Behemoth - O livro do cavaleiro
1 Encontro com desconhecidos
Cercado pela Floresta dos Espíritos, o orfanato Saint Divine recebe crianças abandonadas pela família ou órfãos de guerra. Ali, sob a administração do padre Hannah e da madre Lígia, as crianças vivem em condições de trabalho forçado e de castigos físicos, e recebem uma alimentação precária. Comem carne em raras ocasiões quando os mais velhos são permitidos caçar algum animal na floresta. As crianças menores, assustadas com as histórias assombrosas a respeito dela, preferem ficar dentro dos muros do Saint Divine. Enquanto as maiores são imbuídas de procurar frutas e pequenos animais, caso queiram algo a mais para comer, já que o orfanato oferece apenas duas refeições diárias, a terrível sopa de cebola da irmã-cozinheira Afrodite. É e neste lugar que vive Bastian, um garoto de 14 anos que está prestes a viver uma grande reviravolta em sua vida.
Sobre uma pequena construção de pedras, um altar em desuso da velha igreja do orfanato, Bastian olhava para o céu estrelado, sonhando com a liberdade do mundo além do orfanato. Apesar de não ser prisioneiro, ele estava acorrentado pela situação na qual vivia. Sem família ou quaisquer bens, a situação de abandono o pressionava a suportar os abusos daqueles que administravam o orfanato. Um preço a ser pago para ter um lugar para chamar de lar.
Graças aos amigos e amigas que fizera, a vida era muito mais divertida quando estavam juntos. As outras crianças chamavam a Bastian e seus amigos, Hammax e Roma, de senhores dos espíritos. Sempre que os três saíam para caçar na floresta, eles voltavam com muita carne de caça e frutas, os espíritos nunca importunavam. Era uma verdadeira comemoração das outras crianças, mas que sempre acabava com Bastian ou Hammax punidos pela sádica madre Lígia, que os impugnavam com dolorosas chicotadas por causa de algum pecado que ela inventara na hora. O padre Hannah também não era diferente da madre.
Apesar de todos os contratempos, ainda assim os três arrumavam alimentos melhores para as crianças menores. Aqueles três eram verdadeiros heróis naquele lugar abandonado pelos deuses.
— Você viu, Hammax? Disse Bastian, fazendo um sinal com as mãos.
— Sim, é provavelmente uma lebre.
— Shhhh! Façam silêncio, os dois. Querem assustar nossa presa?
— Claro que não, Roma.
— Então fiquem calados.
— Sim, responderam.
Roma tinha habilidades com arco e flecha que superavam as de Bastian e Hammax. Ela era a responsável por sempre abater mortalmente as presas. Vez ou outra não acertava a flecha que não fosse em um ponto vital. Por isso que a caçada sempre era em trio, quando não atingia em cheio o alvo, os dois meninos corriam atrás da presa ferida. Essa estratégia de caça sempre rendia boas recompensas.
— À direita, perto da árvore que tem a cara do padre. Viram? Perguntou Roma.
— Sim, mas acho que você não acerta dessa vez, desafiou Hammax.
— Eu acerto com os olhos vendados, seu trouxa, a menina retrucou.
— A língua da Roma é sempre afiada, falou Bastian fazendo um gracejo.
— Bastian, fique posicionado no seu lugar, disse firmemente a arqueira do grupo.
O vento soprou do sentido sudeste, algumas folhas levantaram, os cheiros da floresta ficaram mais forte e as narinas de Roma abriram levemente, seus ouvidos seguiam o arfar da caça. Ela retesou o arco e soltou a flecha. Não houve barulho nenhum. Será que ela acertou?
— Veja! Tem sangue naquelas folhas – os três falaram ao mesmo tempo.
— Bem, vamos segui-lo. Nós passamos quase a manhã toda para apanhar a lebre. Roma sugeriu.
— Não podemos voltar com as mãos vazias, os órfãos ficarão sem carne para comer. Hammax ponderou com os outros dois.
— Idiotas, lembrem que temos horário para voltar. Eu não quero levar uma surra do padre. Disse Bastian.
— Relaxa, irmãozinho. A gente leva algumas maçãs bem suculentas e seremos perdoados. Hammax propôs.
— Pode ser.
— Bem, se as duas donzelas já terminaram a conversa furada – então eu acredito que possamos prosseguir com a caçada. Roma gesticulava alguma coisa imprópria enquanto chamava os dois meninos.
O rastro de sangue seguia floresta adentro, e a partir daquele instante tudo era uma aventura, pois os três jamais foram tão longe. Apesar de conheceram os arredores dela por causa do orfanato, muitos pontos não tinham sido explorados de maneira adequada. O que conferia um ar de mistério. A madre sempre dizia que a floresta era infestada de gnomos comedores de crianças, o padre dizia que lá havia uma cabana em que demônios a usavam para cozinhar humanos. Qual seria a verdade por trás da misteriosa floresta?
As crianças caminharam por algumas horas. Não perceberam o tempo passar por causa das copas das árvores que deixavam a floresta quase impenetrável pela luz, por causa também da pouca iluminação, as correntes de ar sopravam e traziam considerável frieza. Hammax espirrava, Bastian cantarolava e Roma resmungava. O trio estava em apuros?
— Como eu pude ser tão tola a ponto de vir até aqui com vocês dois, idiotas.
— Fique calma, Roma. O Bastian conhece o caminho de volta, falou entre um espirro e outro.
— Não mesmo. Eu nunca vi árvores como estas daqui. Apontando para uma espécie de pinheiro retorcido.
— De qualquer forma, nós vamos perder nosso couro quando retornarmos ao orfanato. O padre Hannah vai acabar com a nossa raça.
— Não seja tão otimista, Roma. O máximo que acontecerá é que eles darão uma festa porque sumimos.
— Estúpido, ela rispidamente retrucou.
— Calem-se, os dois. Escutem. Sussurrou Bastian ao apontar para uma moita.
O rastro de sangue da lebre acabara exatamente ali. A sorte sorriu às crianças? A carne da presa não mostrava nenhum problema, com exceção de um pequeno detalhe, quase imperceptível se não fossem os olhos bem treinados de Roma, dois pequeníssimos furos no abdômen do animal. A menina não comentou nada com os outros garotos. Era hora de voltar.
Enquanto caminhavam, os espirros de Hammax aumentaram por causa das rajadas de vento. Junto delas, uma fina camada de neblina começara a brotar do chão. Olharam para as copas das árvores e perceberam que a luz do sol estava fraca. A sombra do medo tocou em seus pueris corações. Que bestas encontrariam naquela floresta se passassem a noite ali? As crianças correram.
Com o ar pesado para entrar. – Esperem, eu preciso de cinco minutos, a menina disse.
— Roma, nós não temos cinco minutos.
— Ah, Bastian. Qual é, cara! Eu preciso de cinco minutos. Arfando ela disse. – Olhe para o Hammax também.
— Hammax! Gritaram.
Não perceberam, mas o menino Hammax não os acompanhou pelos últimos quinze metros de carreira.
Hammax parou em um lugar que dava para uma clareira.
— Que lugar interessante. Falava enquanto olhava para o céu com uma das mãos protegendo seus olhos. – Aqui a luz do sol não diminuiu e há pássaros cantando perto daquela caverna.
— Bastian, seu irresponsável! Você deveria prestar mais atenção naquele menino.
— Eu? Eu não sou o pai dele.
— Não seja ridículo, ele o considera como um irmão mais velho, a menina argumentava.
A fala de Roma deixou Bastian profundamente preocupado. Realmente, desde que chegou ao orfanato, ainda muito criança, eles eram inseparáveis, compartilhavam de tudo, até mesmo os castigos.
— Vamos atrás dele, Roma. Meu irmão não está tão longe daqui.
— Certo.
Com tantas árvores e luz do sol, Hammax apanhou muitas frutas, enquanto pensava na fartura que Roma e Bastian estavam perdendo. Sua mente divagava, como se estivesse um sonho tranquilo. Ali ele esqueceu as humilhações sofridas no orfanato e dos seus medos. Satisfeito de comer maçãs e amoras, o menino dormiu.
— Ora, ora. É ele, Roma! Achei.
— Acorda, seu bastardo.
— Ei, vai com calma, menina.
— Vamos, levanta. Por sua causa vamos passar a noite aqui.
— Como é, olhem ao redor. A luz do sol ainda brilha, olhando para cima ele apontava.
— Você ingeriu algum cogumelo? Bastian balançava-o pelos ombros enquanto perguntava.
— Não, claro que não, crianças. Ele está sob meu encantamento. Afirmou uma voz tenebrosa de uma macieira velha. — Vocês dois são fortes, mas o pequeno aí estava com tanto terror no coração que sucumbiu ao meu feitiço.
— Quem é você? Perguntaram, com exceção de Hammax que ainda enxergava a luz do dia, apesar do céu pintado em tons de crepúsculo.
— Eu sou Or'kan e adoro comer carne humana, respondeu-lhes o monstro.
— Não ouse nos tocar, seu demônio!
— Demônio!? Não, não me ofenda assim. Aquelas criaturas não têm classe. Se encontrassem com um, provavelmente já estariam mortos.
Quem salvaria as indefesas crianças? Ali, no meio da floresta, será que elas seriam a refeição de um ser tão vil?
— Não seja estúpido Or'kan, não assuste as crianças, saia das sombras! Disse uma voz de dentro da caverna.
Uma sombra se projetou atrás de Hammax. Era Or'kan, o mercenário orc das terras de Ninrode.
Não conseguiam acreditar, da caverna saíra um homem vestido de toga carmesim de fios dourados. Era um sábio das longínquas terras de Gaia.
— O que fazem aqui, crianças?
— Nós estávamos caçando uma lebre para o jantar. Roma respondia às perguntas enquanto Bastian apenas fitava-os com certa desconfiança.
— Bem, vocês tiveram sorte, pois estamos caçando um pazuzu muito poderoso que tem atormentado algumas vilas. Vocês não o viram por acaso?
— Claro que não, responderam.
Enquanto conversavam, Hammax caminhou lentamente se afastando do grupo.
— Veja Or'kan, o menino está encantado pela magia do demônio.
— Finalmente pegamos aquela criatura cretina.
— Ei, ei, e o meu amigo? Interviu Bastian.
— Bem, nós precisamos dele mais um pouco. Assim poderemos pegar o pazuzu e depois apanhar nossa recompensa.
— Recompensa? E vamos ficar sem nada?
— Como assim criança? Vocês são órfãos. Não precisam de moedas de ouro para nada, afirmara Willen.
Roma e Bastian desafiavam o sábio com o olhar.
— Vamos, lá, Willen. Dê um pouco da recompensa às crianças.
— Seu orc burro, nós estamos há semanas atrás desse monstro.
— Willen, eu juro pela Grande Fonte que se você não recompensar as crianças, na próxima missão eu o jogarei num buraco de Minhocas-áries.
— Certo, vocês venceram. Ficaremos com setenta por cento da recompensa. Fechado?
— Meio a meio. Bastian retrucou.
— Seu pivete ganancioso, concordara Willen.
Or'kan apenas ria de toda aquela situação. – Eles pegaram você, grande mestre sábio, Willen. O orc lagrimava de tanto rir.
A noite chegou. Willen tratou de invocar uma fonte de luz e Or'kan estendeu algumas linhas que serviriam de alarme caso pazuzu aparecesse. Saíram da clareira. Avançaram floresta adentro. O frio tentava quebrar-lhes a motivação da caçada. O orc não o sentia por causa da pele naturalmente mais grossa que a dos humanos, o sábio era envolto numa misteriosa aura dourada, bem visível à noite, e as crianças rangiam os dentes, exceto Hammax que ainda seguia um caminho estranho graças ao encanto da besta.
— Vejam, é uma outra caverna! Apontou Bastian.
— Sim, ali está o esconderijo do monstro, olhem os restos de caças ao redor, falou o mercenário.
O caminho até a entrada estava cheio de carcaças. O odor de carne morta impregnava o ambiente com um cheiro insuportavelmente azedo.
— Tomem muito cuidado, a partir de agora estamos no território de um verdadeiro predador. Willen advertiu.
Hammax avançou sem muitos receios, seguido cautelosamente por Or'kan, que se escondera nas sombras.
Na frente da caverna, uma mulher alta, de aspecto leitoso, com serpentes no lugar do cabelo, apareceu. – O que faria naquele lugar a terceira comandante do exército de Leviatã, Medusa? Perguntou-se Willen enquanto observava escondido em uma moita junto aos órfãos.
— Pazuzu, esta não é a criança. Eu preciso que você seja mais competente. Aumente seu raio de ação, ela disse.
Atrás dela, uma criatura com o corpo de homem, rosto de leão e asas de morcego estava em postura de reverência, era um sargento das sombras, Pazuzu, o senhor das bestas.
— Sim, minha senhora, seu desejo será cumprido, ele disse. Sua voz ressoava como um rugido de um predador frente à morte.
Assim como aparecera, a comandante desapareceu. Fazendo Willen perceber que sua imagem era uma projeção etérea, uma vez que estivesse presente, Or’kan estaria em perigo porque ela perceberia sua presença nas sombras.
— Preciso me livrar desse infante. Ele será minha próxima refeição.
— Zéfiro, que voas pelos ares. Pai das fadas. Peço-lhe, abra os portões da ventania. Ventum Invictum! Conjurou Willen.
Um forte sopro de vento lançou Pazuzu a alguns metros. Or'kan apareceu das sombras por trás de uma carcaça de veado, lançando pequenas adagas com veneno paralisante.
— Insolentes! Ousam desafiar a besta Pazuzu? Sentirão minha ira raspar-lhes a carne, vociferava o monstro.
As crianças apenas observavam tudo aquilo, totalmente absortas pela demonstração de poder dos três que lutavam.
— Que coisa incrível. Vamos ajudá-los, Bastian.
— Você ficou louca, se um sopro daquele Willen nos acertar viramos pó em instantes.
— Não seja covarde! Falou energicamente a menina. – Veja, Willen foi acertado com um soco, e o orc não vai conseguir num mano a mano sozinho.
Longe dali, no Orfanato Saint Divine.
O padre Hannah percebeu o desaparecimento das três crianças, logo tratou de investigar se alguém sabia de alguma coisa. Com todas os órfãos enfileirados, o padre andava de um lado para o outro, balançando a justiça divina, uma palmatória com pequenas lascas de madeira sobressalente na ponta.
— Ingratidão é um pecado severo que deve ser punido sem maiores demoras. Perguntarei mais uma vez até que alguém diga. – Onde estão os três?
— Não sabemos senhor padre, diziam com vozes pesadas de medo.
— Bem, irmã Constance, pegue o pequeno Sebastian, falava o padre apontando para o órfão. –Acredito que a punição deva começar por ele.
As crianças esperavam que os três voltassem logo.
De volta à clareira.
— Or'kan, use a sua lâmina furtiva, isso nos dará algum tempo, falou Willen.
— Certo.
— Vamos, Bastian, eu posso acertar o monstro daqui.
— Roma, não seja convencida, retrucou o menino.
Apesar da advertência do amigo, a menina retesou seu arco e apontou. Os músculos do braço estavam firmes, os olhos não vacilaram. Sentiu o vento soprar. Naquele instante, tudo ficou mais lento. Era o momento, ela sabia, o sentimento do caçador havia aparecido. Roma deixou a flecha de ponta de pedra rasgar o ar.
A criatura soltou um rugido terrível. Seu olho esquerdo estava perfurado. – Quem ousa!? Rugia a besta, enquanto punha uma das garras sobre o ferimento. A besta olhou com a vista boa, viu a pequena arqueira, ela o acertara, ela seria sua primeira vítima.
— Corre, Roma, sai daí, Bastian gritou.
Pazuzu saltou em frente à menina, que paralisada pelo instinto assassino, não esboçou nenhuma reação. A pressão de ser morta naquele instante era demais. O monstro ergueu seus braços, ele a mataria com um golpe bruto.
— Luz Celeste que brilha em meio à escuridão, seja nossa força, divinum lumen! Willen invocou um raio de luz que queimou uma das asas de pazuzu.
— Ahhh! Lâminas do vingador, atacou Or’kan.
O monstro foi perfurado por uma ponta de adaga de âmbar envenenada. Se não fora pela resistência natural dos demônios a venenos, com certeza ele estaria morto.
— Pazuzu lembrará desta humilhação, voltarei e acabarei com todos, ameaçara o monstro enquanto encontrava os ares.
Ali, os caçadores e as crianças ficaram brevemente felizes, já que com a fuga do monstro eles ficariam sem recompensa.
— Foi tudo culpa sua, Willen! Disse o orc.
— Como é que é seu comedor de botas? Willen respondeu à provocação.
— Repete isso seu sabiozinho de uma figa.
— Não briguem. Vocês são parceiros de caçada, disse Bastian.
Assentido com a cabeça, Roma confirmava as palavras do amigo.
— Isso mesmo, numa caçada é importante que a equipe esteja em sintonia, ela comentou.
— Ah, claro. Você fala de sintonia e perde seu amigo no meio de uma floresta com um demônio louco a solta, Willen retrucou.
— Como é seu sabiozinho de uma figa!? Alterada ela respondeu.
— Repete isso sua trombadinha! O sábio desafiou.
Hammax apenas ria de tudo aquilo. Não lembrara de nada do que tinha acontecido, além de ter adormecido durante a luta contra Pazuzu. – Logo, logo, chegaremos ao orfanato, ele disse. – Acho que o padre gostará de recebê-los.
— Chegamos, espero que a madre e o padre estejam de bom humor, falou-lhes Bastian.
A primeira pessoa a avistar o trio, foi o irmão Caco. – Graças aos deuses estão todos bem! Erguendo as mãos em sinal de agradecimento o religioso falou. – Crianças, procurem o padre Hannah porque ele estava tão preocupado com o sumiço de vocês.
Os três perceberam a falta de sinceridade nas palavras do irmão, sabiam que algo ruim havia acontecido e eles eram os culpados.
— Bem, veja irmão! Disse Roma, este é Willen, um sábio de Gaia, e seu parceiro grandalhão é Or'kan, um orc mercenário de Ninrode, apresentava-os a Caco. – Eles são caçadores de demônios e estão caçando um pazuzu pelas redondezas, estávamos juntos.
Não é comum que orcs de Ninrode treinem artes furtivas por causa da constituição corporal que os deixa lentos em relação aos humanos. Or’kan é uma exceção, filho mestiço de seu clã, o mercenário tem a mãe orquisa e um pai humano. Um fazendeiro que se encantou pela enorme criatura de circunferências enormemente atraentes durante um saque à sua fazenda. Kru’llah caiu em uma das muitas armadilhas ao redor do depósito de cereal, com a perna quebrada, ela precisou aceitar a proposta de Zaruh, mas não sem antes tentar matá-lo.
A orquisa teve um vislumbre do destino ao olhar profundamente nos olhos de Zaruh, ao sentir o coração bondoso do humano, ela tirou suas mãos do pescoço do fazendeiro. Do fruto dessa relação nasceu Or’kan, que em orquês significa, o indesistível.
Considerado um malnascido, ele sofreu rejeição de seu clã, que o subestimou devido à miscigenação. Todavia, a rejeição de seu povo o fez percorrer por caminhos diferentes nas artes de batalha, uma vez que ele possuía a força de um orc e a flexibilidade mágica de um humano, capacidade que a humanidade possui originada no contato com a Grande Fonte.
Quando alcançou a idade da maturidade, algo em torno dos 16 anos humanos, ele decidiu deixar a fazenda e a rejeição de seu clã para trás. À época, Ninrode enfrentava um ataque sistemático de um exército simpatizante dos Filhos das Sombras. O rei de Ninrode havia contratado muitas equipes mercenárias para compor os batalhões do reino, que sofrera duras perdas por causa dos ataques sangrentos.
Alistando-se em uma tropa de machadeiros, Or’kan lutou bravamente pelo seu reino, no entanto, a batalha pendia para o lado inimigo. Cercado e ferido, com seu batalhão praticamente perdido em território hostil, o jovem orc morreria se não fosse pela malta Lua de Prata, perseguidores das sombras enviados pelo rei Cuxe.
Desse resgate inesperado, Or’kan teve contato, pela primeira vez, com a furtiva arte de caminhar nas sombras. Após o término da batalha, o orc procurou pelos mercenários que lhe salvaram a vida. Agradecido, ele pediu para entrar no grupo como aprendiz. O chefe Saahaim duvidou de sua capacidade física por causa dos largos ombros e braços que ele tinha, além da altura de 2,38 m.
O aprendiz de mercenário passou longos anos se especializando em golpes com armas de lâminas, estas por serem leves, ajudaram-no no treinamento de passo sombrio, uma habilidade furtiva básica. Depois de adquirir muitas outras habilidades, Or’kan foi liberado pelo seu chefe para realizar missões individuais ao receber o broche dos Lua de Prata, uma silhueta de uma lua minguante que serve de pouso a uma pequena coruja, animal que representa a arte de batalha dos mercenários, sempre atentos a tudo.
O mercenário decidiu usar seu broche junto a longa trança feita em seus longos cabelos feito crina de cavalo e negra como piche. Dias depois, Or’kan partia com Willen em busca do Pazuzu, missão que, em tese, duraria dias, mas agora ultrapassava um ano, um ano e cinco meses exatamente.
— Que história interessante pequenina, vá até o padre agora. Disse o irmão Caco. – Eu cuidarei dos convidados.
— Onde ele está? Bastian perguntou.
— Na sala de consagração divina, o religioso respondeu.
As crianças saíram do pátio para ir em direção a sala de oração de Hannah. Mas antes resolveram passar pelos dormitórios, já que havia pouco movimento dos órfãos.
Rina enxergou Hammax e correu chorando em sua direção. — Maninho, o que aconteceu? A garotinha perguntara.
— Calma, maninha. Onde estão as outras crianças?
— Ah, muitas delas foram adotadas hoje mais cedo. Somente algumas restaram, ela respondeu. – Mas, seu malvado, ontem nós apanhamos por causa de vocês. Sebastian está até agora deitado na cama com o bumbum roxo de tanta pancada.
— Padre desgraçado! Resmungaram Hammax e Roma. – Espero que aquele miserável pague pelos seus pecados, disse a menina.
— Adotados? Por quem? Bastian interpolou.
— Por uma bela senhora, bem alta e branca, vestida com um belo vestido rodado e um longo lenço cobrindo os cabelos. Ela dizia que os levaria para um lugar muito especial, falou-lhes Rina.
O trio estranhou aquela adoção.
Durante os anos que estiveram no orfanato, ninguém foi adotado. Os órfãos maiores de idade poderiam deixar o lugar ou permanecer, como fez a irmã-cozinheira.
— De qualquer forma, espero que eles estejam bem, pensou Bastian.
— Vamos, Bastian, chamou Roma e Hammax.
As crianças subiram as escadarias até a torre, atrás da biblioteca, onde ficava a sala de Hannah. O odor do lugar estava diferente, como se algo estivesse morto durante dias. Os infantes não ligaram muito, apenas subiram. A porta da sala estava entreaberta, e de dentro duas vozes conversavam, uma estava levemente alterada.
— Padre! Chamaram os três.
— Podem entrar, Hannah disse.
A segunda voz desapareceu quando eles fizeram o chamado.
— O irmão Caco disse que o senhor estava preocupado com a gente, disse Bastian à frente do grupo.
— Sim, meus pequeninos. Vejam bem, a madre Lígia chorou tanto o desaparecimento de vocês ontem à noite que, consternada, ela sozinha, coitada, saiu floresta adentro para procurá-los, falava o padre de maneira excessivamente melódica. – Ela retornou um pouco antes da madrugada começar a soprar.
Roma se questionava por que não a tinham visto andando pelo orfanato.
— A madre realmente fez isto por nós? Perguntou Hammax.
— Mas é claro, Hammax. O amor de Lígia é como de uma mãe por vocês, disse-lhes o padre.
— Perdoe-nos, padre. Nós estamos arrependidos, falou Bastian.
— Tudo bem, meus filhos.
— Onde está a madre? Acredito que ela esteja na cozinha, disse-lhes o padre acenando de maneira curta.
— Vamos até lá para pedir desculpas, disse Roma virando-se junto aos amigos.
Os três saíram da sala do Padre. A atitude de Hannah estava estranha, as crianças jamais o tinham visto agindo com tamanha gentileza e cordialidade nas palavras, geralmente falava-se apenas em pecado e punição quando encontravam com o padre e a madre.
Antes de chegar à porta da torre que dava acesso à biblioteca, os caçadores apareceram ofegantes. – Crianças, precisamos sair daqui agora, falou-lhes Or’kan.
— O que aconteceu? Perguntou Roma.
— Este lugar é um ninho de ghouls.
— O que é isso, Willen? Bastian indagou.
— São servos dos demônios, respondeu-lhe o sábio
— Não é possível, aqui é o orfanato, arguiu surpreso o menino.
— Era o orfanato. Todos lá foram estão querendo comer nossa carne, disse Or’kan.
— Pare de brincadeiras, Or'kan, sem dar crédito ao mercenário disse Hammax.
— Vocês não notaram nada diferente? Retrucou o orc.
— Sim... mais ou menos... só o padre, Hammax respondeu.
— Isso já e um prova. Humanos só mudam repentinamente de comportamento quando estão sobre algum encanto, Willen brevemente explicou.
— Mas e os outros órfãos? Bastian interpolou Willen.
— Acho que foram todos sequestrados. Os que ficaram são velhos para o ritual de conversão. Willen respondeu-lhe.
— Caramba! Como isso foi acontecer. Eles eram nossos amigos, Hammax falava consigo.
— Vamos salvá-los! Roma propôs.
— Menina, vamos salvar nossos pescoços primeiro, Or'kan disse-lhe.
Do alto da torre, um rugido foi ouvido. O grupo de crianças e os caçadores reconheceram quem era. Pazuzu estava lá.
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