Begin Again
1 Capítulo 1
Notas iniciais
“I've been spending the last eight months
Thinking all love ever does
Is break and burn, and end”
Chequei satisfeita a minha imagem no espelho. Cabelos presos em um coque solto, meu batom favorito nos lábios, um vestido apropriado para o calor atípico que castigava a cidade. Nada parecia fora do normal até meus olhos se prenderam na sandália de salto que namorei por meses até ter coragem de comprar.
“Você sabe que é alta demais pra usar essas porcarias de salto!”
A voz ecoou grave em minha mente, acompanhada do arrepio que me perseguia sempre que alguma memória intrometida resolvia dar as caras. Eu teria desistido de usar aqueles sapatos que eu adorava para evitar uma briga. Ele não gostava que eu usasse salto “mulheres tem que ser pequenas e delicadas” era o que sempre dizia, mascarando a verdade de que ele só queria ser o mais alto ali, eu não podia encará-lo olho no olho.
Respirei fundo, deixando de dar atenção para as feridas, ele não gostava que eu usasse saltos altos, mas eu adorava. Ele que lidasse com suas inseguranças, de preferência sem causar nenhuma em mais ninguém.
Eu não tinha um caminho muito longo até o metrô, o qual me levaria ao restaurante que era meu destino, porém, instintivamente, minhas mãos procuraram dentro da bolsa por meus fones de ouvido. A música sempre me distraiu do que estava em volta, quase um porto seguro. Dessa vez eu não estava nervosa com nós no estômago por medo de algo, era um nervoso cheio de borboletas.
—Vamos com calma, Hermione, é só um encontro — a tentativa de me tranquilizar não foi das melhores, porém eu não tinha mais tempo para isso se não quisesse chegar atrasada.
Apertei o play em uma lista aleatória de músicas e segui rua à baixo. Um sorriso tímido enfeitou meus lábios ao ouvir uma letra que eu particularmente gostava.
“Não entendo como você gosta dessa música sem pé nem cabeça”
Cerrei os dentes, expulsando novamente aquela voz dos meus ouvidos, eu não queria mais aquela presença como um eco dentro de mim, mas tudo ainda parecia um corte aberto. Já havia começado a cicatrizar, mas eu ainda sentia quando esbarrava em alguma coisa. Um ponto sensível, mesmo que invisível aos outros.
Lá se ia quase um ano desde que eu havia me livrado do ex namorado que transformou a minha vida em um inferno, o mais difícil era fazer sumir o fantasma daquele relacionamento. Foi muito tempo com alguém que só me colocou para baixo e para longe de tudo e todos que eu amava para que, de uma hora para outra, eu viesse a acreditar novamente que amor existia. Não um amor tóxico que sufoca e prende, e sim um amor tranquilo e carinhoso.
A verdade é que eu não havia conseguido olhar com segundas intenções para nenhum homem por todo esse tempo, mas numa quarta feira comum, no café que eu sempre frequentava eu senti o beliscão do interesse de novo.
Eu tinha a cabeça enfiada no livro novo que trouxe da livraria naquela mesma tarde. Acabei dispensando meus alunos da última aula de termodinâmica já que todos terminaram a lista de exercício com rapidez. Eu adorava as turmas desse semestre, mas conseguia abstrair inteiramente de pensar neles enquanto a história policial me entretinha. O cheiro do meu chocolate quente era só o que me lembrava de bebericar de vez em quando, ou ainda de dar atenção para o muffin de limão que eu tinha na mesa, todo o resto do ambiente estava perdido para mim.
Era assim desde criança, uma boa narrativa me fazia esquecer o mundo. Eu vinha tanto àquele lugar que os funcionários já me conheciam por nome e vice-versa. Eles já estavam mais do que acostumados a saber como eu criava meu mundo particular e não me incomodavam, entretanto, uma voz ao longe desanuviou todo o cenário de uma Paris noturna que eu tinha em mente e me trouxe ao presente.
—Oi, moça, desculpa incomodar — levantei os olhos do papel e vi um ruivo encabulado sorrindo sem graça para mim.
Que sorriso bonito, pensei antes de me espantar com tal conclusão. Quando foi mesmo que eu passei de não querer olhar na direção de cara algum para achar um sorriso cativante?
—Oi, é… eu posso te ajudar com alguma coisa? — fiquei meio sem saber o que falar, não fazia muito sentido aquela pessoa que eu nem conhecia vir me abordar assim.
—Sabe o que é… eu pedi um lanche antes de reparar que tá tudo cheio aqui — ele apontou em volta e foi aí que eu percebi que realmente o lugar estava todo ocupado, eu nem tinha notado a mudança desde que eu cheguei — então eu queria te perguntar se essa cadeira tá ocupada.
Ele indicou o lugar à minha frente que realmente se encontrava sem uso. Imaginei que ele estava ali com alguém e não conseguiu uma cadeira para se sentar junto, claro que eu não negaria um favor desses.
—Não, está vazia, pode ficar com ela — arrisquei um sorriso tímido sem nem saber o porquê, já pronta para voltar para as novas pistas que o detetive do livro encontrara, porém, para minha surpresa, o estranho não levou a cadeira consigo, ele apenas a arrastou o suficiente para se sentar de frente para mim.
Aquilo me desconcertou inteiramente, mas não consegui falar nada, fiquei apenas olhando para ele, que não me deu nem tempo de pensar muito.
—Eu realmente não quero te incomodar, senhorita…
—Me chamo Hermione — respondi no automático, intrigada comigo mesma por não ter simplesmente fugido da situação.
—Eu sou o Ron — ele estendeu a mão, agora sorrindo com o rosto todo.
É, eu estava certa, ele tinha um sorriso lindo.
Levei minha mão até a dele, num cumprimento rápido e meu livro acabou se fechando.
—Putz, desculpa, espero que ainda lembre a página — ele coçou a cabeça voltando ao modo desconcertado.
—Eu sempre sei a página, não se preocupe.
—O meu lanche já deve estar chegando, não vou te importunar por tanto tempo, pode voltar a ler que eu me finjo de estátua, prometo — ele fez o sinal dos escoteiros com os dedos e eu mordi de leve o lábio para não rir, meu melhor amigo sempre fazia isso quando não tinha intenção nenhuma de cumprir a promessa — a não ser que você queira me contar do que se trata esse livro, porque eu nunca vi alguém tão concentrada em uma história na vida, fiquei curioso, confesso!
—Você quer saber a história? — perguntei admirada.
—Claro!
No mesmo instante eu fui transportada para meses antes quando sempre que eu estava empolgada com algum livro só ouvia que aquilo era só um monte de baboseira inventada que não serviam para nada. Mas aquele moço, ou melhor, Ron, tinha os grandes olhos azuis fixados em mim, aguardando ansiosamente para que eu lhe contasse do que se tratava minha leitura.
Eu sabia que existiam homens que gostava de ler ou que eram, no mínimo, gentis, eu só não esperava encontrar um assim do nada. Além do fato de que não confiava muito em meu próprio julgamento quando o caso era o sexo opsoto, eu já havia errado feio demais.
—Tem certeza? Eu falo muito quando me empolgo… — expliquei, tentando poupá-lo de apenas estar sendo educado.
—Adoro pessoas empolgadas, são o melhor tipo — ele balançou as mãos, me encorajando a continuar — mas vamos, você está me matando de curiosidade aqui, qual é o gênero do livro?
—É um mistério policial… mas não é o primeiro da série.
—Ah, vou ganhar spoilers de presente se você me contar? — ele torceu o nariz, dando a entender que odiava tanto quanto eu ter os segredos de uma história adiantados.
—Depende…
—Do que?
—Se eu for legal com você ou não! — a cara de vítima dele me fez rir de verdade, quem era aquela Hermione que estava ali brincando com um estranho?
—Poxa, você parecia tão de boa, não acredito que dei o azar de pedir um lugar na mesa de uma spoiler maníaca! — ele levou as mãos ao rosto, num desespero teatral que levou nós dois ao riso juntos.
Não consegui deixar de notar como ele ria com o corpo todo, era contagiante a forma como seu rosto parecia o de uma criancinha na véspera de natal.
—Mas você vai ler os outros livros, por acaso?
—Como vou saber? Vai depender do seu poder de persuasão — ele deu de ombros e fomos interrompidos momentaneamente por Michele que veio trazer o pedido dele — eu te ofereço uma batatinha como pagamento!
Ele pegou uma batata frita de seu prato e estendeu para mim que, sem nem pensar muito, acabei aceitando. Nossos dedos se esbarraram quando fui pegar o alimento e dessa vez eu senti um arrepio gostoso. Outra coisa para me surpreender naquela tarde!
—Já que aceitou a batata, pode começar a contar!
Frente àquele sorriso travesso, eu decidi fazer o que me pedia e iniciei meu resumo. Foi exatamente como eu havia avisado, quando dei por mim, eu já estava há mais de 15 minutos tagarelando, principalmente por todas as perguntas que ele me fazia ao querer saber detalhes. Volta e meia ele me passava mais uma batatinha frita e a conversa foi fluindo.
A percepção de que eu estava em um papo empolgante com um rapaz que parecia tão entretido quanto eu ameaçou me banhar como um balde de gelo.
“Lá vem você sempre falando demais!”
Torci o nariz para a memória, me distraindo por um instante.
—O que foi? — ele perguntou preocupado.
—Nada, só mordi a bochecha — menti, não querendo dar explicações mais profundas.
—Odeio quando isso acontece, quer um gole? O frio alivia — ele empurrou seu copo de suco de laranja e eu percebi que fazia tempo que ninguém cuidava de mim.
Não que ele estivesse fazendo isso, ou que realmente eu precisasse que alguém cuidasse de mim, mas era uma sensação boa encontrar gentileza ao invés de ironias e repreensões.
—Obrigada — beberiquei o suco, fingindo um alívio para minha mordida imaginária.
—Mas, então… você não vai me dizer que o assassino é o cara do restaurante!
—Não vou dizer mesmo, você só vai saber se ler — dei de ombros, gostando de ver sua expressão de ultrajado.
—Você não faria isso comigo, que maldade! Eu quero saber — ele resmungou de um jeito que eu só podia chamar de adorável.
—Como você sabe? Acabou de me conhecer.
—Isso é verdade, mas eu sou ótimo em ler pessoas, por isso eu sei que não foi o cara do restaurante.
—Se você é tão bom assim em ler pessoas, é só “ler” o livro! — provoquei, gostando daquela interação.
—Você é má — ele bufou, antes de enfiar o último pedaço de seu sanduíche na boca — qual é o título mesmo, vou ter que comprar.
Descrevi as informações que ele precisaria para adquirir o livro e ele puxou o celular do bolso para anotar.
—Eu tenho memória de peixe, se eu não escrever, quando virar a esquina já esqueci — comentou, assim que terminava de gravar os dados — se for o cozinheiro eu vou ficar profundamente chateado.
—Posso saber por quê? — eu já estava fazendo perguntas também, aquele dia estava muito estranho.
—Minha irmã é chefe de cozinha! Por mais que ela já tenha se encontrado em situações de querer matar um cliente ou outro, ela é um amor, na medida do possível.
—Que legal, os almoços em família devem ser com alta qualidade então.
—Pode apostar, e ela adora usar a gente de cobaias, não que seja ruim.
Ele começou a me contar de várias ocasiões em que a sua família se juntou para apreciar algum prato novo inventado pela irmã. Não era necessário ser um gênio nem nada para ver o amor com o qual ele falava deles. Me veio uma sensação estranha por estar gostando daquilo, uma conversa descontraída com um ruivo bonito. Isso não estava em meus planos, de forma que fiquei indecisa entre a vontade de continuar e a de sair correndo.
Porém, a conversa fluia de uma coisa para a outra e, em momento algum, ele pareceu entediado ou fingindo querer estar ali sentado comigo. Depois que ele comeu, acabamos pedindo um pedaço de bolo para cada um o que, de minha parte, foi apenas uma desculpa para não ficar muito na cara que eu não queria ir embora.
—Esse lugar faz o melhores doces! — ele suspirou ao colocar um pedaço de seu bolo de chocolate na boca.
—Por isso que eu sempre venho aqui quando posso — concordei pescando o morango que estava na cobertura do meu doce.
—Então você é cliente fiel?
—Sim — assenti.
—Como nunca nos vimos então? Também sou frequentador assíduo, eu trabalho aqui perto.
—Sério? Por acaso, eu também — a Universidade onde eu lecionava ficava a duas quadras dali,
—Ora, ora — ele deu um sorriso travesso — como diz um escritor que eu gosto: os acasos são coincidência do destino.
—Você acredita em destino então? — aquele ruivo não era nem um pouco o que eu esperava ao olhá-lo pela primeira vez, ele sabia citações de livros, se interessava pelo que eu estava lendo, era bom de conversa e estava ali flertando comigo se eu ainda soubesse identificar os sinais.
—Não sei… — ele coçou o queixo, deixando uma sujeira de chocolate na pele — mas seria confortante pensar que devíamos estar aqui conversando, não acha? Um senso de que a situação está certa.
—Eu bem que gostaria mesmo de ter certeza das coisas, não sou tão boa nisso — vi que ele abriu a boca para falar alguma coisa, mas decidi logo mudar de assunto, antes que os olhos castanhos que me assombravam chegassem perto demais — você tem chocolate no canto da boca.
—Aqui? — ele passou a mão sem acertar o local.
—Não, mais pro lado — novamente sua tentativa foi falha.
—E agora?
—Ainda tá aí — respondi rindo de sua expressão frustrada.
—Se eu aparecer assim na aula, meus alunos nunca vão deixar passar, eles são uns amores, mas são uns demônios ao mesmo tempo.
—Você é professor? — as tais coincidências estavam começando a me assustar, ainda mais quando ele confirmou minha pergunta. — deixa eu te ajudar então, nós professores temos que nos manter unidos contra os olhos afiados de nossos pupilos.
Eu não pensei muito direito no que estava fazendo, apenas me inclinei para frente, passando o dedo pelo local exato onde a mancha de chocolate persistia. Acabei esbarrando em seus lábios e me distraí totalmente da situação. Senti os olhos dele descendo para a minha boca, ficamos presos numa hipnose estranha por alguns instantes, até que meu cérebro recobrou a consciência.
—Pronto — encostei novamente na cadeira, desviando o olhar dele.
—Obrigada, você não é tão má assim, só quando não conta finais de livros — ele brincou, talvez fosse imaginação minha, mas parecia que ele havia notado que eu fiquei sem graça e estavam tentando dissipar a tensão.
—Só quero preservar a sua experiência de leitura — me defendi.
—Tudo bem, você está certa no final das contas, mas me diz, você é professora de que?
—Nesse semestre, de termodinâmica aplicada, química geral e operações unitárias.
—Meu deus, não sei nem dizer o que são essas coisas — ele riu — a não ser a palavra química.
—Já é alguma coisa. Trabalho no curso de engenharia química — expliquei.
—Isso não seria na UCL, seria?
—Seria.
—Depois você zomba de mim por causa da coisa de destino, prazer, cara colega, sou do departamento de literatura — ele estendeu a mão em minha direção, e eu aceitei automaticamente, tentando digerir a informação de que trabalhávamos no mesmo local.
—Não é possível, você tá brincando comigo — apertei os olhos desconfiada.
—Juro por todos os bolos de chocolate que ainda vou comer na vida — ele vasculhou seu bolso e me apresentou sua carteirinha de funcionário — aí está a prova, só não liga pra foto horrorosa.
—Não tenho nenhum colega que goste de foto — concordei vendo que ele tinha saído com a cara esticada — acho que eles fazem de propósito.
—Deixa eu ver a sua!
—Nem pensar!
—Voltou a ser má — ele fez um bico, parecia uma criança mimada.
—Não tem nada de maldade, é preservação para os seus olhos.
—Vai ficar me devendo essa, Mione — ele resmungou e eu só percebi depois que ele tinha me chamado pelo meu apelido, pareceu tão natural que nem me ocorreu comentar — além do final do livro.
—Você pode muito bem ler o livro e… — eu parei por um instante para perceber que estava falando com uma pessoa da área — não acredito que eu fiquei meia hora aqui falando de um livro policial para um professor de literatura.
Eu estava super sem graça. Para mim ler clássicos ou livros contemporâneos era ler do mesmo jeito. Claro que eu entendia a importância de tudo que veio primeiro para sedimentar a nossa cultura, mas eu não suportava o discurso esnobe que só era leitor quem lia Tolstói e Shakespeare.
—E qual é o problema? Você acha que eu só leio clássicos chatos e empoeirados?
—Não é?
—Bom, eu leio esses também — ele admitiu — mas eu adoro literatura contemporânea, inclusive as comerciais.
—Não vai me dizer que já leu 50 tons de cinza e essas coisas assim.
—Olha… todo ser humano tem seu limite, né… cada um tem que conhecer os seus e o meu está em literatura hot. Isso aí eu deixo para o público alvo — respondeu rindo.
Não era meu estilo favorito de leitura também, mas achei legal a forma como ele não desdenhou ou debochou, muitas pessoas gostavam. Sempre achei que é melhor ir atrás do que se gosta, do que falar mal do gosto dos outros.
—E qual seria o público alvo? Mulheres? — agora eu estava cutucando intencionalmente, mas fiquei curiosa para saber o comportamento dele.
—Não, o público alvo são pessoas que gostam de romances hot — ele mostrou a língua, deixando claro que percebeu a minha pegadinha — acho muito besta esse tipo de pensamento que diz que tem coisas de mulher e coisas de homem. Eu adoro Jane Austen e sou homem. Vou deixar de ser porque releio orgulho e preconceito todo ano?
—Todo ano? — perguntei admirada, era um dos meus livros favoritos na sessão de “clássicos empoeirados”.
—Sim! É uma tradição de natal que tenho com a minha mãe — seu rosto assumiu um ar carinhoso — minha irmã e meu pai fogem, mas gostamos de ler nossas partes favoritas em voz alta.
—Deve ser bem divertido — fiquei imaginando a ceia de natal na mesa e a família escutando esse teatro — acho que meus pais nem sabem que é a Jane Austen, o negócio deles são números.
—Então vocês resolvem equações no natal?
—Claro que não! Não somos doidos.
—Devem ficar recitando a tabuada então — ele provocou.
—Como você descobriu? — fiz uma cara fingida de espanto e ele caiu na gargalhada, era um som tão gostoso de ouvir.
—Eu sabia que você era diferente desde que te vi aqui engolindo esse livro — ele apontou para o objeto esquecido no canto da mesa.
Eu era diferente? Isso queria dizer o que? Em menos segundos do que eu gostaria meu estômago se encheu de nós com memórias variadas vindo a tona.
“Por que você não pode ser mais igual as outras? Sempre com essas ideias malucas na cabeça!”
Eu não gostava de cozinhar, não sabia nem ligar um ferro de passar e trocava uma tarde no salão de beleza por uma ida ao museu facilmente. Meu fantasma reclamou por muito tempo que eu tinha que ser mais “tradicional”, mais “mulher”, que eu tinha que saber cuidar melhor dele e da nossa casa, como se eu não pudesse ser apenas o que eu gostaria de ser.
—Mas é um diferente bom, viu! — ele chacoalhou as mãos me tirando do meu transe, eu odiava ser tão transparente às vezes, com certeza ele tinha visto como a frase me afetou — só não é comum ver ninguém mais entretido numa leitura do que em um chocolate quente daqui, porque eles são ótimos.
—São mesmo — concordei, tentando disfarçar meu incômodo momentâneo.
Ele mudou de assunto e continuamos conversando na mesma pegada descontraída de antes até que ele olhou para o relógio com uma cara não muito satisfeita.
—Droga, eu tenho uma aula agora no começo da noite, não sei porque deixei o coordenador me convencer a pegar essa turma — resmungou.
—Pode ir, não vá se atrasar por mim — a última coisa que eu queria era incomodar seu trabalho, por mais que algo dentro de mim tenha ficado ligeiramente desapontada de ver o fim da nossa interação. Porém, era algo esperado, não dava para ficar ali para sempre, a vida real existia fora daquele café.
—Infelizmente vou ter que ir mesmo, mas eu adoraria tentar te convencer de novo a me contar o final daquele livro….
—Pode ser que você não consiga — debochei, mas percebi na hora que ele estava ensaiando um convite, um que provavelmente eu gostaria de aceitar.
—Mas também pode ser que eu consiga — o sorriso de canto de boca adicionava à presunção da fala — Você trabalha no sábado?
—Esse semestre não.
—Posso tentar minha sorte durante o jantar então? — os olhos azuis me fitavam com expectativa e eu sabia que não iria negar.
—Pode, mas não prometo nada — dei de ombros, ganhando uma risada em retorno.
—Me passa seu número pra gente combinar — ele puxou o celular do bolso e trocamos nossos números de telefone rapidamente — agora vou ter que ir mesmo, senão é capaz dos alunos acharem que eu fui sequestrado.
—Não queremos isso.
—Foi um prazer conhecê-la Hermione, fazia tempo que eu não passava horas tão boas conversando — ele levantou da cadeira e veio até o meu lado e se inclinou para me dar um beijo na bochecha — até sábado.
As palavras praticamente sussurradas em meu ouvido me causaram um arrepio gostoso que eu nem me lembrava mais. Vi seus cabelos ruivos sumindo pela porta do café e comecei a ter dúvidas sobre o que eu havia acabado de fazer.
Aceitei o convite de um completo estranho para nos vermos de novo!
O bichinho da insegurança me atormentava dizendo que eu apenas estava me colocando em perigo de novo. Um raio caia duas vezes no mesmo lugar? Nesse tipo de situação, eu não duvidava nada que caísse, porém a jovem Hermione ingênua que eu fui no passado não existia mais.
Acabei aprendendo algumas coisas de maneiras bem difíceis que eu não desejava para ninguém, uma delas era a reconhecer sinais de alerta. Claro que eu não estava me preocupando com isso já que eu tinha marcado apenas um jantar casual com uma pessoas aparentemente agradável, ninguém tinha sido pedido em casamento, entretanto, eu não conseguia deixar de tremer um pouco nas bases por ter sido algo inesperado.
Com toda sinceridade, eu havia fugido de convites na cara dura pelos últimos meses, talvez ficar imaginando o que me fez aceitar esse, fosse exigir demais de mim mesmo. Era melhor apenas aproveitar o que quer que fosse sair dali, nem que isso significasse apenas um belo prato de comida com uma boa conversa.
No mesmo dia ele me mandou uma mensagem perguntando o que eu gostava de comer. Pelo adiantado da hora, imaginei que ele estava saindo da aula daquela noite, mas como eu estava acordada acabei respondendo na hora o que não fez bem para as minhas olheiras do dia seguinte, pois o assunto foi pulando de uma coisa para a outra e quando dei por mim, já eram 3 da manhã.
Era tão gostoso conversar com alguém assim, cheio de naturalidade, descobrindo várias coisas em comum. Não foi diferente em nenhum dos dias que se seguiram até a data em que nos veríamos de novo. Eu estava meio sem prática para aquele tipo de coisa, mas algo dentro de mim me impulsionava a continuar, eu não podia condenar um começo por um fim anterior, já havia passado da hora de eu entender isso.
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