Beg For It
4 Shake It Out
Notas iniciais
Estava tudo tão quieto, sem um único ruído, só o agoniante som do nada. Abri os olhos e uma luz branca, muito forte, me cegou por alguns segundos, estava um pouco tonto.
O que teria acontecido? Onde estava? Cadê aquele que me salvou... Seria melhor refazer essa última pergunta para onde estava Carlos. As minhas lembranças ainda estavam embaralhadas, a última coisa que me lembro era do rosto de Carlos assustado e de meu corpo indo contra a porta da... Enfermaria!
Agora está começando a ficar claro, estava deitado em uma pequena maca na enfermaria da escola, eu me joguei de Carlos e desmaiei. E aqui estou, mas parecia que estava sozinho, quando ouço alguns passos. Bem não sei se acordo ou fico deitado, quer dizer, não estou afim... ou melhor não quero responder a nenhuma pergunta como a clássica e previsível “O que aconteceu com você?”, então depois de pensar, resolvo ficar deitado na maca esperando alguém, que já estava chegando, fico imóvel e com os ouvidos bem atentos e começo a ouvir:
– Nada de Ferimentos Sérios!
Era uma voz feminina, com certeza a Enfermeira da escola, de quem não me lembro o nome, ela continuou falando:
– É sério, umas três batidas na cabeça e o garoto desmaia?
O quê? É sério que ela está reclamando de mim, o garoto na maca que estava desacordado há algum tempo atrás! Mas para quem ela estava falando?
– Ele é um menino frágil, sempre foi.
Aquela voz era impossível de não reconhecer, tão doce e frágil, minha mãe... Minha Mãe Estava Aqui!
– Bem, seja como for, pelos exames, está tudo certo, só alguns roxos e galos que devem sumir com o tempo.
Isso é mesmo sério? Que eu não tenha ouvido isso. Essa escola não tem nenhum equipamento de saúde e fala que fez exames, pois eu posso, muito bem, estar com um traumatismo craniano. Tudo bem que sou meio exagerado, mas depois de tudo que ocorreu. Continuei a ouvir:
– Sra. Pelos machucados, acho que uns cinco dias em casa, mas pelas razões eu não sei. Aquele garoto está na diretoria, mas isso não é comigo.
– Ah sim, não se preocupe.
– Ele vai ficar bem Senhora. Uns pequenos roxos e galos não são nada...
A conversa para, dou uma espiada de leve e vejo a Enfermeira abraçando minha mãe.
– Bem, a Senhora pode acordar ele se quiser.
– Obrigada.
Minha mãe se aproxima de mim, e calmamente sussurra.
– Vamos Loggie, é a mãe, acorde, está na hora de ir.
Fico meio relutante em acordar, mas acho que seria melhor ir para casa mesmo. Merda, meu primeiro dia na escola e já estou assim, porcaria. Bem lentamente abro os olhos e também bem convincente sussurro para minha mãe:
– Onde... Onde estamos?
– Querido, que bom que acordou, estamos na Enfermaria!
– Com... Como assim?
Me fiz de desentendido para ter que escapar de perguntas agora, além do mais, ainda estava bastante fraco pelo que tinha ocorrido. Tento levantar e droga... meu corpo todo dói. Até parece que eram poucos roxos. Nem conseguia me mexer direito, também né, fui jogado que nem bola de paintball, ah...
– Quanto tempo estou aqui?
– Já vai fazer umas duas horinhas. – Responde a enfermeira. Bem, então pelas minhas contas, ainda estava tendo aulas, mas não iria precisar ficar, meio obvio.
Tento ficar de pé, coloco um pé na frente do outro e dou um pequeno impulso para frente. Quase cai, minha mãe e a enfermeira ficam assustadas, mas faço um sinal para elas não interferirem. Afinal, não queria sair de cadeira de rodas. Bem, continuo a tentar andar e depois de quase cair umas cinco vezes, consigo me estabilizar no chão, o que era ótimo.
Abro a porta da enfermaria, a mesma em que o idiota aqui se jogou. Minha mãe fala para eu esperar um pouco, ela queria resolver mais algumas coisas com a enfermeira, mas eu saio para ficar esperando lá fora. Sem querer ser ingrato com minha mãe, mas ela não deveria estar falando com o diretor ou algo assim?
Quer dizer, o filho dela foi praticamente espancado e ela está conversando com a enfermeira. Tudo bem que ainda não saberia o que dizer, se mentiria, se contaria sobre Bob, a trombada com Carlos... Carlos! Como pude me esquecer! Agora estava ficando tudo mais claro para mim.
Sim, eu trombei no Carlos e sim ele me ajudou a levantar e tentar sair de perto de Bob e Cia pelo que me parece. Mas, depois, pelo que minha memória está captando, vejo ele me empurrando para uma sala... Lembro dele me jogando contra a porta da sala de algum professor! Mas, o que foi aquilo? Bem pelo menos não estou com traumatismo craniano, meu cérebro estava voltando a funcionar, mesmo com uma dor de cabeça horrível. O que será que aconteceu com ele? Onde ele está? Tantas perguntas e todas sem uma resposta.
Bob... me lembro dessa pessoa horrível! Será que ele ainda quer me pegar? Mas... mas lembro que ele conseguiu me alcançar! Lembro de uns berros, gritos e risos histericamente assustadores, que, com certeza, era dele e seus amiguinhos patéticos. Mas, ele não me atacou e eu não sei o porquê.
Depois de algum tempo, minha mãe saiu da enfermaria, me levantei e fui com ela embora. Estava andando com certa dificuldade, mas todos os alunos daquela escola estavam em aula. Ainda bem, eu só queria sair desse lugar miserável e nunca mais voltar, algo que seria inútil, pois sei que alguma hora estaria de volta a esse lugar.
Continuamos andando, minha mãe não dizia uma palavra e eu não me arriscaria a falar com ela agora. Nossa volta para casa foi a mesma coisa, sem uma palavra dita pela minha mãe, devo dizer que isso era agonizante. Assim que chegamos de casa, minha mãe foi a primeira a sair do carro, ela não me esperou, o que estava acontecendo com ela? Estava normal quando acordei. Bem, sai do carro, bem devagar e entrei em casa, abri a porta e fui direto para o sofá da minha pequena casa e lá estava ela.
Minha mãe, em pé na minha frente, estava com um olhar de preocupação, mas também seria e ela, sem surtar ou nada do tipo, falou calmamente:
– Filho, o senhor tem que começar a explicar o que houve hoje na escola.
– Mãe eu...
– Pare! – Ela me cortou antes que pudesse dizer qualquer mentira, e ela ficou com a palavra.
– Filho, antes de inventar qualquer desculpa ou história mal contada, pare e pense. Não sou idiota.
– Mas Mãe, eu não ia...
– Não filho, eu sei que ia e não acho isso bom. Te criei a minha vida toda. Vamos pôr as cartas na mesa.
– Como assim mãe?
– Eu sei sobre você na escola, uma pessoa reclusa de tudo e todos. Fico tão feliz com suas notas, mas me entristece isso. Eu sei que você, meu filho, meu Logan, sofre. – Ela falava em um tom sério, mas triste. Como pode, ela me conhece tão bem assim? Como sabe o que acontece comigo na escola? Fico olhado para ela, sem dizer uma única palavra. E ela continua. – Você, tão parecido com seu pai na faculdade.
– É sério?
– Sim, mas isso não importa agora. Querido agora me responda, quem fez isso com você?
– Mãe, o que disseram para a senhora? Você não foi na diretoria?
– Não, não fui, pois quero uma resposta sua e agora. Querido levante-se e venha comigo. – Eu me levanto, ela me pega pela mão e me leva até a frente de um espelho no canto da sala, ela me coloca de frente para ele e ela está do meu lado, um pouco afastada – Filho, olhe para você, uma pessoa tão linda. Como pode deixar alguns pequenos obstáculos nessa sua vida que digo que será tão grande e gloriosa?
– Eu não sei.
– Sabe filho, toda vez que te levava aquele psicólogo, eu me sentia um monstro, que não consegui ajudar seu próprio filho. – Ela segura o choro.
– Mãe! Você é a melhor coisa nessa minha vida.
– Então me mostre, olhe só para você. Todo sujo e cheio de machucados, como pode deixar isso acontecer...
– Mas, eu não deixei...
– Filho, eu não sou uma tola! Pare de tentar mentir. Você não pode se deixar diminuir por outras pessoas, você é melhor que isso. Eu sei que é.
Eu me viro para ela, e começo a chorar, me jogo contra ela, me envolvo a ela a um longo abraço e sussurro:
– Mãe, eles não gostam de mim.
– Não, mas você tem que se gostar e acabar com isso.
– Eu não quero. Elas não gostam e eu não sei o porquê. Sou tão normal como você ou outra qualquer pessoa.
– Não filho, você é especial, por isso é diferente.
– Como assim mãe, sou mais um miserável nesse mundo.
– Não, vou dizer mais uma vez. Você é especial!
– Mas, por que mãe? – Ela me pega pela cabeça, passa sua mão em minha face, e calmamente diz:
– Filho, essa é sua missão agora. Descubra o porquê de ser tão especial para mim.
– Mas mãe, eu não entendo.
– Mas, vai. Tenho certeza. – Ela se vira, e sai da sala, forte como sempre. Mas antes ela se vira para mim novamente. – Não precisa me contar o que ouve hoje. Realmente não quero saber. Só me prometa que será mais forte que isso.
– Eu prometo. – Digo meio sem jeito, volto a me sentar no sofá da sala e penso no que ela disse para mim. E ainda o porquê dela não quer saber o que aconteceu. Certamente ela irá descobrir, eu a conheço muito bem para saber que ela não iria deixar isso passar. Eu realmente amo essa mulher. Me levanto e vou para o meu quarto, começo a pensar no que aconteceu hoje. Onde eu tinha me metido no meu primeiro dia de escola e principalmente em Carlos...
Fale com o autor