Behind blue eyes

1 I have hours, only lonely


“No one knows what it's like

To be hated



Olhava seu reflexo na imensa janela, do teto ao piso tinha a vista livre para as luzes da cidade, os demais prédios em sua imensidão de janelas, o típico lugar que nunca parecia dormir. Tal como sua mente, inúmeras janelinhas com luzes que não o permitiam descansar.

Cansado.

O reflexo mostrava isso, e enfim começava a ver o que os anos de trabalho duro fizeram, não só a moldar o corpo, dando-o o porte do agora conhecido herói número 1. Ao contrário das luzes de fora, a da sua sala não estava acesa. Não tinha nada que precisasse enxergar com tanta clareza, que o abajur lateral não desse jeito. A verdade era que, quanto mais luz sobre si, mais podres pareciam emergir. Tinha luz ali o suficiente para ver a si na janela, segurando um copo de uísque pela metade, calça social, camisa social com o colarinho desabotoado e levemente puxado para a lateral, como se há alguns segundos estivesse a ponto de sufocar quando tirou a gravata e a jogou sobre a poltrona junto com o terno.

Levou a destra à nuca, os músculos cansados e doloridos, duros pela postura que sempre mantinha, levou o copo aos lábios para sorver de um proveitoso gole, deixando o líquido âmbar descer pela garganta, como se queimasse ao tempo que trazia alívio.

Sozinho ali era tão diferente do que era taxado, tão diferente de como seus filhos o viam, de como a imprensa o retratava. Sozinho ali era um homem, não um pró-hero, não o número um, ao menos não se sentia assim, não com a cicatriz no rosto que o mostrava os erros, que o fazia lembrar de quando não esteve lá por Shōto, assim como o filho ainda não o enxergava ao seu lado, ou simplesmente não o queria naquele posto.

Mais um gole, findando com a bebida dessa vez, descansando o copo sobre a mesa atrás de si, ainda mantendo os olhos no reflexo, na decadência vislumbrada atrás daqueles olhos tão azuis. Lhe falaram há tempos que queimavam, mas não como fogo quente acolhedor, mas como gelo. Era curioso ver Shōto, seu menino de ouro, carregar os dois, fogo e gelo. Como se fosse inteiramente seu, sem uma parte de Rei, apesar de ser quase inteiramente dela.

Resmungou algo ininteligível enquanto seguia até as bebidas, pegando a garrafa nas grandes mãos, destampando-a e servindo de novo uma dose generosa no copo sobre a mesa.

Cometera tantos erros para chegar até ali, para então não desfrutar quando no topo. Ironias da vida. Cobrou-se tanto, esforçou-se tanto… tornou-se o pai. E o pior, tornou-se o pai para seus próprios filhos.

A cada gole a bebida era mais rascante e menos trazia alívio, era o combustível ao fogo que o consumia por dentro, alimentando as recordações ruins e os erros. Havia se esforçado tanto para ser o número 1, quando conseguiu o pai não estava mais lá para vê-los, e, curiosamente, continuava não sendo o bastante, agora para seus filhos.

A ideia de que nunca seria veio tão forte à mente quanto um soco, assim como o gole foi rápido da boca à garganta, este sim, trazendo alívio, afogando a ideia de que nunca seria suficiente.

— Hey grandão, brincando de pique-esconde? — Hawks tinha a típica voz zombeteira enquanto o olhava através do reflexo na janela, a mão buscando o interruptor. Hawks conhecia cada entrada e saída daquele prédio, e mais que isso, tinha até mesmo uma janela em especial destinada às suas entradas e saídas.

— Deixe apagada.

À meia luz o azul daqueles olhos pareciam ainda mais intensos, talvez fosse o brilho discreto provido pelas lágrimas que Todoroki Enji era orgulhoso demais para se permitir soltar.

— Pensei que estaria na ronda. — Os passos eram vagarosos, como se pisasse num campo minado, olhando o modo com o qual Endeavor seguia para a poltrona e deixava o corpo pesar sobre ela, a bebida no copo movia-se perigosamente, arriscando cair se fosse sacudida daquela forma de novo. — Deixou os seus ajudantes enfim ganharem fama longe das suas chamas? — riu, sem graça. Um movimento forçado para quebrar o gelo que parecia tomar tudo por ali, e não só o copo de Enji.

Numa breve olhada notou a garrafa de vidro destampada sobre a mesa, o aroma do uísque fluía fácil e chegava ao nariz sem esforço, aquele tipo de álcool não era seu preferido, mas entendia a necessidade de uns bons goles em dias de cão, e Enji parecia num daqueles dias.

— O que está fazendo aqui?

— Pensei em ter companhia pra jantar, sabe que odeio comer sozinho. — Não era de todo uma mentira, mas Hawks não precisava contar que havia notado a luz apagada enquanto alçava voo pelo céu noturno. Sempre fazia aquele percurso, justamente para ver aquela luz acesa e as chamas que pareciam nunca se apagar.

Deu a volta, aproximar-se sempre era uma faca de dois gumes, havia aquele ditado, sobre olhar para o abismo e ser olhado de volta, reconheceu o abismo naquele olhar, no modo e na postura de Enji, não estava disposto a ter seu lado sombrio o olhando naquele momento, não sem as chamas de Enji para indicar um local seguro a estar. Aproximou-se pelas costas da poltrona, sentando-se no braço, jogando as pernas sobre o colo de Enji, mantendo seu jeito naturalmente espaçoso, tinha que ser ele mesmo se quisesse que Enji o permitisse ali. Conhecia esse lado, essa “fraqueza”, ou, no caso, o asco à fraqueza.

As mãos não tardaram a tocar os ombros duros e tensos, colocou certa pressão nas falanges para lhe massagear os músculos cansados, e sentiu-se verdadeiramente tentado a lhe beijar a nuca e sussurrar que estava tudo bem.

Sentiu a mão sobre suas pernas, os ombros relaxarem minimamente, mas ainda assim era uma forma de ceder ao toque e à companhia. Manteve-se então a massageá-lo os ombros, os braços, e sorriu quando ele se inclinou mais em sua direção, ainda que levasse o copo aos lábios para mais um longo gole da bebida. Tirou o copo da mão grande e depositou-o na mesinha pequena ao lado da grande poltrona, que para Enji parecia apenas uma de um tamanho normal. Aproveitou a deixa para sentar em seu colo. Não falavam muito em momentos como aqueles, se não fosse para provocações em meio ao sexo, a bem verdade era que Enji parecia incapaz de mais de meia dúzia de troca de palavras.

Passou as mãos pequenas no rosto, na cicatriz à qual se culpava. Beijou-a, de testa ao queixo. Ainda era seu ídolo, com todos os erros, com todos os passos errados, ainda era a chama acesa que indicava luz e um caminho a seguir, mesmo que, por vezes, ele mesmo não a seguisse.

— Estava se olhando no reflexo da janela quando cheguei, ainda não se adaptou à cicatriz? — Encarava, enfim, os olhos de um dos mais intensos azuis que viu na vida.

— Não é essa que me incomoda.

Seis, havia atingido o limite. Mas Hawks queria saber, queria mais detalhes, queria conhecê-lo.

— Não tem como ver as outras, mas tento mesmo assim — concluiu fazendo com que Hawks vislumbrasse um pouco mais daquele abismo que o encarava com olhos atentos, e frios.

— Acho que uísque demais te deixou reflexivo, me lembra de nunca beber isso puro assim. — O sorriso veio para deixar o clima menos tenso, o beijo também.

E tinha diferença naquele, não era puramente tesão que parecia emanar dos poros e de cada ato. Era uma extensão de carinho ao qual, honestamente, nenhum dos dois se permitia por inúmeras razões.

Não era encenado, não havia o dirty talk¹ ou o modo possessivo com o qual Enji costumava o tocar, como se fosse dono e Hawks nada mais fosse que não um objeto, sua propriedade. Em meio aquele beijo era mais que isso, era tudo o que não diziam, e talvez nunca dissessem, não em palavras.

O toque das línguas, o modo como os dedos de Hawks perdiam-se nos fios vermelhos e as mãos de Enji lhe puxavam pela cintura, descendo o toque.

Não foi tesão, apesar de nunca ficar na ausência dele.

Foram coisas difíceis demais de quantificar, de qualificar, de explicar e entender, então não tentavam.

Mas naquela noite com apenas um abajur aceso, foi tudo o que Enji precisava para se sentir suficiente. Para sentir que, ao menos alguém o queria por perto.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!