Behel - Cronicas de outro mundo.
3 Scott - Escrevendo lembranças
Me seguravam pelos braços puxando a camisa de força, minha visão estava embaçada e eu não tinham força alguma para me manter em pé.
— Força garoto. – Falou um homem, o mesmo que me segurava do lado direito. Tentei olha-lo, alto forte usava roupas brancas e barba. Voltei a olhar para o chão, tudo rodava.
— Ele está muito pálido. – Falou um homem que me segurava pelo lado esquerdo.
— Dra. Rachel disse para apenas levarmos ele, não importa como o garoto estivesse.
— E se ele morrer?
— Relaxa cara, o garoto esta apenas com fome, não vai morrer – o homem parecia rir.
Comecei a escutar uma musica clássica, parecia Beethoven, junto ao som de pessoas conversando. Levanto a cabeça para olhar para o lado, estávamos passando por um refeitório muitas das pessoas no local tinham um olhar vazio, ou falavam sozinhas, algumas até usavam fraudas enquanto enfermeiros lhe entregavam comprimidos.
Meu estomago parecia ter um cão raivoso, os barulhos parecia como um elefante tendo um filho. Resumindo, eu estava com muita fome. Tanta fome que não aguentei e desmaiei.
Não sei quanto tempo se passou, mas quando acordei estava sentado em uma sala diferente, na minha frente estava uma mesa com um caderno e uma caneta, um copo de água e um abajur.
Dra. Rachel estava no canto da sala no telefone falando com alguém
“Quero os dois vivos... Não... Isso tragam o ursinho também... Sem erros já sabem quais são as consequências, não me interessa se eles tem ‘Deuses’ ao lado deles... Não treinei vocês dois a toa... Os dois virão atras dos que estão aqui... Sabem o plano”
Ela reparou que eu havia acordado e desligou o telefone sorrindo para mim.
— Scott querido, acordou finalmente. – ela se aproximou da mesa.
Eu não disse nada, minha boca estava seca, e a fome estava literalmente me matando.
— Está com fome certo?
Sorri para ela quase caindo da cadeira.
Dra. Rachel abriu uma gaveta do lado em que ela estava e pegou um prato de arroz, feijão batata frita e bife pra mim. Juro por todos os deuses que ao ver aquele prato fez com que eu sentisse ainda mais fome, e meu estomago se revirava.
— Pode comer querido, apenas coma devagar, pois pode lhe fazer mal.
Eu não estava escutando o que ela estava falando, estava comendo aquilo como se minha vida dependesse disso. Eram garfadas cheias de comida, de vez em quando um gole de agua, quando engasgava.
— Melhor? – perguntou ela pegando o prato e o copo e jogando dentro da gaveta.
— Muito melhor. – estava com um sorriso besta no rosto.
— Agora já pode me contar... O que lembra?
— O que eu lembro? Sobre?
— Tudo.
— Defina tudo.
— Sua vida, toda a sua vida. Desde quando era criança. – dessa vez por incrível que pareça, Dra. Rachel não estava com sua prancheta, e a sala não parecia conter câmeras, e eu não estava amarrado em um camisa de força, o que era um alivio para meus braços, pois já estava dando câimbras.
— Bom doutora. Não lembro de nada, que dizer... Quase nada o que lembro é bem pouco, pouco mesmo.
— Vamos fazer assim.... Quero que você escreva. – Ela empurrou o caderno que estava na mesa para minha direção, junto com a caneta. – É um técnica de recuperação de memória que estou desenvolvendo. No fundo seu subconsciente você se lembra de tudo. Então quero que escreva neste caderno todas as suas lembranças, e ao decorrer seu subconsciente irá passar a escrever por você. Será como uma história.
Segurei a caneta e olhei o caderno.
— Isso funciona mesmo? Digo tudo que eu escrever será minhas lembranças? – Eu estava desconfiado, mas quem não estaria? Alguém fala que se você escrever o que você lembra, o resto será praticamente seu subconsciente escrevendo... É como se você escrevesse uma história fictícia colocando alguns traços seus. Não fazia sentido para mim.
— Será como uma auto bibliografia, ou quase isso. Imagine um personagem em sua cabeça. Esse personagem é exatamente igual a você e você tem que escrever uma história para ele. Apenas faça isso, e o resto fluirá.
— Acho que entendi... – olhava para o caderno pensando em como começar.
— Ótimo, agora poderá voltar para seu quarto, colocamos algumas coisas lá para você, agora tem a total liberdade para sair de seu quarto a vontade, e conhecer a clínica. Só preciso que escreva todos os dias a hora que quiser. – Dra. Rachel se levantou e abriu a porta que estava atrás de mim.
Cheguei em meu quarto e abri a porta, agora havia uma cama, uma mesa em um canto, com lápis de cor, giz de cera, papel e outras coisas. Mas todos os moveis, roupas de cama paredes eram tudo perfeitamente brancos.
Me sentei naquela cadeira branca e coloquei o caderno em cima da mesa, abri e olhei para a página e como ela disse... Fluiu.
—-------------------- CADERNO SCOTT ---------------------
Não diria que isso é uma lembrança boa, mas é algo que eu realmente não queria ter esquecido por nenhum momento, por mais que doa lembrar, é uma lembrança minha.
Não lembro a data exata, mas eu estava com uns seis, sete anos de idade. Foi neste exato dia que parei de gostar de aniversários. Na maioria dos anos eu nunca fazia nada no meu aniversário, minha mãe sempre fazia um bolo para mim, ficávamos apenas eu e ela em casa. Uma casa pequena onde morava só nós.
Na manhã daquele dia acordei com um café da manhã na cama, mamãe me dei um beijo na testa e sorriu para mim. “Bom dia meu amor”.
Esqueci de avisar, Ela não era minha mãe de verdade... Camila era minha... acho que tia, ela sempre falava que minha mãe e meu pai havia falecido quando eu estava com dois anos.
— Dormiu bem amor? – perguntou ela se sentando ao meu lado.
— Sim. – Sorrir – Muito bem, tive aquele sonho de novo, mas dessa vez foi diferente mamãe.
— Diferente como amor? – Ela olhava e sorria com os olhos para mim, o sorriso mais lindo de todo o universo.
— Dessa vez, aquele tigre grandão que sempre aparece nos meus sonhos estava sentado ao meu lado olhando para um espelho, e nesse espelho eu via uma garotinha e um garotinho como eu, sabe mamãe? Eles eram do meu tamanho, mas eles não estavam juntos, o garotinho estava em um lugar que fazia muito barulho como bombinha que a gente explode no natal sabe? E a garotinha estava em uma casa BEEEM grande, tudo era bonito lá mamãe. – sempre que falava demonstrava tudo com gestos de mãos. – Quem são eles mamãe?
— Não é nenhum amiguinho seu da escola meu amor? – Ela continuava sorrindo, passava sua mão em meu cabelo, ela era tão carinhosa.
— Não mamãe, na minha escola não tem pessoas como eles... E eu não gosto das pessoas da minha escola.
Depois de tomar o café da manhã, mamãe mandou eu tomar um banho porque iriamos sair.
— Mamãe terminou de escrever seu livro novo? – Perguntei.
— Não, mas hoje anoite eu termino, falta apenas algumas coisas.
— Mamãe eu tenho certeza que com esse seu novo livro a senhora vai ganhar MUUUITO dinheiro.
Ela sorriu e me pegou no colo. – Espero que sim amor. Vamos?
Entramos no carro e fomos pra uma praça cheia de brinquedos perto de casa, passamos algumas horas ali.
— Quer ir no McDonald’s? – perguntou se levantando do banco.
— Sim, claro que sim – Gritei e sorri.
Então fomos ao McDonald’s, comemos e conversamos um pouco, até aquele momento estava sendo o melhor aniversario que eu já havia tido.
— Tenho um presente para você. Sei como você queria muito uma bateria e como você gosta dessas coisas, mas eu não tenho muito dinheiro você sabe, não sabe?
— Sim, sei. – Sorri para ela.
— Então eu comprei isso aqui para você não é grande coisa, mas... – Ela tirou duas baquetas da bolsa marrons com uma listra azul em casa.
— EU AMEI – Gritei pegando as baquetas e sorrindo, pulei e abracei ela subindo na mesa. – Eu te amo mamãe, hoje é o melhor dia da minha vida.
Ela sorriu e me deu um beijo.
— Vamos para casa já esta tarde.
No carro eu fui na frente com ela, coloquei o cinto de segurança e fiquei brincando com as baquetas, peguei a chave de casa que estava no porta luvas e escrevi as nossas iniciais. ‘S’ de Scott e ‘C’ de Camila.
— Gostou mesmo do presente amor? – Perguntou ela olhando para mim, desviando a atenção do transito.
— Amei mamãe. – Respondi.
— Que bom que gostou. – Olhei para ela e vi um clarão, um barulho muito alto e então tudo girando. Gritei senti a minha testa batendo em algo e então o carro parou finalmente de girar. Perdi a consciência por alguns segundo e quando acordei estava de ponta cabeça.
— Scott? Scott? Filho? – Minha mãe falava.
Minha visão e audição voltaram aos poucos. Olhei para mamãe e ela estava de ponta cabeça assim como eu, presa ao cinto de segurança, sangue saía de sua boca e o volante estava prensando o seu peito.
— Me diz que está bem? Por... Por – ela tossiu e mais sangue saiu da sua boca.
— Estou com dor mamãe... Muita dor na cabeça.
Ela fechou os olhos e disse algo que não entendi, lagrimas escorreram de seus olhos. – Kam cuide dele, proteja ele. – Ela disse. – Scott, você... você. – Ela tossiu mais – Eu te amo.
Não estava prestando muita atenção, tudo estava ficando escuro de novo.
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