estava imersa em barulho e confusão. Entretanto, justamente naquele final de semana em específico, não havia uma única alma – quer dizer, espíritos na agência talvez – mas não pessoas reais para lhe fazer companhia naquele passeio.

Phoenix pensou em ir sozinho, mas a solidão seria a mesma, talvez até pior. O homem que estava sempre rodeado por pessoas eloquentes agora estava desfrutando o cantar das cigarras em um quente dia de verão.

Havia uma última solução, mas seu orgulho e medo jamais permitiriam tal convite. Fitou seu celular diversas vezes, pensou no quanto aquilo soaria desagradável e o quanto uma rejeição poderia afetá-lo de maneira negativa.

Depois do acontecido em Khura’in, sua moral estava estirada ao chão, encoberta por lama e vergonha. Phoenix falhou em contar a Edgeworth as adversidades que passou no país, um fato que deixou Edgeworth ainda mais distante. Obviamente, o promotor-chefe jamais admitiria que estava magoado. Ele até mesmo compareceu ao casamento a pedido de Phoenix, mas isto não foi suficiente para que seus laços se mantivessem consolidados.

Não havia nenhuma palavra capaz de significar o quanto Phoenix estava arrependido pelas suas recentes atitudes. Além disso, pensar no quanto recebeu ajuda de Edgeworth apenas agravava sua culpa.

Perdido em pensamentos, Phoenix não percebeu que uma voz se dirigia a ele naquele exato momento.

— Wright? Wright! Você poderia por favor voltar ao planeta Terra?

— E-Edgeworth! S-Sinto muito, estava distraído.

— Mal notei isto. De qualquer forma, passei para lhe deixar um caso. Foi uma solicitação de um amigo meu do escritório, não é nada grave, apenas um caso civil de menor impacto. Ele pediu indicação de um bom advogado de defesa e, embora eu acredite que você possua mais falhas a qualidades enquanto advogado, ainda o considero o melhor no ramo.

— V-Você me indicou? – Phoenix segurou os papéis, revisando rapidamente a situação com os olhos.

— Fiz mal ao indicá-lo? – o promotor cruzou os braços. – Posso contatar outro advogado da sua firma. A menos que você não queira que ninguém represente meu colega de trabalho, o que me leva a supor que seja pessoal, visto que você está completamente desocupado e pensando em tirar uma folga no final de semana.

— F-Folga? – o advogado de defesa olhou para os convites e imediatamente sentiu um desejo imenso em desaparecer daquele escritório. – N-Não é nada disso! E-Eu ganhei estes ingressos na feira hoje mais cedo... Mas eu não irei. Eu não tenho com quem ir, no final das contas...

Edgeworth permaneceu em silêncio, ponderando sua mistura de desapontamento e desolação. Sua suspeita a respeito de seu caráter descartável só aumentou com aquela resposta. Não havia mais expectativas para serem criadas.

— Preciso trabalhar. Se me der licença... – pegou sua maleta novamente e se virou, dirigindo-se à porta.

“Rápido, Phoenix, diga algo! Não o deixe sair assim, tome uma atitude!”, suas mãos tremiam e seu corpo se recusava a se levantar. Se Edgeworth saísse por aquela porta, jamais entraria novamente, pelo menos, de modo figurativo.

— Edgeworth, espere! – nunca havia tão difícil manifestar uma objeção, nem mesmo durante julgamentos.

— Hm? Precisa de algo mais? – o promotor-chefe virou o rosto, segurando a porta.

— Sim! Eu preciso saber se você aceitaria ir comigo a esta fonte termal! – e apontou para Edgeworth como se estivessem disputando um caso. Phoenix não podia ver, mas seu rosto estava completamente vermelho.

— Ngghh! W-Wright, se você não percebeu, eu sou um homem completamente ocupado!

— E-Entendo... – lentamente, abaixou seu braço, fitando os pés e sentindo-se envergonhado pelo convite.

— M-Mas... Talvez eu possa arranjar um espaço em minha agenda. Afinal, eu não tenho uma pausa do trabalho há meses.

Phoenix ergueu seu rosto novamente, sem conseguir reagir adequadamente a sua resposta. Por fim, acenou positivamente e replicou para que se encontrassem no dia seguinte na estação de trem, pela manhã. Quando o promotor saiu pela porta, escondendo um sorriso, Phoenix se desmanchou em angústia e ansiedade, perguntando-se mil vezes o que tinha na cabeça para fazer tal pedido. Mas agora era tarde demais para voltar atrás. Os dois passariam um final de semana juntos em uma fonte termal e nada no mundo poderia ser mais gratificante ou assustador.

***

Às nove horas em ponto, Phoenix saudara Edgeworth na estação. Ambos não estavam mais usando seus respectivos ternos, visto que estavam em um período de folga. Phoenix usava uma camiseta branca simples, com uma camisa de manga curta em um tom de azul claro por cima. Estava calor o suficiente para que ousasse vestir uma bermuda jeans e sandálias, algo que o deixava um pouco desconfortável ao imaginar o que Edgeworth pensaria se o visse de maneira tão desleixada.

Mas não foi o que se sucedeu. O promotor chegou trajando uma camisa rosa, com suas mangas dobradas pela metade, uma calça cáqui e um tênis esportivo branco. Phoenix não se recordava da última vez o que vira de uma forma tão casual, talvez nem mesmo quando fossem crianças. “Embora seu casual ainda seja extremamente elegante”, pensou.

Os dois entraram no vagão e se sentaram lado a lado. Phoenix deixou que Edgeworth se sentasse à janela, a fim de que se sentisse mais confortável enquanto olhasse a paisagem. Por um momento, o advogado de defesa ficou extremamente preocupado com a falta de assunto. Quando a situação era natural, parecia fácil conversar com o promotor. Mas, neste exato momento, longe do trabalho, Phoenix sentira pela primeira vez que não conhecia absolutamente nada da vida pessoal de Edgeworth. E se ele não fosse capaz de manter uma conversa ao menos agradável, o final de semana se transformaria em um pesadelo sem fim.

Por sorte, a viagem duraria apenas uma hora, percorrendo as montanhas da região. Mas o tempo era traiçoeiro, e quanto mais demorasse a iniciar uma conversa, pior seria sua consequência.

— Você fica muito bem de roupas casuais, Edgeworth.

Ambos se olharam, sem reação. Phoenix puxou o assunto da pior maneira possível, e agora suava incontrolavelmente. Miles, em contrapartida, evidenciou um rosto tão rosado quanto sua camisa.

— O-Obrigado... – o promotor virou o rosto para a janela, enquanto o advogado gritava internamente o quão estúpido havia sido.

“Diga algo, rápido, Phoenix, o que ele vai pensar de você? Isso foi uma cantada? O quê? Não, claro que não! Ele deve pensar que eu estou dando em cima dele! O que ele vai pensar de mim?”.

— Achei que jamais o veria novamente de sandálias. Pelo menos, está um pouco melhor do que costumava parecer naquela época. – Edgeworth replicou, sem ousar virar o rosto e fitá-lo.

— O-Obrigado... Todos temos um período obscuro em nossas vidas, não é mesmo? – e riu de maneira desengonçada enquanto passava a mão em seu cabelo.

— Eu nunca tive. – e o fitou com ar superior.

— Ah, é mesmo? E aquela roupa chique pendurada no seu escritório? Fala sério, nem em Versalhes as pessoas usavam algo tão sofisticado! – e riu baixinho.

— Nghhh! Lá vem você novamente questionar meu senso estético!

— Ha ha ha! Bem, ao menos temos algo em comum: nosso conhecimento sobre flores se limita a três. Ou vai dizer que você estudou e agora sabe reconhecer aquelas flores ali? – e apontou para a janela, denotando a paisagem.

— Humph. Admito que ainda não sei reconhecê-las.

— Então permanecemos com isto em comum ao menos. – e sorriu. O sorriso de Phoenix trouxe paz ao coração de Edgeworth de uma forma completamente efetiva e natural.

Continuaram a conversar com tamanha fluidez e naturalidade que não foram nem mesmo capazes de perceber que finalmente haviam chegado ao seu destino.

“O tempo que compartilhamos juntos sempre passa tão rápido... A vida sempre fora injusta conosco, espero que ela tenha um pouco de compaixão durante nossa estadia...”, Phoenix pensou enquanto se dirigiriam à hospedaria.

***

Os advogados foram recepcionados calorosamente. A camareira os guiou até o quarto e passou os horários das refeições e atrações turísticas locais. Inicialmente, passaram algumas horas visitando os arredores da hospedaria e depois foram almoçar. A comida era simplesmente deliciosa e agradou seus paladares, o que era uma preocupação de Phoenix. Ele não sabia se a exigência de Edgeworth seria alcançada de maneira apropriada, mas pela satisfação em seu rosto, o advogado de defesa chegou a uma positiva conclusão.

Ao entardecer, o calor da montanha se intensificou. As cigarras cantavam incessantemente e o suor escorria de suas frontes enquanto liam revistas em uma sala da hospedaria.

— Wright. Este calor está insuportável. Vou até às termas me banhar. Você também gostaria de vir?

Phoenix se corou. Ele sabia que este momento chegaria, mas jamais imaginou que Edgeworth aceitaria dividir este tipo de intimidade com ele.

— S-Sim... – ao menos, existia uma chance de se tranquilizar. A hospedaria estava com outros hóspedes, as chances de ficarem a sós eram escassas. Mas Phoenix estava errado.

Quando se dirigiram ao vestiário, não havia uma única pessoa se banhando na ala masculina. O advogado de defesa só pensava em fugir para bem longe, mas tentou se conter. Virou-se de costas para Edgeworth e hesitou diversas vezes em tirar a roupa. Quando ousou virar a cabeça, Edgeworth já estava na fonte, de braços cruzados e olhos fechados, como costumava agir na corte.

“Que rápido!”, pensou frustrado. Sua hesitação piorou quando pensou que agora teria de entrar na fonte completamente nu enquanto Edgeworth o fitava. Nem mesmo um veredito de culpado era tão assustador quanto aquela imagem que se formara em sua cabeça.

Andou de um lado para o outro pensando no que poderia fazer, mas o tempo passava depressa e seu desespero se intensificava. Por fim, tirou a roupa e enrolou a toalha em volta de cintura. Caminhou cabisbaixo até à fonte, evitando contato visual, quando teve uma magnífica ideia. “Eu não tenho uma reputação de blefe à toa!”, pensou.

— Edgeworth! Aquilo atrás de você é uma estátua do Steel Samurai? – e apontou freneticamente.

— O quê? Onde?! – e se virou.

Imediatamente, Phoenix mergulhou e cruzou os braços, confiante e orgulhoso do seu plano bem sucedido.

— Wright! Não estou vendo nenhuma estátua! Você está blefando até mesmo na nossa folga?! – Edgeworth bateu a mão na água, espirrando uma porção no rosto de Phoenix.

— N-Não fique zangado! Eu só estava brincando! Ha ha ha! – e riu sem graça, tossindo devido à água que engoliu acidentalmente.

No momento seguinte, ouviram algumas risadas vindo da ala feminina, separada por uma grande cerca de bambu. Phoenix se corou por um momento, imaginando as donas daquelas risadas. Mas logo se recompôs ao notar que a única pessoa que realmente interessava estava bem diante de seus olhos. O vapor escondia um pouco sua imagem, mas conseguia ver nitidamente seus braços e peitoral. Nunca havia visto Edgeworth de uma forma tão íntima, não sem aquela gravata adornada de babados que escondia sua silhueta.

— Wright, posso saber o motivo dessa feição depravada? Por acaso, você está pensando em espiar as garotas do outro lado? Jamais esperaria isso de um homem adulto.

— M-Mas é claro que não! Por que você pensa coisas tão horríveis de mim, Edgeworth? – e mergulhou metade do rosto na água, escondendo o descontentamento enquanto soprava algumas bolhas.

— Só estou indagando o que meu senso de observação evidencia.

Phoenix queria contar que seu rosto estava corado não somente pelas garotas, mas também pelo homem que estava ao seu lado naquele momento. Claro que jamais poderia revelar seu segredo, mas adoraria fazê-lo e mostrar o quanto o promotor significava para ele.

— Hey, Edgeworth. Talvez seja você quem esteja interessado em espiar as garotas e por isso botou a culpa em mim, heh? – e sorriu sarcasticamente, colocando as mãos na cintura.

— Nghhh! C-Como ousa?! Mostre-me mais respeito, humph! Além do mais, eu não tenho interesse em espiar garotas nuas e... – imediatamente, Edgeworth parou de falar. Acabara de cometer um deslize terrível e irreparável.

O silêncio tomou conta da fonte. Phoenix o fitava sem acreditar que suas suspeitas eram reais.

— N-Não é nada disso! Eu quis dizer que seria muito baixo espiar garotas de tal maneira, é isso!

— E-Entendi! Não precisa se explicar! Sei que você é um homem respeitoso... – e sorriu de maneira tímida.

Seria verdade que Edgeworth não tinha interesse em garotas? Ou ele estava apenas sendo respeitoso? Diversas vezes ele havia dito que não se casaria, mas Phoenix sempre pensara que era devido aos seus gostos exigentes. Relembrando os tempos de escola, Edgeworth nunca se interessara pelos chocolates que as meninas lhe ofereciam no dia dos namorados, muito menos compartilhava de interesses românticos como Phoenix e Larry costumavam fazer. O advogado de defesa nunca chegara a uma conclusão a respeito de sua sexualidade, especialmente por ser alguém tão fechado.

O fato de Phoenix também evidenciar que já havia namorado uma garota anteriormente e compartilhar suas paixões quando criança não ajudava Edgeworth a se sentir confortável a respeito de tal tema. No fundo, existia uma grande insegurança a respeito de revelar algo tão íntimo. O medo de ver Phoenix se afastando devido a tal revelação sempre o assombrara, por isso sempre fora seu maior segredo. Sorte do promotor que Phoenix nunca havia perguntado nada a respeito, e naquele momento não estava carregando o magatama.

Passados alguns minutos em silêncio, Edgeworth se levantou e se retirou, dizendo que estava cansado. Enxugou-se e escolheu o roupão vermelho que estava no vestiário. Phoenix permaneceu mais um tempo na fonte, pensando no que acabara de acontecer. Talvez este momento estivesse destinado a separá-los definitivamente, e a culpa só crescia em seu coração. Pensar em perdê-lo por algo tão fútil o fez segurar forçadamente algumas lágrimas.

Quando se cansou da água quente, também se retirou. Colocou um roupão azul e se dirigiu para o quarto. Edgeworth estava sentado ao tatame, assistindo ao noticiário.

— Hey, estou faminto! Você aceita jantar comigo?

— S-Sim...

E ambos se dirigiram à sala de jantar.

***

O silêncio era constrangedor. Phoenix tentou diversas vezes puxar algum assunto trivial, mas Edgeworth parecia distante. E ele tinha motivos, pois o medo de perder Phoenix também era recorrente em seu coração. Além disso, este medo se intensificara devido aos últimos acontecimentos em Khura’in. O fato de esconder que havia viajado por tantos meses, de correr perigo, e só pedir ajuda quando não havia mais ninguém. Obviamente, Edgeworth sabia que Phoenix não lhe devia satisfação, mas neste caso, esta palavra poderia ser substituída por consideração.

Ambos mal haviam tocado na comida como haviam o feito no almoço. Dirigiram-se ao quarto e sentiram o cansaço pesar em seus respectivos ombros.

Os colchões estavam posicionados lado a lado. Por mais que soubessem que a atmosfera estava estranha, separá-los tornaria tudo pior. Edgeworth se deitou e se virou, evidenciando sua nuca graças ao roupão desalinhado.

Phoenix desligou as luzes e se sentou no colchão ao lado, fitando a nuca de Edgeworth graças ao luar que penetrava o tecido fino da porta da varanda.

“Eu adoraria poder tocá-lo...”, pensou enquanto suspirava.

— Wright... Agradeço muito pela viagem. Novamente, não saberei retribuir sua gentileza.

— N-Não se preocupe, Edgeworth! Se não fosse por você, eu não estaria aqui hoje. Estaria sozinho em casa pensando em um caso qualquer...

O promotor sorriu discretamente, um pouco esperançoso de não ser deixado de lado pela única pessoa que fazia sua vida valer a pena.

— Edgeworth... Desculpe se te magoei hoje mais cedo. Não foi minha intenção, às vezes eu exagero.

— N-Não se preocupe com isso.

— Sei que somos amigos desde a infância, mas às vezes sinto que nos conhecemos tão pouco... Quero dizer, além do trabalho... Nas questões pessoais. O que você gosta além de Steel Samurai, quais são seus sonhos, quais lugares do mundo você tem vontade de conhecer...

— Se você não se importar... Eu posso pouco a pouco contar sobre meus gostos pessoais...

— Eu adoraria. – e sorriu. – Mas sei que está cansado. Talvez amanhã. Ainda temos um tempo para passar juntos.

— Wright... Você permaneceria ao meu lado mesmo sabendo tudo a meu respeito?

— Obviamente. Eu não passei anos tentando te alcançar pra me afastar de você agora. – e riu baixinho.

Edgeworth respirou profundamente e se levantou, segurando o travesseiro em seu colo.

— Wright... Talvez isso faça com que você realmente se afaste de mim... Mas acredito que não posso mais conviver com esse segredo dentro de mim. O que você ouviu na fonte hoje... O que você ouviu é verdade. Eu não... Eu não tenho interesse em mulheres.

O coração de Phoenix começou a bater mais rápido, assim como o de Edgeworth.

— Eu... Eu fico ofendido.

O promotor se virou, surpreso.

— Ofendido?

— Sim, ofendido pelo fato de que você nunca me contou. Achei que confiasse em mim...

Um alívio tomou conta do coração de Edgeworth, tão súbito e brutal que transpareceu facilmente em seu semblante.

— Peço perdão, eu sei que fui covarde...

— Nah, eu também fui. Pra dizer a verdade... Eu até entendo você nunca ter me contado. Eu sempre falei de garotas e você até conheceu minhas ex-namoradas gêmeas do mal. Não te culpo por achar que eu não entenderia... Mas acontece que eu entendo...

— Entende?

— Eu sou bi, Edgeworth.

O promotor sentiu que seu coração estava a um passo de saltar de seu peito. Ao passo que o peso de uma vida era retirado de suas costas, a tensão aumentava pelo fato de que tinham algo em comum, mas em um aspecto mais profundo. Aquele sentimento, há tanto tempo trancado na parte mais profunda de seu coração, agora estava gritando para sair.

— Wright... Você nunca para de me surpreender... – e sorriu, escondendo o rosto com uma de suas mãos enquanto fitava o chão. – Tive medo de que se afastasse de mim por achar que estava tentando flertar... Mas eu jamais o faria, eu tenho um respeito imensurável pela nossa relação.

— Eu sei, mas eu... Eu não me importaria se fizesse...

Os dois se entreolharam, corados. Era tarde demais para se arrepender pelas palavras proferidas. Phoenix também estava prestes a explodir caso aquele sentimento não se manifestasse. Anos tentando enterrá-lo, uma luta incessante para que ele permanecesse trancado dentro de seu coração. E todo dia havia um motivo diferente para que o sentimento voltasse a florescer. Era hora de deixá-lo brotar.

Delicadamente, estendeu sua mão até alcançar a nuca de Edgeworth, deslizando suavemente os dedos por sua pele e cabelo. Sem dizer uma única palavra, aproximou-se dele e encostou sua cabeça no ombro do promotor. Por fim, ofereceu sua mão livre.

Edgeworth, ainda surpreso pelo toque suave que sentia, olhou para a situação em que se encontrava. Tentou diversas vezes vencer sua imobilidade, até que sua consciência já não mais tomasse conta de suas atitudes. Seu corpo se moveu instintivamente, sua mão agora estava entrelaçada à mão de Phoenix. Ambos sentiram o mesmo toque gélido devido ao nervosismo do momento, mas logo o toque se tornou cálido, assim como tudo o que advogado de defesa tocava em sua vida.

Com a ponta de seu nariz, Phoenix percorreu o pescoço e orelha de Edgeworth delicadamente. O promotor sentiu uma imensa dificuldade em se conter, contentando-se em apenas apertar a mão de Phoenix fortemente.

Porém, o advogado de defesa não se contentou. Seus dedos deslizaram suavemente até o rosto do promotor, fazendo-o com que pendesse em sua direção. Suas testas se encontraram gentilmente, enquanto o toque em seu rosto prosseguia incessante.

— Wright... – Edgeworth sussurrou, ofegante.

— Quer que eu pare? – Phoenix replicou, também sussurrando.

— Não ouse... – e fechou os olhos conforme seus lábios se aproximavam.

Uma distância tão curta se tornou extremamente longínqua. O tempo mais uma vez não fora gentil com os advogados, uma vez que sua aproximação parecia uma eternidade, embora não quisessem apressar o momento.

Podiam sentir suas respectivas respirações se intensificando enquanto a pulsão de seus corações seguia o mesmo ritmo crescente. Finalmente, encontraram-se. Foi um toque tímido, desajeitado. Já o segundo foi mais consistente, aumentando a aderência e intensidade. Quando deixaram de racionalizar suas ações, finalmente se deixaram levar. Phoenix circundou o corpo de Edgeworth, enquanto o promotor pendia o peso de seu corpo em seu braço. Ininterruptamente, suas línguas se entrelaçaram diversas vezes enquanto se exploravam a fim de se conhecerem melhor.

Falhando em reparar sua própria posição, Edgeworth já estava entregue àquela situação. Sua mão livre agora percorria as costas de Phoenix, finalizando o movimento com um forte aperto em seu roupão. Interrompendo o beijo, sua cabeça se virou enquanto Phoenix beijava seu pescoço agora evidente.

“Meu corpo inteiro está ardendo, seu toque é como uma faísca que inicia um incêndio...”, pensou o promotor enquanto ofegava ao sentir seus beijos. Só foi capaz de abrir os olhos novamente quando sentiu seu corpo repousando sobre o colchão e, consequentemente, o corpo de Phoenix sobre o seu.

Mas já não havia mais nenhuma resistência. Sua fortaleza de gelo fora completamente derretida. Só lhe restava aceitar que aquilo que sentia era um amor recíproco, como nunca antes havia experimentado. E Phoenix se sentia da mesma maneira. Finalmente, o mesmo sentimento germinou em seus corações, resultando em um esplêndido desabrochar.

***

No dia seguinte, já estavam a caminho da estação. Phoenix parecia calmo e tranquilo. Toda a tensão dos últimos acontecimentos ficara para trás, uma lição que havia aprendido e jamais tornaria a repetir. Ao seu lado, estava um homem sério, como de costume. Mas agora o conhecia intimamente e via ainda mais beleza em seu interior. Existia agora afeto e reciprocidade. E mesmo que não demonstrassem, ambos sabiam que aquele sentimento seria cuidadosamente cultivado pelo resto de suas vidas.

Sentaram-se lado a lado novamente, mas não havia mais necessidade de uma conversa imediata. Sob a mala em seus colos, suas mãos, tímidas e escondidas, continuavam entrelaçadas. Phoenix olhou a janela do trem, observando as mesmas flores.

— Edgeworth... Você ainda quer conhecer as diversas espécies de flores?

— Hm? Por que pergunta?

— Por mim, eu gostaria de permanecer assim. Mesmo que tenhamos em nossas mãos acesso a tal informação... Não seria especial se não descobríssemos seus nomes? Se nossas vidas possuíssem o mesmo tipo de mistério? O mesmo desconhecido que eu sinto quando olho pra você e mergulho nas profundezas de seus olhos, sem saber quão fundo irei afundar, mas com a certeza de que jamais irei me afogar?

Edgeworth então sorriu e acenou positivamente. Que belo mistério era amar e ser amado.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!