Behind Your Eyes
1 My Name Is Problem
Notas iniciais
Stannis andava pelas ruas de Porto Real de cabeça baixa, não conseguindo evitar que os olhos lacrimejassem. Para a maioria, ou melhor, para todos, aquele era Stannis Baratheon! Que não permitiria que ninguém o fizesse aparentar fraqueza perante seus "futuros" súditos, mas no caso, não era apenas uma pessoa que o abalava, a situação também era desconfortável. "Colocar um tolo no trono por apenas saber manejar a espada é uma afronta!" pensou, e em meio aos seus devaneios, notou que andava rumo á Floresta Sagrada.
Stannis nunca quis ser "daquela" forma, mas a vida o fez assim, a frieza já não era mais um defeito que às vezes estava presente, mas sim, parte de sua personalidade. Isso aconteceu naturalmente, o ódio pelos irmãos foi desenvolvido aos poucos, afinal, a seu ver, Renly e Robert sempre tiveram prioridade, até mesmo em relação às coisas mais banais, como quando Robert ganhou uma luta de espadas com a lâmina de madeira quando ainda eram crianças, a única diferença é que agora não se tratava mais de disputas infantis entre crianças, e sim de um reino, e na guerra, o mais capaz vence, por mais difícil que fosse aceitar isso, naquele dia essa realidade veio à tona.
Assim que pisou no gramado verde deixou que uma lágrima descesse por sua face. Novamente, Robert ganhara.
– Uma grande decepção, não? – disse uma voz, ao lado de uma das grandes árvores da floresta.
Enxugou o rosto com as costas da mão, temendo que aquele a quem voz pertencia o tivesse visto chorar, afinal, aquele era um luxo que ele não tinha, mesmo tendo sido breve. Haviam momentos em que não eram apenas "pétalas de rosa" fazer parte da família real, fora isso, ainda tinha a sua reputação, a qual ele não permitiria ser prejudicada por um vacilo breve como esse.
Stannis virou-se e se deparou com uma garota, que deveria ter pouco menos que sua idade, olhos azuis, e longos cachos negros que caíam em cascata sobre seus ombros. A mesma sorriu ao seu lado. "Tenho que acabar com os malditos devaneios..." pensou, ao perceber que ela se aproximara sem ele sequer notar.
– A quem se refere? – ele perguntou entre dentes.
– Você, mais do que ninguém, sabe a quem me refiro. – respondeu – Me refiro aquele tolo que tomou o trono, não que eu preferisse quem o governava antes, mas Robert é um jovem verde e imbecil, não tem o bom senso, e quem de dirá a maturidade, para ser um rei!
Stannis lembrou que deveria manter a pose de "irmão exemplar", e a puxou pelo pulso direito com tanta força que pensou que acabaria por quebrar o braço da mesma, porém, o semblante do jovem não demonstrava raiva ou ressentimento algum pelo pejorativo comentário, estava até aliviado por descobrir que não era apenas ele que pensava assim, mas novamente, a consciência o repreendeu.
– Se tem um mínimo de amor à vida, cale-se! – respondeu, e sua voz ecoou pelas árvores cinza-esverdeadas da floresta.
– Se curvar-se para um inútil é ter amor à vida, mate-me! – continuou a desafiá-lo, com os olhos brilhando.
Aquilo surpreendeu Stannis, que mais acostumado estava a ser bajulado por muitos dos "verdadeiros" imbecis, que usavam sua lábia para subir na vida, diferentemente da garota, que a poucos centímetros de distância o desafiava de forma descaradamente encantadora. Seus lábios tremiam, e ele temia parecer fraco, portanto, reprimiu-os. Mal sabia que aquele seria um de seus hábitos mais frequentes, anos depois.
"Maldita seja" murmurou alto o suficiente para que ela o ouvisse, e a soltou. Esperava alguma reação agressiva da parte da garota, mas ela simplesmente sorriu, o surpreendendo novamente.
– Creio que, só, não seja mais insensato que Robert. – disse.
– Vossa Graça. – corrigiu Stannis.
– Só o direi quando ele merecer tal título! – provocou.
– Sabe que está falando com seu irmão. – afirmou o rapaz, ainda incrédulo, tentando não deixar transparecer sua surpresa, e até mesmo admiração pela ousadia da garota.
– Stannis, – começou zombeteira – convenhamos, há pouquíssimas pessoas sensatas nesse reino, que você sabe, não durará muito tempo nas mãos de Robert, de que adianta alimentar esperanças de um futuro próspero quando sabemos que o mesmo está fadado à ruína? Entenda. Não o temo, tampouco Robert, temo apenas o que o mesmo fará com tanto poder nas mãos e tanta insensatez. – esclareceu.
– E você acha que é muito mais sensata que Robert... – Stannis riu com um sarcasmo forçado, fascinado com a ousadia daqueles olhos azuis. – Está insultando o seu rei perante seu irmão. – Ele deixou claro que tudo aquilo era uma grande afronta, mas tomou o cuidado de não deixar transparecer que ele se deliciava com a expectativa de uma discussão.
– Não estou insultando – deu ênfase na última palavra – estou lhe alertando.
Aquela garota o fazia lembrar de antes, de quando ainda era uma criança. Stannis perdera a infância muito cedo, desde pequeno tinha o semblante de alguém que foi rejeitado a vida inteira, sempre teve a impressão de que as pessoas preferiam Renly ou Robert a ele. Ela tinha o entusiasmo da criança que ele um dia fora.
– Como se eu precisasse de alerta, e como se pudesse mudar algo... – murmurou, porém, assim que notou o quão infeliz fora aquele comentário, disfarçou – Poderia matá-la por traição.
– E porque não o faz? Estou ciente do que estou fazendo. – respondeu, "E ainda ousa sorrir ao insultar seu rei, o correto seria mandá-la a sete palmos da terra agora..." ponderou, mas logo afastou a ideia, não sabia se teria coragem de matá-la, por mais que as atitudes dela fossem ao extremo da imprudência e que, acobertando-a ele também poderia ser acusado de traição, caso descobrissem o que ocorria ali. Naquela época ele ainda possuía a capacidade de sentir, por mais vaga que fosse.
– Não seja ingênua, garota... Tenho mais o que fazer. – disse Stannis, dando um fim à conversa, porém, a garota sabia como provocá-lo. Ela riu irônica.
– Fuja, Stannis! – A esta altura ele já estava a alguns metros de distância – Fuja como sempre fez, irmão de Robert. – deu ênfase na última palavra.
O rapaz parou, por um momento tentou ser prudente, mas acabou cedendo ao impulso e recuou. Andou perigosamente devagar, até que seus lábios quase encostassem os dela.
– Vossa Graça. – corrigiu novamente.
Ele a puxou pela cintura, selando seus lábios e permitindo que ela descansasse os braços em seu pescoço.
Stannis deixou que ela o conduzisse até a mesma entreabrir os lábios, permitindo que o garoto tomasse partido. Assim que a língua pediu passagem, o beijo ficou mais intenso, o mesmo tentava superar as expectativas dela, sem perceber que essa também era a intenção da mesma. A garota estava relativamente constrangida por saber que não valia a pena alimentar expectativas. Tudo não passaria de alguns beijos na Floresta Sagrada, ela estava ciente de que o destino de Stannis já havia sido traçado, e que ele era incapaz de amar, ao menos de acordo com os boatos...
Stannis conseguia até mesmo enxergar em seu subconsciente a reação de Robert se soubesse do ocorrido, "Quanto ela cobrou para lhe beijar, irmão?" ele diria e daria gargalhadas e mais gargalhadas. O rapaz não suportava suas infelizes brincadeiras. Renly se limitaria a sorrir maliciosamente. Afastou os pensamentos, não queria que seus irmãos estragassem nada agora, afinal, havia conhecido uma única luz em um reino fadado à ruína.
A garota conseguiu obrigar a si mesma a separar seus lábios dos de Stannis, ela saiu correndo por entre as árvores, com o início de uma lágrima formando-se em seus olhos, mas a voz do garoto a fez parar.
– Posso saber ao menos seu nome? – perguntou o rapaz, em uma inútil tentativa de eternizar o momento e, surpreendentemente, sendo cortês pela primeira vez desde o começo da conversa.
– Meu nome é "problema". – respondeu com a voz embargada, deixando que uma inevitável lágrima lhe escorresse a face.
O garoto observou seus olhos azuis perderem o brilho à medida que distanciavam-se, Stannis sorriu novamente, com os lábios trêmulos, mal sabia ele que aquele seria seu último sorriso, devido aos futuros problemas que a corte enfrentaria e a pessoa que se tornaria, mas por enquanto, o único problema que tinha, ou melhor, não mais tinha que lidar, era ela.
Enquanto isso, a garota que corria por entre as árvores cinza-esverdeadas da Floresta Sagrada virou-se para que pudesse observar Stannis uma última vez, perguntou-se então se teria tido chance de descobrir o que havia por trás de seus olhos castanhos se tivesse nascido em meio à nobreza...
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