Before the Darkness
5 The Light That Breaks the Shadows

O ESTRONDO DO TROVÃO abafou o grito que eclodiu da traqueia gasta e ressequida, um eco que a sacolejou bruscamente para o terreno instável da consciência e vagou sem rumo pelo cômodo mergulhado em escuridão. A brisa fria, rugindo em um pranto feroz, se infiltrava taciturnamente pela janela que tremia devido a intensidade da tempestade que recaía sobre a cidade adormecida.
Seu cérebro desorientado e imbuído pelas reações químicas desencadeadas pelo susto que entorpeceu seu senso crítico, confundindo seu julgamento, avivou os instintos primitivos de sobrevivência e, devido a explosão súbita de terror, não identificou o cômodo na qual repousava há minutos, antes de ser empurrada de volta a realidade. Tateando o colchão, buscou suas roupas e seus acessórios para escapulir dali o mais depressa possível, assim não correria o risco de ser capturada. Contudo, com a adrenalina se dissolvendo paulatinamente pelo seu metabolismo acelerado, pôde vislumbrar um raio de lucidez catártica em meio a loucura, retrocedendo em seu acesso de pânico.
Se ajeitou na cama, agarrada ao lençol que exalava uma fragrância que complaceu seu olfato, embalando-a novamente em uma letargia sublime, uma dose balsâmica de paz. Embora quisesse ter um relacionamento meramente profissional com o Devil Hunter, se viu, ironicamente, aferrada aos pertences dele ciente de que aquilo somente arriscaria a base sólida de suas emoções. Ter alguém que estivesse zelando por ela revigorou uma pequena e ingênua esperança de que não teria que suportar o fardo sozinha, que agora outra pessoa estava do seu lado.
Humildemente, em sua contemplação devota, entrelaçou os dedos e agradeceu a deusa pelo fim da jornada que exigiu toda perseverança que residia em seu interior para findar. Suas preces foram atendidas — as noites pervígeis orando para sobreviver um dia a mais, pondo sua fé em vigor para renovar suas energias lhe renderam bons frutos. Seu espírito calejado não desistiu mesmo após tantas provações que a desumanizaram e o fôlego que lentamente se extinguia feito a chama bruxuleante de uma vela, sua persistência a conduziu ali para ter seu merecido descanso.
A solitária lágrimas escorreu para recordá-la de sua debilidade, não com a distorcida ideia de ser uma peça danificada que teria que consertar, e sim uma forma de externar sua humanidade, o lampejo que reluzia timidamente dentro dela. Abrandando a turbulência em seu coração angustiado, Diva se apegou ainda mais no desejo de dar uma direção a sua vida em honra aos familiares falecidos — dessa vez seria a regente de seu destino.
Uma batida suave, quase imperceptível se não fosse seus ouvidos treinados e sentidos aguçados, se fez presente, rompendo a monotonia sonora da chuva que se recusava a aplacar o fluxo. Diva expulsou a remanescente sonolência e se deslocou à porta, sem saber o que faria quanto a abordagem.
— Ei, não querendo interromper seu sono de beleza, mas está tudo bem? — o coração assustado da garota se derreteu com a legítima preocupação do caçador que se colocou a disposição sem que necessitasse gritar por ele. — Escutei um grito e vim verificar, pra garantir.
— Foi... Um pesadelo. — respondeu com pesar. — Lamento se o despertei.
Houve uma pausa prolongada por parte de Dante.
— Não me acordou. — a tranquilizou. — Qualquer problema estou lá embaixo.
— Obrigada. — escutou ele se afastar, porém, em um comportamento atípico, o parou. — Se importa... De ficar um tempo comigo pra conversar um pouco?
Dante avaliou a situação por um ângulo mais objetivo, se atentando ao contexto e a compleição de Diva que, pela visão que a luz ambiente proporcionou, transparecia esgotamento físico e mental. Esfregou a nuca e deu de ombros, certo de que não perderia nada oferecendo ajuda a mulher afligida. Andaram em um silêncio solene até o andar inferior, nenhuma das partes dispostas a romper a atmosfera de desencanto.
— Agradeço por concordar com esse pedido. — abraçou os joelhos contra o peito, ansiando se encolher em sua insignificância. — E por me permitir dormir em seu quarto. Fazia um bom tempo que não deitava em uma cama macia. — o riso forçado que emitiu a envergonhou de diferentes jeitos, dentre eles por evidenciar sua miséria.
— Madrugadas são ideais pra desabafos — brincou. — Não sou o mais indicado, mas farei o possível pra ajudar, então...
Diva pressionou o punho contra o peito.
Dante se acomodou no sofá em uma ponta e a jovem na outra, não querendo invadir seu espaço pessoal.
— Acho que ainda estou estressada pelo que aconteceu — fitou o outro lado da agência. — Agora que tenho um tempo para não me preocupar em ser caçada, tudo que foi se acumulando durante esse tempo quer sair. Ao menos pude cumprir o que prometi a Alexander e ter conseguido chegar aqui, mas não sei o que fazer depois. É como se o script que precisava seguir só determinasse um objetivo e nada além disso.
— Talvez ele estivesse pensando em algo mais que você ainda tem que descobrir. — o meio-demônio comentou disperso. — O fato dele ter pedido pra vir atrás de mim poderia ser uma parte e não tudo.
— Quem sabe... — meditou sobre as palavras do filho de Sparda com prudência. — Eu... Vou voltar pro quarto. Não quero ocupar demais seu tempo.
— Estou a disposição. — o sorriso encantador que ele lançou a sacudiu, incitando-a a retornar o mais veloz possível para não se distrair no que não deveria.
Fechou a porta do quarto e se encolheu na cama incapaz de cerrar as pálpebras, aguardando os pensamentos que fervilhavam se esvaecerem para conseguir repor o sono. Nunca tinha reparado em como o caçador era genuinamente atraente, não com uma beleza falsa que se via em revistas, algo consistente e digno de admiração — um aspecto másculo e carismático. Embora tivesse plenamente certa de que continuar com aquela linha de raciocínio pouco produtiva fosse inadequada, havia um lado seu que começou a enxergar nele um papel muito mais que de um protetor.
Se repreendeu por cogitar tal hipotética, Dante ainda seria seu guardião e deveria se contentar com essa relação unicamente baseada nesse propósito. Claro, ainda tinha que pôr na balança o que esse delírio emocional representava e as consequências de conservá-lo erroneamente. Recolhendo tais inoportunas ideias, se cobriu com o lençol para não desperdiçar as horas alimentando bobagens sem sentido.
Protegeu o rosto dos raios de sol que arruinaram seu pacífico descanso ao adentrar o cômodo sem ser convidado. Sem intenção de sair da zona de conforto e rolando pelo colchão para se entregar a mais algumas horas de sono, Diva resmungou e se sentou, atentando-se a janela, o cérebro ainda sob o efeito da letargia. Com a lentidão se dissolvendo em seu organismo e substituído pelo alívio, se arrumou munida de recursos limitados e sem roupas que coubessem adequadamente ao seu biótipo; os trajes emprestados comportavam um corpo mais curvilíneo e seios mais fartos que não possuía.
Caminhando para o fora, refez o curto percurso de ontem e deparou-se com Trish com numerosas sacolas de compras de lojas que nunca ouviu falar e podia afirmar com propriedade com o vasto conhecimento de Lyana em moda e aquisições e que lhe ensinou valiosas lições nesse ramo.
— Trouxe algumas roupas mais de acordo com seu gosto. — indicou as peças para que Diva pudesse averiguar por conta própria. — Eu vou te trazer mais se for necessário, qualquer coisa que precisar pode me avisar, sim? — colocou os óculos escuros e sorriu com amabilidade.
— Muito obrigada.
— E quanto isso tudo vai me custar? — Dante indagou certo de que iria contrair uma soma considerável de uma dívida de mais outra loja de roupas.
— Não seja rude, Dante. Não se pergunta o quanto uma mulher gastou. — a loira escarneceu, sombria.
— Eu não posso aceitar. Não quero que Dante tenha problemas com algo relacionado a mim. — se afastou automaticamente ao escutar tal possibilidade.
— Relaxem, paguei com meu dinheiro. — anuiu mostrando o recibo. — Não podia deixar que ficasse sem ter algo pra vestir e não acho que minhas roupas antigas sirvam tão bem em você. — avaliou o que a garota vestia, concluindo sua observação. Apesar de não ter ficado mal nela, ainda assim, não era do tamanho correto ou o modelo ideal. — Prove algumas pra ter certeza se gosta.
— Eu não...
— Eu insisto. Não se preocupe.
Diva assentiu e vasculhou as sacolas pegando o que usaria para que pudessem ver. Elegeu uma camisa de linho com mangas longas e uma saia creme que combinavam com delicadeza como se fizessem parte de um conjunto único, frisando no bom olho e gosto de Trish na escolha. Ergueu ligeiramente a larga saia e mostrou seu novo visual sob a vigília dos dois caçadores, a aprovação nas orbes claras da loira e uma pensativa nos de Dante.
— Algo errado, Dante?
— Não. — negou com a cabeça, sorrindo com ar descontraído. — Ficou muito bom.
— Essa é a melhor avaliação que pode dar? — Trish alfinetou. — Você pode fazer melhor do que isso.
— Não sou crítico de moda. — rebateu com deboche. — Minha opinião com esse assunto é essa, se ela se sente confortável é o único que importa.
Diva sorriu.
— Me sinto bem assim. — concluiu para findar o debate. — Novamente, muito obrigada.
— Não precisa agradecer. — pousou as mãos na fina cintura.
— Agora que o desfile chegou ao fim, venha Diva. Vou te levar pra comer, ou podemos ficar e comer o resto de pizza que tem na geladeira. — ofereceu em brincadeira.
— Não teria problema em comer pizza novamente.
— Você é das minhas. — sorriu vitorioso com o balançar de cabeça de Trish que riu com a situação.
Ao devorar a fatia, sugando o queijo requentado com gana, Diva observou a interação dos dois Devil Hunters, não os conhecia o suficiente para deduzir a natureza do relacionamento deles, contudo, tinha uma fotografia dela na mesa de Dante, o que denotava uma importância evocativa — uma amizade duradoura quem sabe. Esteve enfrentando, por meses a fio, uma tempestade que nunca cessava, se movendo contra o vento e se anestesiando, lentamente, para quando chegasse no seu último refúgio, tudo que aprendeu a sufocar, quisesse irromper furiosamente pelas fissuras de sua armadura desgastada.
Dante a aceitou sem pedir nada em troca e Trish se prontificou a cuidar de seus itens básicos, ambos a trataram com tanta hospitalidade — eles lhe humanizaram. Cônscia desse juízo, seus dedos finos se afrouxaram quase que derrubando o restante da fatia que comia há minutos, a arremessando novamente ao plano real com o ligeiro susto.
Para agradecer pelo amparo, uma ideia simples, porém assertiva, lhe ocorreu. Não possuía atributos financeiros que compensem seus gastos que Dante poderia contrair com sua tutelas, ainda assim, teria forma produtiva de tornar sua estádia o menos excruciante possível.
— Eu queria agradecer adequadamente tudo que vocês tem feito por mim — engoliu o primeiro despontar do nervosismo. — Não posso retribuir com dinheiro, então decidi que cuidaria das tarefas domésticas, claro, se não tiver problema.
Dante franziu o cenho.
— Não precisa-
— Não é uma ideia ruim. — Trish anunciou.
— Isso não é necessário, não estou cobrando serviços em troca. — Dante retrucou sem entender o ponto da discussão.
— Não seja tapado, Dante. Não está vendo que estará ferindo o orgulho dela? — Trish explicou, compreendendo o simbolismo daquele ato para a jovem. — Se é isso que ela quer fazer, não há mal algum em permitir que ela ajude no escritório. Esse lugar está aos pedaços e, como nós dois sabemos, você não vai limpar, alguém tem que colocar ordem.
Dante pareceu levar esse fatores citados em conta antes de definir uma resposta.
— Certo, certo. As duas venceram, façam como quiserem. — as duas gemas cerúleo a miraram com empatia. — Mas não se sinta na obrigação de realizar esses afazeres.
— Não se preocupe, é algo que quero mesmo fazer. — abriu um sorriso.
Diva desviou o olhar ao perceber o quão hipnotizada estava, sua razão a censurou pelo pequeno, entretanto, embaraçoso, gesto. Polida em suas atitudes devido a educação nobre que recebera, nunca achou que perderia a compostura por um segundo unicamente pela breve conversa e a bondade transmitida pelas duas safiras que se sustentavam com nenhum pudor nela — podendo sentir cada célula de seu corpo superaquecer e o rosto adquirir tons mais rosados.
— Nesse caso, fique a vontade, querida.
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